sábado, 13 de maio de 2017

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

"Eu, Daniel Blake" (2016) dirigido por Ken Loach (A Parte dos Anjos - 2012) é um filme extremamente realista e dolorido, estamos na pele de Daniel, sabemos perfeitamente o quão tortuosa é esta jornada que enfrenta perante o Estado para obter sua dignidade, esta trama retrata com perfeição os males que esse sistema causa, ao invés de ajudar só acentua as dificuldades com toda a burocracia e desrespeito, certamente deixando quem necessita ainda mais doente e com sentimentos de incapacidade e inutilidade. Ken Loach é um diretor que prima por temas sociais e estilo naturalista ao mostrar pessoas comuns lidando com uma realidade cruel, neste o viés político é forte e tem como grande função o protesto.
Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la.
Daniel é carpinteiro e de repente se vê impossibilitado de trabalhar devido a sua saúde fragilizada, ele é viúvo, um homem sozinho que não tem muitas relações, agora ele depende do auxílio financeiro do Estado, porém a burocracia que se instala para obter esse direito é infindável e desoladora, além de que tudo deve ser feito via Internet, o que só agrava a situação, pois ele não entende nada e ninguém o auxilia, mas ainda confiante e com muito esforço vai numa lan house e preenche os formulários que ao final sempre dão algum erro, é apenas com a ajuda de seu vizinho, um imigrante que ganha uma mixaria em trabalhos pesados, que enfim dá um jeito, mas são requisições que precisam ser avaliadas e por aí vai, enquanto isso Daniel precisa de dinheiro para se manter, já que não tem nenhuma renda. Nada dá certo e ele é colocado num programa em que é compelido a procurar empregos que se encaixem na sua atual situação mesmo tendo a avaliação médica dizendo que não pode trabalhar.  

No meio deste processo todo Daniel defende Katie, que é barrada ao chegar alguns minutos atrasada e perder a vez, ela passa por uma situação ainda mais complicada, tendo que se virar para criar dois filhos e morando numa pequena casa caindo aos pedaços, e o pior, passando fome. Daniel e Katie desenvolvem uma relação de amizade e solidariedade, por muitas vezes o vemos ajudá-la a consertar a casa e cuidando de seus filhos enquanto arranja emprego, numa das cenas mais chocantes Katie vai a um banco de alimentos e desesperada e ao ponto de desmaiar abre um enlatado lá mesmo, quando toma consciência fica envergonhada e chora, um momento do filme dilacerante, são inúmeras cenas desconfortáveis e que deixam nosso coração pesado, mas em nenhum momento apela para o melodrama e isso se deve aos cortes precisos e sensatos.
O famoso comediante stand-up Dave Johns compõe um personagem próximo de nós, adentramos em sua intimidade, sofremos com as injustiças e estamos juntos dele quando decide agir e protestar. Uma atuação linda e emocionante! E o que dizer de Hayley Squires na pele de Katie, angustiante ver toda a sua situação, ao que tem que se submeter para sobreviver, a insignificância que ela sente é palpável.

"Eu, Daniel Blake" é um filme com um tema pertinente e que faz parte da realidade da grande maioria da população, a história se passa na Inglaterra, mas o problema é universal, o Estado burocratiza e culpabiliza as pessoas pobres, é insensível a suas necessidades, não existe respeito, bom senso, empatia e humanidade, seres humanos são convertidos em números, apenas registros em computadores, como Daniel diz: "Esta é uma grande farsa não é? Você senta aí com esse nome amigável no peito, e do outro lado, um homem doente, procurando por empregos que não existem, que nem daria para trabalhar, de qualquer forma. Perdendo o meu tempo, o tempo do empregador, o seu tempo... Só para me humilhar, fazer implorar. Ou será que o objetivo é tirar meu nome desses computadores? Não vou mais fazer isso. Para mim chega."
Simples, direto, cru, eficaz, contestador, todos somos Daniel Blake vivendo as injustiças que tiram nossa dignidade, valor e direitos. Um filme essencial!

Um comentário:

  1. Apesar de se passar no Reino Unido, é também um retrato do que acontece no nosso país diariamente. Aqui a burocracia é ainda pior.

    É um grande filme. Doloroso, triste e realista, que nos deixa com um sentimento de impotência.

    Abraço

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