quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ethel & Ernest

"Ethel e Ernest" (2016) dirigido por Roger Mainwood apesar de ter como pano de fundo a II Guerra é um filme muito singelo e leve, o retrato de um doce e real casal vivendo as incertezas e novidades de sua época. Uma terna homenagem de Raymond Briggs aos seus pais, desenhado à mão, com base na sua premiada graphic novel, é uma descrição íntima e carinhosa da vida e dos tempos dos seus pais, dois londrinos comuns que vivem repletos de acontecimentos extraordinários.
1928. Em Londres, o leiteiro Ernest Briggs casa-se com Ethel, dando origem ao pequeno Raymond, em 1934. Quando a Segunda Guerra eclode, o menino, agora com cinco anos, é evacuado junto às tias em Dorset, enquanto Ernest junta-se ao serviço de bombeiros, chocado com a carnificina que vê. Com o retorno de Raymond, eles celebram a entrada dele para a escola de gramática e o nascimento do Estado-Providência. Raymond forma-se na faculdade de arte e obtém um lugar de professor. Pai e filho consolam-se quando Ethel morre, mas logo após Raymond estará de luto por causa do pai dele também.
É um filme meigo, o traços do desenho passam essa sensação e nos apegamos aos personagens, desde quando Ethel e Ernest se conhecem, o primeiro encontro, o casamento, a casa que escolhem morar, o nascimento do filho, as tantas novidades que surgem, como o fogão a gás, e neste aspecto o longa é bastante informativo e acompanhamos junto dos personagens uma série de acontecimentos que a guerra provocou, a pacata vida do casal se modifica, Ernest de leiteiro é obrigado a servir o corpo de bombeiros e assim presencia muita violência e dor, por outro lado, é muito agradável vê-lo ligar o rádio e ouvir as notícias perto de sua amada, que é alheia e pouco entende e que também se incomoda com as modernidades. Enquanto Ethel e Ernest enfrentam as consequências da guerra e vivem em meio a tantas incertezas, o pequeno Raymond aproveita a vida no campo com as tias, quando o tormento da guerra termina e ele volta, tudo o que os pais desejam é que estude num bom colégio, porém Raymond decepciona-os escolhendo estudar artes, mas, claro, que com o tempo teriam muito orgulho do filho, que se torna um incrível professor e um ilustrador de sucesso.
Toda a trajetória de Ethel e Ernest nos é mostrada com suavidade, desde a juventude à velhice, as modificações não só externas, mas também físicas. Uma graça Ernest jovem entregando leite de porta em porta e sua alegria ao mostrar para Ethel as novas utilidades domésticas que estavam surgindo. 

A narrativa segue de maneira muito interessante, praticamente didática ao que se refere ao contexto da guerra, as mudanças conforme os anos e o como esse casal conseguiu superar todas as adversidades sem deixar que nada estragasse a relação. A personalidade durona, mas amável de Ethel, a felicidade e empolgação de Ernest, tudo isso retratado com bastante credibilidade e muito carinho, isso se deve as vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn que imprimiram todas essas características aos personagens.

"Ethel e Ernest" é um filme afável, o delicado traço de Briggs traz as suas memórias, seus pais ganham vida novamente, eis a magia. Uma animação singular cheia de detalhes importantes e com uma aura emotiva e nostálgica. Outra beleza é a canção "In the Blink of an Eye", composta por Paul McCartney especialmente para o longa. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nu (Naked)

"Nu" (1993) dirigido por Mike Leigh (Sr. Turner - 2014) é uma obra-prima sombria, niilista, sarcástica, um mergulho profundo nas angústias humanas. Causa mal-estar, mas é exatamente esta sensação que faz com que sintamos a vida, é necessário saborear o amargor do cotidiano. O título já diz: Nu, a natureza humana cru e destrinchada.
O filme é uma obra em movimento. David Thewlis interpreta um homem sem lar e sem perspectivas que estupra uma mulher e foge, invadindo e mudando os rumos das vidas de várias pessoas que encontra. Thewlis vira carrasco, bálsamo, incitador, vítima, dependendo de quem cruza seu caminho. Parece um anjo/demônio boêmio que vem para provocar reações. Sua rudeza com uma mulher de meia-idade que se exibe na janela contrasta com seus conselhos metafísicos para o vigilante que a olha. Nu despe o espectador de qualquer procura por coerência narrativa. O que importa aqui é investigar almas.
O filme inicia com Johny estuprando uma mulher em um beco, logo ele rouba um carro e foge para Manchester, lá vai para casa de Louise, sua ex-namorada (Lesley Sharp), quem o recebe é Sophie (Katrin Cartlidge), a amiga que divide o apartamento, uma moça tão vazia quanto ele, os dois discutem sobre algumas coisas e Johny a encanta com seu charme, já sua ex precisa enfrentar seus sentimentos por ele, pois Johny é um ser humano extremamente ambíguo. A relação entre os três se torna um caos total e Johny sai pela cidade, uma Londres sombria e decadente, encontrando figuras peculiares. Ele perambula entre ruelas e becos e nessa sua caminhada soturna se depara com pessoas tão perdidas quanto si, discute e desafia a todos, em especial quando encontra o vigia de um prédio que vendo-o no frio o convida para entrar e vagueiam pelos corredores enquanto o homem diz sobre seu tedioso trabalho, nesta parte o contexto crítico da sociedade inglesa é desnudada e os conflitos da existência são expostos com tanta crueza que dificilmente não nos identificamos, a falta de oportunidade, a solidão, o desespero, todos sintomas instáveis e cruéis.
Johny na maior parte do tempo exibe uma faceta cínica, irritante e medonha, mas em determinadas partes podemos enxergar sua delicadeza, na verdade, vulnerabilidade, já que é completamente só, pois toda relação que tenta construir sofre pelo choque de ideias, ele é um poeta marginal, ou apenas um falador que dribla e pisa em cima da falsa felicidade cotidiana, e por conta disso é afogado pela angústia.

Johny incomoda porque ele provoca reações nas pessoas, elas são obrigadas a pensar em suas próprias vidas, de olhar para o próprio vazio e encarar a desesperança, há um misto de admiração e desprezo por ele, um ser verborrágico que ao mesmo tempo instiga e causa repulsa. O filme prima por diálogos impactantes e é indigesto por evidenciar sentimentos dolorosos. Para refletir sobre a existência realmente é necessário que se esteja nu. 

"Veja, Brian, é que Deus é um Deus de ódio. Tem que ser... porque se Deus fosse bom, por que há o mal no mundo? Por que há dor, ódio, ganância e guerra? Não faz sentido. Mas se Deus for um sacana cruel, então pode dizer, 'Por que há o bem no mundo? Por que há amor, esperança e alegria?'. Vamos falar sério. O bem existe para ser esculhambado pelo mal. A existência do bem permite o mal crescer. É isso, Deus é mal."

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)

"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.

É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões. 

O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Morfina (Morfiy)

"Morfina" (2008) dirigido por Aleksey Balabanov (Eu Também - 2012) reconstitui vigorosamente a prática médica em plena Revolução Bolchevique (1917). Um jovem médico determinado e talentoso precisa lidar com inúmeros empecilhos, tanto a sua insegurança, como a ignorância das pessoas. Um retrato sombrio de como um homem com tanto para fazer se envereda por um caminho desolador,  o vício em morfina.
Adaptação da história "A Country Doctor's Notebook", de Mikhail Bulgakov, baseada na experiência real do autor russo, quando, como um médico rural se tornou viciado em drogas, após uma pequena dose prescrita. Balabanov cuidadosamente reconstrói o momento em que Bulgakov cai nos braços da morfina, os anos da Revolução Russa, e mostra com rigor a aspereza da prática da medicina nesse período histórico.
Doctor Polyakov Mikhail Alekseyevich (Leonid Bichevin) sai da cidade grande e vai para um local afastado ficar no lugar de outro médico, lá conhece o paramédico e duas irmãs parteiras, se estabelece no quarto do médico antecessor repleto de livros, percebe que há bastante medicamentos e quando surge seu primeiro paciente na madrugada não consegue salvá-lo, o que cria uma situação estranha, já que foi por uma doença considerada infantil, Mikhail então terá que provar seu talento, senão o nome do médico anterior sempre será falado, deste episódio da difteria por ter tido contato com o paciente precisou tomar uma vacina, que lhe causou "reações", uma outra dose foi dada e esse foi o início de seu vício. Os burburinhos de uma revolução chegam e assim caminham os dias, frios e isolados. As passagens que envolvem cirurgias são as melhores, pois é macabro todos os equipamentos, medicamentos e maneiras, Mikhail exibe controle, mas é inseguro e toda vez sai para consultar os livros e volta e conduz tudo brilhantemente.
O humor está presente na trama que contém um contexto histórico pesado e ameniza o tom que ainda continua duro, a trilha sonora ajuda a compor o cenário e dar mais leveza, a trajetória desse jovem médico é triste, vê-lo se transformar em um esboço sendo que poderia fazer muito pelas pessoas e pela medicina. Sempre interessante histórias que abordam a medicina, os primórdios com suas técnicas e tratamentos assustadores, vários tipos de doenças infecciosas e as soluções que utilizavam. 

Após tomar a vacina de morfina como antídoto, o doutor já começa a sentir náuseas e ao sentir os efeitos toma isso como uma alergia e a enfermeira lhe aplica mais uma dose e essa dose nos dias que se seguem vão aumentando, aos poucos vemos sua deterioração e nisso o filme é primoroso, completamente visual, nada de imersão em sua mente, é no físico que se concentra e a degradação é terrível. O visual é o fator principal e são muitos momentos tensos em que Mikhail precisa agir, como uma amputação, uma traqueostomia, um parto podálico, onde não se poupa gritos, sangue, ruído de vísceras, dor e a fragilidade do corpo.

"Morfina" tem uma ambientação arrebatadora e passa com exatidão as sensações, desde as inseguranças, sejam elas em relação à medicina ou contexto político, como nos sentimentos e sensações fisiológicas dos personagens. Outra caraterística muito atraente é o realismo, as maneiras russas e o humor, além de muito gelo e escorregão e, claro, a vodca, que possui diversas utilidades!
Outra dica para quem gosta da temática é a série britânica "A Young Doctor’s Notebook" (2012) que também é baseada nessa história de Bulgakov, estrelada por Daniel Radcliffe e Jon Hamm. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Personal Shopper

"Personal Shopper" (2016) dirigido por Olivier Assayas (Acima das Nuvens - 2014) é um filme que passeia por vários gêneros, entre eles, drama, suspense e terror, a originalidade e a ousadia do roteiro pega de surpresa e nos deparamos com um filme único que retrata uma personagem imperfeita e repleta de dúvidas. O viés sobrenatural juntamente à atmosfera tensa do crescente suspense intriga e proporciona olhares diversos, uma história que mexe com incertezas, solidão, medo e o vazio.
Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como Personal Shopper para uma celebridade local. Ela também tem uma capacidade especial para se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos.
Acompanhamos Maureen em seu dia a dia, claramente detesta seu trabalho, ela escolhe roupas, sapatos e joias para uma famosa que mal vê, enquanto isso espera... espera um sinal de seu falecido irmão gêmeo, que era médium e acreditava existir vida após a morte, os dois sofrendo de um mesmo problema de saúde fizeram um pacto, que quem morresse primeiro esperaria por um sinal do além. Ela vai numa antiga casa, da qual ele gostava muito e passa noites tentando decifrar se os barulhos que ouve seria algo vindo de seu irmão, mas parece que mesmo se autodenominando também médium, Maureen titubeia nessas questões, ela explica que sente vibrações, mas ela busca um alívio para si e não de fato compreender.
Uma das grandes características do filme é a imersão que causa, sentimos cada ruído e cada sensação, um ar fantasmagórico. A junção desse mistério sobrenatural e o suspense que surge depois que Maureen troca mensagens com um desconhecido pelo celular é terrível, o medo atravessa a tela e nos toca. Kristen Stewart exala essa angústia, especialmente, na cena dessas trocas de mensagens, mas no filme todo podemos sentir junto dela as sensações que vêm com as situações, seja no emprego que considera fútil, na solidão vivida, na saudade do irmão, na espera do sinal, e também no mal que está no cotidiano, as obsessões, o uso das tecnologias para causar terror psicológico, a maldade, a violência. É um terror moderno que prima por gerar desconforto e introduzir perguntas ao final, vale rever até porque a confusão cresce em nossa mente, mas é instigante, sombrio e realmente subjetivo. 

Kristen Stewart domina o filme todo, a câmera não desgruda de seu rosto, cenas de pura angústia, confusão, medo e saudade, uma tensão física bem explorada, a profundidade de sua personagem, as dificuldades em se permitir seguir. Perfeito! Outra coisa bastante curiosa é quando o sobrenatural ganha forma, uma espécie de ectoplasma vomitando outro ectoplasma, causa uma impressão forte, tenebrosa, crendo ou não nessas questões o filme sabe trabalhar o medo de muitas maneiras e não dá respostas, coisa que muitos não gostam por estarem fissurados em imagens e por saciedade, "Personal Shopper" vai pelo caminho contrário e testa nossos sentidos.

"Personal Shopper" é um filme incrível, atmosfera impecável de medo e angústia não só pelo teor sobrenatural, mas também pelos medos contemporâneos, a exemplo das trocas de mensagens com um desconhecido, por outro lado a dor do luto, a solidão e o vazio que a vida moderna proporciona, como o emprego sem sentido, o consumismo, relacionamentos superficiais, etc. O roteiro dá uma bela misturada nisso tudo e, talvez, não funcione para todos, mas merece reconhecimento pela audácia em ser diferente e caminhar por terrenos sombrios.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Gatos em 17 Filmes

Segue uma lista especial para cinéfilos e cat lovers!!

17- Um Dia, Um Gato (Az Prijde Kocour - 1963) de Vojtech Jasny
Fantasia, beleza e imaginação em uma bela alegoria poética. Os moradores de um vilarejo assistem ao espetáculo de um mágico e seu gato, que usa óculos e, quando os tira, tem o poder de mudar a cor das pessoas à sua volta de acordo com o caráter delas. O fato assusta os adultos do lugar, que veem o animal como uma ameaça, mas, ao mesmo tempo, atrai todas as crianças da vila.

16- Harry, o Amigo de Tonto (Harry and Tonto - 1974) de Paul Mazursky
Após utilizar todos os meios legais Harry Combes (Art Carney), um professor aposentado com 70 anos, é forçado a deixar seu velho apartamento em Manhattan, que é demolido para dar lugar para um estacionamento. Harry sente muito isto, pois foi lá que, com sua falecida esposa, criou seus filhos e viveu toda sua vida. Acompanhado por Tonto, seu gato de estimação, ele inicia uma viagem após sentir que é um estorvo para sua enteada. Tenta viajar de avião, mas não embarca por causa de Tonto. Ao viajar de ônibus para Chicago tem de abandonar o veículo por causa do seu mascote, assim compra um carro. Harry acaba dando carona para Ginger (Melanie Mayron), uma jovem de 16 anos que acaba se envolvendo com Norman (Josh Mostel), o neto de Harry. Harry visita Jessie Stone (Geraldine Fitzgerald), uma antiga paixão que ele não vê há 50 anos e agora está internada em um asilo, por estar senil. Harry também para nas casas dos seus filhos, mas em cada visita sente um desapontamento maior que o outro. Ao chegar em Los Angeles ele fica desiludido com os amigos e a família, mas gradativamente descobre que cada novo dia é mais um começo do que um fim.

15- O Gato do Rabino (Le Chat du Rabbin - 2011) de Antoine Delesvaux e Joann Sfar
Na Argélia da década de 1920, o rabino Sfar (Maurice Bénichou) vive com sua filha Zlabya (Hafsia Herzi), além de um papagaio tagarela e um gato sem nome (François Morel), que devora o papagaio e começa a falar sem parar. Para não ficar longe de sua amada dona, o gato decide se converter ao judaísmo, e passa a compreender melhor os fundamentos da religião. Ao mesmo tempo, a chegada inesperada de um judeu russo à cidade obriga o Rabino e seu amigo, um líder islâmico (Fellag), a fazerem uma cruzada pela África, local marcado pelas mais diversas crenças religiosas, raças e línguas. Vários novos amigos - e inimigos - cruzam o caminho desta caravana.

14- Goliath (Goliath - 2008) de David Zellner
David detesta seus colegas de trabalho, está em meio à um divórcio e, ao mesmo tempo, está em busca do seu gato, Goliath, que fugiu de casa. Desesperado ele sai pela cidade colando cartazes com a foto do gato e procurando outros meios de encontrá-lo.


13- Paixão Felina (Miss Minoes/Undercover Kitty - 2001) de Vincent Bal
Minoe é uma jovem dotada de características felinas. Seu poder acaba ajudando um repórter a vencer a timidez. Juntos eles descobrem os mais insólitos segredos de uma cidade onde, aparentemente, nada acontece.

12- As Aventuras de Chatran (Koneko Monogatari - 1986) de Masanori Hata
Chatran, é um pequeno e irrequieto gato amarelo que vive com os irmãos, num rancho no norte do Japão. Numa tarde em que brincava com o cachorro Puski, foi se esconder numa caixa à beira de um rio e acabou sendo carregado pela correnteza. Aí tem início uma jornada com direito a quedas de água, ursos, cobras, chuvas, fome, abutres, buracos, guaxinins e raposas, enquanto Puski, vem correndo pela floresta à sua procura. O filme irá acompanhar o crescimento do bicho e as relações estabelecidas entre os seres vivos e a natureza, que tanto podem alternar a doçura e o companheirismo quanto a agressão.

11- O Reino dos Gatos (Neko no Ongaeshi - 2002) de Hiroyuki Morita
Essa é a história de Haru, uma garota muito preguiçosa que todos os dias chega atrasada na escola. Um belo dia, voltando para casa, salva um misterioso gato de ser atropelado. Na mesma noite a menina recebe a visita do Rei dos Gatos que a convida para conhecer seu reino, um lugar mágico, diferente de tudo, onde os bichos falam e se comportam como gente.

10- The Cat (Goyangyi: Jookeumeul Boneun Doo Gaeui Noon - 2011) de Seung-wook Byeon
So-Yeon sofre de claustrofobia, devido a um incidente traumático que ocorreu a ela quando criança. Ela trabalha em um pet shop, um dia um gato chamado Bidanyi entra na loja, no dia seguinte, a proprietária do Bidanyi é encontrada morta em um elevador. So-Yeon, por solicitação do policial Joon-Suk, leva o gato para casa, pouco mais tarde, So-Yeon começa a ver um espírito de uma menina. Sua amiga depois de adotar um gato também é assombrada por um espírito, So-Yeon agora teme pela própria vida e por isso começa a investigar mais profundamente o que há por trás desses gatos amaldiçoados… Saiba+

09- Um Gato em Paris (Une Vie de Chat - 2010) de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
Dino é um gato que divide sua vida entre duas casas. Durante o dia, ele vive com Zoé, a filha de Jeanne, uma delegada de polícia. Durante à noite, ele escala os tetos de Paris em companhia de Nico, um ladrão de grande habilidade. Jeanne está investigando vários roubos de joias e ainda precisa cuidar da vigilância do Colosso de Nairóbi, um grande monumento cobiçado pelo bandido Costa. Dino é testemunha de tudo que acontece e viverá muitas aventuras. Saiba+

08- Virei um Gato (Nine Lives - 2016) de Barry Sonnenfeld
Um empresário (Kevin Spacey) sofre um acidente e fica preso no corpo do gato da família. Confrontado por seus erros passados, ele tentará se redimir com todos ao seu redor.

07- Dois Amantes e Um Gato (Pascha - 2013) de Sun-Kyeong Ahn
Gaeul, uma roteirista de 40 anos, vive com seus gatos e seu amante de 17 anos, Joseph. Isolados, eles mantêm o seu amor em segredo, numa relação em que são revelados aspectos não convencionais, ainda que familiares, do amor.

06- Eu Sou um Gato (Wagahai Wa Neko De Aru - 1975) de Kon Ichikawa
Um gato sem nome é testemunha das desventuras do seu dono, o Prof. Kushami. Arrogante, pedante, teimoso e orgulhoso, Kushami atrai problemas para si com suas atitudes, em especial quando se torna inimigo de uma família poderosa. Baseado em um dos maiores clássicos da literatura japonesa do escritor Natsume Soseki.

05- Um Gato de Rua Chamado Bob (A Street Cat Named Bob - 2016) de Roger Spottiswoode
Enquanto trabalhadores lotam as ruas de Covent Garden, em Londres, um simpático gatinho laranja chama a atenção da multidão. Com um vistoso lenço em volta do pescoço, Bob, como é chamado, vive com James Bowen (Luke Treadaway), que toca música pela cidade com seu violão surrado. Mais do que um companheiro de rua, Bob é protagonista da história de superação e da luta contra as drogas de seu dono. Saiba+

04- Kedi (Kedi - 2016) de Ceyda Torun
Kedi não é um documentário sobre gatos de casa ou os gatos vadios que você ocasionalmente vê no seu quintal. Kedi é um filme sobre milhares de gatos que percorreram a metrópole de Istambul livremente por milhares de anos, vagando dentro ou/e fora das vidas das pessoas, as impactando de formas única, um animal que vive entre o mundo da vida selvagem e o domesticado. Os gatos e seus gatinhos trazem alegria e propósito para aqueles que os escolhem, dando às pessoas uma oportunidade para refletir sobre a vida e seu lugar nele, especialmente em Istambul, onde os gatos são os espelhos para seus habitantes. Saiba+

03- Gatos Empoleirados (Chats Perchés - 2004) de Chris Marker
Intrigado com o sorridente gato amarelo que invadiu Paris depois de 11 de setembro, o legendário Chris Marker se pôs a investigar as misteriosas aparições do felino. Aqueles grafites, obras de um anônimo, seriam o seu ponto de partida para um filme que é um elogio à arte engajada e uma declaração de louvor à poesia - e aos gatos - da rua.

02- Felidae - O Gato Detetive (Felidae - 1994) de Michael Schaack
Um gato chamado Francis se muda com seu dono para um novo bairro, assim que põe a pata em sua nova casa ele é surpreendido pelo corpo morto de um outro gato, então Francis resolve dar uma de detetive e descobrir o que está por trás dos constantes assassinatos de Gatos daquela região.

01- Sete Vidas (2007) de Marcelo Spomberg e Zé Mucinho
"Sete Vidas" (2007), curta-metragem brasileiro de 19 minutos gira em torno de sete personagens que acreditam ser donas de um gato, um mesmo gato. São sete solitários, e certamente por seu isolamento social, cada um deles impõe ao felino suas frustrações, expectativas e manias. Por conta disso, dão-lhe nomes e tratamentos diversos. O gato é, na verdade, um escritor reencarnado, que narra, ele mesmo, sua nova condição. E, ao falar das vantagens de variar de dono, acaba por contar também um pouco do cotidiano de cada um deles: as verdadeiras "sete vidas" do título. Sua narrativa obriga também o bichano a tomar uma importante e difícil decisão: escolher a quem ele pertence afinal. Saiba+

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cordeiro (Lamb)

"Cordeiro" (2015) dirigido pelo estreante Yared Zeleke é um filme autêntico que retrata a cultura etíope e todas as dificuldades de se viver em um local onde reina machismo, preconceitos e ignorância. É um filme importante por se tratar de uma ficção em tom naturalista, ou seja, conhecemos e ficamos próximos da realidade vivida pelo protagonista, ao mesmo tempo que entretê também informa, a simplicidade da história encanta, a sutileza dos detalhes, a cultura é totalmente diferente, mas os sentimentos são universais: amor, amizade e esperança.
Ephraim (Rediat Amare) tem nove anos e acaba de perder sua mãe, ele vive com o pai em uma aldeia no norte da Etiópia, a maior preocupação do pai é o que irá comer já que não tem mais mulher, Ephraim tem talento na cozinha, mas mesmo assim o pai decide ir embora atrás de trabalho na cidade, então Ephraim fica aos cuidados do tio em uma outra aldeia inóspita no sul da Etiópia, sua única companhia é seu cordeiro, ou melhor, a ovelha estéril Chuni, que em breve será abatida, a família passa por dificuldades e desnutrição. Ephraim desesperado para salvar seu único amigo se arrisca e cada vez mais vai ganhando a antipatia do tio. Ephraim tem a ideia de vender samosas - um tipo de pastel - no mercado, porém com a escassez de tudo na casa fica difícil, mas ideias é que não faltam ao menino, então começa a preparar e vender, dando uma parte do dinheiro para a tia e o restante guarda para poder ir embora e encontrar seu pai, sua vida ali é uma agonia, na maior parte do tempo invisível e na outra um intruso. Sempre com um ar reflexivo, Ephraim vai levando seus dias, sozinho e sem nenhum carinho, apenas anda de lá pra cá com a ovelha, na casa do tio mal come, a comida é insuficiente e então sua ovelha está com os dias contados, mas ele elabora um plano junto de Tsion (Kidist Siyum), que bem aos poucos se afeiçoa a ele, Tsion é uma personagem extremamente interessante e que destoa da maioria, pois tem uma mentalidade aberta e não deseja se casar apenas para procriar e alimentar esse círculo fechado do machismo, onde mulher não estuda e só tem como missão cuidar da casa, todas as cenas em que está presente existe uma crítica acerca desses assuntos. 

A fotografia explora o contraste, rico em cores e uma paisagem deslumbrante e a pobreza por outro lado, uma miséria que assola não só a condição física, mas também a psicológica.
A delicadeza em Rediat Amare é admirável, sua força em persistir mesmo tendo que se arriscar em um meio onde o menor deslize pode ter sérias consequências, além de que ele é uma criança em fase de transição e sua personalidade denota um ser humano sensível e com talentos que são considerados femininos, como cozinhar, é doído ver o desamparo estampado em seus olhos, a solidão, a pobreza em todos os quesitos é desolador. 

"Cordeiro" exemplifica com Ephraim e Tsion a sociedade jovem que mora em locais onde existem muitas tradições, essas nem sempre bonitas, mas que causam danos ao progresso, pensamentos fechados devido a inúmeras questões, como religião e pobreza, essa sociedade jovem está em busca de outros rumos, como estudar e definir sua personalidade por si mesmo, há um ponto extremamente interessante na trama que é a questão de gênero, Ephraim preferindo cozinhar do que arar a terra junto ao tio, por exemplo. É um filme agridoce e delicado que passeia por essa cultura tão distante da nossa, mas que traduz sentimentos universais. Uma obra que une ficção e realidade com esmero e sensatez. 

terça-feira, 25 de julho de 2017

The Young Pope (Série)

"The Young Pope" (2016) marca a estreia na televisão do sublime cineasta Paolo Sorrentino (A Grande Beleza - 2013), a série escrita e dirigida por Sorrentino e coproduzida pela HBO/Sky/Canal+ conta a história de Lenny Belardo (Jude Law), o primeiro pontífice norte-americano a ser escolhido como líder da Igreja Católica, Pio XIII, um jovem papa charmoso e pouco convencional que pode parecer o resultado de uma estratégia de mídia, mas que está decidido a modificar radicalmente o Vaticano.
Não é exagero dizer que esta série é uma obra-prima, pois já em seu primeiro episódio percebe-se o esmero em todos os setores, seja direção, atuações, enredo, trilha sonora, enquadramentos, diálogos, absolutamente tudo é impecável. Muito se compara com "House of Cards", ela bebe da mesma fonte em questões de ambiguidades, jogos políticos e busca de poder, a reflexão é intensa e com certeza uma produção que sacia o espectador. 
Conhecemos Lenny Belardo, que acaba de ser consagrado Pio XIII, uma artimanha do clero para recuperar a Igreja Católica, Lenny é considerado maleável e sensível devido aos seus traumas, órfão foi criado pela irmã Mary (Diane Keaton), Lenny cultiva o sonho de poder encontrar os pais que o abandonaram no convento, no início vemos sua aparição na janela do Vaticano discursando para uma multidão sobre casamento gay, aborto, masturbação e uma série de assuntos considerados tabus e que a Igreja abomina, seria uma nova era para a Igreja, o acúmulo de seguidores, reacenderia a fé nas pessoas, o marketing seria positivo e, consequentemente, mais acumulações de riquezas. Mas, toda essa cena não passa de um sonho de Lenny que está apreensivo, percebemos que esse novo Papa de bonzinho não tem nada, ele trata muito mal as pessoas, já no seu primeiro café da manhã destrata uma senhora cozinheira dizendo que não aprecia relações amigáveis. Lenny vai demonstrando quem verdadeiramente é e assusta a todos, principalmente seu mentor Spencer (James Cromwell), que cai em depressão por ter sido passado para trás pelo secretário do Estado, o Cardeal Voiello (Silvio Orlando), já que ele seria eleito o novo Papa, Voiello é um exímio jogador, uma espécie de conselheiro, mas Lenny não aceita suas palavras e faz pedidos excêntricos, essa jogada nunca de fato é afirmada por Voiello, que segundo ele de repente os votos todos se dirigiram para Belardo, como um sopro do Espírito Santo. 
Pio XIII tem aversão ao espetáculo, ele se recusa a aparecer aos fiéis, a tirar fotos, a viajar, ele diz: "Não tenho imagem porque não sou ninguém. Só Cristo existe. Só Cristo. Eu não valho nada". Ele quer o mistério e não deixa de ser uma estratégia. Este personagem é contraditório, ambíguo, cínico, nos confunde e intriga. Em muitos momentos Lenny em tom de piada ou em confissões diz não acreditar em Deus, mas, claro, as suas ações exemplificam justamente o contrário, existe um compromisso em restabelecer a Igreja e nos moldes antigos.

"Eu amo a um Deus que nunca me abandona e que sempre me abandona."

A série tem momentos icônicos, já que a figura papal quebra muitas regras impostas, por exemplo, fumando o tempo todo, aliás, seus trejeitos são charmosos e cínicos, como abrir os braços ao rezar, fingir dormir enquanto falam com ele, além de pesquisar entre os cardeais perguntando-lhes sobre o chamado e a vocação. Os diálogos alimentam nossa reflexão sobre religião e tudo o que envolve o Vaticano. Mas, apesar do tom despudorado e crítico, a série se desenvolve de maneira sincera e sem julgamentos, até porque ao acompanhar os personagens vemos que eles defendem com afinco a Igreja, cada um a seu modo, entre manipulações, marketing, jogos políticos, etc. Muito se questiona sobre a verdadeira faceta de Pio XIII, o que realmente ele deseja? Por momentos sendo vulnerável, mimado e irritante na eterna busca pelos pais que o abandonaram, já em outros demonstra pulso firme e defende a Igreja e ordena que as pessoas busquem Deus na escuridão, em outros ainda se mostra perturbado e indeciso quanto a existência de Deus. Ao mesmo tempo que é considerado um santo, pois há indícios de pequenos milagres durante a trama, ele é um ser humano falho, com traumas passados e repleto de dúvidas. Jude Law interpreta Lenny/PioXIII com classe e imprime uma fina ironia, vê-se que está se deleitando na pele de um Papa narcisista e, que apesar de toda sua jovialidade é extremamente conservador.
"A liturgia não será mais envolvimento social, mas trabalho duro. E o pecado não será mais perdoado à vontade."
A solidão gerada pelo poder é muito evidenciada, uma figura tão suprema como o Papa que manda e desmanda, que sente em si algo de divino pode querer mais o quê? Por isso a dúvida, a escuridão; a contradição. 

"A questão, hoje em dia, não é se Deus existe. E sim, por que dependemos dele."

Todos os personagens são enigmáticos e exibem várias nuances, Sister Mary, Cardeal Voiello, Cardeal Dussolier (Scott Shepherd), que cresceu ao lado de Lenny no orfanato, o Cardeal Spencer, o grande mentor de Lenny, Cardeal Gutierrez (Javier Cámara) com seus olhos gentis, pueris e que sofre uma transformação por uma missão que Pio XIII designa a ele, investigar um caso de pedofilia. Todos personagens grandiosos e desenvolvidos. O elenco é maravilhoso e conta ainda com Cécile de France como a assessora de marketing que admira Pio XIII, apesar de toda a sua excentricidade, Ludivine Sagnier como Esther, que mantém uma relação próxima ao Papa, entre tantos outros que nos presenteiam com elegantes e inteligentes interpretações. O Papa expõe a hipocrisia do Vaticano, elimina tudo o que acha que não vale a pena e age com preconceito, mas em muitos momentos suas ações perturbam, pois não deixam de ser verdades. Por exemplo: "Que a bondade se não for acompanhada de imaginação corre o risco de ser mero exibicionismo."

"The Young Pope" foge das narrativas comuns, cada episódio impressiona de uma maneira e a história se desenrola lentamente e instiga a pensar o que poderia vir a seguir, a trilha sonora destoa completamente do universo retratado, mas funciona e dá um tom engraçado, como na cena em que o Papa se veste ao som de "Sexy and I Know It", de LMFAO. A abertura que não é usada em todos os episódios é excepcional, o Papa caminha feito um rock star ao som de "Watchtower", de Devlin por um corredor cheio de quadros sacros enquanto um cometa o acompanha, até que ao final ele olha para câmera e pisca, dá um sorriso de deboche e o cometa detona a estátua de cera de João Paulo II. Os enquadramentos, o como a câmera é conduzida, às vezes utilizando plano-sequência enche os olhos, sem dúvida, uma série com muitos simbolismos, mas sincera em sua proposta, é crítica, cínica, surreal, moderna e pomposa, uma das melhores produções televisivas atualmente. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Belos Sonhos (Fai Bei Sogni)

"Belos Sonhos" dirigido por Marco Bellocchio (Sangue do Meu Sangue - 2015) é um emocionante filme que disserta sobre a bela relação de mãe e filho e a dificuldade de se lidar com a perda desta protetora tão precocemente, as dores vividas na infância serão refletidas na vida adulta, fazendo de Massimo um homem introspectivo que não consegue se relacionar. Em sua vida sobram perguntas e ausência.
Baseado no romance autobiográfico homônimo de Massimo Gramellini, o vice-diretor do jornal italiano "La Stampa", a história conta sobre Massimo (Nicolò Cabras), um menino de nove anos de idade que perde sua mãe (Barbara Ronchi) e que precisa administrar sozinho a falta, a dor e as inúmeras dúvidas. Seu pai vivido por Guido Caprino não lhe conta o que de fato aconteceu e assim seguem os anos, quando Massimo já adulto - protagonizado por Valerio Mastandrea - retorna à casa para se desfazer dos pertences vêm à tona toda as suas angústias.
O filme possui uma grande carga dramática e acerta em cheio nosso coração, a cena inicial, especialmente, possui delicadeza mostrando a relação de mãe e filho e é sutil ao retratar a angústia da mãe. Mas, o filme todo tem essa característica e nos faz sentir de verdade todas as emoções sentidas por Massimo, a saudade chega a ser palpável. Nicolò Cabras impressiona a cada minuto em cena, uma criança que não entende a perda e que sozinho vai juntando o que percebe, ninguém da família chega e lhe conta o que aconteceu, não existe uma conversa, apenas o vazio.
A narrativa vai e volta no tempo, ora mostrando Massimo na infância nos anos 60, ora Massimo adulto nos anos 90, somos conduzidos pelos sentimentos vividos por ele, quando criança a confusão diante da perda é sofrida, seus familiares o isolam do acontecido, na adolescência, Massimo é vivido por Dario Dal Pero e muitas das perguntas que o corroem são feitas ao professor/padre, um interessante momento da trama em que questões religiosas são discutidas, além de que o filme explora bastante os valores familiares, o como a figura materna é de extrema importância na formação da criança e o como essa quebra gera traumas e perturbações interiores que seguem por toda a vida, Massimo adulto quando confrontado pelas lembranças tem ataques de pânico e entrando ainda mais nessas lembranças começa a viver o horror, na infância para aliviar o desespero que sentia criou conversas com Belfagor, criatura de uma série que assistia com sua mãe, em dado momento ele busca auxílio médico pensando estar infartando, mas a doce médica Elise (Bérénice Bejo) lhe acalma e o sentimento de conforto que ela passa é tanto, algo que remete a mãe, que Massimo deseja ficar perto dela, o único elo afetivo que o vemos ter desde a perda. 

O filme possui elementos simbólicos que ajudam a nos conectar com o sentimento de Massimo e a sua própria interpretação do que aconteceu com a mãe, a dúvida é uma ferida, um tormento, uma agonia, o que transformou sua vida num luto interminável. 
"Belos Sonhos" tem uma introdução belíssima, a dança com a mãe, um momento sensível de intimidade, tão significante e que marca o pequeno, e é através da repetição desse gesto junto de Elise, que Massimo começa a se libertar. Com lindas e tocantes sequências, apesar de todo o peso que envolve o tema há também uma certa suavidade nas imagens, que inevitavelmente nos leva à reflexão sobre nossos próprios traumas e aprendizados.  

terça-feira, 18 de julho de 2017

Pele de Asno (Peau D'âne)

"Pele de Asno" (1970) dirigido por Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor - 1964) é uma adaptação musicada do conto de fadas homônimo escrito em 1695 por Charles Perrault, um clássico surreal e inebriante indicado tanto para o público infantil quanto para o público adulto, a história tem um narrador em off, a linda voz do ator Jean Servais e o enredo traz temas importantes e controversos, como o incesto e preconceito, mas sempre de maneira delicada, bem-humorada e amparada por uma aura psicodélica. A princesa interpretada pela maravilhosa Catherine Deneuve ao contrário de tantas outras princesas não fica à mercê do amor, ela é impetuosa mesmo tendo aspecto doce, aliás, as mulheres são fortes e decididas e fazem o que bem querem com os sentimentos dos homens. Alguns elementos modernos são incluídos e as cores, os figurinos, a trilha sonora dão um charme especial a este conto que consegue transpôr barreiras e atrair todos os públicos. 
Em um reino distante a rainha (Catherine Deneuve), em seu leito de morte, faz com que o rei (Jean Marais) prometa apenas se casar novamente caso encontre uma mulher ainda mais bela do que ela. Só que em todo o reino apenas uma pessoa atendia a esta condição: a própria filha da rainha. Desesperada, a princesa (Catherine Deneuve) busca ajuda com sua fada-madrinha (Delphne Seyrig), que sugere que ela peça presentes de casamento cada vez mais difíceis de encontrar, com o objetivo de adiar ao máximo a cerimônia. Enquanto isso a princesa consegue fugir do reino escondida sob uma pele de asno, vivendo de forma simples em uma cabana. Até que, um dia, um príncipe (Jacques Perrin) nota sua beleza.
A princesa ao receber a proposta do pai se assusta, mas em sua inocência fica confusa, ele é seu pai e o ama, não poderia recusar tal proposta, mas ao mesmo tempo fica incomodada e vai até sua tia, a fada lilás, que lhe dá conselhos e lhe diz que o casamento não poderia acontecer, pois um pai jamais poderia desposar a própria filha e diz para pedir presentes difíceis de encontrar para adiar a festa de casamento, mas o pai sempre se rendia aos desejos e lhe presenteava com os mais belos vestidos, a fada então diz para a princesa pedir a pele do asno do reino, uma espécie rara que defeca ouro, para surpresa da fada que ignorava a natureza daquele amor, a pele é entregue à princesa que imediatamente reclama de seu destino, mas eis que surge novamente a fada e pede para que fuja para bem longe vestindo a pele do asno, e ainda concede a sua varinha para que pudesse fazer aparecer o baú com seus pertences. O rei que se aprontava para o casamento logo de manhã ficou sabendo da fuga e mandou que revistassem todos os cantos e aldeias, mas não houve nenhum sinal da princesa.

"Afinal, não há bodas, não há baile, não há doces de festa."

Com a feição toda engordurada e suja ninguém a queria acolher, por onde passava era vista com maus olhos e era motivo de chacotas, por fim foi ser serviçal de uma bruxa asquerosa, apelidada de Pele de Asno passava os dias cuidando dos porcos e lavando trapos, foi instalada numa cabana no meio da floresta e apenas aos domingos depois de cumprir seus deveres abria seu baú e se embelezava diante do espelho. Solitária e esnobada por todos Pele de Asno seguia seus dias, até que a visita de um príncipe que passeando pela floresta encontrou a cabana e pela fresta da janela foi espiar, ela estava radiante e o príncipe ficou sem fôlego ao vislumbrar sua beleza, acometido pela paixão foi-se embora e isolou-se em seu palácio, não tinha mais apetite, não levantava de sua cama, só pensava em seu amor e quem seria aquela figura enigmática. Perguntou quem era aquela jovem da cabana e responderam que era Pele de Asno, que de bela não tinha nada, mas o príncipe não acreditava. A mãe preocupada com o filho se desesperava cada vez mais e decidiu que aquilo deveria terminar, perguntou o que poderia fazer para amenizar a tristeza e ele pediu que trouxesse um bolo feito por Pele de Asno. O desejo foi concedido e Pele de Asno fez o bolo e colocou um anel dentro, um sinal de que ela sabia que o príncipe a espiara aquele dia. Por pouco o príncipe não engoliu o anel e acometido por uma alegria decidiu que todas as garotas de todas as aldeias independente de condição social viessem experimentar o anel, vieram mulheres de todas as idades, de diversas posições sociais, algumas se submeteram a elixires para afinar os dedos, até que ao final apareceu Pele de Asno, todos escarneceram dela, mas o anel foi posto e serviu delicadamente em seu fino dedo, ela retirou a pele e o espanto foi geral. Ao colocar outro vestido sua beleza resplandeceu dentro do palácio e as medidas para o casamento logo foram tomadas. Toda a vizinhança foi chamada e também vieram nobres de lugares longínquos, alguns montados em elefantes, o pai da princesa também chegou de forma esplendorosa acompanhado por sua esposa, a fada lilás, o pai a cumprimentou ternamente, aparentemente nada restava daquele criminoso amor, e sua tia contou-lhe o resto da história. Foram três meses de festa.

"Pele de Asno" é um conto de fadas que tem como tema o incesto, isso seria perturbador senão fosse tratado com leveza e imaginação, a interpretação do conto pelas crianças é simples, a moral da história é o que a fada diz à princesa: "um pai jamais poderia desposar a filha". C'est fini! Já para os adultos a visão é mais amplificada e muitas possibilidades de interpretação se dão, a versão de "Pele de Asno" de Jacques Demy tem um disfarce infantil impecável, mas não deixa de ser desconfortante quando discutido a fundo. Outro ponto a se destacar na trama adaptada por Demy é a personagem da fada interpretada por Delphine Seyrig - musa de Alain Resnais - que esbanja características peculiares, ela é irônica e muito a frente de seu tempo, e até consegue interferir utilizando meios modernos, como um helicóptero em plena era medieval. Aliás, as mulheres do conto sempre estão decidindo algo e pondo-se a acertar as coisas, a fada, a mãe do príncipe, Pele de Asno tomando a iniciativa colocando o anel no bolo, etc. 

"Pele de Asno" é uma obra para ser passada adiante e ser revista inúmeras vezes, existem camadas e detalhes escondidos ou disfarçados, e esses somente olhos adultos conseguem enxergar, certamente uma brilhante adaptação. É possível encontrá-lo em DVD numa belíssima edição da coleção "Folha Grandes Astros do Cinema", os extras são tão primorosos quanto o filme, entrevistas, depoimentos, discussões e especiais maravilhosos, além da biografia de Catherine Deneuve disposta em um livreto. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

10 álbuns Musicais

Segue uma seleção aleatória de 10 álbuns que amo. Deem uma conferida:

*Os números só são uma questão de ordem e não de preferência.

10- "Slør" (2015) Eivør
Eivor, compositora e cantora feroesa se distingue por sua voz peculiar, doce e selvagem, que tem como característica uma tradição vocal de seu local de nascimento, as ilhas Feroe. "Slor" (2015) é um álbum extremamente lindo em que ela canta em sua língua materna e passeia por gêneros e atmosferas inebriantes. É um som envolvente. Confira.

09- "Krataia Asterope" (2007) Daemonia Nymphe
Daemonia Nymphe é uma banda grega neofolk que aborda a antiguidade helênica em suas músicas, dos primorosos trabalhos "Krataia Asterope" (2007) exerce um fascínio curioso e é uma experiência transcendental, as canções são baseadas em rituais, celebrações, hinos órficos e homéricos, além dos poemas de Safo para Zeus e Hécate, nem é preciso dizer que os vocais são épicos, o álbum é essencialmente uma manifestação cultural. Confira.

08- "Light" (2010) DakhaBrakha
DakhaBrakha que significa dar e receber é um quarteto formado em Kiev, o grupo mescla em suas músicas sons ancestrais da Ucrânia junto a outros ritmos culturais, como o africano, o latino, o australiano, o árabe, e por isso são denominados como "caos étnico", também incorporam elementos modernos, como o hip hop, o blues e o rock. "Light" (2010) é um álbum que quebra fronteiras e conversa com esses diversos gêneros, unindo o clássico e o moderno. Há estranhamento e encantamento ao ouvir os cantos polifônicos, as vozes femininas tem timbres lindos e impressionantes, emociona e hipnotiza, é uma experiência escutá-los, uma viagem, um deslumbramento; a sinceridade, a naturalidade e a entrega dos músicos são surpreendentes. Confira.

07- "Awaken, my Love!" (2016) Childish Gambino
Childish Gambino é o codinome do ator, roteirista, humorista e rapper americano Donald Glover, definitivamente a sua consolidação como músico veio com seu terceiro álbum, "Awaken, my Love!" (2016), um resgate do funk setentista e o soul psicodélico, a aura é sedutora e vibrante, pura nostalgia. Confira.

06- "Fever Ray" (2009) Fever Ray
Fever Ray é o pseudônimo de Karin Elisabeth Dreijer Andersson, vocalista da dupla sueca de música eletrônica "The Knife". "Fever Ray" (2009) é um trabalho solo imperdível, atmosfera enigmática, imaginativa e que une o horror e o encantamento, um projeto eletrônico diferenciado que utiliza o mistério como matéria-prima. Confira.

05- "Deep Cuts" (2003) The Knife
The Knife é um duo sueco de música eletrônica composto pelos irmãos Karin e Olof Dreijer. Eles têm um modo muito particular e suas músicas refletem essa estranheza, "Deep Cuts" (2003) é o segundo álbum e exprime versatilidade no uso de batidas, vozes, sintetizadores, tudo é criativo e surpreendente nas composições. Confira.


04- "Psycho Tropical Berlin" (2013) La Femme
La Femme é uma banda francesa de psych-punk e krautrock - termo utilizado pejorativamente na Alemanha no final da década de 60, onde o bit eletrônico foi inserido na música pop - "Psycho Tropical Berlin" (2013) é um début cheio de energia e originalidade que insere elementos que aparentemente não casam e que nos levam a tempos distintos. Uma mistura inusitada! Confira.

03- "Sketches Of Belonging" (2016) Ana Curcin
Ana Ćurčin é uma cantora e compositora nascida em Bagdá, criada em Moscou e que vive atualmente em Belgrado, Sérvia. "Sketches of Belonging" (2016), seu primeiro álbum combina folk americano, indie rock e uma aura intimista, seu timbre de voz, melodias e letras são agradáveis e dão uma sensação de tranquilidade, foi um maravilhoso achado, que mais pessoas conheçam essa talentosa artista. Confira.

02- "An Awesome Wave" (2012) Alt-J 
Alt-J ( ∆ ) é uma banda britânica de rock alternativo, mas este rótulo é restrito para a sua sonoridade, cada música traz elementos e referências diferentes. O álbum de estreia "An Awesome Wave" (2012) é estimulante e traduz a peculiaridade e inventividade da banda, uma das características mais bonitas é a harmonia vocal e suas letras que aludem a livros e filmes, como "Breezeblocks" ao livro "Onde Vivem os Monstros", "Matilda" baseada na personagem de Natalie Portman do filme "O Profissional", "Fitzpleasure" do livro "Última Saída para o Brooklyn", que conta a história da prostituta Tralala, e por aí vai. Confira.

01- "Shades of Black" (2015) Kovacs
Sharon Kovacs conhecida apenas por Kovacs é uma cantora holandesa de soul e jazz, sua voz é poderosa e remete a Amy Winehouse, seu primeiro álbum "Shades of Black" (2015) é brilhante e apaixonante, as canções transbordam emoção e ela imprime força e identidade. Álbum grandioso! Confira
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