quinta-feira, 27 de abril de 2017

The King and the Clown (Wang-ui Namja)

"The King and the Clown" (2005) dirigido por Lee Jun-ik (Blades of Blood - 2010), um dos maiores sucessos de bilheteria na Coreia do Sul, é um filme elegante, sutil, porém ousado, e claro, belíssimo. Disserta sobre arte, amizade, amor, lealdade, loucura, poder e corrupção mesclando drama, comédia, ação, política e tragédia shakespeariana.
Baseado em fatos reais, a história se passa em plena dinastia Chosun – século 16, onde um grupo de artistas de rua, uma espécie de "trovadores" que conseguem seu sustento entretendo as pessoas. Entre eles há um jovem, Gong Gil (Jun-ki Lee), cujos traços físicos e personalidade são extremamente femininos e por isso é vítima da luxúria de homens com poder. E por esse motivo seu grande amigo e protetor Jang Sang (Kam Woo-Sung), foge com ele para Seul. Ali conhecem mais três palhaços de rua e começam a satirizar o rei, até que um ministro vê e os leva presos ao palácio, sob pena de morte. Entretanto lhes é dado uma oportunidade: se com a sátira que faziam, conseguem fazer o rei sorrir, seriam libertados. Eles conseguem, mas o rei ordena que eles fiquem no palácio, para entretê-lo e cada vez mais o rei vai prestando atenção em Gong Gil.
Gong Gil e Jang-Sang  se conhecem desde crianças, são inseparáveis, existe nesta relação uma afetividade e lealdade ímpar, os dois seguem fazendo números artísticos pelas aldeias, até que resolvem satirizar o rei Yeonsan (Jin-yeong Jeong). Eles criticam a exploração e a corrupção da corte e ao chegar aos ouvidos do rei são sentenciados à morte, mas por sorte aceitam o desafio proposto, apresentar o show ao próprio rei, satirizá-lo e conseguir que ele ria disso. Gong Gil, Jang Sang e mais os três palhaços fazem o que podem, mas só cometem deslizes de tão nervosos, quem salva a pele de todos é o excêntrico Gong Gil, que faz uma piada safada com seu colega e arranca risadas do rei maluco. Livres da morte, mas presos no palácio aos desejos do rei, Gong Gil acaba agradando e se aproximando do rei graças as suas feições femininas e histórias engraçadas. Ele é requisitado todas as noites pelo rei, o que ocasiona ciúmes em Jang Sang, que com o passar dos dias deseja sair de lá. Mas Gong Gil também sente algum afeto pelo rei, um triângulo amoroso se ergue, mas de modo sensível e velado.

A trupe encena todos os podres que acontecem no palácio, assuntos tensos do qual o rei nem sabe, mas que preocupam a corte, são revelações que podem abrir os olhos do rei mimado, então Jang Sang receoso com a situação planeja fugir, só que Gong Gil resiste por sentir pena do rei e agora ter uma vida longe da miséria e violência, isso tudo abala Jang Sang. 
O filme traça a questão política da época magistralmente e traz o teatro como meio de evidenciar toda a mentira vivida dentro do reino e a calamidade em que o povo vivia, as encenações são primorosas, impossível não se encantar com os números. As atuações são sensíveis e gloriosas, a dupla Jun-ki Lee, que vive o andrógino Gong Gil e Kam Woo-sung como o amável Jang Sang passam todo o sentimento de amizade e lealdade com sutilezas e poesia. Destaque também para a forte atuação de Jin-yeong Jeong como o obcecado e louco rei Yeonsan.

"The King and the Clown" é visualmente deslumbrante, o figurino colorido e a ambientação fascinam, além de toda a teatralidade incorporada à história, a arte denunciando as falcatruas, revelando através do falso, a realidade. Uma obra bonita que mistura vários elementos, diverte, emociona, faz refletir e evidencia sentimentos puros com sensibilidade e originalidade. Filmaço!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)

"Manchester à Beira-Mar" (2016) dirigido por Kenneth Lonergan (Margaret - 2011) é um filme cru, tocante, realista e imensamente triste, a sua atmosfera é de puro sofrimento e aflição, não há resoluções fáceis, há que se passar por todo o trajeto de dor para aos poucos tentar sobreviver e se possível se redimir de si mesmo. 
Lee Chandler (Casey Affleck) é uma espécie de faz-tudo do pequeno complexo de apartamentos onde vive, no subúrbio de Boston. Ele passa seus dias tirando neve das portas, consertando vazamentos e fazendo o possível para ignorar a conversa de seus vizinhos. Em suas noites vazias, Lee bebe cerveja no bar local e arruma confusão com qualquer um que lhe lançar um olhar. Quando seu irmão mais velho morre, ele recebe a desagradável surpresa de sua nomeação como tutor de seu sobrinho. De volta à sua cidade natal, ele terá que lidar com memórias queridas e dolorosas.
Lee segue uma rotina solitária, passa os dias consertando coisas para os moradores do prédio onde mora e é porteiro, é imerso numa tristeza e culpa profunda, não tem nenhum tipo de relação, sozinho e dilacerado apenas continua existindo. Até que se vê precisando voltar para Manchester, sua cidade natal, seu irmão morreu e agora tem uma responsabilidade nas mãos, seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges).
A história vai se mostrando aos poucos, alternando momentos do passado e presente fazendo com que sintamos todo o caos que habita o personagem, além de que a fotografia evidencia com cores mais fortes e alegres o passado e o presente com cores mais frias denotando a melancolia e a vastidão interior do protagonista, cuja fisionomia também muda, sem dúvidas, um trabalho extenuante para Casey Affleck. Quando descobrimos a causa de seu sofrimento não tem como não sentir empatia, algo assim pode acontecer a qualquer um, Lee  carrega um trauma gigantesco, e a culpa pelo ocorrido o corrói a cada segundo que passa. 

Lee não gosta da notícia de que seu irmão o deixou como tutor de Patrick, mas com o passar dos dias pensa bem e tenta se aproximar, o garoto não quer deixar a cidade em que vive, mas por outro lado Lee não suporta ficar no local por conta do ocorrido no passado, é desgastante. Lentamente os dois entram num consenso e a relação se modela, com afeto e um respeitando o outro, uma bela atuação de Lucas Hedges, que compõe um adolescente tranquilo que absorve a morte do pai com o silêncio, se desesperando somente por não conseguir enterrá-lo e ter que pensar no pai dentro de um freezer. As situações que acontecem no filme são naturais e passam bastante verdade, uma das cenas mais angustiantes é a tentativa de uma conversa entre Lee e sua ex-mulher, interpretada por Michelle Williams, que aparentemente conseguiu reconstruir sua vida após o acidente.

O clima melancólico predomina, o silêncio diz muito, a tristeza, a culpa, o amadurecimento e o luto são temas abordados com crueza, mas apesar do peso a obra consegue inserir humor, principalmente na relação que se cria entre tio e sobrinho no cotidiano, e ainda consegue passar um fio de esperança; por mais sofrimento que passemos e mudanças internas que sofremos sempre existirá um meio de continuar mesmo que a dor permaneça.
"Manchester à Beira-Mar" é um filme contemplativo, honesto e permeado de sutilezas e camadas em seu roteiro, onde retrata a complexidade de se lidar com traumas e perdas, sofrimento e culpa. Devastador!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Animais Noturnos (Nocturnal Animals)

"Animais Noturnos" (2016) dirigido por Tom Ford (Direito de Amar - 2009), estilista de prestígio e que também vem se consagrando como um grande cineasta, apresenta neste seu segundo trabalho um Thriller intrigante e elegante cuja narrativa nos enreda hipnoticamente, é uma história dentro de outra história, realidade e ficção que se unem e se colidem, uma metalinguagem arrebatadora.
Adaptado do livro "Tony & Susan", de Austin Wright, Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward (Jake Gylenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.
A narrativa é muito eficiente em demarcar as histórias que apresenta, primeiro temos Susan recebendo o manuscrito do ex depois de quase 20 anos sem se falarem, ela é uma mulher de poder, dinheiro, lida com uma galeria de arte, aliás, o prólogo totalmente artístico evidenciando uma de suas exposições é de tirar o fôlego, seu marido vive a viajar, sua vida é um profundo vazio, mas à medida que adentra na história do livro intitulado "Animais Noturnos" de seu ex-marido começa a relembrar e resgatar sentimentos do passado, uma angústia a invade querendo de algum jeito reverter o que aconteceu. Pela imaginação de Susan somos inseridos na trama do livro, que traz a figura de seu ex-marido na pele de Tony Hastings que partindo de carro para uma viagem com sua família é abordado por um grupo de jovens comandado pelo maluco Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson), são momentos muito tensos em que o protagonista se vê impossibilitado de agir e ajudar sua filha e esposa que são sequestradas. O livro é uma dolorosa metáfora do fim do romance entre Edward e Susan, que também acompanhamos em flashbacks, desde o início apaixonados até as desavenças sobre ele não ter ambições e Susan deixá-lo para ficar com seu atual marido.

Jake Gyllenhaal impressiona tanto nos instantes em que o vemos nos flashbacks, um homem calmo, sensível e passivo, tanto como Tony, que também carrega essa personalidade contemplativa, mas o personagem do policial, vivido por Michael Shannon consegue fazer com que ele coloque pra fora toda a raiva e agonia que está vivendo, em vários momentos o vemos descarregando esse desespero, os dois juntos são ótimos, vão atrás dos bandidos por conta própria e agem. 
Amy Adams compõe Susan de maneira sublime, uma mulher de personalidade egoísta que alcançou o sucesso, mas que vive uma grande insatisfação profissional, o vazio está em sua vida pessoal também com a ausência de afeto do marido. Ao receber o manuscrito, um sinal do ex depois de tanto tempo sente que talvez possa consertar as coisas. Há uma profunda reflexão sobre escolhas, Susan relembra todos os seus passos, questiona-se sobre ter escolhido a vida atual, o 'se' e o arrependimento pesa. 

 “Você já teve a impressão de que sua vida tomou um rumo que você jamais planejou?”

Mas mesmo depois de ler o manuscrito e acompanhar todo o processo de Tony/Edward exorcizar a sua dor, Susan pensa que pode encontrá-lo, então marca um encontro por e-mail, coloca seu sedutor vestido verde e vai... Edward sabendo da angústia e solidão em que Susan se encontrava e conhecendo sua personalidade egoísta criou uma expectativa muito grande nela em poder reencontrá-lo. Tudo saiu conforme planejado por Edward. O desfecho é perfeito, um grand finale silencioso, onde Susan é afogada em si mesma, no escuro vazio de si mesma.
"Animais Noturnos" passeia por vários gêneros, romance dramático, suspense violento e Thriller angustiante, além de fazer questão de que nas partes em que Susan lê o livro pareça realmente uma leitura, outro ponto é a beleza dos contrastes estéticos e, claro, a sua narrativa brilhante, instigante e original. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Baskin

"Baskin" (2015) dirigido pelo estreante em longas-metragens Can Evrenol é um filme de horror turco baseado no seu curta homônimo produzido em 2013. O filme possui elementos perturbadores e cenas sangrentas em que o estilo gore predomina, a atmosfera é podre, hipnotizante e a câmera em nenhum momento vacila. É um pesadelo sádico, uma verdadeira descida ao inferno. 
Um grupo de policiais é chamado para atender um pedido de reforço após um jantar, onde já havia acontecido alguns estranhos eventos. Ao chegar ao local, eles se veem em meio a um bizarro e sádico ritual, que se torna literalmente uma viagem ao inferno.
O filme se inicia com um prólogo que mostra um garotinho assustado por ter visto algo sobrenatural, logo somos absorvidos pela trama que coloca alguns policiais num restaurante jogando conversa fora até que numa chamada de reforço um emaranhado pesadelo cheio de criaturas estranhas e rituais satânicos é desencadeado por um acontecimento na estrada.
É preciso ter um pouco de paciência para que a história engrene e nos atormente com tais cenas com teor primitivo, os atores conseguem nos segurar, especialmente Gorkem Kasal como Arda e Ergun Kuyucu como Remzi, que possuem uma sensibilidade extra para captar o sobrenatural. É no terceiro ato que tudo se desenrola, apesar de que nada nos é explicado, as dúvidas permanecem conosco até seu término fazendo que nossa mente entre num processo de dedução, o que seria essa loucura vivida pelos policiais naquele antro maligno? O fato é que o horror entra em cena e não alivia em momento algum, são rituais abomináveis que são conduzidos por uma figura bizarra, protagonizada por Mehmet Cerrahoglu - que possui uma doença rara que lhe deu esta aparência - que domina todo o contexto de forma sinistra e violenta envolvendo mutilações e com uma conotação sexual selvagem.
O filme aborda vários conceitos, como paranormalidade, realidade paralela e hipóteses diversas, como loop temporal, também há simbolismos que passeiam pelo ocultismo e paganismo, os sapos no início, por exemplo, anunciando o mal. Toda a ritualística demoníaca é repulsiva, suja, mas ao mesmo tempo hipnótica.  

Diante do desconhecido os policiais todos cheios de si no início se desmontam e de nada vale a fé que cada um carrega, ali são frágeis e são meras peças para o anfitrião que tem um exército de escravos horripilantes. 
Destaque para a trilha sonora tensa de Ulas Pakkan e a ótima fotografia em tons escuros de azul e vermelho que remetem muito ao cinema de Dario Argento, aliás, as referências são inúmeras, as mais perceptíveis são "Hellraiser" (1987), e quando toca a música "Adulteress Punishment" do polêmico "Holocausto Canibal" (1980), entre tantas outras que os mais apaixonados pelo estilo detectarão.

"Baskin" é um filme que não soluciona nada, as questões ficam pairando no ar, assim como o clima pesado e o cheiro de enxofre, é um gore excelente que traz criaturas horrendas em um ambiente sujo e nojento. O que fica é a sensação de estar dentro de um pesadelo que se repetirá eternamente. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Um Gato de Rua Chamado Bob (A Street Cat Named Bob)

"Um Gato de Rua Chamado Bob" (2016) dirigido por Roger Spottiswoode (Órfãos da Guerra - 2008) é baseado no homônimo best-seller autobiográfico que conta a incrível história de James Bowen, um viciado em drogas em recuperação que é salvo por um gato laranja.
O filme tem uma junção de encantos, a atuação adorável de Luke Treadaway que mostra também seu talento musical, o estilo de filmagem muito natural retratando as ruas de Londres e, claro, o próprio Bob dando o ar de sua graça. São vários elementos que dão um aspecto honesto à trama e que evidencia a relação que se forma entre James e Bob.
A história dessa amizade ficou conhecida mundialmente por conta dos livros e o filme segue bem fiel à narrativa expondo todo o lado da dificuldade de se recomeçar, da rotina de tocar na rua para ganhar algumas moedas para comer e a aparição do gato e o carinho que um deposita no outro para poder seguir os dias.
James Bowen não tem nada, apenas seu violão e a vontade de se desvencilhar do vício em heroína, a relação com a família é complicada, mas após ter a sorte de sobreviver a uma overdose ele é ajudado pela psicóloga Val (Joanne Froggate), que consegue que ele entre no programa de desintoxicação, então James vai para um alojamento sabendo que qualquer deslize o faria morrer, interromper o tratamento seria o fim. Um dia, James escuta um barulho e fica assustado, mas ao entrar na cozinha se depara com um gato laranja remexendo seu cereal, primeiro ele procura saber se o gato tem dono e ao ver que o animal não desgruda dele resolve adotá-lo mesmo com a sua situação precária. Outra pessoa importante para James é Betty (Ruta Gedmintas), que também mora no alojamento, mas por outras questões, a moça excêntrica o auxilia muito e é parte fundamental no começo para que ele fique com o gato, o incentiva a castrá-lo e é ela que lhe dá o nome de Bob, a relação de amizade entre os dois é linda e retrata dois seres humanos carentes que se ajudam independente de qualquer coisa.
As dificuldades são muitas, desde conseguir se manter no tratamento, ir nas sessões com a Val, tocar para poder ganhar algum dinheiro e comer, várias cenas retratam o sofrimento, a fome, a solidão. James é um músico talentoso, porém relegado e à mercê da bondade alheia. O fato é que Bob é um gato muito carinhoso e acostumado às ruas, então começa a seguir James para onde quer que ele vá, como sendo perigoso inicialmente coloca uma coleira para não perdê-lo e o bichano fica quietinho escutando seu dono tocar e observando as pessoas passarem, logo todos se encantam e James consequentemente ganha um pouco mais de dinheiro.

Bob anda de ônibus, vai pelas ruas envolvido no pescoço de James, se acostuma ao afago das pessoas e a rotina ganha mais cor, alegria e amor, os passantes chegam para tirar fotos, acariciá-lo e escutar as canções.
O filme é sincero ao demonstrar o como o amor e a lealdade de um gato laranjinha foi capaz de dar força para James prosseguir no tratamento, ele tinha uma responsabilidade, tinha Bob para cuidar e toda uma vida pela frente. 
Luke Treadaway na pele de James Bowen encarna todos os conflitos para se encontrar em meio à sociedade, impressionante a cena que ele ultrapassa o último estágio do tratamento em que deixa a metadona de lado e passa uma semana dentro de seu quarto se contorcendo de dor. Suas expressões e olhares, todo o seu jeito garantem simpatia ao personagem. Bob é fofo e está super confortável nas cenas, o gato é um animal que não sabe disfarçar e por ter uma personalidade atenta garante bons closes, mas na maior parte do tempo é uma calmaria só.  Aliás, tem muitos momentos que o ângulo da câmera é sob o ponto de vista de Bob, onde mostra tudo de forma grande e confusa.

Para os amantes de gatos é um filme imprescindível, delicioso, leve e realista. O carinho que um animal adotado deposita na pessoa que o resgata é gigantesco, quem tem sabe que é verdade, e o gato por ter uma personalidade mais introspectiva os momentos que demonstra que está grato são bem ternos, ele agradece com os olhinhos piscando lentamente, ou ronrona, há as lambidinhas e mordidinhas, as cabeçadinhas, a amassadinha que dá com suas patinhas, cada um tem a sua particularidade, Bob, por exemplo, se aconchega ao redor do pescoço de James.
"Um Gato de Rua Chamado Bob" é muito bem dirigido e atuado, emociona, diverte, cria empatia e preenche a lacuna que se tem em retratar gatos no cinema, é uma história inspiradora e que esbanja carinho, persistência, gratidão, música, e que ensina a olhar a vida de outras maneiras, pois quando se tem um animal para amar, a retribuição com certeza é garantida.

James Bowen e Bob <3

"Ouvindo seu ronronar suave no escuro, senti-me bem por tê-lo ali. Era uma companhia, eu acho. Não tinha muito disso ultimamente."

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Christine

"Christine" (2016) dirigido por Antônio Campos (Simon Assassino - 2012) é uma cinebiografia interessante e intrigante sobre Christine Chubbuck, uma ambiciosa e talentosa repórter de uma emissora local de televisão que entra em crise por frustrações profissionais e amorosas e toma uma decisão que os telespectadores em Sarasota, Flórida, jamais esquecerão, no dia 15 de julho de 1974, a jornalista cometeu suicídio ao vivo, durante o telejornal que apresentava. Acompanhamos a angústia tomando conta de Christine, vemos uma mulher completamente perturbada e focada em sua profissão, retraída e carente, defini-la é um trabalho árduo e conforme a história avança seu desespero toma proporções insuportáveis. É uma ótima produção, uma biografia curiosa e que causa um grande mal-estar.
É impressionante o como o filme surpreende, pois mesmo sabendo seu desfecho trágico somos absorvidos, a atuação de Rebecca Hall é o motivo de nos sugar para dentro da trama, seus trejeitos e olhares, uma composição de personagem arrebatadora, é preciso enaltecer seu desempenho, está perfeito e gera tensão perante a sua decaída psicológica, sentimos raiva dela em muitos momentos por ser tão neurótica, mas logo percebemos as injustiças e o como a emissora primava pelo sensacionalismo, coisa que Christine repudiava, suas matérias sempre tinham cunho social e não davam audiência, as cenas dela reclamando sobre isso são inúmeras. Ela tentou se comunicar com as pessoas, mas era em vão, ela passava uma imagem de chata e workaholic, sempre centrada não mantinha uma relação amistosa com ninguém, apenas George (Michael C. Hall), o âncora do jornal conseguiu chegar próximo devido a sua paixão platônica por ele, em determinado momento até parece que ele também sente algo a mais por ela, só que depois se vê que era preocupação, ele a enxergava e notava que não estava bem e cada vez se afundando mais e mais em suas neuroses.
Christine tinha uma personalidade complexa, era introspectiva, reprimida sexualmente, tinha problemas com a mãe, perfeccionista no trabalho, uma figura forte e ao mesmo tempo debilitada emocionalmente, vivia frustrada. O filme expõe toda essa fragilidade emocional de Christine de maneira sincera e crua, não há um pingo de sensacionalismo, o que o torna uma obra séria e coerente com toda a história de Christine.

A cena do suicídio é brusca, retratada de um jeito que causa desconforto, momentos antes na sala do diretor ela disse que aceitava os termos para poder apresentar o telejornal, ali evidenciava a desistência de si mesma, ela arquitetou tudo. Foi durante uma notícia a respeito de um tiroteio que havia acontecido em um restaurante da cidade no dia anterior, a fita com a filmagem emperra e a apresentadora diz algumas palavras para o público sobre gostarem de notícias violentas e sangrentas, e então fala: "Vocês estão prestes a ver a primeira tentativa de suicídio ao vivo e a cores". Em seguida, Christine pegou o revólver e atirou atrás de sua orelha direita. A apresentadora caiu violentamente sobre a mesa e a emissora saiu do ar colocando um filme logo após, ela chegou a ser levada para o hospital da cidade, mas foi declarada morta.
"Christine" é um filme que perturba e deixa um silêncio ao final, e tudo isso graças ao primor da direção de Antônio Campos e da atuação impecável de Rebecca Hall.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Moonlight

"Moonlight" (2016) dirigido por Barry Jenkins (Medicine for Melancholy - 2008) é um filme delicado, sensível e exuberante. Um maravilhoso trabalho de transferência de uma fase para outra dos atores Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, nota-se o olhar de tristeza e solidão, eles se entregam e conseguem passar toda a dor, a ausência e a inadaptação.
Acompanhamos uma interessante história de busca de identidade, é um assunto sério, pois se trata da realidade. A jornada de Chiron não é fácil, ele precisa lidar com inúmeros obstáculos, em sua infância chamado de "Little" sofre bullying e vive num ambiente caótico com sua mãe drogada, em uma de suas fugas numa boca de fumo conhece Juan (Mahershala Ali), o traficante do bairro. Junto com sua esposa Teresa (Janelle Monáe), Juan tenta tirar algumas palavras do menino, logo descobre que a mãe compra drogas dos funcionários dele e que Chiron sofre com perseguições dos meninos na escola porque é considerado sensível. É com muita paciência e carinho que se forma uma relação entre os três, é somente na casa de Juan que ele se sente um pouco protegido, é lá que sempre se refugia. Há alguns diálogos nesta parte bastante marcantes e cortantes, por exemplo, quando "Little" pergunta o que é ser "bicha" e também quando pergunta se sua mãe compra drogas dele. 
Na segunda fase temos um jovem Chiron cismado, ainda mais calado e que tem apenas Kevin (Jharrel Jerome) como amigo, os problemas com a mãe continuam e passa a maior parte do tempo na casa de Teresa, descobrimos que Juan morreu há alguns anos. Kevin e Chiron cada vez mais próximos conversam e numa noite de luar na praia descobrem e despertam juntos para a sexualidade, uma bela cena que evidencia toda a dificuldade de ser quem se é. Na escola continua sofrendo bullying e sofrendo violência física, porém desta vez ele revida, se vinga quebrando uma cadeira nas costas do valentão, uma cena que gera uma sensação de alívio para o espectador, toda a raiva expelida, todo aquele silêncio dele jogado pra fora, mas, infelizmente, acabou se afundando ainda mais naquele mundo sem perspectivas, é expulso da escola e mandado para um reformatório.

Na terceira fase vemos Chiron adulto, conhecido como Black, fisicamente está diferente, malhado, cheio de correntes, dentes de ouro, carrega o estereótipo perfeito de traficante bem-sucedido, mas por trás dessa casca ainda há o sensível e silencioso Chiron, ele reencontra Kevin, vivido nesta fase por André Holland, que também esteve preso, mas agora está empenhado em fazer dar certo seu pequeno restaurante, então convida Chiron para conhecer o local, é uma noite cheia de lembranças e que permite reavivar sentimentos, uma oportunidade de vivenciar o afeto que um nutre pelo outro.
"Moonlight" é uma obra poética e melancólica ao retratar a descoberta de identidade do protagonista, causa empatia e sentimos toda a sua carência, a sua dor, nas três fases a aura silenciosa e angustiante predomina, tudo é natural e realista.

Passeia por alguns temas sociais bastante pertinentes, um garoto negro crescendo em uma comunidade pobre e que se descobre gay, passa por muitas dificuldades, como abandono, o vício em drogas da mãe, o bullying, o tráfico dominante, a violência, a falta de perspectiva, o desejo reprimido. É um retrato bem íntimo e sutil que prima por silêncios, as cores em tons de azul e preto destacam ainda mais a intensidade da história, com certeza um filme triste, mas imensamente bonito e merecedor de todos os prêmios.

"Sob a luz do luar, garotos negros ficam azuis."

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Toni Erdmann

 
"Toni Erdmann" (2016) dirigido por Maren Ade (Todos os Outros - 2009) é um filme de diversas camadas psicológicas, o que parece ser apenas sobre a reconexão entre pai e filha, uma espécie de redenção, na verdade, trata de tantas outras coisas cotidianas, tristezas, além de pensamentos sobre a vida, há muitas abordagens e é preciso estar atento para se dar conta delas, as situações e as decisões dos personagens acontecem do nada e também vão para o nada.
Winfried (Peter Simonischek) é um senhor que gosta de levar a vida com bom humor, fazendo brincadeiras que proporcionem o riso nas pessoas. Seu jeito extrovertido fez com que se afastasse de sua filha, Ines (Sandra Hüller), sempre sisuda e extremamente dedicada ao trabalho. Percebendo o afastamento, Winfried decide visitar a filha na cidade em que ela mora, Bucareste. A iniciativa não dá certo, resultando em vários enfrentamentos entre pai e filha, o que faz com que ele volte para casa. Tempos depois, Winfried ressurge na vida de Ines sob o alter ego de Toni Erdmann, especialista em contar mentiras bem-intencionadas a todos que ela conhece.
Winfried é um homem que gosta de fazer graça, é a sua maneira de escapar da dura realidade, do caos interno que o devora, ele é professor de música e no início o vemos fantasiado de zumbi cantando com crianças, ele encontra a filha na casa da ex-mulher, aparentemente uma relação amistosa, o conflito está mais na relação com a filha, um ser humano que parece não ter sentimentos, ela é totalmente focada no trabalho, afogada pela competição e a pressão de vencer. Atualmente vive na Romênia e tem uma relação absurdamente distante da família. Isso tudo muda após Winfried perder seu cão, então ele decide viajar até onde está sua filha e tentar uma reconexão.
É um drama disfarçado de comédia, o humor acompanha basicamente toda a trama e traz uma sensação de constrangimento à medida que Toni Erdmann entra em cena e começa a seguir sua filha e mentir sobre sua vida à inúmeras pessoas. É engraçado que em nenhum momento acredita-se nas bobagens ditas por aquele ser que usa uma peruca e uma dentadura escrota, ele incomoda e é de propósito, talvez, para dar um pouco de humanidade a todo o contexto de competição, dinheiro e poder em que a filha está inserida. O que faz deste filme algo original é a maneira com que as situações se desenrolam, o como este personagem surreal se encaixa na realidade da filha, desconcertando todos ao redor com suas piadas e mentiras.

É deveras impressionante a qualidade da narrativa que se desenvolve praticamente aleatoriamente com suas estranhas e constrangedoras situações, o como o realismo se encaixa no contexto de devaneio dominado pela figura de Toni Erdmann, e também a relação que temos com os personagens no decorrer, a percepção muda praticamente a cada cena, ora sentimos tristeza, vergonha alheia, raiva e empatia, certamente uma obra complexa que trabalha com camadas, são muitos os temas abordados, em cada momento retratado há uma gama de ideias.
"Toni Erdmann" é um grande filme que passeia pelo existencialismo, sobre o que é estar vivo e para quê, para exemplificar essas questões carrega uma infinidade de cenas peculiares, o humor funciona como válvula de escape para o personagem e também para colidir com o mundo cheio de regras e, principalmente, hipócrita e injusto que a sua filha habita.

A desconstrução dos personagens acontece aos poucos, mas o momento crucial é na festa que Ines dá em sua casa com o dilema de fechar o vestido sozinha e logo depois o tirar e decidir que só entra quem estiver pelado, uma cena repleta de significados e que demonstra a ruptura, a remoção da casca dura de Ines para enxergar seu pai, que se dá curiosamente quando está completamente fantasiado de um gigante todo peludo. É um indício para um recomeço com certeza mais leve e um resgate de sentimentos e valores.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Angústia Alemã (German Angst)

Três contos repletos de amor, sexo e morte em Berlim, surgidos das mentes de três dos mais chocantes diretores alemães de todos os tempos: Andreas Marschall (Máscaras - 2011), Jörg Buttgereit (Schramm - 1994) e Michal Kosakowski (Zero Killed - 2012).
"Angústia Alemã" é um filme diferenciado dentro do segmento terror/horror, ele carrega uma solidez impecável e desagradável conversando com a identidade do país, sobra desconforto ao visualizar cenas de violência.
O primeiro é do notável Jörg Buttgereit, o conto se chama "Final Girl" e acompanha minuciosamente uma adolescente psicopata, sem diálogos a câmera é muito curiosa e minimalista, envolve automutilação e tortura de maneira bem desconectada, mas explícita e com um clima pesado, este é o segmento mais simples dos três e contém uma extrema frieza.
O segundo pertence a Michal Kosakowski, chama-se "Make a Wish", é sobre um casal de surdos que entram num prédio abandonado num canto sombrio de Berlim e encontram uma galera, uma espécie de neo-nazistas que começam a fazer joguinhos sádicos com os dois, paralelamente narra uma fábula sobre um amuleto que é capaz de trocar a alma das pessoas, no passado foi usado por uma menina polaca, agora este amuleto está nas mãos da moça que espancada vê seu namorado sofrer inúmeras torturas, sem dúvidas, este é o segmento mais poderoso em questão de reflexão, traz uma abordagem política e disserta sobre preconceito, o ar é carregado e possui um ranço que não se dissipa depois de visto. Destaque para um perturbador discurso que é proferido lá pelo final, realmente este conto faz jus ao título do longa. 
O último da trinca é "Alraune", de Andreas Marschall, onde um homem é sugado para dentro de uma sociedade secreta de fetiche que promete o melhor sexo de sua vida – através da magia da planta Mandrágora. Mas a experiência transgressora tem efeitos colaterais horríveis: ele é confrontado com uma manifestação monstruosa e mortal de suas próprias obsessões sexuais. Uma história que retrata o percurso sombrio do desejo humano, a fascinação pelo desconhecido, a libido desenfreada com um clima sexy e sombrio, o título significa mandrágora em alemão à qual atribuem a uma série de lendas e forte conotação sexual. 

"Final Girl"
"Make a Wish"
"Alraune"
"Angústia Alemã" é uma antologia de terror repleta de violência, dor, prazer e que faz jus ao título. Particularmente, o segundo segmento "Make a Wish" é o que mais senti incômodo, é visceral e traz toda a questão do nazismo, uma ferida ainda não cicatrizada no país. O terceiro, "Alraune" também é ótimo por misturar sexo, obsessão, delírios e mística. 
É uma boa dica para quem curte o estilo e também para prestigiar esses três poderosos e polêmicos diretores.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Traidor (Gansin)

"O Traidor" (2015) dirigido por Min Kyu-Dong é um épico erótico coreano estonteante que passeia por temas interessantes e complexos, uma trama que traz política, loucura, prazer e vingança. 
No início do século XVI, a Coreia está sob o domínio do rei Yeonsan (Kim Kang-woo), um déspota psicótico e manipulado que por pura crueldade mata os responsáveis pela morte de sua mãe. Ele aponta seu velho amigo Im Soong-Jae (Ju Ji-Hun) e seu pai para a posição de detentor. Eles são, então, pedidos para reunir belas mulheres de todas as partes do país para o prazer de Yeonsan. Mulheres são levadas independentemente do seu estado civil ou classe social, o que provoca uma revolta generalizada. Dan-Hee (Lim Ji Yeon) é uma mulher bonita, mas ela é uma açougueira de classe mais baixa. Ela salva Im Soong-Jae do perigo e, em seguida, pede-lhe para levá-la para o palácio. Im Soong-Jae recusa por suas próprias razões pessoais. No entanto, Dan-Hee logo entra no palácio. Im Soong-Jae se torna conflituoso e o rei cobiça a bela Dan-Hee.
Segue-se uma série extenuante de testes e competições entre as milhares de concubinas, tudo para que a ganhadora seja a melhor amante, são sequências bizarras onde as escravas sexuais fortalecem suas vaginas, ensaiam posições, comem comidas exóticas, etc. Enquanto isso algumas articulações são planejadas no reino, duas meninas são favoritas, Dan-Hee, a selvagem açougueira que guarda alguns segredos e Seol Joong-Mae (Lee Yoo-young).
Im Soong-Jae se apaixona por Dan-Hee e então ele começa a pensar e muda toda a sua maneira de agir, mas a garota tem outros interesses, planeja e aguarda seu momento com paciência. O filme contém cenas deslumbrantes e quebra todos os tabus sexuais, a perversão do rei é impressionante, aliás, Kim Kang-woo o interpreta com todo o extremismo necessário, debochado, violento e ao mesmo tempo com um quê de melancolia. 
A luxúria e a perversidade estão muito presentes, mas o fato de ter um pano de fundo histórico acrescenta um maior peso ao filme, toda a questão política está envolvida, a corrupção em todos os níveis possíveis.

Esteticamente é deslumbrante, são quadros perfeitos, coloridos e atraentes, as cenas em que Dan-Hee dança com a espada são excepcionais. Várias tomadas ganham nossa atenção pelo visual, porém a narrativa por vezes tumultuada não deixa a desejar e cria situações cada vez mais insanas com cada personagem tendo seus próprios motivos.
"O Traidor" é extravagante, passeia por vários gêneros e cria-se um cenário caótico de prazer e loucura sem nenhum tipo de pudor, é depravado e terrível, além de carregar uma gama de questões políticas e morais. Filmaço!

terça-feira, 28 de março de 2017

Us (Vi)

"Us" (2013) é um drama sueco dirigido por Mani Maserrat Agah que retrata com maestria um claro exemplo de relacionamento abusivo, a anulação da mulher diante de um homem passivo-agressivo; expõe o como é tênue a linha que separa o amor da possessividade e todo o estrago psicológico que esse tipo de relação causa.  
Ida (Anna Astrom) é a nova professora da escola onde Krister (Gustaf Skarsgård) trabalha, logo que entra na sala de professores ela chama sua atenção, quando Ida tem dificuldade em controlar seus alunos adolescentes Krister entra em cena e coloca ordem, é o início de um tórrido romance.  Os dois embriagados de paixão decidem morar juntos mesmo sem se conhecerem muito bem, mas Krister dá segurança e amor para Ida, que aparentemente é mais frágil e insegura. Algumas situações embaraçosas começam a aparecer e depois que Ida sai com Linda (Rebecca Ferguson) e passa a noite bebendo, as coisas começam a desmoronar, porém Krister exibe uma faceta preocupada e diz que Linda não é o tipo de amizade certa para Ida, daí pra frente tudo piora e vira um inferno, ao mesmo tempo que são loucos de amor se sufocam nesta luta de poder um sobre o outro.
Krister é sério e mantém uma postura de protetor, Ida é linda, jovem e repleta de oportunidades, mas a sua insegurança acaba deixando que a pressão psicológica que ele faz a domine, a moça se torna completamente infantilizada, se torna confusa não sabendo seu lugar na relação. É o tempo todo Krister tendo ataques de ciúmes, dizendo que isso ou aquilo não serve para ela e Ida se deixando consumir pelo fato de amá-lo. É impressionante o tanto que se pede perdão entre eles. Angustiante observar a construção de um relacionamento abusivo, o elogio camuflado, as atitudes "amáveis" que acabam direcionando o outro a fazer escolhas conforme o desejo do parceiro, tudo em "prol" da relação, deixar de ver amigos porque não prestam, e daí para a anulação é apenas um passo. Ida se transforma conforme a manipulação psicológica aumenta, ela se anula e entra num processo de caos interno.
O roteiro é incrível e nos faz mergulhar nesta intensa relação, há cenas visualmente muito bonitas, as de sexo no início do longa, por exemplo. Os atores se entregam e passam toda a verossimilhança necessária, Gustaf Skarsgård (o Flóki, de Vikings), incorpora exatamente a personalidade de um passivo-agressivo, suas reações, olhares, comportamento e diálogos exprimem com perfeição. 

Anna Astrom dá vida a uma moça doce que tem tudo para ter um futuro promissor, machuca ver ela se encolhendo diante a tanto sofrimento impingido, ela vai aceitando tudo por causa do amor, mas chega um momento que não aguenta mais, não tem como suportar e então uma atitude precisa ser tomada.
"Us" é um longa que incomoda e traz um tema pertinente que demonstra com toda a eficácia o que é um relacionamento abusivo. A pessoa que está vivenciando esse tipo de relacionamento quase nunca percebe que está dentro de um, pois crê que está retribuindo amor cedendo as vontades do parceiro. Cria-se uma dependência extrema, por isso é tão difícil identificar e tão mais complicado sair. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Virgem Juramentada (Vergine Giurata)

"Virgem Juramentada" (2015) dirigido pela estreante Laura Bispuri traz à tona um tema interessante e curioso, estrelado magistralmente pela italiana Alba Rohrwacher (Corações Famintos - 2014), acompanhamos uma história calcada numa tradição albanesa que de acordo com as regras do Kanun - um código de conduta que foi passado verbalmente entre os clãs do norte da Albânia durante mais de cinco séculos - a personagem promete a virgindade eterna e se transforma num homem para garantir mais direitos e mais liberdade em sua aldeia. Só que anos mais tarde confusa com a sua sexualidade decide partir para Milão e se lançar às redescobertas de si mesma.
Hana é uma órfã que foi encontrada e adotada por uma família nas montanhas albanesas, ao crescer ela sente a rigidez desses códigos patriarcais, não se encaixa no contexto e deseja ter mais liberdade, então para poder caçar, beber, fumar, conversar em público, coisas consideradas masculinas toma a decisão de se tornar uma burnesha, diante de alguns homens mais velhos acontece o ritual, Hana corta seus cabelos, coloca suas vestes masculinas, recebe seu rifle e se batiza de Mark. Ela vive mais de 10 anos em plena solidão nas montanhas, rejeitando toda forma de amor. Mas algo ainda irá despertar sua vontade de mudar de vida.
Pode parecer absurdo, mas foi uma necessidade social, a localidade foi assolada pela guerra e muitas mulheres tiveram que tomar a frente para sobreviver e como elas não tinham direito algum recorriam ao Kanun, em outros casos para não serem obrigadas a se casarem escolhiam essa alternativa, que se trata de um conjunto de códigos determinados e que nada tem a ver com religião.  
A trama começa de fato quando Hana vai embora e se encontra com Lila (Flonja Kodheli), sua irmã, que fugiu para se casar com o homem que amava, o encontro se dá de maneira silenciosa e a protagonista vai ganhando profundidade à medida que a descobrimos, o desenvolvimento do filme ajuda neste ponto, pois se alterna entre presente e passado vagarosamente, colocando em evidência os contrastes entre o mundo moderno e o arcaico. A interpretação de Alba é melancólica e silenciosa, sua postura corporal arqueada traduz seu deslocamento, está magnífica em cena e tem o poder de nos fazer imergir em seu drama.

A chegada de Hana/Mark à casa da irmã não é bem vista por Jonida (Emily Ferratello), a filha adolescente, que é totalmente solta em dizer o que pensa e confrontar os pais, eles dizem que Mark é um primo distante, mas a garota começa a questionar e é ela que a ajuda nesta jornada de descobertas sexuais, diariamente Hana acompanha Jonida aos treinos de nado sincronizado, o que a possibilita observar as variedades de corpos e se permitir a se olhar e a desejar. São momentos importantes para a desconstrução da personagem, a menina dá acesso para que Hana se abra para si e para o mundo.

"- Uma vez me disseram que somos mais livres do que pensamos.
- Livres de quê?
- Livres de sermos forçadas a fazer algo."

O filme é contemplativo, rico em detalhes e é neles que contém as maiores belezas, a redescoberta da protagonista é lenta e com a alternância de passado e presente compreendemos totalmente essa confusão vivida por Hana.
"Virgem Juramentada" é um filme interessante que traz questionamentos sobre gêneros, desconstrução e construção de identidade e evidencia uma tradição que está morrendo, hoje em dia existem cerca de 40 burneshas na Albânia.

terça-feira, 21 de março de 2017

O Apartamento (Forushande)

"O Apartamento" (2016) dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (A Separação - 2011, O Passado - 2013) é um filme que aborda com sensibilidade e também firmeza aspectos culturais e sociais do Irã, mas sem deixar de imprimir um olhar universal. 
Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam para um novo apartamento no centro de Teerã, devido a trabalhos perigosos em um prédio vizinho. Mas, um incidente ligado ao anterior inquilino vai mudar drasticamente a vida do jovem casal.
Emad é professor de literatura e também ator de teatro, atualmente ensaia junto de sua esposa, Rana, a peça "A Morte do Caixeiro Viajante", de Arthur Miller. As cenas do filme se mesclam com as do teatro no desenrolar e forma uma interessante intertextualidade, o fato é que Rana e Emad precisam se mudar, pois o prédio em que moram está prestes a desabar - uma metáfora para o que está por vir - com ajuda de um amigo encontram um apartamento, mas a antiga moradora deixou todas as suas coisas lá e muitas perguntas, o casal arruma o local e se estabelece até que um dia Rana deixa a porta aberta e é atacada por um estranho enquanto tomava banho, os vizinhos a socorrem e daí para frente dilemas morais entram em pauta, Emad se preocupa em saber quem é que cometeu o crime e o filme ganha contornos de suspense e uma grande tensão se instaura. Rana está completamente traumatizada e não consegue falar sobre o ocorrido, perceba que em nenhum momento a palavra estupro é mencionada, além de que Emad decide fazer justiça à sua honra, ou seja, a mulher em pedaços e que sofre em silêncio e é o marido, que sem nem sequer saber da amplitude do ato criminoso cometido contra ela e que fortalece a decisão de não dar queixa, se impõe e quer vingança. Uma ação egoísta e insensível, uma complexidade de sentimentos invade a tela e são os olhares que dizem a maior parte das coisas. 
Taraneh e Shahab interpretam de maneira naturalista e fazem com que penetremos na história, sentimos a dor de Rana e ao longo dos acontecimentos um grande mal-estar toma conta. Apesar de colocar em evidência aspectos culturais e sociais fortes do Irã, principalmente, no que concerne à religião, é absolutamente universal, pois muitas mulheres sentem medo, vergonha e até culpa em denunciar, o machismo está entranhado em todas as culturas, e em países como o Irã é ainda pior e devastador, por isso obras como esta são essenciais para refletir e quebrar paradigmas antigos.

As reações de Emad diante ao acontecido muda o como Rana o enxergava, de repente, ela não encontra mais seu marido amoroso, mas um homem perdido, sem saber como agir com ela e apenas preocupado com o julgamento das pessoas. Por conta da cultura, por exemplo, denunciar à polícia seria uma vergonha, agora enfrentar e expor o agressor diante a sua família seria um ato honroso, mas dá-se um emaranhado de situações que geram decisões espinhosas e tensas. 
Asghar Farhadi é mestre em elaborar histórias de conflitos de relação, ele tem um olhar apurado e promove reflexões contundentes de modo sutil, é realista e por isso impressiona.

O filme é fluído e muito desconcertante, especialmente em seu arco final, os olhares e mais ainda o silêncio fazem parte desta instigante história.
"O Apartamento" é uma obra que evidencia o ruir de um relacionamento, sentimentos confusos, decisões e suas consequências; o machismo, a insensibilidade e as hipocrisias. Não é fácil ser mulher no Irã, ou em qualquer outro ponto do mundo, como exposto no filme a mulher que sofre a violência sempre fica em segundo plano e praticamente encurralada.

sábado, 18 de março de 2017

Tokyo Fiancée

"Tudo que a gente ama vira ficção."

"Tokyo Fiancée" (2014) dirigido por Stefan Liberski é uma adaptação do romance "Ni d'Ève ni d'Adam" de Amélie Nothomb, acompanhamos a trajetória de uma personagem encantada pelo Japão, cheia de expectativas ela ruma para o país e está decidida a se tornar parte de lá, tudo é muito mágico, mas conforme vive o seu dia a dia e por conta de aspectos culturais a realidade vem à tona, a viagem a torna mais madura e percebe que nem tudo é como criou em sua mente.
Amélie (Pauline Etienne) nasceu no Japão e aos cinco anos mudou-se para a Bélgica, suas lembranças são recheadas de fantasia e acredita que seu lugar é lá, sonhadora e apaixonada retorna à Tóquio a fim de se tornar uma verdadeira japonesa. Decide dar aulas de francês para ganhar algum dinheiro e consegue somente um aluno, Rinri (Taichi Inoue), com quem inicia um romance. Um conto encantador sobre amor, ternura e descobertas culturais.
Rinri é apaixonado pela França e até tem um grupo de meninos dedicados ao estudo da língua e cultura, Amélie descobre isso muito tempo depois, engraçado ela imaginar que Rinri faz parte da Yakuza, o choque cultural é bem grande, mas os jovens se apaixonam e levam a relação com muita naturalidade e espontaneidade, são momentos delicados e doces, Rinri apresenta alguns traços da cultura tanto tradicional, quanto moderna e até bizarras do Japão, aliás, é de encher os olhos todos os lugares por quais passam. Após a relação ganhar contornos de namoro tudo começa a se transformar na mente de Amélie, enquanto Rinri a apresenta para sua família, lhe presenteia com joias e a pede em casamento, ela apenas quer viver sem amarras e então cai a ficha de que nunca será de fato uma japonesa.
Os dois se apaixonam, são encantados um pela cultura do outro, portanto, usam isso para entender melhor a diversidade cultural, no caso de Rinri nem tanto, até porque ela é belga e não francesa, há uma estranha e engraçada situação em que Rinri prepara um jantar em que estão todos os seus amigos da sociedade secreta francófona e Amélie entende que está assumindo o papel de gueixa ali, onde precisa entreter enquanto todos comem, então, ela disserta sobre os tipos de cervejas belgas que existem.

Destaque para as cenas em que Rinri aprende francês com Amélie e sua obsessão em pedir desculpas a cada erro, realmente à medida que se tornam mais íntimos fica evidente a distância que há entre os mundos de cada um, interessantíssimo observar e poder viajar nesta questão, a ideia que ela tinha sobre o Japão e toda a magia acaba se desfazendo quando sozinha percorre um caminho tortuoso para subir ao Monte Fuji. Logo depois o Japão é assolado pelo terremoto que atingiu terrivelmente Fukushima, Rinri pede que ela vá embora, em um dos diálogos alguém diz que somente os japoneses têm que lidar com tal situação, é uma coisa entre eles, e assim sem ferir sentimentos Amélie parte. 

"Aprendi que eu precisava me tornar todas as pessoas que eu era e todas que ainda não havia encontrado. Aprendi que eu era tão grande quanto a vida."

"Tokyo Fiancée" é um filme agridoce que passeia por vários gêneros e ganha pela naturalidade com que o romance é desenvolvido, mostra as expectativas fantasiosas quebradas quando de fato se vive no país e a beleza da diversidade cultural, que é singelamente exposta.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Depois da Tempestade (Umi Yori Mo Mada Fukaku)

"Depois da Tempestade" (2016) dirigido pelo mestre Hirokazu Koreeda (Nossa Irmã Mais Nova - 2015) é mais uma amostra da simplicidade, delicadeza e realismo do cineasta em colocar ênfase no cotidiano dos conflitos familiares. A história gira em torno das dificuldades de uma família que enfrenta morte, separação, vício, problemas financeiros, mas sem nunca perderem o bom humor e a esperança de reconciliação.
Ryota (Hiroshi Abe), no passado um autor premiado, desperdiça o dinheiro que faz como detetive particular em jogos de apostas e mal consegue pagar a pensão alimentícia ao filho. Após a morte de seu pai, vê sua mãe idosa (Kirin Kiki) e sua bela ex-mulher (Yoko Maki) seguindo em frente com suas vidas. Tentando se reconectar com a família, Ryota luta para retomar o controle de sua existência e para encontrar um lugar duradouro na vida do filho - até que uma noite de verão tempestuoso lhes oferece a oportunidade de realmente conectarem-se novamente.
A trama se passa em alguns poucos dias que precedem a chegada de um tufão à costa japonesa, Ryota aparece para visitar a mãe e tentar reconquistar a sua família, ele é um homem inteligente, mas, que aparentemente, herdado de seu pai o vício em jogos, o deixou afundado em dívidas, o pouco que ganha como detetive particular não garante nem a pensão do pequeno filho, o que o faz vê-lo pouco. Acompanhamos o dia a dia de mãe e filho e as várias tentativas de reconciliação com a rígida ex-mulher. Yoshiko encara a morte do marido com bom humor e abraça a última fase de sua vida, com o retorno do filho, ela consequentemente se lembra de seu marido que não era muito confiável. Ela é dona das cenas mais lindas e dos diálogos mais primorosos do longa, tem um sentido de praticidade e carrega uma desesperança bem-humorada. Atuação magistral de Kirin Kiki.
O desenvolvimento do filme é suave, não há melodramas apesar da tristeza, é a vida real retratada, com as suas dificuldades em lidar com o outro, nos obstáculos financeiros, no desenvolvimento como ser humano. Tudo é mostrado com total naturalidade, os diálogos passeiam por sutilezas, os gestos são contidos, mas os olhares são carregados de emoção. Yoshiko sente descontentamento pelas irresponsabilidades do filho, mas nunca deixa isso afetar o seu amor e a vontade de reconectar a família. Os valores importantes que Yoshiko preza fazem parte da tradição japonesa, mas que estão rompidos pela contemporaneidade e toda a influência que a globalização exerce sobre a identidade dos mais jovens. Yoshiko tem o hábito de observar a vida e diz muitas frases poéticas que na visão do filho são efeitos da velhice, então percebe-se o porquê não escreveu mais nada, Ryota não consegue mais prestar atenção nos detalhes, está tomado pelo desespero, pelo vício em jogos e por se aproximar de seu filho e reconquistar a sua ex-mulher.

A simplicidade de "Depois da Tempestade" é encantadora e causa um misto de melancolia e otimismo, isso é porque justamente retrata a vida, seus personagens são passíveis de erros, Ryota causa empatia por estar numa situação que qualquer um pode passar, seus sonhos estão quebrados, há um caos em seu interior, mas como o próprio título salienta, depois de uma tormenta sempre vem a calmaria para poder repensar e seguir em frente. 
A profundidade do filme está nas pequenas ações, em olhares e diálogos aqui ou acolá, Yoshiko é dona dos melhores, em uma das conversas que tem com o filho pergunta de que maneira prefere que ela morra, ou quando em frases soltas diz para ele enquanto mexe nas cinzas do incenso que precisa lidar com as pessoas enquanto vivas, são momentos cheios de significados e de uma intimidade delicada.

"Eu me pergunto porque os homens não conseguem amar o presente. Ou eles continuam perseguindo o que já perderam, ou continuam sonhando além do seu alcance."

"Depois da Tempestade" reflete o cotidiano das relações familiares com um humor sutil, tem uma trilha sonora interessante que dá um tom divertido, e brilhantes e sensíveis interpretações em que se destaca, especialmente, Kirin Kiki (Sabor da Vida - 2016).
Hirokazu Koreeda com simplicidade consegue incutir em seus filmes reflexões profundas acerca da vida, são obras realistas que expõem dramas cotidianos com melancolia e grande beleza, capazes de proporcionar ao espectador emoções e pensamentos engrandecedores.
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