sexta-feira, 23 de junho de 2017

Nine Lives - Cats in Istambul (Kedi)

"Em Istambul, gatos são mais do que apenas gatos. Eles personificam o caos, a cultura, a singularidade essencial de Istambul. Sem o gato, a cidade perderia parte da alma. E não há nada igual no mundo."

"Kedi" (2016) dirigido pela turca Ceyda Torun é um documentário mágico e fascinante, principalmente aos que amam gatos. Mas Kedi não é um documentário sobre gatos de casa ou os gatos vadios que você ocasionalmente vê no seu quintal. Kedi é um filme sobre milhares de gatos que percorreram a metrópole de Istambul livremente por milhares de anos, vagando dentro ou/e fora das vidas das pessoas, as impactando de muitas formas, um animal que vive entre o mundo da vida selvagem e o domesticado. Os gatos e seus gatinhos trazem alegria e propósito para aqueles que os escolhem, dando às pessoas uma oportunidade para refletir sobre a vida e seu lugar nela, especialmente em Istambul, onde os gatos são os espelhos para seus habitantes.
Encantador observar o como a cidade se relaciona com os gatos, é algo cultural, característico de Istambul, eles andam livremente pelas ruas, descansam em cafés, barracas e a maioria da população foi tocada de alguma maneira por esses bichanos, a alegria de contar as peripécias, os apelidos que lhes dão, impressionante e emocionante ver o como as pessoas zelam e os respeitam. Há um mistério envolvendo a cidade e os gatos, a predominância da cultura muçulmana e seu respeito pelos felinos é um fator, os gatos são admirados e reverenciados por sua limpeza, e têm permissão para entrar em mesquitas. Acredita-se que um muçulmano que faz mal para os gatos será gravemente punido na vida após a morte. Outra explicação seria que Istambul foi um dos principais portos da região, tanto nos navios que ali chegaram quanto, mais tarde, durante a expansão da cidade com os otomanos e a construção dos primeiros sistemas de esgoto, os gatos mostraram seu valor no controle de roedores e ganharam terreno no coração dos moradores de Istambul. O elo é forte e todo o sentimento é retratado perfeitamente no documentário.
Gatos são animais incríveis, dotados de personalidade, cada gato tem a sua, por exemplo, somos apresentados a sete gatos, a caçadora, a amante, a psicopata, o sociável, a ladra, o cavalheiro e o jogador, todos eles exibem suas características únicas que faz com que as pessoas ao redor os admirem e os respeitem, há um enorme sentimento de proteção em torno deles e por isso são tão livres e despachados. Os gatos têm seu lugar em Istambul, eles fazem parte do cenário e da identidade do lugar. 

A cada cena e história contada compreendemos a relação da população com os gatos, as calçadas com casinhas, água e comida, pessoas que se dispõem a andar pelas ruas os alimentando, pescadores, feirantes, donos de cafés e restaurantes, artistas revelando o poder de mudança em suas vidas quando se respeita e se dedica a esses seres que precisam tanto, porque mesmo que tenha essa aura linda em torno da cidade e os gatos existem inúmeros problemas, novas construções, ruas perigosas, uma infinidade de coisas que abrangem grandes metrópoles. 

"Um gato miando no seu pé e olhando para você é a vida sorrindo para você. É nesses momentos que temos sorte, pois eles nos lembram de que estamos vivos."

"Kedi" é um mimo para os que amam esses bichanos, emociona, diverte e também nos faz refletir, estamos todos juntos, coexistindo e ocupando o mesmo espaço, por isso respeitá-los e ajudá-los é o mínimo que podemos fazer, quantas pessoas não enxergam ou até maltratam, os colocam numa categoria inferior, mas a verdade é que quando convivemos juntos tudo muda, a relação de carinho com o gato é uma experiência gratificante, pois eles são observadores e se expressam em detalhes, diferente do que dizem que são frios e selvagens, conquistar um gato requer tempo e dedicação, mas vale a pena, pois o amor dado em troca será sincero.

"Você só pode amar se seu coração estiver aberto. A vida é bela quando você olha as coisas com amor. Se você puder aproveitar a presença de um gato, um pássaro ou uma flor, o mundo todo será seu. É o que eu digo."

Istambul é fascinante em muitos aspectos, única cidade do mundo situada em dois continentes, capital de impérios, tradições que se colidem, o velho e o novo, a efervescência, sua arquitetura exuberante e esta adorável relação com os gatos que acrescenta uma imensa beleza. Tudo é primoroso nesse documentário, os gatos, os lugares, as pessoas, as histórias contadas, a riqueza cultural, as musiquinhas.... Poesia!

"Os problemas que os gatos de rua ou outros animais enfrentam não são independentes dos nossos. Seria mais fácil ver os gatos de rua como um problema e lidar com eles como se fossem. Mas, se pudermos aprender a viver juntos novamente, talvez nossos problemas também sejam resolvidos com os deles. Tenho certeza de que poderíamos recuperar nosso senso de humor e recuperar nossa alegria de viver, que anda cada vez mais fraca."

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tirésia

"Tiresia" (2003) dirigido por Bertrand Bonello (Nocturama - 2016) é um longa francês peculiar e atraente, disserta sobre masculino e feminino e o poder de transformação do ser humano.
Para uma melhor compreensão é bom que se saiba sobre o mito grego do qual intitula a obra, Tirésias todo dia ia ao templo fazer suas orações, um dia ao sair encontrou um casal de cobras venenosas copulando, ambas se voltaram contra ele e então atirou uma pedra na fêmea, assim Tirésias transforma-se numa mulher e torna-se em uma prostituta famosa. Tempos depois indo ao mesmo templo orar encontrou outro casal de cobras copulando e novamente interrompeu o ato, dessa vez matando o macho e assim tornando-se homem novamente. Como Tirésias tinha passado pelos dois sexos, Zeus e Hera o chamaram para uma discussão sobre quem tem mais prazer na relação sexual, Hera dizia que o homem é quem tem mais prazer, Zeus dizia que é a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma." Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da previsão. Dentro deste contexto somos absorvidos pela estranha narrativa de Bonello, Tirésia, em seu primeiro momento (Clara Choveaux), é um transexual brasileiro que vive com seu irmão se prostituindo nos subúrbios de Paris. Certa noite ela encontra Terranova (Laurent Lucas), um homem distante, misterioso, que fica obcecado por Tirésia e a sequestra. No cárcere e sem as doses regulares de hormônios que tomava para adquirir formas femininas, Tirésia volta à sua forma masculina original (Thiago Telès). Decepcionado, Terranova cega Tirésia e o abandona em uma floresta, onde é resgatado pela jovem Anna (Célia Catalifo), que o leva à igreja local, onde volta a se recuperar, definitivamente na forma masculina.
Terranova é um ser recluso que admira arte e tem pretensões poéticas ao sequestrar Tirésia, esta que se destaca aos olhos dele, admirado por sua bela forma, intrigado com a transformação. Ele a admira, observa-a no dia a dia que pouco a pouco sem os hormônios vai perdendo as características femininas, a barba cresce, a voz engrossa, Terranova vai atrás dos hormônios, porém, sem sucesso decide abandoná-lo numa estrada, mas antes cega Tirésia. Esta primeira parte do filme é instigante e provoca uma série de questões envolvendo gêneros, também exerce um grande fascínio pela maneira com que é abordado o tema, o clima é de total tensão. A interpretação de Laurent Lucas com seu olhar vidrado de curiosidade e seu silêncio incomoda e Clara Choveaux exprime perfeitamente o medo, a solidão e encanta, principalmente quando canta uma cantiga popular brasileira, "Terezinha de Jesus", que mexe com Terranova.

Após ser deixado na beira da estrada a história ganha novos tons e até parece ser um outro filme, a passagem é realmente brusca, Tirésia, interpretado por Thiago Telès é acudido por Anna, uma jovem muda que vê em Tirésia um propósito. Laurent Lucas nesta parte interpreta um padre, o que causa uma grande confusão, mas representa a dualidade. Tirésia aceita a transformação e o dom da premonição e muitas pessoas vão até ele lhe oferecendo presentes, a curiosidade e o desejo de saber o que acontecerá move as pessoas. 

Sombrio, melancólico e incômodo, a experiência para quem o assiste é única, abarca muitas questões sem apresentar necessariamente respostas, somos deixados à deriva ao final matutando tudo o que vimos, absorvendo e tentando pelo menos um pouco compreender este enigma chamado ser humano.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Viva

"Viva" (2015) dirigido pelo irlandês Paddy Breathnach (Blow Dry - 2001) é um filme ambientado em Cuba que reflete sobre questões importantes, como preconceito, família e sonhos com total firmeza e também delicadeza, o protagonista causa empatia e o acompanhamos nesta jornada de aprendizado, onde o resgate do amor e o sonhar se misturam. Uma bela história, tão essencial para todos nós refletirmos.
Quando tudo está à venda, qual o preço do amor? Jesus (Héctor Medina) é maquiador de um grupo de drag queens em Havana, mas sonha em se apresentar. Quando ele finalmente tem a chance de estar no palco, um estranho surge da multidão e bate em seu rosto. O estranho é seu pai Angel (Jorge Perugorría), um antigo lutador, que estava ausente por 15 anos de sua vida. Com pai e filho em conflito sobre suas expectativas opostas um do outro, Viva é uma história de amor sobre homens que lutam para se entender e voltar a ser uma família novamente.
Seguimos Jesus em seu cotidiano, pelas ruas de Cuba, a sua luta solitária para se sustentar arrumando cabelos de velhinhas e escovando as perucas das drags numa casa noturna, seu maior desejo é se apresentar e um dia surge a oportunidade, então se monta e entra no palco, Mama (Luis Alberto García), que comanda tudo por lá o protege dando conselhos, o incentiva ensinando a arte do espetáculo, Jesus realiza seu sonho passeando pelo salão interpretando, mas de repente leva um soco de um homem, que diz ser seu pai. Angel se instala na antiga casa e Jesus não se altera, mas fica chocado pela volta do pai que foi preso quando ainda era pequeno, Angel o proíbe de frequentar a casa de shows, o único sustento de Jesus e daí esperamos uma reação mais enfática dele, mas não, por muitas vezes nos perguntamos o motivo desse garoto não o expulsar de lá, suas atitudes perante esse pai nos fazem refletir muito, sobre a importância de ter alguém da família por perto, um fator interessante é que o pai de Jesus não se importa dele ser gay, o que o incomoda é ele se montar, ele é um homem durão, ex-lutador que afundou a carreira cometendo um crime, está no fundo do poço, não consegue arranjar emprego e passa os dias a beber e a fumar. Jesus por um bom tempo acaba apelando para a prostituição, já que nada ganha arranjando os cabelos das velhinhas, tudo o que consegue é para comprar comida. 

A relação com o pai vai tomando uma outra forma quando Angel fica doente e Jesus cuida dele, a proximidade dá a chance desse pai entender o como seu filho tem um coração bom, e aos poucos se livrando desse preconceito e entendendo o sonho de Jesus, que amadurece e ganha ainda mais forças para seguir em busca do que quer.
O filme passeia por vários temas, como família, preconceito, sonhos e se aprofunda em cada um deles, é extremamente bela a interpretação de Héctor Medina, causa grande empatia, seus olhos jorram sentimentos, uma delicadeza melancólica, Jorge Perugorría também excelente em sua figura machista que se transforma pela bondade do filho, e sem deixar de enaltecer a interpretação de Luis Alberto García, que representa a maturidade e força. Outro ponto a se destacar é a intensa e dramática trilha sonora, boleros de se jogar no chão de tanto chorar, por exemplo, "El Amor".

"Viva" é lindo e sua beleza e força de expressão já começa pelo título, uma exultação triste e feliz ao mesmo tempo, mas libertadora. A transformação, a aceitação que se dá no fim exemplifica perfeitamente, uma cena marcante e uma lição que todos deveriam aprender.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Amor em Dobro (Twin Falls Idaho)

"Twin Falls Idaho" (1999) dirigido por Michael Polish (For Lovers Only - 2010) é um filme peculiar que retrata com sensibilidade o relacionamento dos reclusos irmãos siameses Blake e Francis, o compartilhamento tanto físico como emocional, as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas completamente diferentes, e a chegada de uma garota que muda não só a rotina mas também os sentimentos.
Escrito pelos cineastas irmãos Michael Polish e Mark Polish, "Twin Falls Idaho" é uma pérola indie delicada, certamente o fato de na vida real os cineastas serem irmãos gêmeos contribuiu para o tom natural da história, aliás, a interpretação melancólica e reflexiva deles é sublime, todo o contexto é belo e inúmeras questões surgem a partir do momento que os conhecemos e observamos tanto as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas opostas e também o compartilhamento e a generosidade entre eles. O título em português "Amor em Dobro" não reflete absolutamente nada da história, é pobre e aparenta ser um romance comum água com açúcar, portanto, não utilizarei no texto.
Blake (Mark Polish) e Francis Falls (Michael Polish) são literalmente grudados, tímidos moram em um hotel decadente e sonham reunir-se com sua mãe biológica, que os abandonou. Eles encontram sua porta de entrada para o mundo exterior através de uma excêntrica jovem prostituta chamada Penny (Michele Hicks). Eles concordam em participar de uma festa de Halloween com Penny e fingir estar vestindo uma fantasia de irmãos siameses. O filme ainda trata sobre seus problemas de saúde, a evolução da relação entre os irmãos e a relação de amizade com Penny.
De convencional o filme não tem nada, a espécie de triângulo amoroso exibe várias nuances e passa longe da estética freak, ao contrário, os irmãos são elegantes, gentis e carregam uma melancolia sedutora, as manobras cotidianas são feitas com graciosidade apesar das complicações, e adquiriram o hábito de sussurrar um para o outro quando algo os incomoda, Penny também é uma figura interessante e chega na vida deles após ser contratada para comemorar o aniversário de 25 anos dos dois, mas toma um susto ao se deparar com a situação, sai correndo embora, porém volta para buscar sua bolsa e acaba fazendo amizade com eles, Francis está fraco e doente e com o passar do tempo se sente enciumado com a relação de Penny e Blake, que está apaixonado. Não há garantias de que um sobreviva sem o outro, Blake é forte fisicamente, mas o preço pela liberdade e individualidade é alto e quase imperdoável. Francis adoece cada vez mais e a opção pela separação se torna cada vez mais real para Blake.

"Twin Falls Idaho" é fascinante, sua aura de mistério absorve, exibe sutilezas e uma melancolia arrebatadora, além de ser extremamente empático.
Francis em dado momento diz a Penny: "A história continua, e se está triste hoje, isso pode mudar amanhã", essa frase traduz muito bem a atmosfera do filme. Certamente um exemplar peculiar e digno de aplausos por seu esmero, há cenas belíssimas carregadas de emoção e detalhes que marcam. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Vanaja

"Vanaja" (2006) dirigido por Rajnesh Domalpalli é um belo filme indiano que retrata a cultura com naturalidade e sem efeitos melodramáticos, uma pérola a ser descoberta. Rajnesh Domalpalli é um diretor brilhante em sua simplicidade, orquestrou com gentileza um elenco de não profissionais durante dois anos, e este é seu primeiro filme, um extraordinário trabalho de conclusão para a sua faculdade em Columbia. 
Filmado no sul rural da Índia, a menina de 15 anos de idade Vanaja vai trabalhar para a senhoria local com a esperança de aprender a dança Kuchipudi. A química inocente com o filho da senhoria fica difícil, lançando ela em uma batalha de casta e alma.
Vanaja (Mamatha Bhukya), a filha de 15 anos de um pescador com dificuldades financeiras vai trabalhar na casa da senhoria local na esperança de aprender a dança Kuchipudi. Tudo corre bem, mas quando o filho da proprietária Rama Devi (Urmila Dammannagari) retorna dos EUA, começa uma química sexual inocente que se torna complicada, terminando em um estupro. Situada no sul da Índia rural, um lugar onde as barreiras sociais são construídas mais fortemente do que as antigas muralhas, a história explora o abismo que divide as classes e como uma jovem se esforça para atingir a maioridade.
Vanaja é sonhadora e quer muito se tornar uma dançarina, a senhora a ensina, pois também tem interesses envolvidos, a menina logo aprende e somos absorvidos pela beleza dos movimentos, há cenas hipnotizantes, a beleza do simples é algo fabuloso. O cotidiano dela muda quando o filho da proprietária da casa retorna da América para se tornar um político, ele se aproxima da garota que nutre curiosidade por sua figura máscula, não é difícil imaginar o que se segue. Vanaja é estuprada e engravida, como é de uma casta inferior o casamento está fora de cogitação, o aborto é sugerido, mas ela foge e com a ajuda de sua amiga, que inclusive é umas das coisas mais lindas retratadas, ela dá à luz. O pai cada vez mais afundado na bebida e muito doente acaba sendo um problema para a senhora, que depois tenta negociar com Vanaja, lhe diz que cuida da criança, mas que ela teria que se afastar, já que as pessoas estavam comentando sobre o ocorrido, o casamento nunca seria a opção. A situação é muito triste, não existe uma saída. A força e a sensibilidade que o filme exprime é gigantesca, uma delicadeza exuberante que também conquista por suas cores que transmitem esperança.

A cultura rica e profunda é exposta por meio das músicas e a dança Kuchipudi, tão clássica e espiritual, também exibe como crítica a questão das castas, religião e poder, que infelizmente ainda faz parte de muitas regiões da Índia. O filme é honesto e não utiliza artifícios para comover ou engrandecer a história, ele apenas é. 
Mamatha Bhukya encanta com sua naturalidade, seus olhos brilhantes e sua personalidade genuína, uma fortaleza. Ao diretor Rajnesh Domalpalli só resta agradecer por esta belíssima e sensível obra que ao mesmo tempo mostra as belezas culturais e também o outro lado, o sistema de castas que inferioriza e humilha, difícil encontrar filmes indianos com essa coragem e autenticidade. O diretor não teve apoio, inclusive de seu próprio país, mas recebeu prêmios mundo afora e conseguiu dar destaque a esse primoroso trabalho na Internet. Está disponível no próprio canal de Youtube do diretor: Vanaja.

*Vanaja - lírio d’água, cujas raízes estão fundamentadas em meio à lama e que aos poucos vai subindo à superfície para florescer com notável beleza. O simbolismo está especialmente nesta capacidade de enfrentar a escuridão e florescer limpa e pura. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Paterson

"Paterson" (2016) dirigido por Jim Jarmusch (Amantes Eternos - 2013) é um filme singelo, delicado, gentil, a poesia reside no cotidiano, na vida comum. 
Paterson (Adam Driver) é um motorista de ônibus que mora na cidade de Paterson, New Jersey - ele e a cidade dividem o mesmo nome. Diariamente, Paterson vive uma simples rotina: dirige pela rota diária, observa a cidade, ouve fragmentos de conversas, escreve poesias num caderno, passeia com o cachorro, bebe uma cerveja no bar de sempre e finalmente, volta para casa, para a esposa Laura (Golshifteh Farahani). Ela, em contraste, vive num mundo que sempre muda, com novos sonhos diários. Eles se amam. Ele a apoia no alcance das novas ambições, ela festeja nele o dom da poesia. "Paterson", o filme, observa os triunfos e derrotas da vida diária com poesia evidente nos menores detalhes.
Acompanhamos Paterson durante uma semana e é tão prazeroso observá-lo, desde ao acordar junto de sua esposa, tomar o café, ir para o trabalho, dirigir seu ônibus, voltar para casa, jantar, passear com o cachorro, a parada no bar e voltar para casa, parece tediosa essa rotina, mas ele consegue extrair coisas bonitas daí e nas horas em que está descansando escreve poesias recheadas de miudezas, ele é um sujeito calmo que dirige seu ônibus pela cidade da qual sente-se tão íntimo, ouve as conversas dos passageiros, as reclamações do colega de trabalho, olha para seu relógio e se encanta a cada dia pela esposa inquieta, que ora está pintando cortinas, ora fazendo cupcakes de sabores estranhos, interessante que mesmo tendo essa insaciedade o preto e o branco domina, as roupas, os objetos, sua arte, o violão, ela vive a sonhar, mas permanece nas cores do cotidiano. O casal apaixonado nada tem a ver um com o outro aparentemente, ela é fugaz, ele é pacato, ela é ambiciosa, ele é desprendido, mas tanto um como o outro têm as suas práticas artísticas, Paterson escrevendo suas poesias sem ter o objetivo de publicá-las e Laura com seu violão sonhando que um dia será uma estrela country, eles se completam e essa troca deles por si só também é poesia. 
Adam Driver encanta ao interpretar Paterson, sua personalidade, seus olhos ternos, seu sorriso sincero, ele sabe escutar, consegue enxergar além do grosso do cotidiano, há uma ponta de tristeza nisso tudo, claro, mas a beleza não deixa de estar presente.

"Paterson" também é título de um livro do autor William Carlos Williams, que o protagonista admira e se inspira, assim como ele Paterson vê beleza em coisas diminutas e que para a maioria não faz o menor sentido, apenas pessoas sensíveis e ligadas na poesia do cotidiano são capazes de sentir essa beleza. E é inspirador também para o espectador, pois a frase que o japonês fala ao final para Paterson resume perfeitamente, "uma página vazia dá mais possibilidades", é assim todos os dias que acordamos, uma nova página em branco será preenchida com pequenas ou grandes alegrias, abraços, tristezas, cansaço, irritação, solidão, e se olhar com mais atenção, poesia.

Nada extraordinário acontece em "Paterson", não há conflitos, grandes decisões, o tédio da vida comum e banal é que dita o ritmo e isso não é ruim ou chato, ao contrário, é lindo e prazeroso, fazemos parte da história e nos encantamos com o simples sendo retratado, há um cuidado nos diálogos, uma naturalidade fascinante em expor o dia a dia, as poesias que ele vai escrevendo que, de repente, vão criando formas e traduzem sentimentos tão orgânicos. "Paterson" é um belo registro do cotidiano tão sem graça e tão rico ao mesmo tempo. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

The Love Witch

"The Love Witch" (2016) dirigido pela talentosa Anna Biller (Viva - 2008) é uma homenagem ao Technicolor, filmado em película 35 mm, técnica em extinção, a aura saudosista permeia toda a obra e remete aos filmes da Hammer, a famosa produtora especializada em filmes de horror dos anos 60/70. Especialmente, o final da década de 60, a cultura foi marcada pela inserção ocultista e o apelo erótico nos filmes de terror, Anna Biller conhece muito bem esse universo, é uma artista conceitual que é reconhecida por seus excessos visuais, humor burlesco e ainda é multifuncional, escreveu, produziu, dirigiu, editou e ficou responsável pela direção de arte. 
Elaine (Samantha Robinson) é uma jovem bruxa que está determinada a encontrar o homem de sua vida. Ela leva homens para sua casa e faz magias e poções a fim de seduzi-los. Tudo funciona bem, mas ela acaba com uma série de vítimas infelizes. Quando ela finalmente encontra o homem de seus sonhos, seu desespero para ser amada a torna insana.
Marcada por um passado de relacionamentos traumáticos, em flashes do passado podemos ver seu marido reclamando de suas habilidades domésticas e outras coisas, Elaine decide ir para o interior depois da morte de seu marido, muda-se para um casarão gótico onde já transformada em bruxa dá o que os homens querem e com a ajuda de poções tenta encontrar o amor e fazer com que os homens morram de amor por ela, algumas vezes literalmente. Sua primeira vítima é Wayne (Jeffrey Vincent Parise), um professor de literatura mulherengo, ela joga seu charme, lhe dá a poção e pronto está feito. Elaine passa seus dias fazendo poções, participa de rituais pagãos e frequenta um clube burlesco, onde as bruxas sofrem preconceito. A sua inquietação é tanta que seduz também o marido de sua amiga, uma mulher focada no trabalho e independente, o homem se torna tão obcecado por Elaine que acaba com a própria vida, apenas com Griff (Gian Keys), que está investigando o caso de Wayne é que ela parece sossegar, ele de início se encanta e cai no feitiço, mas aos poucos sai do transe e começa a desconfiar da bela Elaine.
O filme tem uma proposta interessante e a atuação de Samantha Robinson está bem marcada e estilizada, o melodrama faz parte do estilo, é sensual e eleva o feminino. 

"The Love Witch" é uma viagem ao final dos anos 60, se não fosse os apetrechos tecnológicos passaria facilmente como um filme antigo, a crítica embutida é outro ponto de destaque, Elaine é uma figura frágil e doce que se diz viciada no amor, mas ela usa esse artifício como um meio para na verdade controlar os homens, que são manipulados facilmente e cuja fraqueza reside exatamente no amor, onde voltam a ser crianças mimadas. O interessante é a mescla de fragilidade e força que a personagem carrega, o que nos faz refletir e muito sobre feminilidade, gênero e etc.
É delicioso, nostálgico, lindo esteticamente, crítico e carrega um humor satírico. A trilha sonora também tem dedo da diretora e é ótima, por exemplo, a canção "Love is a Magickal Thing", que carrega a atmosfera de um conto de fadas renascentista.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Peles (Pieles)

"O mundo é horrível, o ser humano é horrível… Mas não podemos fugir disto. Porque nós somos o horror."

"Peles" (2017), primeiro longa dirigido pelo jovem promissor Eduardo Casanova é original, desconcertante, poético, interessantíssimo e que provoca o espectador o tempo inteiro ao colocar protagonistas com deficiências físicas e emocionais. É um drama social sombrio com pessoas deformadas e desfiguradas que precisam encontrar maneiras de esconder suas diferenças e lidar com o resto da sociedade. 
O espanhol Eduardo Casanova tem no currículo alguns curtas-metragens e inspirado por um deles, "Eat my Shit", concebeu este longa repleto de reflexões, além de ter na produção um dos nomes mais irreverentes do cinema espanhol, Álex de la Iglesia (As Bruxas de Zugarramurdi - 2013). Somos apresentados a alguns personagens que visualmente incomodam, não sabemos lidar com o que vemos, o diferente é assim mesmo, causa repúdio, mas conforme vamos adentrando na vida de cada um percebemos as dores de se viver em uma sociedade que prima pelo superficial e esquece-se do que importa realmente. 
Laura vivida pela ótima Macarena Gómez (Ninho de Musaranho - 2014) não possui olhos, mas utiliza no lugar dois grandes diamantes rosas, há muita ingenuidade e carência afetiva nela, é usada por pessoas que gostam de "aberrações", a casa onde trabalha tem dos mais variados tipos bizarros, essa foi a sua maneira de se esconder. Ao longo vários personagens se cruzam, um mosaico interessante se forma e inúmeros pensamentos são abertos. Outra figura bastante peculiar e das que causam mais desconforto é Samantha (Ana Polvorosa), que teve o infortúnio de nascer com o ânus no lugar da boca e vice-versa, ela vive de forma solitária, o pai faz de tudo para que ela não apareça, só que em vários momentos a vemos fora de sua casa e sempre passando por alguma situação chata em que tiram sarro ou até a violentam, em determinado momento seu caminho se liga ao adolescente Cristian (Eloi Costa), que tem o sonho de ser uma sereia, não reconhece as suas pernas e vive tentando arrancá-las, o seu pai, um pedófilo, o abandonou quando nasceu por precaução e a relação com a mãe é conturbada por ela não saber como lidar com ele. Também há a anã Vanesa (Ana María Ayala) que trabalha num programa infantil vestida de urso e que luta para ser vista como uma mulher normal, Ana (Candela Peña) que tem metade do rosto desfigurado e seu namorado Guille (Jon Kortajarena), que tem o rosto totalmente queimado, eles estão juntos por se sentirem iguais, mas com o desenrolar entram em conflitos, e Ana ainda tenta se desvencilhar de um homem que a ama justamente por sua deficiência. Outros personagens surgem, se cruzam sutilmente e refletem as dificuldades, as dores, a solidão e a superação de cada um para tentar se encaixar num mundo onde o que faz sentido é apenas a aparência, a superfície.

O filme impressiona por seu perfeccionismo e sua paleta de cores que consiste no rosa e roxo em absolutamente tudo, está em figurinos, paredes, móveis, objetos. O exagero, a ousadia não é pouca e certamente é isto que nos chacoalha e nos tira do lugar comum e faz com que pensemos porque achamos tão estranho o que estamos vendo, percebemos o quão cruel é a raça humana que usa, exclui e maltrata os que consideram mais fracos e diferentes. Por mais absurdo que pareça ser é um exemplar primoroso que irá atingir a consciência de cada um de formas distintas e irá permitir diversas análises. 

"A pele muda. Sofre cirurgias, envelhece ou se transforma. A aparência física não é nada. Absolutamente nada."

Em "Peles" muitos temas são abordados, como preconceito, rejeição, superação, pessoas marginalizadas que são usadas em função de dinheiro, entretenimento, fetichismo, como a anã explorada no programa infantil e Laura na prostituição, digerir todas as questões envoltas neste filme requer tempo, há muito o que se pensar. Uma obra sincera que desconstrói e atinge pelo bizarro, nada mais que um espelho da realidade. Um achado dentro do catálogo da Netflix! 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Mais Sombrio Que a Meia-Noite (Più Buio di Mezzanotte)

"Mais Sombrio Que a Meia-Noite" (2014) dirigido por Sebastiano Riso é uma cinebiografia da famosa Drag Queen Fuxia, que viveu períodos complicados nas ruas de Catânia, Sicília. Ambientado nos anos 80, o roteiro foca na adolescência, no período conturbado em que sufocado pela fúria do pai decide colocar seus discos numa mochila e se aventurar pelas ruas, começa aí uma série de descobertas em que ao mesmo tempo que vive a sua liberdade encontra um mundo de prostituição e exploração.
Davide (Davide Capone) é diferente dos outros adolescentes. Algo o faz parecer uma menina. Davide tem catorze anos quando foge de casa. Sua intuição o leva a escolher Villa Bellini, um parque na Catânia, como refúgio. O parque é um mundo em si mesmo, o mundo dos marginalizados, para o qual o resto da cidade fecha os olhos. Mas um dia o passado o alcança e Davide precisa enfrentar a escolha mais difícil, desta vez, sozinho.
No início o vemos escondido cantando no porão junto a um mundo que criou, colorido e que reflete realmente quem é, seu pai é uma figura autoritária e violenta que não aceita o jeito do filho, a aparência andrógina de Davide causa muitas desavenças dentro de sua própria casa, a mãe tenta protegê-lo, mas é tão frágil quanto, a sua cegueira não é apenas física, decidido a viver livre sai para as ruas, especificamente, a Villa Bellini, local de prostituição, onde é acolhido por um grupo com La Rettore (Giovanni Gulizia) sendo seu guardião. 
Davide tem uma bela voz e sonha ser uma grande cantora, mas no decorrer acaba se introduzindo em um mundo sombrio, não há opções. Se apaixona, se desilude e se dá conta da exploração sexual, na noite são usados e na manhã seguinte invisíveis e propensos a sofrer alguma violência, a sociedade ignora e se nega a olhá-los, Davide vive esse dilema ao mesmo tempo em que pela primeira vez consegue viver a sua liberdade. São inúmeras as consequências que vêm com essa liberdade e sentimento de pertencimento, Davide se encontra com o preconceito, a prostituição, a violência, a solidão, a fome, o desamparo, propenso a exploração de cafetões e ao fetiche alheio. 

Delicado, triste, reflexivo, uma amostra do como a família pode destruir ao invés de amparar pelo fato de não saber lidar com o diferente, a realidade é essa, jovens sendo expulsos de casa por serem homossexuais e expostos a um mundo sombrio, que moral que essas famílias pregam que não acolhem seus próprios filhos, desrespeitando e deixando-os à mercê da marginalidade? É um retrato honesto e a força imagética do filme é imensa, um belo trabalho do ator Davide Capone que nos faz mergulhar em sua confusão interior e experiências.

"Mais Sombrio Que a Meia-Noite" tem um tom firme e apesar de todas as dificuldades e empecilhos há um enfrentamento, a força está imprimida no longa mesmo nos momentos tensos e desesperançosos, Davide está sublime e a cena final coroa espetacularmente esta obra, em frente ao espelho grita, um grito de liberdade. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Chronic

"Chronic" (2015) dirigido pelo mexicano Michel Franco (Depois de Lúcia - 2012) é um doloroso drama que expõe a fragilidade humana, a sua aura grave impregna. Não é confortável acompanhar toda a trajetória de sofrimento silencioso do protagonista, é um estudo de personagem intrigante em que se denota uma forte necessidade de dedicação.
David (Tim Roth) é um enfermeiro que presta assistência em domicílio a pacientes em fase terminal. No entanto, ele vai além do que seu emprego exige, tornando-se um grande companheiro nos momentos mais difíceis de suas vidas. Por outro lado, David é solitário e tenta, da sua forma, estabelecer contato novamente com sua filha, Nadia (Bitsie Tulloch).
A atuação de Roth é primorosa, um homem soturno que se dedica quase integralmente ao trabalho como enfermeiro cuidando de pacientes em fase terminal, a câmera é fixa ao mostrar os corpos debilitados, são momentos que expõem com total crueza a degradação humana, como nosso físico é frágil e se desmonta com o tempo e a doença, David dá banho, os troca com uma cautela encantadora, o seu carinho elimina um pouco do ar tóxico que paira no ar e desanuvia o semblante de seus pacientes que muitas vezes se sentem constrangidos. Mas a sua dedicação conforme o desenrolar também vai causando uma sensação desconfortante, pois ele praticamente não respira fora de seu universo de trabalho, a necessidade de afeto é suprida nestes momentos de troca com seus pacientes, ele se apega. Há uma complexidade enorme dentro de si, o roteiro vai dando pistas de algo no seu passado, consequências de uma escolha, depois mostra sua relação distante com a filha, que ele segue pelas redes sociais, mas que o recebe bem depois que a procura, não aparenta ter mágoas e até decide seguir pelo caminho da medicina. Mas o que pesa realmente para David é o seu próprio ser, os únicos instantes que o vemos extravasar de alguma forma é em suas corridas pelas ruas.
A única maneira de escapar de suas dores é cuidar de seus pacientes, o zelo ganha formas de obsessão, David quer se tornar parte, adquire os mesmos gostos e até se faz passar por familiares, ele tem umas manias estranhas, mas é tudo com intuito de formar relações e preencher o vazio que sente, as pessoas das quais cuida são incapacitadas fisicamente e ele danificado emocionalmente. 

"Chronic" não é um filme fácil de assistir, mostra dor e sofrimento tanto no aspecto físico com o declínio da saúde, o desapego a tudo o que se foi e ao emocional retratado pelo protagonista que se doa de maneira doentia a seus pacientes a fim de preencher o vazio e as grandes feridas do passado. Marcado por uma lenta narrativa e uma atuação densa e complexa de Tim Roth, "Chronic" deixa marcas por trazer como reflexão um tema tão difícil de ser encarado.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Limonata

"Limonata" (2015) dirigido por Ali Atay é um filme turco que revela angústia e muitas dores, mas segue com espontaneidade e traz em seus personagens belas características, como coragem e persistência, o humor está presente em boa parte da trama e funciona tanto para evidenciar os defeitos como as qualidades dos personagens. Um emaranhado de situações se desencadeiam e a partir delas novos e antigos sentimentos vêm à tona, assim como instantes absurdos repletos de sarcasmo. Um achado no catálogo da Netflix!
Sakip (Ertan Saban) atende o último pedido de seu pai moribundo ao mesmo tempo que recebe uma revelação, ele tem um irmão e precisa encontrá-lo e trazê-lo para que seu pai morra em paz. Assim começa uma história divertida na estrada onde nós testemunhamos dois irmãos com diferentes origens culturais, que nem sequer se conhecem, têm semelhanças, diferenças e até mesmo suas lutas.
Sakip sai da Macedônia e vai para Istambul, segue as poucas pistas que lhe deram e finalmente encontra Selim (Serkan Keskin), que inicialmente reluta em ir com o irmão, diz não ter pai e que sua vida é toda ali. Mas Sakip quer muito realizar o desejo do pai e encontra um jeito maluco para que Selim entre no carro e então dê prosseguimento a viagem. O encontro deles é marcado por diálogos engraçados, pois são personalidades totalmente díspares, enquanto Selim é um homem solitário que enche a cara de bebida e ainda busca conseguir se dar bem no futebol, Sakip é voltado para a família e as tradições de sua cultura. A bordo de um velho carro os dois seguem rumo a Macedônia, aos poucos Selim aceita ir, já que não tem como voltar para Istambul a pé quando acorda dentro do carro no meio do nada, eles passam por lugares remotos e as situações que se desencadeiam liberam tanto de um como do outro defeitos e qualidades, mas que ao final se revelam num sentimento de humanidade para com o outro independente de qualquer coisa. Interessante observar a reação que eles têm ao passar por outros países, como a Bulgária onde precisam consertar o pneu e acabam festejando um casamento local. O resultado é hilário.
O filme possui elementos cativantes, como a trilha sonora que remete por muitas vezes ao western, a bela fotografia iluminada e o humor diferenciado do roteiro que alterna entre doce e amargo, a trama é concentrada nestes dois personagens e em todo o trajeto difícil que fazem, nas dores passadas que são postas pra fora, no sofrimento, na angústia, mas mesmo assim traz uma dose boa de humanidade, como a limonada mescla perfeitamente o azedo e o doce.

"Limonata" encanta pela naturalidade da narrativa e pelos personagens diferentes entre si, além das situações inesperadas que acontecem e o modo desajeitado que cada um lida, tem ótimos diálogos e reflexões sobre a diversidade cultural de países tão próximos, família e guerra, temas complexos, mas expostos com gentileza e humanidade.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Svenskjävel + Yarden (Filmes Suecos)

No post anterior indiquei dois filmes suecos que tratam da hipocrisia, do machismo e da influência e interferência que o meio em que se vive tem sobre as pessoas, neste post são mais dois filmes suecos, eles retratam um outro lado da Suécia, um país considerado perfeito, nestas histórias podemos observar o outro lado da moeda, que nem os países de primeiro mundo estão isentos de crises e jogos de poder entre ricos e pobres. 

"Svenskjävel" (2014) - seria algo como Suecos Bastardos, o título em inglês é "Underdog" - dirigido por Ronnie Sandahl é um drama sóbrio que retrata uma jovem sem perspectivas que sai da Suécia em busca de melhores condições na Noruega. Lá encontra apenas subempregos e discriminação. A sua classe social incomoda, a sua origem incomoda, as oportunidades são escassas e os outros se acham no direito de usá-la como querem. O filme não faz questão de explicar seu passado ou o porquê está nesta situação, há algumas pistas de vício em álcool, família disfuncional, então querendo fugir disso tudo migra para a Noruega com esperanças.
Como muitos jovens suecos, Dino (Bianka Kronlof) fugiu do desemprego em massa do seu país para tentar uma vida nova em Oslo, na Noruega. No entanto, logo ela se depara com uma espiral destrutiva, sobrevivendo com quase nenhum dinheiro, um trabalho irregular e noitadas. Dino é demitida após quebrar o braço e passa a trabalhar como empregada de uma casa de classe média, uma realidade muito distante dela. Durante algumas semanas do abafado verão, a garota se vê no centro de um estranho triângulo amoroso, em uma luta imprevisível de afeto e domínio.
Dino mora em uma espécie de república com inúmeros outros jovens que também se submetem a empregos que pagam pouco, vemos uma moça reclamando do como a chefe a explora e a humilha fazendo-a se sentir inútil no final do dia, Dino é quieta, solitária e gosta da noite, por causa de uma bebedeira e quebrar o braço perde seu emprego de garçonete e logo começa a trabalhar de babá na casa de Steffen (Henrik Rafaelsen), dono de um restaurante que vive um casamento conturbado, a esposa viaja a trabalho, faz grandes projetos e isso o faz se aproximar mais de Dino, que de repente se vê envolvida em uma relação amorosa e numa outra forma de vida. Ela é uma estranha ali, assim como a filha mais velha de Steffen, que aos poucos e silenciosamente cria um belo vínculo de amizade e admiração. Com o passar dos dias Dino sente-se à vontade na casa de Steffen e pela primeira vez experimenta o que é a liberdade, só que mais tarde isso se revelará num odioso jogo de poder. A discriminação é bastante evidenciada, a sua origem e a sua classe social em determinado momento são usadas de maneira jocosa pelos amigos de Steffen. Dentre todas essas questões de desigualdade e preconceito a história mesmo que sóbria e fria permite um olhar esperançoso, de que é possível encontrar seu lugar e dar vazão ao que se tem de melhor, Dino teve sua experiência e aprendeu, e isso é o que importa afinal.

"Yarden" (2016) dirigido por Måns Månsson retrata o fracasso e a dificuldade para sobreviver, a desumanização para garantir um pouco de dinheiro, a crise de desemprego é agravante e o personagem depois de sofrer por não conseguir sucesso e dinheiro com seu livro de poesias, decide abandonar essa carreira e se submeter a um emprego estafante em que pessoas são convertidas a números.
O sueco veterano do teatro Anders Mossling é identificado no filme como 11811, ele irradia melancolia e estoicismo, como o anti-herói sem nome, um pai solteiro de meia-idade, cujo trabalho como um poeta menor só o levou a pobreza e obscuridade. Após imprudentemente sabotar o que resta da carreira literária destruindo publicamente o seu próprio livro mais recente, ele é forçado a procurar emprego no The Yard (Yarden), um vasto armazém de alta tecnologia nas docas Malmö, onde 500.000 carros são enviados anualmente. Nesta visão duramente futurista do local de trabalho pós-industrial, os empregados são tratados como drones intercambiáveis com números em vez de nomes. O desvio menor do protocolo pode levar à demissão imediata por patrões sem rosto.
O personagem exibe uma faceta de cansaço e desesperança, a única coisa que deseja é poder sustentar seu filho adolescente, na fábrica em que a maior parte de trabalhadores são imigrantes existe uma lei da selva, há um bônus para dedurar colegas que roubam airbags e punições a qualquer deslize, cortes salariais por atrasos, sendo que o atraso provém da fila na entrada. A opressão patronal é exposta cruelmente retratando o tratamento insalubre que esses trabalhadores se submetem por não terem outras opções. 
É um filme seco e que carrega uma aura pesada e triste, Anders Mossling é o retrato de uma imensidão de pessoas que perdem a dignidade e que tem como única esperança um emprego degradante, pois é só isso que resta. O mais forte que abusa do mais fraco, o jogo de poder utilizado pelos mais ricos para continuarem mais ricos, isso existe em todo o mundo, até nos modelos mais perfeitos de sociedade, como a Suécia. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Flocken + Efterskalv (Filmes Suecos)

"Flocken" e "Efterskalv" são dois filmes suecos densos que dizem muito sobre a hipocrisia que reina no meio em que se vive, o primeiro retrata o machismo, o abuso à mulher e o segundo a reinserção de um adolescente acusado de um crime na comunidade onde mora, são duas histórias pesadas tratadas com seriedade e que nos mostra valores invertidos, influências, manipulação, julgamentos e o poder de interferência da população na vida de outros habitantes.
Assisti alguns filmes suecos atuais recentemente e percebi que há semelhanças entre os temas tratados, nestes dois a reação dos moradores em relação a assuntos como estupro em "Flocken" e crime e perdão em "Efterskalv". É o meio que se põe no direito de julgar, aliás, tanto um como o outro lembram "A Caça" (2012).
Coloca em questão o quão misógina a sociedade sueca é e também fechada para determinados assuntos, o que não deixa de ser uma desconstrução de um país considerado perfeito. Em outra postagem indicarei ainda mais dois filmes suecos que tratam de desemprego e imigração.

"Flocken" (2015) - na tradução literal rebanho - dirigido por Beata Gårdeler nos faz engolir a seco ao ver tanto machismo entranhado, inclusive nas mulheres, a insanidade e a hipocrisia coletiva dá enjoo.
A história baseada em fatos reais nos leva a uma pequena comunidade sueca que parece idílica, porém apenas na superfície. Quando Jennifer (Fatime Azemi), de 14 anos, afirma ter sido estuprada pelo colega de classe Alexander (John Risto), tudo muda. O rumor se espalha rapidamente e cada vez mais gente acredita que Jennifer está mentindo. É o início de um caso de perseguição de uma comunidade contra uma garota e sua família. Provas ou decisões da Justiça não significam nada em um lugar onde as pessoas estabelecem as próprias leis e regras. O mais importante é permanecer com o grupo. A população não acredita e se junta em favor de Alexander, ela sofre com comentários e é excluída do meio, na escola até suas melhores amigas se afastaram, uma delas até diz: você não está com cara de quem foi estuprada! E questionamentos do tipo aparecem: se foi estuprada por que demorou a dizer? 
Interessante observar que Jennifer é de uma família mais pobre e a mãe uma figura destoante daquele universo hipócrita, os moradores atacam e dizem que ela não presta por influência da mãe e essa espiral de ódio só cresce, o namorado da mãe de Jennifer que parecia ser o único a enfrentar quando se viu excluído abandonou-as. Alexander por ser de uma família mais rica e influente recebe o apoio e Jennifer fica encurralada, e o mais tenebroso é que mesmo a lei estando do lado da menina e condenando Alexander, o que importa ao final é o que pensa essa comunidade. O tom pessimista do final denuncia que situações como esta vêm acontecendo sem que nada se faça, pois se o agressor é amparado pela sociedade, a mulher se retraí e tudo continua na mesma, a consciência coletiva têm se modificado, o primeiro passo está sendo dado, mas o machismo entranhado é perigoso e é por isso que filmes como este são essenciais para a discussão e reflexão.

"Efterskalv" (2015) - na tradução literal depois do choque - dirigido por Magnus von Horn é um filme muito cru ao evidenciar a violência sofrida por John (Ulrik Munther) pela comunidade, o diretor faz questão de deixar a dúvida se ele de fato cometeu o crime, se é um ser humano sem empatia ou se num acesso de raiva fez tal besteira, isso nos coloca numa situação difícil, julgando suas atitudes a cada instante para tentar decifrar este enigma, a população desde o minuto que ele volta depois de passar alguns anos num reformatório o rejeita, o exclui de forma impiedosa, não dando a chance dele poder refazer sua vida. John sempre calado começa a frequentar sua antiga escola e não reage as investidas dos colegas, todos o olham com desprezo, na verdade a maioria tem medo e nem a diretora da escola o incentiva, mas ele segue sem se importar e conhece Malin (Loa Ek), uma garota que se destoa dos demais e se aproxima dele, aos poucos os dois criam uma conexão. A rejeição é tanta que isso acaba influindo no como o pai de John lida com a situação, realmente é difícil encarar o contexto do crime que descobrimos no decorrer, mas o filme coloca John em uma posição tão sufocante que fica impossível não refletir sobre o porquê de se apontar o dedo e dizer que tal pessoa não serve para viver dentro do mesmo ambiente, a violência que o menino passa é tão cruel quanto o ato que cometeu. 
É um filme seco, silencioso e que nos coloca na posição de observadores, a atuação de Ulrik Munther - astro pop da Suécia - é excepcional e transmite toda a repressão e também a ambiguidade do personagem, o crime não é a grande questão, mas a reintegração e o como o todo reage a isso, no caso de John a pequena comunidade o rejeitou e até chegou ao ponto de linchamento, o que cai por terra várias regras morais que esta pequena sociedade apontava, principalmente, quando na reunião de escola o pai do menino que bateu em John apoia a violência do próprio filho. É um exercício de reflexão contundente!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Indicações Musicais

Só para quem gosta de se aventurar em sonoridades diversas.

12- Rival Sons (EUA)
Formada na Califórnia em 2009, a banda de aura setentista com influências de Blues Rock tem cinco álbuns de estúdio e fez parte de algumas turnês junto de várias lendas do rock, como AC/DC, Alice Cooper e Judas Priest. Com riffs pesados e vocal intenso, a banda é apontada como uma das mais interessantes do gênero atualmente e ainda elogiada por grandes nomes do rock. Ouça.

11- M. Ross Perkins (EUA)
M. Ross Perkins, compositor, cantor e multi-instrumentista americano lançou em 2016 seu primeiro disco homônimo, o estilo psicodélico nos leva direto aos anos sessenta, a sensação de nostalgia é intensa e super agradável, muitas das canções remetem aos Beatles. Ouça.

10- Tei Shi (Argentina)
Valerie Teicher é Tei Shi, uma cantora e compositora pop argentina que atualmente mora em NY, mas já morou em Bogotá, Montreal, entre outros lugares, ela vem se destacando na cena pop alternativa e depois de dois Eps, "Saudade" (2013) e "Verde" (2015), faz seu début com o álbum "Crawl Space" (2017). Seu estilo incorpora gêneros como soul, R&B, indie pop, eletrônica, uma combinação deliciosa que junto de sua voz frágil e sensual, que remete muito ao Prince, a diferencia dentro do cenário pop repleto de divas umas iguais as outras. Ouça.

09- Koop (Suécia)
Koop é um duo sueco jazzístico de música eletrônica com uma pegada orquestral, boa parte dos instrumentos são produzidos com samples, o resultado desse trabalho é um som delicioso, o clássico e o moderno unidos em grande harmonia. O terceiro álbum, o último lançado até agora, "Koop Islands", de 2006 é fabuloso e traz participações maravilhosas, entre elas: Yukimi Nagano, Ane Brun, Rob Gallagher e Mikael Sundin. Ouça.

08- Angel Olsen (EUA)
Angel Osen, compositora e cantora americana tem três discos lançados, sendo o último "My Woman" (2016) o mais poderoso e apaixonante, cheio de melancolia e feminilidade é daqueles álbuns versáteis que abrangem melodias diversas, desde letras que nos fazem chorar à baladas enérgicas, algumas músicas lembram Lana Del Rey, mas outras carregam a aura do folk rock e remetem a Vashti Bunyan. Ouça.

07- Sofi Tukker (Alemanha/EUA)
Sofi Tukker é um duo de música eletrônica formado pela alemã Sophie Hawley-Weld e o ex-jogador de basquete americano Tucker Halpern, o interessante é que o primeiro trabalho deles, o EP chamado "Soft Animals" contêm músicas com letras em português, Sophie é apaixonada pelo Brasil, morou no Rio de Janeiro e acabou conhecendo o poeta Chacal, inspirada pela poesia transformou o poema "Drinkee" em música, o ar tropical impera junto a um grudento solo de guitarra, a voz sensual e macia de Sofi se mescla aos beats eletrônicos e hipnotiza, outros hits em português são "Matadora" e "Johny", o novo single lançado recentemente, um poema de Paulo Leminski. Ouça.

06- Die Antwoord (África do Sul)
Die Antwoord é uma banda sul-africana de rap/rave formada por Ninja e Yo-Landi Vi$$er. Ficaram muito mais conhecidos depois de participarem do filme "Chappie" (2015). O som é uma mistura de ritmos de várias culturas, hip hop, punk e eletrônico, eles carregam um visual excêntrico que lembram personagens de história em quadrinhos, além da atitude agressiva e irônica, letras pesadas que representam o gueto, a cultura Zef, uma das grandes marcas da banda é a voz de Yo-Landi, que passeia entre o sensual e o infantil. Ouça.

05- Sevdaliza (Irã/Holanda)
Nascida no Irã, mas criada na Holanda, Sevdaliza ex-jogadora de basquete vem se destacando no cenário pop com músicas que combinam uma porção de gêneros e sonoridades, trap, eletrônico, R&B e pop com uma aura minimalista, hipnótica e sensual. As letras de suas canções são críticas e pontuais, a surrealidade e o mistério fazem parte do universo de Sevdaliza. Tem dois Eps lançados, "The Suspended Kid" e "Children of Silk", e fez seu début esse ano com o álbum "Ison". Ouça.

04- Chinawoman (Canadá)
Chinawoman, pseudônimo da canadense de origem russa Michelle Gurevich, nos transporta para um mundo decadente, sensual, profundo e sombrio em suas canções, as baladas melancólicas exercem grande fascínio e sua voz grossa e melodiosa carrega poesia e solidão, seu som passeia por gêneros como slowcore, rock e lo-fi. Tem quatro álbuns lançados: "Party Girl" (2007), "Show Me the Face" (2010), "Let's Part in Style" (2014) e "New Decadence" (2016) Ouça.

03- Rosario Smowing (Argentina)
Rosario Smowing é uma "rockbigband" da cidade de Rosario, Argentina. Combinam elementos de ska, jazz, mambo, rockabilly, dixie, tango e bolero recriando a aura dançante dos anos 40, 50 e 60 com arranjos originais e muito swing argentino, os músicos são talentosíssimos e garantem um grande show, este eu tive a oportunidade de ver ao vivo e indico com imensa alegria. Foi um dia inesquecível! O álbum "No te Prometo Nada" (2015) é um dos melhores da discografia. Ouça.

02- DakhaBrakha (Ucrânia)


DakhaBrakha que significa dar e receber é um quarteto formado em Kiev, o grupo mescla em suas músicas sons ancestrais da Ucrânia junto a outros ritmos culturais, como o africano, o latino, o australiano, o árabe, e por isso são denominados como "caos étnico", também incorporam elementos modernos, como o hip hop e o rock. Há estranhamento e encantamento ao ouvir os cantos polifônicos, as vozes femininas tem timbres lindos e impressionantes, emociona e hipnotiza, é uma experiência escutá-los, uma viagem, um deslumbramento; a sinceridade, a naturalidade e a entrega dos músicos são surpreendentes. Ouça.

01- Postmodern Jukebox (EUA)

Criado pelo compositor, pianista e produtor Scott Bradlee, Postmodern Jukebox é um coletivo de músicos que fazem adaptações de músicas pop com um estilo vintage. O jazz, o swing, o ragtime dão um charme a essas canções tão conhecidas e nos fazem viajar pelos anos 20, 30, 40 e 50 facilmente. São inúmeras participações e artistas de imenso talento, dentre eles destaco a bela voz de Haley Reinhart, o interessante Puddles Pity Party e Sara Niemietz, mas todos sem exceção são excelentes, e graças ao Youtube os vídeos super bem produzidos têm se tornado virais e alavancado esse maravilhoso trabalho. Ouça.
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