segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Achados Musicais

Segue mais uma lista de indicações musicais (outras listas aquiaqui e aqui) que vão na contramão de tudo, músicos originais, inusitados e que fazem uma mistura vibrante de gêneros e vozes capazes de penetrarem a nossa alma. 
Música boa para revitalizar!

Caravan Palace - França
Caravan Palace é um grupo francês que mistura jazz com música eletrônica, a raiz do swing jazz, trompete, clarinete e contrabaixo com a atual música eletrônica e seus sintetizadores, além da uma pegada cigana. Tem ar de belle époque e rave ao mesmo tempo. Um som surpreendente, delicioso e super animado. Confira aqui.

Papooz - França
Papooz é um duo francês bem peculiar e ao mesmo tempo fácil de assimilar, tem um estilo definido como tropical garage, são canções pop com uma pegada de bossa nova e ares de anos 70, tem leveza e as vozes criam uma harmonia incrível. Recentemente lançaram o álbum intitulado "Green Juice". Confira aqui.

Milky Chance - Alemanha
Milky Chance é um duo alemão que mescla pop alternativo, folk, reggae e música eletrônica, tendo a voz de Clemens Rehbein como a principal característica. O álbum "Sadnecessary", lançado em 2013, é aparentemente simples, mas surpreende e cativa a cada música. Confira aqui.

Deluxe - França
Deluxe é um sexteto francês que esbanja espontaneidade, essa característica é algo marcante nos chamados músicos de rua devido o improviso, eles originalmente tocavam em praças, estações de metrô na cidade de Aix-en-Provence. Com influências de jazz, funk e hip hop a uma mistura de pop eletrônico, surge um clima contagiante que é impossível ficar parado. Tem uma mescla do folclórico com o moderno, são músicos abertos a possibilidades. Lançaram nesse ano o segundo álbum intitulado "Stachelight". Confira aqui.

King Krule - Reino Unido


Archy Marshall é King Krule, com apenas 21 anos e dois álbuns lançados "6 Feet Beneath the Moon" (2013) e "A New Place 2 Drown" (2015) se sobressai com a sua melancolia e sua potente voz, é um cantor com uma forte carga emocional, letras depressivas e muitas influências, desde o jazz, trip hop até o pós-punk depressivo dos anos 80, seu estilo beira o darkwave, mas defini-lo é impossível. Com certeza uma figura que chama a atenção e que surpreende com sua vigorosa voz. Confira aqui.

Lou Doillon - França
Filha da atriz e cantora Jane Birkin com o cineasta Jacques Doillon, portanto meia-irmã da também atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, Lou Doillon é atriz e modelo, estreou no cenário musical com o álbum "Places" em 2012, suas canções são profundas e atraentes, sua voz singular e sensual passa por várias nuances de grave e confere um ar de elegância. Há uma sensação de solidão, mas é agradável. Seu segundo álbum lançado em 2015 chama-se "Lay Low". Confira aqui.

Devil Doll - EUA
Devil Doll é uma banda de rockabilly americana comandada por Colleen Duffy, com dois álbuns lançados "Queen of Pain" (2002) e "The Return of Eve" (2007), além do rockabilly, o som também passeia pelo psychobilly. Infelizmente, Colleen Duffy recentemente foi diagnosticada com a Síndrome de Ehlers-Danlos e está com a carreira paralisada.

Fantastic Negrito - EUA
Xavier Dphrepaulezz é Fantastic Negrito, cantor e multi-instrumentista americano que tem em seu som uma poderosa mistura de black music, blues, jazz e uma atitude punk à la Oakland. Sua vida marcada por intensas e difíceis experiências só o conduziram para a sua fase de agora, como ele mesmo diz, precisou nascer três vezes, suas canções retratam essas vivências e por isso chegam tão intensas e viscerais. Seu último álbum lançado é "The Last Days of Oakland" (2016). Confira aqui.

Filipe Catto - Brasil
O brasileiro Filipe Catto é cantor, compositor e violonista, sua singular voz aguda e afinadíssima chega suave aos ouvidos, a comparação ao timbre de Ney Matogrosso é inevitável, mas suas referências vão de Elis Regina, Cassia Eller a Jeff Buckley, certamente um novo respiro para a MPB, ele tem uma dramaticidade e um apuro ímpar. Tem dois álbuns lançados, "Fôlego" (2011) e "Tomada" (2015). Confira aqui.

Monika - Grécia
Monika Christodoulou ou apenas Monika, é uma cantora e compositora grega, também toca vários instrumentos, incluindo piano, guitarra, saxofone, acordeão e tambores. Tem três álbuns lançados, sendo que só o terceiro "Secret in the Dark" (2015) alcançou sucesso fora de seu país, também marca seu novo estilo, com uma mistura de funk e disco music, sua voz desprendida e andrógina ajuda bastante no clima dançante. Confira aqui.

Menção Honrosa

Buena Vista Social Club - Cuba
Buena Vista Social Club era um clube de dança e atividades musicais de Havana, Cuba, onde os músicos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel "Puntillita" Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz e Omara Portuondo. Ao longo dos anos novos membros entraram no grupo. Foi fechado na década de 1950.
Na década de 1990, aproximadamente 40 anos após o fechamento do clube, inspirou uma gravação do músico cubano Juan de Marcos González e o guitarrista americano Ry Cooder com os músicos tradicionais, o disco, chamado Buena Vista Social Club tornou-se um sucesso internacional. Foi quando então o diretor alemão Wim Wenders filmou a apresentação do grupo na Holanda, e uma segunda apresentação no famoso Carnegie Hall em Nova York, transformando num documentário, acompanhado de entrevistas feitas em Havana com os músicos. Em 2006 foi lançado "Rhythms del Mundo", um álbum com as estrelas do Buena Vista e da música cubana Ibrahim Ferrer (sua última gravação antes de morrer em 2005) e Omara Portuondo com artistas como U2, Coldplay, Sting, Jack Johnson, Maroon 5, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, entre outros. As apresentações do grupo terminaram em 2015.
É um mergulho delicioso na cultura cubana, uma sonoridade vigorosa e elegante que prima pela identidade e, claro, jamais pode ser esquecida. Viva Buena Vista! Ouça aqui.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Mãe Só Há Uma

"Mãe Só Há Uma" (2016) dirigido por Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta? - 2015), retrata conflitos e complexidades numa narrativa desprendida e suscita reflexões acerca de vários assuntos relevantes.
Inspirado no famoso caso Pedrinho, do qual descobriu apenas na adolescência ter sido roubado na maternidade, Pierre (Naomi Nero), um jovem em fase de descobertas vê sua vida se transformar após sua mãe ir presa e ser jogado em um lar completamente oposto o da sua criação, o conceito que ele tinha de família se desorganiza, sua irmã mais nova também tinha sido roubada, mas por mais criminosa e monstro, como Aracy (Daniela Nefussi) é chamada, ela foi uma mãe. O mundo dele vem abaixo com a descoberta, como deixar de ver a pessoa com quem conviveu até ali como não sendo a sua mãe? A confusão de sentimentos toma conta do garoto quando vai morar com a família verdadeira e ainda mais por estar vivendo um momento de transformações no âmbito da sexualidade.
Pierre parece estar desconectado da situação, as reações não são demonstradas inicialmente, ele é passivo, talvez por não ter outra alternativa e pelo choque da mudança, um reconhecimento de si e do entorno. A nova família é de classe média alta e tem toda uma postura correta, rígida, percebe-se por Joca (Daniel Botelho), irmão de Pierre - que agora é chamado de Felipe, o menino tem referências controladoras, as suas atitudes são em decorrência desta educação. Os conflitos com o passar do tempo vão se inflando, existe uma forçação de barra, tentativas de agradar que mais atrapalham, querem moldar Pierre e escolher o seu futuro, o garoto nem chegou e já planejam tudo. Compreensível que desejam resgatar o tempo de sofrimento, mas fazem de maneira torta, não se cria laços do dia para noite, o amor se constrói, e a compaixão por aquelas pessoas se desfaz quando a hipocrisia dá as caras e o amor se revela puro egoísmo.

O pai (Matheus Nachtergaele) aparece algumas vezes chorando e tem receio de o perder novamente, porém no decorrer identifica-se um sujeito egoísta e preconceituoso, no episódio em que vai à loja comprar roupas com o filho é perfeito, enquanto Pierre/Felipe escolhe roupas despojadas, ele pega as camisas sociais, de saco cheio o garoto decide experimentar um vestido, o que desconstrói completamente o personagem de pai amoroso. A mãe, Glória, também interpretada por Daniela Nefussi, não quer enxergar a realidade, tenta abafar não conversando sobre as atitudes dele e sempre com expressões que beiram a repulsa, seu desgosto perante o filho é nítido. 

O tão desejado reencontro não foi como eles sonharam, Pierre se cansa do conservadorismo daquela família e cada vez mais necessita mostrar quem é, começa a confrontá-los e é aí que o filme fica ótimo, o garoto finalmente se impõe, ganha uma boa carga dramática, são tantos conflitos envolvendo o personagem, além de ter que lidar com a nova família, precisa entender a sua sexualidade, que está em fase de experimentação, nesse ponto o longa não usa de esteriótipos e não diz a orientação sexual ou identidade de gênero, os pais que diziam amá-lo o encaram como uma anomalia por ele sair fora das normas e despejam preconceito atrás de preconceito. 

Destaque para as cenas de explosões emocionais e para as interpretações, Daniela Nefussi encara de forma magistral as duas mães, passa imperceptível de tão bem delineada as personagens, Matheus Nachtergaele também incrível expondo todo o lado de um pai que teve a chance de recuperar o seu filho, mas não o aceita como é, em um diálogo ele diz: "De quantas formas você quer que a gente te perca?", e Naomi Nero entrega um personagem repleto de dilemas, ele o construiu de maneira sensível e espontânea.
"Mãe Só Há Uma" tem uma narrativa livre, autêntica e subjetiva, promove inúmeras reflexões, importantes questões perpassam a trama, principalmente em relação a vínculo familiar e sexualidade, apesar de se sutil e ter delicadeza não deixa de ser pertinente e incômodo em muitos momentos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Born To Be Blue

"Born To Be Blue" (2015) dirigido por Robert Budreau retrata um dos mais marcantes trompetistas e vocalistas de jazz, Chet Baker. 
O filme narra a vida de Chet Baker no final dos anos 1960, depois de muitos anos abusando das drogas e de passar por severos problemas financeiros. Na tentativa do músico retornar à sua carreira gravando sua vida no cinema, acontecimentos imprevistos continuam a representar uma ameaça para o sucesso de sua recuperação.
A aura do filme é nostálgica, segue em tom elegante e é coroada por uma impressionante atuação de Ethan Hawke na pele de Chet Baker, além da estonteante trilha sonora exalando emoção. 
Na trama acompanhamos um período da vida de Chet, um gênio e uma espécie de James Dean do trompete, amado pelas mulheres e respeitado pelos músicos de jazz, ele conseguiu seu espaço em um cenário dominado por negros. No auge de sua carreira se envolveu em inúmeras confusões e desenvolveu um forte vício em heroína, Chet mergulha fundo nas dores de sua existência e sua estrela vai se apagando, o filme foca exatamente na fase em que ele tenta se reerguer, um diretor de cinema aposta nele e em sua história, no set de filmagem conhece a atriz Jane (Carmen Ejogo) que fará com que Chet se mantenha longe das drogas e empenhado a reestruturar sua carreira.
Chet é uma figura excêntrica, ele já tinha perdido um dente quando mais novo e era tipo o seu charme, mas após ser espancado por traficantes a quem devia perde todos os dentes, o que o deixa incapacitado de tocar, Jane dá muita força a Chet, ele volta para o local da infância, mas seus pais parecem distantes, trabalha um pouco num posto de gasolina, se trata usando metadona e nesse meio tempo tenta encontrar uma nova embocadura a fim de voltar a ser quem era. São momentos tristes, pois Chet se machuca, sua boca sangra e parece que não conseguirá. Tocar é toda a vida dele, a única coisa que faz sentido para si. Histórias que demonstram o amor que artistas tem pela sua arte é sempre prazeroso assistir, mesmo que isso os aproximem da loucura. 
Jane é centrada e apaixonada por ele, a todo instante o incentiva, principalmente a ficar longe das drogas. Em dado momento, Chet volta para os estúdios e mostra que sua genialidade musical não se perdeu, então começa a traçar um novo capítulo de sua história, em uma sessão para convidados no estúdio de um antigo amigo emociona a todos com seu romantismo e sua destreza com o trompete.
Interessante as passagens em que mostra o passado, sua rivalidade com Miles Davis e a admiração pelo seu mestre Charlie Parker. Notória a interpretação de Ethan Hawke, carregada de angústia, diálogos certeiros, olhares intensos. Hawke dá vida a canções tristes, românticas e profundamente lindas, fez jus a voz de anjo de Chet. Impossível não se encantar com "My Funny Valentine", "I've Never Been In Love Before" e a canção que dá título ao filme.

A vida de Chet Baker foi marcada por muitas confusões, deixou-se vencer pela serenidade que a heroína o proporcionava. Chet teve duas fases como músico, antes do episódio de perder os dentes, que era conhecido como um jazzista cool, cheio de swing e quando reaprendeu a tocar, cuja sensibilidade tornou-se sua principal característica. Toda a sua dor e seus tormentos são expostos com suavidade, tanto na voz quase sussurrando quanto no seu jeito único de tocar.
"Born To Be Blue" é um filme honesto que retrata um músico genial que se destruiu por não conseguir suportar ficar longe da heroína, a cena final é intensa, dolorida e demonstra um ser humano controverso, magnífico e autodestrutivo, e assim foi até o último dia de sua vida. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Mais Forte Que Bombas (Louder Than Bombs)

"Mais Forte que Bombas" (2015) dirigido por Joachim Trier (Oslo, 31 de Agosto - 2011) e roteirizado pelo seu parceiro Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme tocante que retrata conflitos em um ambiente familiar, a difícil interação entre pais e filhos e como a ausência ocasionada por uma morte pode afetar a convivência dentro da casa. Joachim Trier e Eskil Vogt têm uma sensibilidade incrível ao expor dramas existenciais, a dor, a depressão e a desordem que esses sentimentos provocam, tanto para quem vivencia, como para aqueles que estão ao lado.
Uma exposição que celebra a fotógrafa Isabelle Reed (Isabelle Huppert) três anos após sua morte prematura traz o filho mais velho dela, Jonah (Jesse Eisenberg), de volta para a casa da família, forçando-o a passar mais tempo com seu pai Gene (Gabriel Byrne) e seu afastado irmão mais novo Conrad (Devin Druid) do que passou em anos. Com os três sob o mesmo teto, Gene tenta desesperadamente se conectar com seus dois filhos, mas eles precisam lutar para conciliar seus sentimentos sobre a mulher da qual se lembram de maneiras tão distintas.
Interessante é que conseguimos adentrar no universo de cada um dos personagens, a maneira que cada um lida com a dor do luto, Jonah, o filho mais velho, acaba de se tornar pai e se vê entediado com a vida de casado, ele vai para a casa do pai devido à exposição, e assim encarando o passado percebe a realidade da família. Gene está namorando uma colega de trabalho, que por sinal é professora de seu filho caçula, Conrad, este um garoto aparentemente quieto, reprimido e solitário, porém quando o observamos mais de perto vemos que ele é um adolescente comum cheio de questões e pronto para as descobertas, ao se apaixonar por uma garota popular, a sua personalidade fica mais evidente, talvez as coisas o afetem de maneira mais intensas.
O filme permite que enxerguemos as angústias dos personagens e como cada lida com a dor e o peso da vida. A solidão e a tristeza é muito presente, mas sempre retratada com realismo e delicadeza.

Não é fácil lidar com um assunto tão pesado, a morte de alguém da família e o como isso afeta os que ficam. A exposição que um jornalista realizará sobre a fotógrafa - maravilhosa interpretação de Huppert, intensa em suas expressões, há closes demorados e belíssimos - mostra que seu trabalho a transformou e que pouco via de satisfatório quando voltava para casa, por vezes se sentindo uma intrusa ali no cotidiano dos filhos e marido, os flashes do passado chegam suavemente e complementa a trama perfeitamente, um trabalho primoroso do roteirista. David Druid como Conrad é outro grande destaque, atuação sensível que denota o quão está perdido tentando entender o que de fato aconteceu naquela noite do acidente. 

"Insignificantes fragmentos apareceram todos juntos nos segundos finais. Os segundos não eram mais segundos, haviam esticado para minutos. O tempo havia se alongado. No que pensava ela? O que passou por sua cabeça ao perceber que o acidente era inevitável?" 

O aprofundamento nos medos, nas angústias e nas dificuldades dos personagens é onde reside a força do filme, encarar e seguir em frente exige muito, os três à maneira deles tentam ultrapassar as barreiras individuais. "Mais Forte que Bombas" é um belo título e representa o que acontece dentro de Jonah, Conrad, Gene e Isabelle. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Uma História de Loucura (Une Histoire de Fou)

"Uma História de Loucura" (2015) dirigido por Robert Guédiguian (As Neves do Kilimanjaro - 2011, O Fio de Ariane - 2014) é um filme humanista que coloca dois personagens distintos frente a frente, um conto de generosidade e um admirável trabalho no que confere a seu contexto histórico e do qual a trama se baseia, o genocídio armênio, este que foi um episódio horroroso da História, mas que não é lembrado e nem estudado como deveria. O filme levanta questões importantes sobre terrorismo, conflitos étnicos e a luta dos armênios pela reparação histórica.
O filme inicia-se com um prólogo em preto e branco que explica que existem outros tipos de guerras, elas continuam em decorrência de tanta intolerância e violência. "Eu penso que os momentos mais importantes da História não aconteceram nas guerras, nem em palácios, nem em corredores de parlamentos, mas em cozinhas, em quartos de casais e quartos de crianças. Talvez seja por isso que quando as guerras começam, elas nunca têm fim. Elas continuam de outras formas." No início do século XX, Talaat Paxa, turco responsável pelo massacre armênio é morto com um tiro na cabeça pelo sobrevivente armênio Soghomon Tehlirian, que acaba sendo absolvido pelo tribunal alemão e se torna um herói. Essa execução foi muito mais do que uma vingança, foi um elaborado plano da chamada Operação Nêmesis.
Após essa introdução a história anda duas gerações, no final dos anos 70 e centra-se em Aram (Syrus Shahidi), um rapaz de Marselha, de origem armênia que tem como ídolo Tehlirian, ele não é passivo como seu pai, então se embrenha na luta armada e explode o carro do embaixador turco em Paris. Um jovem ciclista que estava por perto fica gravemente ferido. Enquanto ele tenta entender o que aconteceu, a mãe de Aram entra em seu quarto de hospital e pede perdão. Daí observamos o drama de Gilles (Grégoire Leprince-Ringuet) que perde os movimentos das pernas e a sua obsessão por Aram depois que Anouch (Ariane Ascaride) o visita no hospital. Ele confuso com a nova situação vai parar na casa da família de Aram, que o hospedam e o tratam com carinho, Anouch tentará uma ponte entre os dois, no que ocasionará consequências inesperadas. Aram vive o cotidiano da guerrilha e com o tempo se questiona se vale a pena tirar vidas de inocentes em prol da visibilidade da luta. O filme propõe ao espectador que é preciso rever nossos conceitos perante os outros, nos colocarmos na pele e saber que cada um tem a sua própria motivação na vida.

O diretor Robert Guédiguian sempre com olhar afetuoso retrata as transformações que seus personagens sofrem por conta das escolhas. Outro ponto a acrescentar nesta belíssima e importante obra, é o diálogo que acontece sobre o modo que se vira uma página, a mãe de Aram diz: "existem páginas que nunca viramos". O genocídio armênio precisa ser lembrado, estima-se segundo registros oficiais que entre 600 mil e 1,8 milhão de pessoas foram mortas, enquanto outras centenas de milhares ficaram sem pátria. Não dá para acreditar que este pedaço da História ainda seja negado ou omitido por diversos países, inclusive a Turquia.

"Uma História de Loucura" tem a excelente qualidade de fazer que o espectador veja todos os ângulos da história e se coloque no lugar dos personagens, não julgando se está certo ou errado, mas simplesmente questionando a si próprio sobre o que faria em tal situação. A loucura parece não estar no ódio e na intolerância, mas no ato de ser gentil com o outro, esta parece ser a maior insanidade nos dias de hoje.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Eu, Olga Hepnarová (Já, Olga Hepnarová)

"Eu, Olga Hepnarová" (2016) dirigido pela dupla Petr Kazda e Tomáš Weinreb conta a história verdadeira de uma assassina em massa, que nos anos 70 na Rep. Tcheca decidiu colocar toda a sua raiva e angústia para fora através de uma cruel ideia, matar o máximo de pessoas possível atropeladas por um caminhão.
Olga Hepnarová era uma jovem solitária, membro de uma família de coração frio, que não poderia fazer o papel que a sociedade designou à ela. Sua paranoica autoavaliação e a incapacidade de se conectar com outras pessoas levou-a ao limite da humanidade quando tinha apenas 22 anos de idade. O filme mostra o ser humano por trás da assassina em massa sem glorificar ou minimizar o crime que ela cometeu. Guiado por suas cartas, nos aprofundamos na psique de Olga e testemunhamos o agravamento da sua solidão e alienação enquanto reconstruímos os eventos que levaram às suas ações desastrosas.
Olga (Michalina Olszanska) é uma garota que não se encaixa na sociedade, seus pensamentos sempre a levam a questionar se deve se matar, ou matar os outros. Após uma tentativa de suicídio é levada a um hospital psiquiátrico, sua mãe é uma figura fria e ela diz em dado momento para Olga que para cometer suicídio é preciso grande força de vontade, coisa que ela não tem. É um grande estudo de personagem, tentar decifrar sua mente é um desafio, a negligência familiar, abusos e todos os traumas advindos do bullying agravou a sua loucura. No início, Olga parece ser apenas introspectiva, mas com o desenrolar percebemos que há algo mais grave em seu ser, ela é autocrítica, e consequentemente autodestrutiva, a composição da personagem de Michalina Olszanska merece intenso destaque, a postura, gestos, maneira de andar e até de fumar e olhares fazem com que entendamos um pouco de sua personalidade, ela aparentemente é uma menina franzina, frágil, só que em seus atos demonstra força.
Olga depois de sair da clínica resolve deixar sua família e segue para uma espécie de cabana, apesar de não parar em emprego nenhum por não conseguir seguir as regras determinadas, se sobressai como motorista e consegue uma vaga para dirigir um caminhão. Olga se envolve com várias mulheres, mas todos esses relacionamentos terminam não dando certo, suas infelicidades contribuem para sua obsessão de vingança, ela quer que as pessoas paguem por ela ser como é. 

A sobriedade do filme impressiona e assusta, a atmosfera de solidão e angústia é ampliada pela fotografia em preto e branco, é uma obra que seduz e ao mesmo tempo desconcerta. 
Olga certamente era diferente, uma jovem rebelde que ia contra as normas de uma sociedade comunista, os agravantes de abusos e falta de afeto conferiu a ela uma derrocada mental, onde termina cometendo um ato horroroso. Ela se sentia injustiçada e queria que a sociedade pagasse pelo seu sofrimento. Em nenhum momento Olga se arrepende, ela segue confiante perante o juiz e pede a própria pena de morte. 

"Eu sou solitária. Um ser humano destruído. Um humano destruído por pessoas... Eu tenho uma escolha - me matar ou matar outras pessoas. Eu escolho me vingar com meu ódio. Seria muito fácil deixar este mundo com um suicídio desconhecido. A sociedade é tão indiferente, certo. Meu veredito é: Eu, Olga Hepnarová, vítima de sua bestialidade, condenada à pena de morte."

No fim, Olga é levada para a forca e quando encara a realidade que está por vir se desmonta e revela um desespero aterrador, ela esperneia e grita, mas não há mais o que fazer. Há vários pensamentos de Olga que valem bastante reflexão, por exemplo, seria mais preferível não tentar entender, mas apenas aceitar que não podemos compreender um outro ser humano, e em outro momento ela diz que todos tem o mal em si e que pensam em violência, mas só os que nem ela são capazes de agir.
Em abril de 1974, Olga foi enforcada na prisão Pankrác em Praga, tornando-se a última mulher executada na Tchecoslováquia. De acordo com o carrasco, como foi registrado pelo escritor Bohumil Hrabal, pouco antes da execução, Hepnarová desmaiou e teve que ser arrastada para a forca.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Vulcão Ixcanul (Ixcanul)

"O Vulcão Ixcanul" (2015) é mais uma pérola do cinema latino-americano, o longa de estreia do diretor guatemalteco Jayro Bustamante, além de ser belo esteticamente carrega diversas críticas sociais, como a americanização dos indígenas, a exploração no trabalho, o tráfico de bebês e a pobreza nas zonas rurais. A filmagem em luz natural e a fotografia em tons escuros promove um estilo de filme seco e denso, utilizando atores não profissionais prima pela autenticidade, respeitando a cultura, as crenças, costumes e a língua local, o Kaqchikel. A naturalidade exposta é o grande feito do filme, retrata a pobreza e a ignorância sem provocar piedade.
Maria (Maria Marcedes), uma jovem de 17 anos, vive nas encostas de um vulcão ativo na Guatemala e tem um casamento arranjado esperando por ela. Embora sonhe em conhecer a cidade, seu status de mulher indígena não permite que ela vá a esse 'mundo moderno'. Mais tarde, Maria engravida e uma complicação faz com que a garota seja salva justamente por esse mundo moderno. Mas a que preço?
Maria como qualquer outro jovem sente curiosidade em descobrir o mundo além daquele que a rodeia, ela é uma moça que está na fase das descobertas, mas por viver num ambiente cheio de tradições e superstições fica presa a esta condição. A bela cena inicial mostra ela sendo preparada para o casamento que, na verdade, só interessa para a família, pois Maria é apaixonada por um garoto da aldeia que sonha em ir para os Estados Unidos, o casamento arranjado seria uma forma da família se estabelecer, já que o emprego na plantação de café é temporário, o dono é viúvo e tem alguns filhos e espera ansiosamente para ela se tornar sua mulher. Acontece que Maria se entrega para o garoto e engravida, após alguns meses a mãe (Maria Telón) descobre e a situação no local se complica. Maria sonhava em fugir com Pepe, mas ele foi e a deixou para trás. A mãe assume o problema e entre alguns rituais decide que o bebê deve nascer, mesmo arriscando perder a moradia e o emprego. Claro, o futuro marido não gosta nada disso e expulsa-os.
O vulcão tem grande influência na vida dessas pessoas, tudo depende dele, inclusive ele é como um Deus para esse povo, sempre que há uma dúvida é para lá que vão e depositam uma oferenda. Em meio a esse ambiente hostil vivem na mais completa pobreza e ignorância, quando cobras ameaçam a plantação, Maria decide fazer um ritual, pois está grávida e isso a torna especial, mas ela acaba sendo picada e nesse momento a única solução é levá-la ao hospital. Quando chegam na cidade são ludibriados, não conseguem se comunicar em espanhol e o intérprete, o dono do cafezal, fica incumbido de traduzir, mas seus interesses pessoais tomam a dianteira e daí Maria termina assinando um papel que dizem ser uma coisa, quando na verdade é outra. O desenrolar disso é assustador.

Ao focar neste pequeno povoado indígena isolado percebemos o quão importante é respeitar crenças e tradições milenares, mas ao invés disso eles são explorados e enganados. A globalização que tentam impor os ilude de que outro lugar os ofereça uma vida onde se tem tudo facilmente. 
"O Vulcão Ixcanul" é um belíssimo e estonteante filme que traz a possibilidade de conhecermos um povo que cultiva rituais ancestrais, e como a juventude se porta diante da inadequação que surge pelas possibilidades de descobertas mundo afora. A crítica em relação a posição da mulher nesta sociedade é outra coisa que chama a atenção, tanto Maria e a mãe são personagens fortes que a seus modos sobrevivem a este meio machista que as vê somente como procriadoras e donas de casa. Mas através de algumas ironias percebe-se que elas é que comandam. Não é à toa que suas figuras se sobressaem.

A ignorância que advém dos personagens é demonstrada não os colocando como uns pobres coitados, ao contrário, eles são donos de si e calejados pelos infortúnios, o que impressiona é o como as pessoas se aproveitam dessa ignorância para oprimir, manipular e segregar. O choque entre tradição e modernidade é enorme.
O filme exibe cenas grandiosas, uma das mais bonitas é o banho de Maria junto da mãe, os personagens encantam, mas apesar disso a história é contada com alguma distância, as tomadas que exploram a beleza natural do local são deslumbrantes. "O Vulcão Ixcanul" é um filme curioso cheio de particularidades, cujo diretor faz questão de expor as raízes do país.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vulcão (Eldfjall)

"Vulcão" (2011) dirigido pelo islandês Rúnar Rúnarsson (Sparrows - 2015) é um drama intenso que lentamente mostra um personagem que se desconstrói ao longo da trama. Inevitável não pensar no valor da vida e no como estamos agindo. É a história de amadurecimento de um homem de 67 anos de idade. Quando Hannes (Theódór Júlíusson) se aposenta de seu emprego como zelador, começa o vazio que é o resto de sua vida. Ele está afastado de sua família, quase não tem amigos e o relacionamento com sua esposa está desgastado. Por meio de eventos drásticos, Hannes percebe que ele tem que ajustar sua vida a fim de ajudar alguém que ama.
Não tem como não associar este filme ao "Amour" (2012) de Haneke, existem muitas similaridades e o desfecho é o mesmo, talvez Haneke tenha se inspirado, ou seja apenas uma coincidência, vai saber... O grosso da história é parecido, mas os elementos são diferentes, por exemplo, a melancolia entranhada, o ambiente ajuda nessa sensação, a Islândia tem esse poder por si só. É bom enaltecer este longa, pois "Amour" veio depois e se sobressaiu, ganhou inúmeros prêmios, já "Vulcão" ficou desconhecido. Rúnar Rúnarsson é um exímio diretor, tem uma sensibilidade ímpar, consegue extrair beleza da tristeza. É um filme silencioso que cresce e nos leva junto com seu personagem. 
Hannes é rabugento e visto por todos como um infeliz, depois que se aposenta percebe que sua vida não tem sentido, destrata os filhos, os netos e sua mulher Anna (Margrét Helga Jóhannsdóttir). Nada o agrada, briga por coisas banais e não compartilha da felicidade dos filhos, está sempre prestes a entrar em erupção, mas após ouvir uma conversa de seus filhos se dá conta do como é visto, sua personalidade muda também após escapar de um acidente marítimo. Sua redenção chega atrasada, percebeu tarde demais o quão distante e ríspido estava sendo, depois de passar uma noite agradável com a esposa, ela é acometida por um derrame gravíssimo, Anna fica paralisada e perde totalmente a noção do real, Hannes decide cuidar dela em casa, mesmo os filhos sendo contra, ele sabe que não há nada que possa reverter este quadro e dia após dia vê o sofrimento aumentar, sua mulher que na noite anterior lhe despertou desejo, agora vegeta e apenas urra, então nasce um sentimento de humanidade, vê fotos e vídeos de seu passado e percebe que precisa tomar uma decisão, aos poucos compreende os acontecimentos e faz o que precisa ser feito. 
Hannes diante de uma situação inesperada tenta se posicionar, antes um homem frio e aborrecido se transforma numa pessoa afável. É pela dor que ele renasce.

O título se dá porque Hannes se mudou com a família de sua ilha natal devido uma erupção vulcânica, esse episódio permeia a vida de Hannes, o desejo de retornar o persegue, mas há muito se estabeleceu na cidade, e ele é o próprio vulcão, um homem irritadiço que as pessoas temem ficar perto, por muitas vezes ele espalha sua lava que contamina o ambiente e afugenta todos ao redor. Mas mesmo tendo esse aspecto rochoso seu interior é feito de fragilidades, as cenas que demonstram suas fraquezas são as mais impressionantes. 
Com tom pessimista, cru em sua abordagem, é imensamente bonito em sua tristeza, traz à tona um tema difícil de digerir. "Vulcão" expõe com sinceridade o drama que é envelhecer, muitas vezes nos damos conta do amor pelas pessoas que nos rodeia tarde demais, e daí recomeçar exige grande força.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

De Longe Te Observo (Desde Allá)

"De Longe Te Observo" (2015) dirigido pelo estreante Lorenzo Vigas é um filme de ambiguidades que suscita várias reflexões. Aos poucos descobrimos o personagem Armando, um homem silencioso e frio que procura meninos mais novos para somente olhá-los nus. 
Caracas, Venezuela. Armando (Alfredo Castro) é o dono de um laboratório de próteses dentárias, que costuma caminhar pela cidade, buscando aproximar-se de rapazes. Ele oferece dinheiro para que os jovens o acompanhem até sua casa, para que possa se masturbar diante de sua nudez. Um dia, Armando faz a oferta a Elder (Luis Silva), que lidera uma gangue local. Revoltado e desconfiado por natureza, Elder aceita a oferta mas, na casa de Armando, o agride e rouba seu dinheiro. Esse é o início de um complexo relacionamento entre eles, já que Armando volta a procurá-lo e Elder precisa de dinheiro. 
Elder precisando de dinheiro aceita a oferta de Armando, mas diferente dos outros garotos não é passivo e lá o agride e rouba seu dinheiro, esse é o começo de uma relação permeada de nuances, ao longo passamos a observar o comportamento de Armando, um sujeito sem grandes atrativos, leva sua rotina fazendo próteses dentárias e caminhando pelas ruas em busca de meninos, Armando não os toca, ele é adepto do voyeurismo. Essas duas figuras tão díspares voltam a se encontrar e vão construindo uma relação estranha, difícil defini-la, são personagens silenciosos, não sabemos muito deles, e por isso a história fica um tanto aberta e cheia de questões.
Alfredo Castro é um grande ator, sabe compor detalhadamente personalidades esquisitas, vide "Tony Manero" (2009), "Pós Morte" (2010), "O Clube" (2015). O que se compreende sobre a vida de Armando é que tem problemas com o pai e o ódio fica claro em determinado ponto, a relação com a irmã é distante e sua mãe está morta. Elder é um garoto desconfiado, também com uma família desestruturada e lidera uma gangue de rua. Ao invés de Armando ir atrás de outro garoto, ele continua a seguir Elder, que inicialmente resiste, mas ao ser atacado e espancado, Armando o acolhe, cuida e deixa ele ficar em sua casa, a partir daí Elder passa a gostar de Armando. O menino não é gay, ele parece ter carência afetiva e enxerga em Armando uma figura protetora e num momento parece querer retribuir o cuidado, numa festa de aniversário ele o segue até o banheiro e o beija, Armando fica nervoso e lhe dá um tapa. Nada é simples nessa relação, o que Armando quer de Elder, ele seria apenas um objeto sexual a ser conquistado, ou está ajudando por ver as condições do menino? Elder abre sua vida depois de ganhar um carro de Armando, mas este continua silencioso, uma incógnita.

A questão social ajudou Elder a ser manipulado por Armando, também frágil e sem proteção vê no homem uma figura que representa segurança, ele dá o que o menino necessita, tanto sentimento, quanto material, é muito fácil controlar sabendo as carências do outro. Armando não toca no garoto, mas não deixa de ser uma relação abusiva, o final vem de forma seca e é impossível não se sentir desconfortável. 
"De Longe Te Observo" traz um personagem complexo, uma trama instigante e planos caprichados. Provocador, não se aprofunda, prefere deixar em aberto para pensarmos em cada atitude, tanto de Armando, como de Elder.
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