quinta-feira, 16 de março de 2017

Depois da Tempestade (Umi Yori Mo Mada Fukaku)

"Depois da Tempestade" (2016) dirigido pelo mestre Hirokazu Koreeda (Nossa Irmã Mais Nova - 2015) é mais uma amostra da simplicidade, delicadeza e realismo do cineasta em colocar ênfase no cotidiano dos conflitos familiares. A história gira em torno das dificuldades de uma família que enfrenta morte, separação, vício, problemas financeiros, mas sem nunca perderem o bom humor e a esperança de reconciliação.
Ryota (Hiroshi Abe), no passado um autor premiado, desperdiça o dinheiro que faz como detetive particular em jogos de apostas e mal consegue pagar a pensão alimentícia ao filho. Após a morte de seu pai, vê sua mãe idosa (Kirin Kiki) e sua bela ex-mulher (Yoko Maki) seguindo em frente com suas vidas. Tentando se reconectar com a família, Ryota luta para retomar o controle de sua existência e para encontrar um lugar duradouro na vida do filho - até que uma noite de verão tempestuoso lhes oferece a oportunidade de realmente conectarem-se novamente.
A trama se passa em alguns poucos dias que precedem a chegada de um tufão à costa japonesa, Ryota aparece para visitar a mãe e tentar reconquistar a sua família, ele é um homem inteligente, mas, que aparentemente, herdado de seu pai o vício em jogos, o deixou afundado em dívidas, o pouco que ganha como detetive particular não garante nem a pensão do pequeno filho, o que o faz vê-lo pouco. Acompanhamos o dia a dia de mãe e filho e as várias tentativas de reconciliação com a rígida ex-mulher. Yoshiko encara a morte do marido com bom humor e abraça a última fase de sua vida, com o retorno do filho, ela consequentemente se lembra de seu marido que não era muito confiável. Ela é dona das cenas mais lindas e dos diálogos mais primorosos do longa, tem um sentido de praticidade e carrega uma desesperança bem-humorada. Atuação magistral de Kirin Kiki.
O desenvolvimento do filme é suave, não há melodramas apesar da tristeza, é a vida real retratada, com as suas dificuldades em lidar com o outro, nos obstáculos financeiros, no desenvolvimento como ser humano. Tudo é mostrado com total naturalidade, os diálogos passeiam por sutilezas, os gestos são contidos, mas os olhares são carregados de emoção. Yoshiko sente descontentamento pelas irresponsabilidades do filho, mas nunca deixa isso afetar o seu amor e a vontade de reconectar a família. Os valores importantes que Yoshiko preza fazem parte da tradição japonesa, mas que estão rompidos pela contemporaneidade e toda a influência que a globalização exerce sobre a identidade dos mais jovens. Yoshiko tem o hábito de observar a vida e diz muitas frases poéticas que na visão do filho são efeitos da velhice, então percebe-se o porquê não escreveu mais nada, Ryota não consegue mais prestar atenção nos detalhes, está tomado pelo desespero, pelo vício em jogos e por se aproximar de seu filho e reconquistar a sua ex-mulher.

A simplicidade de "Depois da Tempestade" é encantadora e causa um misto de melancolia e otimismo, isso é porque justamente retrata a vida, seus personagens são passíveis de erros, Ryota causa empatia por estar numa situação que qualquer um pode passar, seus sonhos estão quebrados, há um caos em seu interior, mas como o próprio título salienta, depois de uma tormenta sempre vem a calmaria para poder repensar e seguir em frente. 
A profundidade do filme está nas pequenas ações, em olhares e diálogos aqui ou acolá, Yoshiko é dona dos melhores, em uma das conversas que tem com o filho pergunta de que maneira prefere que ela morra, ou quando em frases soltas diz para ele enquanto mexe nas cinzas do incenso que precisa lidar com as pessoas enquanto vivas, são momentos cheios de significados e de uma intimidade delicada.

"Eu me pergunto porque os homens não conseguem amar o presente. Ou eles continuam perseguindo o que já perderam, ou continuam sonhando além do seu alcance."

"Depois da Tempestade" reflete o cotidiano das relações familiares com um humor sutil, tem uma trilha sonora interessante que dá um tom divertido, e brilhantes e sensíveis interpretações em que se destaca, especialmente, Kirin Kiki (Sabor da Vida - 2016).
Hirokazu Koreeda com simplicidade consegue incutir em seus filmes reflexões profundas acerca da vida, são obras realistas que expõem dramas cotidianos com melancolia e grande beleza, capazes de proporcionar ao espectador emoções e pensamentos engrandecedores.

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