quarta-feira, 3 de maio de 2017

Os Olhos da Minha Mãe (The Eyes of My Mother)

"Os Olhos da Minha Mãe" (2016) dirigido pelo estreante Nicolas Pesce é um filme de horror que prima pelo visual, o preto e branco dá o diferencial e evidencia o peso que a trama carrega, o silêncio e a solidão ganham corpo e se tornam palpáveis. O clima melancólico é ao mesmo tempo incômodo e poético, o macabro é cru; a angústia, a maldade, a ausência vivida pela protagonista é tão pungente que causa repulsa e também fascínio. 
Francisca (Kika Magalhaes) filha de imigrantes portugueses vive isolada com a família em uma fazenda no interior dos EUA. Quando pequena sua mãe (Diana Agostini) a ensinou os segredos do seu antigo ofício, ela era cirurgiã oftalmologista em Portugal, a menina é curiosa e a vemos nessa aparente natural relação aprendendo, até que um dia um estranho (Will Brill) entra na casa e mata brutalmente sua mãe. A reação de Francisca é estranha, em seu rosto não demonstra qualquer indício de sentimento, mas age acorrentando o assassino em um galpão, o tratando como uma espécie de animal de estimação, uma companhia. O pai (Paul Nazak) também não esboça reação e continua com os seus afazeres. Francisca cresce apegada a seu reticente pai e com uma solidão pontiaguda que lhe conferiu uma personalidade desequilibrada e doente, ela assume uma postura curiosa perante o cotidiano e molda o seu próprio mundo.
Francisca é apática, amoral, bizarra, um trabalho maravilhoso de Kika Magalhaes que com a postura física revela o vazio que mora dentro de si, existe um desejo de vingança incutido nela, um desejo de ter alguém para si desde que a mãe foi morta. Esse episódio só fez aflorar mais ainda os desvios de sua mente, mas tudo contribuiu para isso, desde o lugar onde mora, o tipo de relação que teve com a mãe, a atmosfera ali é estranha e não se sabe bem o que acontece. Lentamente adentramos no mundo de Francisca, somos conduzidos pelo estreito corredor de sua mente perturbada e somos cúmplices de seus atos escabrosos, as cenas de tortura no celeiro são a manifestação de suas carências e ao mesmo as deficiências delas. O que dizer então do como se relaciona com o pai...

É um filme muito imagético e que tem na atuação de Kika Magalhaes a sua grande força, e por mais que o filme esteja revelando uma psicopata tem um quê de poesia, justamente pelo estilo, o P&B funciona para que uma nostalgia invada e os sentimentos se tornem difusos. Na infância com a mãe e seus diálogos em português há uma aura de saudade, uma dor ardida, que é a que Francisca carrega, ou seja, ela não é fria, mas vazia, ela tenta preencher a lacuna daquele episódio quando criança com a mãe, e para isso não há barreiras, está isenta de qualquer moralidade, a ânsia de completude é animalesca.

"Os Olhos da Minha Mãe" é grotesco, porém fascinante, possui elementos sugestivos e deixa muito a cargo de nossa imaginação, é um terror diferenciado que foca no labirinto escuro da mente da protagonista e na tranquilidade mórbida que a envolve. Destaque para a cena em que Francisca dança ao som do fado de Amália Rodrigues, que reflete todo o sofrimento da ausência. 

Um comentário:

  1. Deve ser muito estranho.

    Mais um filme que não conhecia.

    Abraço

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