quinta-feira, 30 de março de 2017

O Traidor (Gansin)

"O Traidor" (2015) dirigido por Min Kyu-Dong é um épico erótico coreano estonteante que passeia por temas interessantes e complexos, uma trama que traz política, loucura, prazer e vingança. 
No início do século XVI, a Coreia está sob o domínio do rei Yeonsan (Kim Kang-woo), um déspota psicótico e manipulado que por pura crueldade mata os responsáveis pela morte de sua mãe. Ele aponta seu velho amigo Im Soong-Jae (Ju Ji-Hun) e seu pai para a posição de detentor. Eles são, então, pedidos para reunir belas mulheres de todas as partes do país para o prazer de Yeonsan. Mulheres são levadas independentemente do seu estado civil ou classe social, o que provoca uma revolta generalizada. Dan-Hee (Lim Ji Yeon) é uma mulher bonita, mas ela é uma açougueira de classe mais baixa. Ela salva Im Soong-Jae do perigo e, em seguida, pede-lhe para levá-la para o palácio. Im Soong-Jae recusa por suas próprias razões pessoais. No entanto, Dan-Hee logo entra no palácio. Im Soong-Jae se torna conflituoso e o rei cobiça a bela Dan-Hee.
Segue-se uma série extenuante de testes e competições entre as milhares de concubinas, tudo para que a ganhadora seja a melhor amante, são sequências bizarras onde as escravas sexuais fortalecem suas vaginas, ensaiam posições, comem comidas exóticas, etc. Enquanto isso algumas articulações são planejadas no reino, duas meninas são favoritas, Dan-Hee, a selvagem açougueira que guarda alguns segredos e Seol Joong-Mae (Lee Yoo-young).
Im Soong-Jae se apaixona por Dan-Hee e então ele começa a pensar e muda toda a sua maneira de agir, mas a garota tem outros interesses, planeja e aguarda seu momento com paciência. O filme contém cenas deslumbrantes e quebra todos os tabus sexuais, a perversão do rei é impressionante, aliás, Kim Kang-woo o interpreta com todo o extremismo necessário, debochado, violento e ao mesmo tempo com um quê de melancolia. 
A luxúria e a perversidade estão muito presentes, mas o fato de ter um pano de fundo histórico acrescenta um maior peso ao filme, toda a questão política está envolvida, a corrupção em todos os níveis possíveis.

Esteticamente é deslumbrante, são quadros perfeitos, coloridos e atraentes, as cenas em que Dan-Hee dança com a espada são excepcionais. Várias tomadas ganham nossa atenção pelo visual, porém a narrativa por vezes tumultuada não deixa a desejar e cria situações cada vez mais insanas com cada personagem tendo seus próprios motivos.
"O Traidor" é extravagante, passeia por vários gêneros e cria-se um cenário caótico de prazer e loucura sem nenhum tipo de pudor, é depravado e terrível, além de carregar uma gama de questões políticas e morais. Filmaço!

terça-feira, 28 de março de 2017

Us (Vi)

"Us" (2013) é um drama sueco dirigido por Mani Maserrat Agah que retrata com maestria um claro exemplo de relacionamento abusivo, a anulação da mulher diante de um homem passivo-agressivo; expõe o como é tênue a linha que separa o amor da possessividade e todo o estrago psicológico que esse tipo de relação causa.  
Ida (Anna Astrom) é a nova professora da escola onde Krister (Gustaf Skarsgård) trabalha, logo que entra na sala de professores ela chama sua atenção, quando Ida tem dificuldade em controlar seus alunos adolescentes Krister entra em cena e coloca ordem, é o início de um tórrido romance.  Os dois embriagados de paixão decidem morar juntos mesmo sem se conhecerem muito bem, mas Krister dá segurança e amor para Ida, que aparentemente é mais frágil e insegura. Algumas situações embaraçosas começam a aparecer e depois que Ida sai com Linda (Rebecca Ferguson) e passa a noite bebendo, as coisas começam a desmoronar, porém Krister exibe uma faceta preocupada e diz que Linda não é o tipo de amizade certa para Ida, daí pra frente tudo piora e vira um inferno, ao mesmo tempo que são loucos de amor se sufocam nesta luta de poder um sobre o outro.
Krister é sério e mantém uma postura de protetor, Ida é linda, jovem e repleta de oportunidades, mas a sua insegurança acaba deixando que a pressão psicológica que ele faz a domine, a moça se torna completamente infantilizada, se torna confusa não sabendo seu lugar na relação. É o tempo todo Krister tendo ataques de ciúmes, dizendo que isso ou aquilo não serve para ela e Ida se deixando consumir pelo fato de amá-lo. É impressionante o tanto que se pede perdão entre eles. Angustiante observar a construção de um relacionamento abusivo, o elogio camuflado, as atitudes "amáveis" que acabam direcionando o outro a fazer escolhas conforme o desejo do parceiro, tudo em "prol" da relação, deixar de ver amigos porque não prestam, e daí para a anulação é apenas um passo. Ida se transforma conforme a manipulação psicológica aumenta, ela se anula e entra num processo de caos interno.
O roteiro é incrível e nos faz mergulhar nesta intensa relação, há cenas visualmente muito bonitas, as de sexo no início do longa, por exemplo. Os atores se entregam e passam toda a verossimilhança necessária, Gustaf Skarsgård (o Flóki, de Vikings), incorpora exatamente a personalidade de um passivo-agressivo, suas reações, olhares, comportamento e diálogos exprimem com perfeição. 

Anna Astrom dá vida a uma moça doce que tem tudo para ter um futuro promissor, machuca ver ela se encolhendo diante a tanto sofrimento impingido, ela vai aceitando tudo por causa do amor, mas chega um momento que não aguenta mais, não tem como suportar e então uma atitude precisa ser tomada.
"Us" é um longa que incomoda e traz um tema pertinente que demonstra com toda a eficácia o que é um relacionamento abusivo. A pessoa que está vivenciando esse tipo de relacionamento quase nunca percebe que está dentro de um, pois crê que está retribuindo amor cedendo as vontades do parceiro. Cria-se uma dependência extrema, por isso é tão difícil identificar e tão mais complicado sair. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Virgem Juramentada (Vergine Giurata)

"Virgem Juramentada" (2015) dirigido pela estreante Laura Bispuri traz à tona um tema interessante e curioso, estrelado magistralmente pela italiana Alba Rohrwacher (Corações Famintos - 2014), acompanhamos uma história calcada numa tradição albanesa que de acordo com as regras do Kanun - um código de conduta que foi passado verbalmente entre os clãs do norte da Albânia durante mais de cinco séculos - a personagem promete a virgindade eterna e se transforma num homem para garantir mais direitos e mais liberdade em sua aldeia. Só que anos mais tarde confusa com a sua sexualidade decide partir para Milão e se lançar às redescobertas de si mesma.
Hana é uma órfã que foi encontrada e adotada por uma família nas montanhas albanesas, ao crescer ela sente a rigidez desses códigos patriarcais, não se encaixa no contexto e deseja ter mais liberdade, então para poder caçar, beber, fumar, conversar em público, coisas consideradas masculinas toma a decisão de se tornar uma burnesha, diante de alguns homens mais velhos acontece o ritual, Hana corta seus cabelos, coloca suas vestes masculinas, recebe seu rifle e se batiza de Mark. Ela vive mais de 10 anos em plena solidão nas montanhas, rejeitando toda forma de amor. Mas algo ainda irá despertar sua vontade de mudar de vida.
Pode parecer absurdo, mas foi uma necessidade social, a localidade foi assolada pela guerra e muitas mulheres tiveram que tomar a frente para sobreviver e como elas não tinham direito algum recorriam ao Kanun, em outros casos para não serem obrigadas a se casarem escolhiam essa alternativa, que se trata de um conjunto de códigos determinados e que nada tem a ver com religião.  
A trama começa de fato quando Hana vai embora e se encontra com Lila (Flonja Kodheli), sua irmã, que fugiu para se casar com o homem que amava, o encontro se dá de maneira silenciosa e a protagonista vai ganhando profundidade à medida que a descobrimos, o desenvolvimento do filme ajuda neste ponto, pois se alterna entre presente e passado vagarosamente, colocando em evidência os contrastes entre o mundo moderno e o arcaico. A interpretação de Alba é melancólica e silenciosa, sua postura corporal arqueada traduz seu deslocamento, está magnífica em cena e tem o poder de nos fazer imergir em seu drama.

A chegada de Hana/Mark à casa da irmã não é bem vista por Jonida (Emily Ferratello), a filha adolescente, que é totalmente solta em dizer o que pensa e confrontar os pais, eles dizem que Mark é um primo distante, mas a garota começa a questionar e é ela que a ajuda nesta jornada de descobertas sexuais, diariamente Hana acompanha Jonida aos treinos de nado sincronizado, o que a possibilita observar as variedades de corpos e se permitir a se olhar e a desejar. São momentos importantes para a desconstrução da personagem, a menina dá acesso para que Hana se abra para si e para o mundo.

"- Uma vez me disseram que somos mais livres do que pensamos.
- Livres de quê?
- Livres de sermos forçadas a fazer algo."

O filme é contemplativo, rico em detalhes e é neles que contém as maiores belezas, a redescoberta da protagonista é lenta e com a alternância de passado e presente compreendemos totalmente essa confusão vivida por Hana.
"Virgem Juramentada" é um filme interessante que traz questionamentos sobre gêneros, desconstrução e construção de identidade e evidencia uma tradição que está morrendo, hoje em dia existem cerca de 40 burneshas na Albânia.

terça-feira, 21 de março de 2017

O Apartamento (Forushande)

"O Apartamento" (2016) dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (A Separação - 2011, O Passado - 2013) é um filme que aborda com sensibilidade e também firmeza aspectos culturais e sociais do Irã, mas sem deixar de imprimir um olhar universal. 
Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam para um novo apartamento no centro de Teerã, devido a trabalhos perigosos em um prédio vizinho. Mas, um incidente ligado ao anterior inquilino vai mudar drasticamente a vida do jovem casal.
Emad é professor de literatura e também ator de teatro, atualmente ensaia junto de sua esposa, Rana, a peça "A Morte do Caixeiro Viajante", de Arthur Miller. As cenas do filme se mesclam com as do teatro no desenrolar e forma uma interessante intertextualidade, o fato é que Rana e Emad precisam se mudar, pois o prédio em que moram está prestes a desabar - uma metáfora para o que está por vir - com ajuda de um amigo encontram um apartamento, mas a antiga moradora deixou todas as suas coisas lá e muitas perguntas, o casal arruma o local e se estabelece até que um dia Rana deixa a porta aberta e é atacada por um estranho enquanto tomava banho, os vizinhos a socorrem e daí para frente dilemas morais entram em pauta, Emad se preocupa em saber quem é que cometeu o crime e o filme ganha contornos de suspense e uma grande tensão se instaura. Rana está completamente traumatizada e não consegue falar sobre o ocorrido, perceba que em nenhum momento a palavra estupro é mencionada, além de que Emad decide fazer justiça à sua honra, ou seja, a mulher em pedaços e que sofre em silêncio e é o marido, que sem nem sequer saber da amplitude do ato criminoso cometido contra ela e que fortalece a decisão de não dar queixa, se impõe e quer vingança. Uma ação egoísta e insensível, uma complexidade de sentimentos invade a tela e são os olhares que dizem a maior parte das coisas. 
Taraneh e Shahab interpretam de maneira naturalista e fazem com que penetremos na história, sentimos a dor de Rana e ao longo dos acontecimentos um grande mal-estar toma conta. Apesar de colocar em evidência aspectos culturais e sociais fortes do Irã, principalmente, no que concerne à religião, é absolutamente universal, pois muitas mulheres sentem medo, vergonha e até culpa em denunciar, o machismo está entranhado em todas as culturas, e em países como o Irã é ainda pior e devastador, por isso obras como esta são essenciais para refletir e quebrar paradigmas antigos.

As reações de Emad diante ao acontecido muda o como Rana o enxergava, de repente, ela não encontra mais seu marido amoroso, mas um homem perdido, sem saber como agir com ela e apenas preocupado com o julgamento das pessoas. Por conta da cultura, por exemplo, denunciar à polícia seria uma vergonha, agora enfrentar e expor o agressor diante a sua família seria um ato honroso, mas dá-se um emaranhado de situações que geram decisões espinhosas e tensas. 
Asghar Farhadi é mestre em elaborar histórias de conflitos de relação, ele tem um olhar apurado e promove reflexões contundentes de modo sutil, é realista e por isso impressiona.

O filme é fluído e muito desconcertante, especialmente em seu arco final, os olhares e mais ainda o silêncio fazem parte desta instigante história.
"O Apartamento" é uma obra que evidencia o ruir de um relacionamento, sentimentos confusos, decisões e suas consequências; o machismo, a insensibilidade e as hipocrisias. Não é fácil ser mulher no Irã, ou em qualquer outro ponto do mundo, como exposto no filme a mulher que sofre a violência sempre fica em segundo plano e praticamente encurralada.

sábado, 18 de março de 2017

Tokyo Fiancée

"Tudo que a gente ama vira ficção."

"Tokyo Fiancée" (2014) dirigido por Stefan Liberski é uma adaptação do romance "Ni d'Ève ni d'Adam" de Amélie Nothomb, acompanhamos a trajetória de uma personagem encantada pelo Japão, cheia de expectativas ela ruma para o país e está decidida a se tornar parte de lá, tudo é muito mágico, mas conforme vive o seu dia a dia e por conta de aspectos culturais a realidade vem à tona, a viagem a torna mais madura e percebe que nem tudo é como criou em sua mente.
Amélie (Pauline Etienne) nasceu no Japão e aos cinco anos mudou-se para a Bélgica, suas lembranças são recheadas de fantasia e acredita que seu lugar é lá, sonhadora e apaixonada retorna à Tóquio a fim de se tornar uma verdadeira japonesa. Decide dar aulas de francês para ganhar algum dinheiro e consegue somente um aluno, Rinri (Taichi Inoue), com quem inicia um romance. Um conto encantador sobre amor, ternura e descobertas culturais.
Rinri é apaixonado pela França e até tem um grupo de meninos dedicados ao estudo da língua e cultura, Amélie descobre isso muito tempo depois, engraçado ela imaginar que Rinri faz parte da Yakuza, o choque cultural é bem grande, mas os jovens se apaixonam e levam a relação com muita naturalidade e espontaneidade, são momentos delicados e doces, Rinri apresenta alguns traços da cultura tanto tradicional, quanto moderna e até bizarras do Japão, aliás, é de encher os olhos todos os lugares por quais passam. Após a relação ganhar contornos de namoro tudo começa a se transformar na mente de Amélie, enquanto Rinri a apresenta para sua família, lhe presenteia com joias e a pede em casamento, ela apenas quer viver sem amarras e então cai a ficha de que nunca será de fato uma japonesa.
Os dois se apaixonam, são encantados um pela cultura do outro, portanto, usam isso para entender melhor a diversidade cultural, no caso de Rinri nem tanto, até porque ela é belga e não francesa, há uma estranha e engraçada situação em que Rinri prepara um jantar em que estão todos os seus amigos da sociedade secreta francófona e Amélie entende que está assumindo o papel de gueixa ali, onde precisa entreter enquanto todos comem, então, ela disserta sobre os tipos de cervejas belgas que existem.

Destaque para as cenas em que Rinri aprende francês com Amélie e sua obsessão em pedir desculpas a cada erro, realmente à medida que se tornam mais íntimos fica evidente a distância que há entre os mundos de cada um, interessantíssimo observar e poder viajar nesta questão, a ideia que ela tinha sobre o Japão e toda a magia acaba se desfazendo quando sozinha percorre um caminho tortuoso para subir ao Monte Fuji. Logo depois o Japão é assolado pelo terremoto que atingiu terrivelmente Fukushima, Rinri pede que ela vá embora, em um dos diálogos alguém diz que somente os japoneses têm que lidar com tal situação, é uma coisa entre eles, e assim sem ferir sentimentos Amélie parte. 

"Aprendi que eu precisava me tornar todas as pessoas que eu era e todas que ainda não havia encontrado. Aprendi que eu era tão grande quanto a vida."

"Tokyo Fiancée" é um filme agridoce que passeia por vários gêneros e ganha pela naturalidade com que o romance é desenvolvido, mostra as expectativas fantasiosas quebradas quando de fato se vive no país e a beleza da diversidade cultural, que é singelamente exposta.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Depois da Tempestade (Umi Yori Mo Mada Fukaku)

"Depois da Tempestade" (2016) dirigido pelo mestre Hirokazu Koreeda (Nossa Irmã Mais Nova - 2015) é mais uma amostra da simplicidade, delicadeza e realismo do cineasta em colocar ênfase no cotidiano dos conflitos familiares. A história gira em torno das dificuldades de uma família que enfrenta morte, separação, vício, problemas financeiros, mas sem nunca perderem o bom humor e a esperança de reconciliação.
Ryota (Hiroshi Abe), no passado um autor premiado, desperdiça o dinheiro que faz como detetive particular em jogos de apostas e mal consegue pagar a pensão alimentícia ao filho. Após a morte de seu pai, vê sua mãe idosa (Kirin Kiki) e sua bela ex-mulher (Yoko Maki) seguindo em frente com suas vidas. Tentando se reconectar com a família, Ryota luta para retomar o controle de sua existência e para encontrar um lugar duradouro na vida do filho - até que uma noite de verão tempestuoso lhes oferece a oportunidade de realmente conectarem-se novamente.
A trama se passa em alguns poucos dias que precedem a chegada de um tufão à costa japonesa, Ryota aparece para visitar a mãe e tentar reconquistar a sua família, ele é um homem inteligente, mas, que aparentemente, herdado de seu pai o vício em jogos, o deixou afundado em dívidas, o pouco que ganha como detetive particular não garante nem a pensão do pequeno filho, o que o faz vê-lo pouco. Acompanhamos o dia a dia de mãe e filho e as várias tentativas de reconciliação com a rígida ex-mulher. Yoshiko encara a morte do marido com bom humor e abraça a última fase de sua vida, com o retorno do filho, ela consequentemente se lembra de seu marido que não era muito confiável. Ela é dona das cenas mais lindas e dos diálogos mais primorosos do longa, tem um sentido de praticidade e carrega uma desesperança bem-humorada. Atuação magistral de Kirin Kiki.
O desenvolvimento do filme é suave, não há melodramas apesar da tristeza, é a vida real retratada, com as suas dificuldades em lidar com o outro, nos obstáculos financeiros, no desenvolvimento como ser humano. Tudo é mostrado com total naturalidade, os diálogos passeiam por sutilezas, os gestos são contidos, mas os olhares são carregados de emoção. Yoshiko sente descontentamento pelas irresponsabilidades do filho, mas nunca deixa isso afetar o seu amor e a vontade de reconectar a família. Os valores importantes que Yoshiko preza fazem parte da tradição japonesa, mas que estão rompidos pela contemporaneidade e toda a influência que a globalização exerce sobre a identidade dos mais jovens. Yoshiko tem o hábito de observar a vida e diz muitas frases poéticas que na visão do filho são efeitos da velhice, então percebe-se o porquê não escreveu mais nada, Ryota não consegue mais prestar atenção nos detalhes, está tomado pelo desespero, pelo vício em jogos e por se aproximar de seu filho e reconquistar a sua ex-mulher.

A simplicidade de "Depois da Tempestade" é encantadora e causa um misto de melancolia e otimismo, isso é porque justamente retrata a vida, seus personagens são passíveis de erros, Ryota causa empatia por estar numa situação que qualquer um pode passar, seus sonhos estão quebrados, há um caos em seu interior, mas como o próprio título salienta, depois de uma tormenta sempre vem a calmaria para poder repensar e seguir em frente. 
A profundidade do filme está nas pequenas ações, em olhares e diálogos aqui ou acolá, Yoshiko é dona dos melhores, em uma das conversas que tem com o filho pergunta de que maneira prefere que ela morra, ou quando em frases soltas diz para ele enquanto mexe nas cinzas do incenso que precisa lidar com as pessoas enquanto vivas, são momentos cheios de significados e de uma intimidade delicada.

"Eu me pergunto porque os homens não conseguem amar o presente. Ou eles continuam perseguindo o que já perderam, ou continuam sonhando além do seu alcance."

"Depois da Tempestade" reflete o cotidiano das relações familiares com um humor sutil, tem uma trilha sonora interessante que dá um tom divertido, e brilhantes e sensíveis interpretações em que se destaca, especialmente, Kirin Kiki (Sabor da Vida - 2016).
Hirokazu Koreeda com simplicidade consegue incutir em seus filmes reflexões profundas acerca da vida, são obras realistas que expõem dramas cotidianos com melancolia e grande beleza, capazes de proporcionar ao espectador emoções e pensamentos engrandecedores.

terça-feira, 14 de março de 2017

Cegos (Blind)

"Cegos" (2007) dirigido pela holandesa Tamar van den Dop (Supernova - 2014) é um filme belíssimo que disserta sobre um puro e intenso amor. Será mesmo que o amor verdadeiro é cego?
Em uma mansão, Ruben (Joren Seldeslachts), um jovem cego e arisco, vive com sua mãe (Katelijne Verbeke). Esperando ajudar o filho, ela contrata Marie (Halina Reijn), uma jovem albina, como leitora. Com paciência, a garota consegue acalmar Ruben, sem imaginar o que virá.
Ambientada no final do século XIX, o que predomina nesta obra é a atmosfera gélida e melancólica, se assemelha a uma narrativa literária e fascina exatamente por conter esses elementos poéticos. Aliás, os livros são uma constante na trama, já que Marie lê para Ruben, inicialmente vemos um garoto agressivo, fechado em seu quarto inferniza a vida de sua mãe, que sem alternativas encontra o anúncio de Marie. Ela chega na casa, uma mulher albina, reprimida e enigmática, sua feição é estranha e a sua pele repleta de cicatrizes devido um acidente na infância, acompanhamos partes de quando era criança em flashbacks, instantes dolorosos que fazem com que compreendamos o porquê de algumas de suas atitudes. O fato é que Marie consegue acalmar com sua bela voz Ruben, e inebriado de paixão quer tocá-la, mas como um animal arisco ela foge. Com o passar dos dias a convivência se estreita e ambos apaixonados vivem momentos únicos. Complexada, Marie evidentemente mente sobre sua imagem para o garoto, ele a imagina diferente e quando toca em suas mãos diz que há flores congeladas nelas, o despertar sexual acontece e a mãe inconsolada com a relação pede ajuda ao médico da família, que diz que com os avanços da medicina é possível que Ruben volte a enxergar, o que deixa Marie triste e a faz fugir. A alegria de poder ver as cores do mundo contrasta com a tristeza de ter perdido seu amor, daí uma gama de reflexões surgem sobre o significado do amor em sua essência. 

"Ele sentou-se duro e frio no salão vazio e gelado. Ela o reconheceu logo de cara e se jogou em seus braços. Lágrimas escorriam por seu rosto vermelho e atingiam seu peito. Seu coração de gelo derretido. Ela beijou seus olhos, ele chorou. Ela beijou suas mãos, suas bochechas, e ele chorou de novo. Lágrimas lavaram a lasca de seu olho. Ele a reconheceu." 

Ruben se apaixonou por Marie, foi a sua voz, seu cheiro (algo muito evidenciado), esses detalhes únicos que imprimem personalidade, interessante quando volta a enxergar e a encontra e a reconhece justamente pelo cheiro, novamente entre os livros, numa cena lindíssima pede para que ela volte para ele, mas Marie resiste e não crê que com a sua aparência o amor continuará sendo tão intenso e puro. A carta que ela lhe escreve diz sobre isso e o desfecho não poderia ser mais clássico, porém com vários elementos peculiares que dão um tom especial. 

O filme é permeado por cenas estonteantes e interpretações de tirar o fôlego, os diálogos são escassos, mas bem pontuados, a atmosfera de sentimentos dominam a tela, e a trilha sonora erudita compõe perfeitamente o cenário.
"Cegos" é sensorial, poético, melancólico, trágico e expõe que o amor pode ser contaminado pelo que se vê, mas esse sentimento arrebatador sempre será indecifrável, nunca saberemos o porquê amamos e o que de fato é o amor.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Baba Joon

"Baba Joon" (2015) dirigido por Yuval Delshad traz como tema o conflito de gerações, a carga de preencher a lacuna geracional. Em um ambiente patriarcal onde não há espaço para anseios próprios o pequeno Moti luta para ter a sua individualidade e a sua independência. "Baba Joon" é um termo de carinho, uma maneira de expressar respeito ao pai e um apelido aceitável entre todos os homens de uma família tradicional iraniana.
Yitzhak (Navid Negahban) se orgulha em manter a fazenda de perus que seu pai construiu quando a família se mudou do Irã para Israel. Com seu filho, Moti (Asher Avrahami), prestes a fazer treze anos, Yitzhak espera que o menino aprenda o ofício e, no fim, assuma o negócio. Porém, o verdadeiro interesse e habilidade de Moti é a mecânica, reconstruindo carros antigos e caminhões. O filho não esconde seus desejos para o pai, o que gera um crescente conflito, pois Yitzhak vê a rejeição como um insulto a todos os valores que ele preza.
É natural que o pai se preocupe com o futuro do filho em qualquer parte do mundo, mas quando a figura paterna é demasiadamente forte dentro do ambiente familiar e o desejo da profissão de ser passada adiante predomina, acaba se tornando um grande obstáculo para a independência e o conhecimento de si mesmo. No filme esse dilema é ampliado, pois a família é de imigrantes e trata-se de honrar as tradições persas, de se firmar perante a sua comunidade. Yitzhak teme seu pai, o homem que construiu a fazenda de perus com as próprias mãos, um trabalho que será passado adiante para Moti, que não disfarça o seu repúdio para tal, o seu negócio é a mecânica, ele tem um talento nato para consertar e construir - a cena inicial exemplifica - o que não é apreciado pelo pai.
Quando a família se mudou do Irã para Israel, Yitzhak foi forçado a continuar o trabalho de seu pai, um homem que tem como base de vida as leis de sua religião, como agente catalisador surge Darius (David Diaan), o irmão de Yitzhak, que diante do contexto da época preferiu fugir para os EUA, claramente vemos Yitzhak se sacrificar em prol da família, mas isso não lhe dá o direito de privar seu filho da escolha, como seu irmão diz, o mundo mudou. 

Não é fácil para Yitzhak, porém ele precisa enxergar que o caminho do filho somente ele pode traçar, nesse ambiente dominado pelas figuras masculinas, Sarah (Viss Elliot Safavide), a mãe de Moti, surge de vez em quando e diz para o marido não ser tão rude, compreender o filho e para lembrar que também teve essa idade e não forçá-lo ao trabalho na fazenda.
As cenas em que aparecem os perus impressionam, principalmente quando os personagens adentram o celeiro e todas as aves levantam a cabeça juntas, e também quando Yitzhak tenta ensinar Moti a cortar o bico, angustiante tanto por parecer judiar do animal, quanto pelo sofrimento do menino.

Outro ponto surpreendente é o local de filmagem, nos arredores do deserto de Negev, fascinante o estilo naturalista, o que ajuda a dar um tom sóbrio à história mesmo tendo uma forte carga dramática.
"Baba Joon" é um belo e emocionante filme que levanta questões importantes sobre o conflito de gerações, e mais que isso traz um olhar de esperança, de mudança e amor.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Party Girl

"Party Girl" (2014) dirigido pelo trio Claire Burger, Marie Amachoukeli e Samuel Theis é um interessante filme feito em família, um retrato quase autobiográfico, Samuel Theis resolveu colocar na tela a vida de sua própria mãe e toda a sua melancólica trajetória que ousa quebrar paradigmas para vivenciar quem de fato é.  
Angélique (Angélique Litzenburger), sessenta anos, trabalha em um bar noturno perto da fronteira franco-alemã, ela ainda gosta de festas e de homens, mas que, tendo-se tornado a pessoa mais velha do bar, sente que está próxima do fim. Repentinamente, aceita casar-se com Michel (Joseph Bour), um de seus clientes regulares. Angélique é mulher livre que escolheu uma vida à margem da boa sociedade, o filme mergulha no coração de uma França desconhecida com um realismo assumido. 
A figura de Angélique nos captura, observamos bem de perto o seu rosto borrado de maquiagem, seu cabelo despenteado, as suas rugas, uma mulher que dentro do efervescente contexto da noite poderia destoar, já que as suas companheiras são mais novas, mas existe um desejo imenso dentro de Angélique, uma gana de vida. Vendo que está cada vez mais solitária decide aceitar o pedido de casamento que um antigo cliente propõe, é uma esperança de ter um lar, refazer os laços com os filhos e uma companhia. Michel é um homem carinhoso, porém com o passar dos dias Angélique percebe que está deixando de ser ela mesma, a sua essência está sendo aprisionada com toda a história do casamento. Seus filhos - que interpretam a si mesmos - veem tudo isso como uma boa oportunidade, só que em nenhum instante exigem ou julgam. Angélique parece querer algum tipo de redenção quando decide mudar de vida, recupera a convivência com os filhos, inclusive com uma da qual em sua juventude se separou, sai com os amigos de Michel, mas trava diante ao sexo, não consegue justamente por descobrir não estar inteira na relação, não está apaixonada, a mulher libidinosa despareceu.
As interpretações são excelentes, naturais e espontâneas, Angélique se doa completamente, uma atuação sincera que nos chama para perto, ela compartilha suas dúvidas, seus receios, sua melancolia e sua sede por viver e ser quem é sem estigmas e rótulos, desafia todos os estereótipos que rodeiam as mulheres sexagenárias. Com certeza uma mulher corajosa que prefere viver sua essência a sucumbir a um roteiro. Ela é livre, porém, claro, a liberdade tem em si boas doses de dor e solidão.

A trilha sonora conversa muito com a trama e causa inúmeros sentimentos, a melancolia, principalmente. A cena em que toca "Still loving you", do Scorpions é linda e memorável, e sem dúvidas, a canção final que batiza o filme, "Party Girl" de Chinawoman, pseudônimo da cantora canadense Michelle Gurevich, resume tudo. Angélique tem um estilo de vida que leva de modo natural, é a sua arte. Ao chegar numa nova etapa da vida em que o medo da solidão na velhice surge, aceita o pedido de casamento de Michel, mas ela começa a pensar se essa escolha a fará feliz e o principal, se sentirá como ela mesma? Essas dúvidas observamos bem de perto e mergulhamos no mundo dessa protagonista tão honesta consigo mesma.

"Party Girl" é um excelente drama que flerta com o documental e que nos deixa intrigados por querer saber o que de fato é real e o que é ficção, além de surpreender por sua naturalidade e sinceridade na condução da narrativa coroada com a brilhante atuação de Angélique Litzenburger, que nos permite adentrar em seus dilemas e decisões. E, enfatizando novamente a canção "Party Girl", que a exemplifica perfeitamente: "Não importa o que você cria se você não tem diversão."

terça-feira, 7 de março de 2017

Micróbio & Gasolina (Microbe et Gasoil)

"Micróbio e Gasolina" (2015) dirigido por Michel Gondry (A Espuma dos Dias - 2013) é um filme simples e bonito que retrata a amizade entre dois garotos que não se encaixam nos padrões adolescentes, Daniel (Ange Dargent) por conta de seu tamanho recebeu o apelido de Micróbio, já Théo (Théophile Baquet) é chamado de Gasolina devido a sua paixão por tudo que é mecânico. Jovens e desajustados, os dois logo ficam amigos. A fim de fugir de seus problemas em casa, eles decidem construir um lar sobre rodas e seguir juntos para um acampamento onde Gasolina esteve quando era criança e que desde então tem papel fundamental em sua memória afetiva. No meio do caminho, a dupla também fará uma breve visita ao grande amor de Micróbio.
Os meninos criam um grande vínculo e compartilham os problemas familiares, os gostos em comum, as descobertas e colocam em prática as suas ideias, com a criatividade de Micróbio e os conhecimentos mecânicos de Gasolina constroem uma espécie de carro/casa e entram em ação com o plano de cruzar a França. Essa viagem proporcionará uma série de aventuras que fará com que os meninos criem responsabilidades e amadureçam.
É um longa imensamente agradável, pois traz a ingenuidade de personagens deslocados de maneira sutil e engraçada, em meio a problemas familiares e escolares eles se unem e atravessam essa fase da pré-adolescência com muita imaginação e ousadia. O grande destaque são os diálogos e a naturalidade dos personagens, Gasolina mesmo não sendo muito mais velho que Micróbio ocasionalmente é como se fosse um irmão mais velho lhe ensinando algumas artimanhas em relação à vida, talvez por ter uma família mais pobre e disfuncional tenha mais marcas do que Micróbio que sofre com uma mãe pegajosa e depressiva. Gasolina é o típico personagem que não deixa transparecer sua tristeza, ele está sempre com um sorriso no rosto, incentivando e ajudando na transformação do outro.
Há um quê de saudosismo na história e na maneira como se comportam não dando atenção para as tecnologias, na sede por aventuras, de colocar a mão na massa, no laço de amizade que querendo ou não acrescenta aprendizados importantes e que certamente ajuda a suportar fardos e complexos. O filme demonstra com muito amor que as amizades feitas nesta época são as mais verdadeiras.

"Micróbio e Gasolina" é despretensioso e com bom humor une o lúdico com a realidade, é singelo ao exibir esta bela fase repleta de dúvidas, medos e descobertas, uma etapa da vida de extrema importância para criar experiências, especialmente quando  compartilhada com um amigo especial.

sábado, 4 de março de 2017

Especial: Filmes Eróticos (Parte 2)

Segue o especial de filmes quentes, provocantes e excitantes, uma lista que prima por evidenciar obras sem tabus e que desmistificam o sexo. Outra lista aqui.

20- Monika e o Desejo (Sommaren Med Monika - 1953) de Ingmar Bergman
Harry Lund tem 19 anos de idade e trabalha numa loja de porcelanas. Quase vizinho a ele, na loja de verduras, trabalha Monika, uma simpática e alegre garota de 17 anos. Assim que eles se conhecem a paixão explode. Mas por causa da idade deles, os dois sofrem com a interferência dos mais velhos. Monika briga com os pais e decide sair de casa. Harry discute com o chefe e pede demissão. Sem mais nada que os prendem na cidade, os jovens decidem fugir de barco para uma ilha e passar algumas semanas juntos.

19- Henry & June: Delírios Eróticos (Henry & June - 1990) de Philip Kaufman
Em Paris, no início da década de 30, o escritor Henry Miller (Fred Ward) forma um triângulo amoroso com sua mulher (Uma Thurman) e sua amante (Maria de Medeiros), que sente atração por ambos os lados do casal mas, apesar de casada, não se interessa muito pelo marido.

18- Lady Chatterley (Lady Chatterley - 2006) de Pascale Ferran


1921. Constance (Marina Hinds) vive numa propriedade rural com o marido, Clifford Chatterley (Hippolyte Girardot), tenente condenado a uma cadeira de rodas por causa da 1ª Guerra Mundial. Ela amarga uma vida monótona, presa à obrigação com o casamento. Um dia, durante um passeio na floresta, conhece Parkin (Jean-Louis Coullo'ch), o guarda-caça da propriedade. A atração entre os dois desperta nela um desejo nunca antes experimentado.

17- O Livro de Cabeceira (The Pillow Book - 1996) de Peter Greenaway
Kioto, anos 1970. Um calígrafo grava com pincel e tinta seus votos de feliz aniversário delicadamente no rosto da filha, Nagiko. Esse dia permanece como uma doce lembrança na memória da menina. Quando moça, ela busca recuperar aquela emoção, procurando um amante ideal que usará seu corpo inteiro para escrever, como se fosse um papel. Em Hong Kong, ela conhece Jerome, um jovem tradutor inglês que convence a uma mudança de planos. Ele propõe que ela seja a pena, ele o papel em que gravará seus escritos, levando-os depois a um editor, assim inscritos na pele. A parceira funciona bem até o momento em que o ciúme entra em questão. Nagiko tem ciúme do editor, Jerome dos outros homens em cujo corpo ela escreve. Para recuperar o amor de Nagiko, Jerome encena seu suicídio.

16- A Última Amante (Une Vieille Maitresse - 2007) de Catherine Breillat
Baseado no romance de Barbey d’Aurevilly, com o mesmo título do filme. Na mundana Paris do século XIX, só se fala no casamento do jovem libertino Ryno de Marigny com a bela e pura Hermangarde, uma flor da aristocracia. Os noivos se amam, porém as más línguas insinuam que Ryno não vai conseguir romper um antigo romance com a Vellini, uma cortesã escandalosa, filha de uma duquesa com um toureador. Entre confidências, traições e segredos numa sociedade paralisada pelas convenções, a força dos sentimentos vai provocar os acontecimentos.

15- O Encontro (Rendez-vous - 1985) de André Téchiné
Um drama provocante erótico e elegante, dirigido por André Téchiné, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes para esta investigação atraente para o cruzamento de uma paixão sexual e artística. Uma atriz secundária, de costumes muito livres, apaixona-se por um estranho homem que a seduz, mas, ao mesmo tempo, a aterroriza. Esta paixão desencadeia um drama que afeta seu destino e dos que a rodeiam.

14- O Segredo (Le Secret - 2000) de Virginie Wagon
Marie (Anne Coesens), de 35 anos, vendedora de enciclopédias de porta em porta, é casada com François (Michel Bompoil) há 12 anos e tem um filho pequeno. Um dia, por causa de seu trabalho, ela conhece Bill (Tony Todd), um americano negro de 50 anos de idade, que vive sozinho em uma casa luxuosa em Paris. Sem entender o porquê, Marie sente-se obrigada a retornar à casa de Bill e, em pouco tempo, ela está tendo um tórrido relacionamento com ele. Embora a relação seja puramente física e destinada a ser de curta duração, logo esta ligação passa a ter impacto sobre a vida profissional e familiar de Marie. Suspeitando que sua esposa o está traindo, François vê o corpo de Marie coberto com arranhões e mordidas do amante. Este filme sobre a necessidade de uma mulher em dar sentido à sua vida traz cenas eróticas de alta voltagem. Anne Coesens retrata uma mulher que parece ter tudo mas está presa em uma existência sem emoção ou surpresa.

13- Monamour (Monamour - 2006) de Tinto Brass
Mulher insatisfeita com o marido, não consegue mais ter orgasmos com ele, depois de 4 meses de casamento. Aconselhada por uma amiga ela sai numa aventura pra salvar seu casamento. Esse truque acende a fúria do marido mas ao mesmo tempo se torna um novo estímulo para os dois.

12- Lila Diz (Lila Dit Ça - 2004) de Ziad Doueiri
Chimo (Mohammed Khouas) é um jovem de 19 anos de descendência árabe, que vive com sua mãe. Sua principal ocupação é passar o dia com seus amigos, mas mesmo assim não há muito o que fazer. Até que surge no bairro em que ele mora Lila (Vahina Giocante), uma jovem loira deslumbrante que deixa Chimo e seus amigos desconcertados. Lila aos poucos se aproxima de Chimo, iniciando com ele um jogo de sedução que caminha na tênue linha entre a inocência e o perigo. Chimo fica cada vez mais encantado por Lila, mas a atenção que ela dedica a ele faz com que os amigos de Chimo se sintam incomodados.

11- Dora ou A Neurose Sexual dos Nossos Pais (Dora Oder Die Sexuellen Neurosen Unserer Eltern - 2015) de Stina Werenfels
Quando sua mãe resolve suspender a medicação psiquiátrica controlada, Dora, 18 anos, se sente como acordando de um sono profundo. Ela agora descobre seu corpo, sua sensualidade e, finalmente, o sexo. Seus pais estão chocados com este novo perfil de luxúria desenfreada e ficam ainda mais furiosos quando a filha se envolve com um homem que conheceu em seu trabalho como vendedora. Assistindo a um relacionamento abusivo e sem escrúpulos, eles exigem que a filha pare de se encontrar com seu amante, mas todos os esforços serão em vão.

10- Na Cama (En la Cama - 2005) de Matías Bize
Dois jovens desconhecidos (Blanca Lewin e Gonzalo Valenzuela) resolvem passar a noite juntos numa cama de motel. No entanto, aos poucos acabam se conhecendo e desenvolvendo um tipo de relação contrária ao desprendimento inicial.

09- Romance (Romance X - 1999) de Catherine Breillat
Jovem bonita e sexy vive série de encontros sexuais com estranhos, para vingar-se da indiferença e da frieza do marido que, apesar de dizer que a ama, a ignora sexualmente. Cenas de sexo explícito.

08- The Slut (The Slut - 2012) de Hagar Ben-Asher
Tamar tem a sua rotina. Um homem atrás do outro. Ela é também mãe de duas crianças, Mika e Noa, mas já não procura a redenção, pelo menos até à chegada de Shai, um homem que regressa aquela localidade para tratar da propriedade da mãe, recentemente falecida. Shai não conhece o comportamento de Tamar, mas rapidamente percebe os fatos. Ele não quer saber disso, pois crê que a pode salvar da vida promíscua. E apaixonam-se e juntos tentam mudar a sua maneira de ser.

07- O Traidor (Gansin - 2015) de Min Kyu-Dong
O Príncipe Yeonsan fica louco quando ele mata os responsáveis pela morte de sua mãe. Ele aponta seu velho amigo Im Soong-Jae e seu pai para a posição de detentor. Eles são, então, pedidos para reunir belas mulheres de todas as partes do país para o prazer do Príncipe Yeonsan. Mulheres são levados independentemente do seu estado civil ou classe social, o que provoca uma revolta generalizada. Dan-Hee é uma mulher bonita, mas ela é uma açougueira de classe mais baixa. Ela salva Im Soong-Jae do perigo e, em seguida, pede-lhe para levá-la para o palácio. Im Soong-Jae recusa por suas próprias razões pessoais. No entanto, Dan-Hee logo entra no palácio. Im Soong-Jae se torna conflituoso e o Príncipe cobiça a bela Dan-Hee.

06- Todas as Coisas São Belas (Lust Och Fägring Stor - 1995) de Bo Widerberg
Aos 15 anos, um rapaz se envolve com sua professora, de 37 anos, casada com um vendedor de roupas íntimas, que nunca foi um marido fiel. Isto justifica sua traição. Lisbet, filha de um vizinho do rapaz, é apaixonada por ele, mas sente-se frustrada por não ser notada.

05- Léa (Léa - 2011) de Bruno Rolland
Léa, uma jovem estudante, tem 2 atividades: trabalhar como garçonete em uma boate e cuidar da avó com Alzheimer. Sua vida muda bruscamente quando é aceita para a graduação no famoso Instituto de Ciências Políticas de Paris. Com pouco dinheiro e tempo para os estudos coloca a avó numa casa de idosos, se instala em Paris e se prostitui...

04- Os Dias Mais Belos que a Noite (Des Jours Plus Belles Que la Nuit - 2010) de Jennifer Lyon Bell  Murielle Scherre
Todos nós sabemos como é o sexo. Muitos filmes tentam capturar a magia, mas a maioria só apresenta truques. Wim e Floor passam uma tarde juntos nos ensolarados quartos de uma velha casa na Bélgica. Vagarosamente, temos a construção, a doçura e a sexualidade. Esqueça a "rapidinha".

03- Obsessed (Inganjoongdok - 2014) de Kim Dae Woo
Em 1969, o Coronel Kim Jin-Pyeong (Song Seung-Heon) voltou para a Coréia do Sul depois de lutar com bravura na Guerra do Vietnã. Ele é uma pessoa de confiança do Comandante do Exército, que também é seu sogro, e respeitado por quase todos na base militar. No entanto, o Coronel Kim Jin-Pyeong sofre internamente com suas experiências na guerra. Um dia, Kyung-Jin Woo (On Joo-Wan) é transferido para trabalhar para Kim Jin-Pyeong. Kyung-Jin Woo é o tipo que faz e diz qualquer coisa para agradar seu patrão. Logo, o Coronel Kim Jin-Pyeong conhece Jong Ga-Heun (Lim Ji-Yeon), a esposa de seu novo subordinado. Em uma noite fatídica, o Coronel Kim Jin-Pyeong provoca um pássaro engaiolado na varanda da casa de seu vizinho. A obsessão sufocante logo começa entre Coronel Kim Jin-Pyeong e a esposa de seu subordinado Ga Heun. 

02- Água Quente Sob uma Ponte Vermelha (Akai Hashi no Shita no Nurui Mizu - 2002) de Shohei Imamura
Comédia nonsense sobre um desempregado de Tóquio que visita uma vila de pescadores, em favor a um amigo recém falecido. Este amigo havia lhe dito que, numa casa frente à uma ponte vermelha na vila, escondera um antigo tesouro roubado, uma estátua de ouro de Buda. O homem então faz amizade com a neta da dona da casa, na tentativa de se aproximar do tesouro, e acaba ficando pela vila, arranjando emprego num barco de pesca. Mas esta neta tem uma condição sexual bastante peculiar, que desperta grande curiosidade no homem.

01- Louco Amor (Auftauchen - 2006) Felicitas Korn
Nadja é uma pessoa descomprometida e absoluta - pelo menos até conhecer Darius - durante uma de suas baladas de dança, paqueras e sexo fácil. O que começa como uma noite padrão de loucuras, torna-se uma paixão que tudo consome, com todo o perigo que isso implica, um amor ao qual Nadja gostaria de se entregar de corpo e alma para se descobrir e que Darius tem medo de aceitar.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Passageira (Magallanes)

"A Passageira" (2015) dirigido pelo ator peruano Salvador del Solar é um filme instigante que tem como pano de fundo as consequências dos conflitos entre o governo, os civis e os revolucionários comunistas no Peru, é um assunto dolorido e a trama gira em torno dos males causados, as feridas abertas, mas o diretor soube trazer uma história atual em que incute críticas sociais e problemas que assolam praticamente toda a América Latina.
Certa tarde, Magallanes (Damián Alcázar) reconhece a passageira que sobe em seu táxi. É Celina (Magaly Solier), mulher que conheceu há mais de 20 anos em circunstâncias completamente diferentes. Em busca de redenção, ele fará tudo o que puder para ajudá-la a superar a difícil situação pela qual está passando. Magallanes não sabe, porém, que Celina prefere perder tudo a ser ajudada por ele.
Adaptado do livro "La Pasajera" de Alonso Cueto, Magallanes é interpretado pelo talentoso Damián Alcázar, recentemente visto em "Narcos", ele é um dos grandes atores mexicanos, vide "A Lei de Herodes" e "A Ditadura Perfeita". Neste, ele protagoniza um homem solitário e de feições sérias, um ex-soldado que sobrevive como taxista e uma espécie de cuidador e motorista particular do seu ex-coronel (Federico Luppi), que está sofrendo de Alzheimer. Um dia, Magallanes se depara com uma moça  de origem indígena e a reconhece, é Celina, quando jovem foi prisioneira por mais de um ano no quartel em Ayacucho, servindo de escrava sexual para o coronel. Ele a deixa no local indicado e não a olha no rosto, a moça é bastante humilde e se desdobra para poder pagar as dívidas e cuidar de seu filho com deficiência. Magallanes vê uma possibilidade de se redimir de seu passado ao tentar ajudar Celina, mas o que vem a seguir é uma espiral problemática.
Magallanes a partir de uma foto antiga encontrada decide com a ajuda de sua irmã chantagear o filho do seu ex-coronel, um advogado de grande prestígio (Christian Meier). Mas ele não imagina os desdobramentos dessa sua ideia de golpe. Interessante que no início parece completamente justificável e vemos o seu empenho em ajudar Celina, claramente ele era apaixonado por ela, mas nada é simples e conforme a trama vai se revelando novos dilemas aparecem, muitas questões morais vêm à tona.
O filme tem um roteiro elaborado e prima pela quebra de expectativas, o drama é intenso e dolorido e o suspense que se instaura garante grandes momentos de tensão, há cenas simbólicas também, por exemplo, quando Celina dá de cara com seu passado e corre morro acima, um belo e encantador trabalho visual.

Magaly Solier interpreta com solidez sua personagem, admirável a sua força e conduta diante da tentativa de redenção de Magallanes, uma ótima oportunidade de reflexão sobre perdão. Há uma cena em especial de Magaly que realmente nos tira o ar, quando na delegacia faz um desabafo em sua língua natal, o quíchua, não há legendas e não são necessárias, a entendemos perfeitamente, ela fala no idioma da dor e isso é universal. 
Uma grande estreia na direção de Salvador del Solar, um drama envolvente com pitadas de suspense e uma reflexiva crítica social. 
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