terça-feira, 25 de julho de 2017

The Young Pope (Série)

"The Young Pope" (2016) marca a estreia na televisão do sublime cineasta Paolo Sorrentino (A Grande Beleza - 2013), a série escrita e dirigida por Sorrentino e coproduzida pela HBO/Sky/Canal+ conta a história de Lenny Belardo (Jude Law), o primeiro pontífice norte-americano a ser escolhido como líder da Igreja Católica, Pio XIII, um jovem papa charmoso e pouco convencional que pode parecer o resultado de uma estratégia de mídia, mas que está decidido a modificar radicalmente o Vaticano.
Não é exagero dizer que esta série é uma obra-prima, pois já em seu primeiro episódio percebe-se o esmero em todos os setores, seja direção, atuações, enredo, trilha sonora, enquadramentos, diálogos, absolutamente tudo é impecável. Muito se compara com "House of Cards", ela bebe da mesma fonte em questões de ambiguidades, jogos políticos e busca de poder, a reflexão é intensa e com certeza uma produção que sacia o espectador. 
Conhecemos Lenny Belardo, que acaba de ser consagrado Pio XIII, uma artimanha do clero para recuperar a Igreja Católica, Lenny é considerado maleável e sensível devido aos seus traumas, órfão foi criado pela irmã Mary (Diane Keaton), Lenny cultiva o sonho de poder encontrar os pais que o abandonaram no convento, no início vemos sua aparição na janela do Vaticano discursando para uma multidão sobre casamento gay, aborto, masturbação e uma série de assuntos considerados tabus e que a Igreja abomina, seria uma nova era para a Igreja, o acúmulo de seguidores, reacenderia a fé nas pessoas, o marketing seria positivo e, consequentemente, mais acumulações de riquezas. Mas, toda essa cena não passa de um sonho de Lenny que está apreensivo, percebemos que esse novo Papa de bonzinho não tem nada, ele trata muito mal as pessoas, já no seu primeiro café da manhã destrata uma senhora cozinheira dizendo que não aprecia relações amigáveis. Lenny vai demonstrando quem verdadeiramente é e assusta a todos, principalmente seu mentor Spencer (James Cromwell), que cai em depressão por ter sido passado para trás pelo secretário do Estado, o Cardeal Voiello (Silvio Orlando), já que ele seria eleito o novo Papa, Voiello é um exímio jogador, uma espécie de conselheiro, mas Lenny não aceita suas palavras e faz pedidos excêntricos, essa jogada nunca de fato é afirmada por Voiello, que segundo ele de repente os votos todos se dirigiram para Belardo, como um sopro do Espírito Santo. 
Pio XIII tem aversão ao espetáculo, ele se recusa a aparecer aos fiéis, a tirar fotos, a viajar, ele diz: "Não tenho imagem porque não sou ninguém. Só Cristo existe. Só Cristo. Eu não valho nada". Ele quer o mistério e não deixa de ser uma estratégia. Este personagem é contraditório, ambíguo, cínico, nos confunde e intriga. Em muitos momentos Lenny em tom de piada ou em confissões diz não acreditar em Deus, mas, claro, as suas ações exemplificam justamente o contrário, existe um compromisso em restabelecer a Igreja e nos moldes antigos.

"Eu amo a um Deus que nunca me abandona e que sempre me abandona."

A série tem momentos icônicos, já que a figura papal quebra muitas regras impostas, por exemplo, fumando o tempo todo, aliás, seus trejeitos são charmosos e cínicos, como abrir os braços ao rezar, fingir dormir enquanto falam com ele, além de pesquisar entre os cardeais perguntando-lhes sobre o chamado e a vocação. Os diálogos alimentam nossa reflexão sobre religião e tudo o que envolve o Vaticano. Mas, apesar do tom despudorado e crítico, a série se desenvolve de maneira sincera e sem julgamentos, até porque ao acompanhar os personagens vemos que eles defendem com afinco a Igreja, cada um a seu modo, entre manipulações, marketing, jogos políticos, etc. Muito se questiona sobre a verdadeira faceta de Pio XIII, o que realmente ele deseja? Por momentos sendo vulnerável, mimado e irritante na eterna busca pelos pais que o abandonaram, já em outros demonstra pulso firme e defende a Igreja e ordena que as pessoas busquem Deus na escuridão, em outros ainda se mostra perturbado e indeciso quanto a existência de Deus. Ao mesmo tempo que é considerado um santo, pois há indícios de pequenos milagres durante a trama, ele é um ser humano falho, com traumas passados e repleto de dúvidas. Jude Law interpreta Lenny/PioXIII com classe e imprime uma fina ironia, vê-se que está se deleitando na pele de um Papa narcisista e, que apesar de toda sua jovialidade é extremamente conservador.
"A liturgia não será mais envolvimento social, mas trabalho duro. E o pecado não será mais perdoado à vontade."
A solidão gerada pelo poder é muito evidenciada, uma figura tão suprema como o Papa que manda e desmanda, que sente em si algo de divino pode querer mais o quê? Por isso a dúvida, a escuridão; a contradição. 

"A questão, hoje em dia, não é se Deus existe. E sim, por que dependemos dele."

Todos os personagens são enigmáticos e exibem várias nuances, Sister Mary, Cardeal Voiello, Cardeal Dussolier (Scott Shepherd), que cresceu ao lado de Lenny no orfanato, o Cardeal Spencer, o grande mentor de Lenny, Cardeal Gutierrez (Javier Cámara) com seus olhos gentis, pueris e que sofre uma transformação por uma missão que Pio XIII designa a ele, investigar um caso de pedofilia. Todos personagens grandiosos e desenvolvidos. O elenco é maravilhoso e conta ainda com Cécile de France como a assessora de marketing que admira Pio XIII, apesar de toda a sua excentricidade, Ludivine Sagnier como Esther, que mantém uma relação próxima ao Papa, entre tantos outros que nos presenteiam com elegantes e inteligentes interpretações. O Papa expõe a hipocrisia do Vaticano, elimina tudo o que acha que não vale a pena e age com preconceito, mas em muitos momentos suas ações perturbam, pois não deixam de ser verdades. Por exemplo: "Que a bondade se não for acompanhada de imaginação corre o risco de ser mero exibicionismo."

"The Young Pope" foge das narrativas comuns, cada episódio impressiona de uma maneira e a história se desenrola lentamente e instiga a pensar o que poderia vir a seguir, a trilha sonora destoa completamente do universo retratado, mas funciona e dá um tom engraçado, como na cena em que o Papa se veste ao som de "Sexy and I Know It", de LMFAO. A abertura que não é usada em todos os episódios é excepcional, o Papa caminha feito um rock star ao som de "Watchtower", de Devlin por um corredor cheio de quadros sacros enquanto um cometa o acompanha, até que ao final ele olha para câmera e pisca, dá um sorriso de deboche e o cometa detona a estátua de cera de João Paulo II. Os enquadramentos, o como a câmera é conduzida, às vezes utilizando plano-sequência enche os olhos, sem dúvida, uma série com muitos simbolismos, mas sincera em sua proposta, é crítica, cínica, surreal, moderna e pomposa, uma das melhores produções televisivas atualmente. 

2 comentários:

  1. Estou curioso para conferir esta série.

    Gosto do estilo de Sorrentino. Considero "Youth" e "As Consequências do Amor" ótimos filmes e "A Grande Beleza" um filmaço.

    Ainda pretendo assistir "O Divo".

    Abraço

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    Respostas
    1. Série diferenciada, Sorrentino é incrível!! Vale muito a pena conferir!!

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