quarta-feira, 18 de abril de 2018

Jovem Mulher (Jeune Femme)

"Jovem Mulher" (2017) dirigido por Léonor Serraille é um filme que vai te puxando aos poucos para a vida da protagonista, de início egoísta, imatura e dependente para depois uma mulher que descobre-se em meio a desafios cotidianos, amadurece e empondera-se. A cena inicial nos revela uma mulher desesperada que grita e bate a cabeça numa porta, logo a vemos tagarelar para o médico sobre o rompimento do namoro enquanto ele faz o curativo e a questiona sobre seu psicológico, abandonada numa cidade que não tem intimidade é obrigada a se manter, encontrar um local para se abrigar, um trabalho e ainda cuidar do gato do ex-namorado. A história pode até enganar ao colocar uma mulher sem perspectivas que ficou anos dependente de um homem e que não há nada de interessante além de sua beleza, mas quando percebemos que a personagem quer ganhar a vida para si, conquistar as suas coisas e criar novas percepções nos arrebata, ela agarra a chance da mudança e segue adiante.
Paula (Laetitia Dosch) decidiu seguir seu companheiro até Paris, após longa ausência. No local, ela acaba sendo deixada por ele após 10 anos de relacionamento. Apesar de tudo, ela não é uma mulher melancólica e nostálgica. Ela decide permanecer nesta cidade desconhecida e ser engolida por ela, aproveitar tudo que for possível. Mas sua solidão e encontros fugazes acaba fazendo ela repensar as certezas que possuía.
Após muito tempo no México ao lado do namorado fotógrafo Joachim Deloche (Grégoire Monsaingeon), um homem mais velho que foi seu professor e ela sua musa, voltam para Paris, mas do nada ele não quer mais saber dela, tranca a porta e a abandona, sem ter para onde ir Paula vaga por Paris em busca de abrigo, sem muitas opções, como a amiga que a expulsa por não suportar seu jeito e a mãe da qual está brigada há anos, ela também não se esforça e acaba ficando à mercê das consequências. Para conseguir algumas coisas mente sobre sua identidade e oculta ou aumenta sobre sua condição social, financeira e etc. São momentos engraçados, mas que na realidade carregam uma profunda angústia em estar à deriva. Paris tem papel importante como cenário, a vemos circular muito nas linhas de metrô, ruas, bares, shopping, e sempre acompanhada pelo seu característico casaco cor de cenoura, Paula não passa despercebida, além de uma beleza arrebatadora, ruiva de olhos bicolor, sua personalidade espontânea ganha a atenção, com o tempo criamos empatia e desejamos que ela saia da bolha e expanda suas ideias por si mesma.

Durante suas andanças assume outra identidade ao ser parada por uma suposta antiga colega de escola, tenta se aproximar da mãe que a evita por guardar mágoas, encontra um emprego de babá onde dorme também, consegue um trabalho num quiosque de calcinhas num shopping, se aproxima do segurança Ousmane (Souleymane Seye Ndiaye), um imigrante africano formado em economia e que luta para viver com dignidade, este personagem que aos poucos incute sua perspectiva em Paula e lindamente formam um laço. Nesta jornada ela vai descobrindo do que realmente gosta e quem ela é, passa por situações em que o amadurecimento é inevitável, escolhas precisam ser tomadas sem qualquer influência, mesmo que para isso seja necessário bater a cabeça, às vezes até literalmente.

"Jovem Mulher" é um maravilhoso retrato da mulher que se desvincula da ilusória proteção masculina, do relacionamento dependente e reage ao mundo por si mesma, Paula de início fica doida atrás do ex e despreza o emprego no shopping, mas depois que o consegue percebe que ali é uma maneira de recomeçar a cultivar seus antigos sonhos, é imensamente aliviante seu desfecho, a desconstrução de Paula é incrível, um lindo trabalho da atriz Laetitia Dosch, que mescla delicadeza e inquietude, loucura e afetividade. Uma obra feminista fascinante que captura com estilo a busca pela independência e liberdade.  

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