quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sabor da Vida (An)

"Sabor da Vida" (2015) dirigido por Naomi Kawase (O Segredo das Águas - 2014) é um filme de extrema sensibilidade, a conexão que acontece entre os personagens é delicada e o contato com a natureza - marca da diretora - é engrandecedor. O filme reúne elementos bem clichês, mas os transforma numa deliciosa e marcante história.
Sentaro (Masatoshi Nagase) dirige uma pequena padaria que serve dorayakis - panquecas recheadas com pasta de feijão vermelho doce. Quando uma senhora de idade, Tokue (Kirin Kiki), se oferece para ajudar na cozinha, ele relutantemente aceita. Mas Tokue prova ter um toque de mágica quando se trata de fazer "an". Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações para revelar velhas feridas.
Sentaro não gosta de doces, trabalha na lojinha por obrigação, o dono o ajudou a pagar uma dívida no passado, ele leva uma vida solitária e modesta, interagindo apenas com uma adolescente que tem problemas com a mãe. Um dia, aparece Tokue lhe pedindo emprego, mas ele nega, já com idade avançada seria quase impossível realizar o trabalho na loja. Mas ela não desiste e até leva sua própria pasta de feijão doce (an), Sentaro acaba experimentando e percebe que nunca havia comido uma pasta tão deliciosa. 
Tokue fica felicíssima por conseguir o emprego, não entende como alguém pode gostar dos doces feitos com uma pasta industrializada, todos os dias de manhã começa o processo do preparo, um exercício de paciência e com grandes pitadas de amor. Tokue representa toda a tradição que aos poucos está se perdendo no país, é possível observar nos jovens do filme o desapego dessas influências. A idosa tem um passado muito triste, ela teve lepra e por isso suas mãos são um tanto deformadas, ela fez parte do horrendo passado em que leprosos eram excluídos da sociedade, sendo confinados em casas afastadas construídas pelo governo, perdendo assim o direito de viver. A lojinha de Sentaro começa a fazer sucesso, os doces são apreciados, porém os rumores de que Tokue tem lepra se torna forte e o estigma da doença termina vencendo.
O convívio de Sentaro e Tokue é lindo e aos poucos o coração dele se abre para as delicadezas da idosa, o cuidado ao preparar o doce, suas conversas com o feijão, seu deslumbramento com as belezas cotidianas, a interação com a natureza, tudo isso conquista Sentaro, ele reaprende a olhar a vida e ao fim encontra um propósito para si. Eles compartilham belos momentos, cria-se amor e respeito pelo que se está fazendo, toda a preparação é retratada minuciosamente, impossível não sentir vontade de experimentar os dorayakis.

A natureza é inserida no longa de forma sutil, diferente dos seus outros trabalhos, Naomi Kawase introduz lindos simbolismos, desde as conversas de Tokue com os feijões, respeitando a história de cada ingrediente, a cerejeira, árvore preferida de Tokue, que simboliza a brevidade da vida, e o pássaro de Wakana, que no fim ganha a sua liberdade. São sequências tocantes e sensíveis, simples mas de grande magnitude, o estilo naturalista dá o diferencial à história. Os protagonistas cativam, assistimos sorrindo, mas também com lágrimas nos olhos. 

Passamos pela vida rapidamente, sem nem ao menos notá-la de fato, preocupamo-nos com coisas, e deixamos de identificar um sentido, algo que nos faça úteis e ao mesmo tempo felizes. Como Tokue diz: "Viemos a este mundo para ver e ouvir, não precisamos ser alguém."
Apesar dos dissabores da vida há de se continuar vivendo, e como o filme exemplifica, olhar com mais atenção e gentileza para os outros e para si mesmo, pois todos temos nossas histórias e o melhor que fazemos é compartilhá-las.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

The Cut

"The Cut" (2014) dirigido por Fatih Akin (Do Outro Lado - 2007) é um filme intenso sobre o genocídio armênio, a saga do personagem em busca das filhas é penosa e melodramática.
Mardin, 1915: numa noite, a polícia turca vai atrás de todos os homens armênios na cidade, incluindo o jovem ferreiro Nazaret Manoogian, que acaba separado de sua família. Anos mais tarde, depois de ter conseguido sobreviver aos horrores do genocídio, ele ouve que suas duas filhas ainda estão vivas. Ele se fixa na ideia de encontrá-las e sai nessa missão. Sua busca o leva desde os desertos da Mesopotâmia e Havana até as pradarias áridas e desoladas da Dakota do Norte. Nesta odisseia, ele encontra uma gama de pessoas muito diferentes: personagens de bom coração, mas também o próprio diabo encarnado.
O filme faz um mergulho profundo no que foi esse capítulo da História turco-armênia, e que hoje em dia é um assunto considerado tabu na sociedade turca, o filme é um registro da crueldade e de todo o sofrimento desse povo, um trauma do qual precisa ser refletido. 
Nazaret (Tahar Rahim) é um ferreiro que tem sua casa invadida em uma noite de 1915, deixando para trás a mulher e as duas filhas gêmeas. Junto com outros homens armênios, ele é obrigado a fazer trabalho pesado, construindo estradas como prisioneiro dos otomanos. Todos são tratados com violência e, quando a construção termina, sumariamente assassinados. O turco encarregado de cortar seu pescoço, condenado à prisão por roubo, consegue apenas romper suas cordas vocais, deixando-o mudo, então ele parte para sua jornada, é acolhido por um fabricante de sabão, encontra a cunhada à beira da morte em um campo de concentração e finalmente descobre que as suas filhas sobreviveram, e então vai atrás das duas em Cuba e depois nos Estados Unidos.
Tahar Rahim garante grande força a seu personagem, toda a sua expressão e carga emocional está explicitada em seus olhos, para ser entendido passa por inúmeras situações desagradáveis, mas também encontra seres humanos bondosos que o auxiliam na busca. O filme mescla História, drama, aventura e western com um ritmo bem regular, é dividido em capítulos que mencionam os períodos e locais envolvidos. 

As cenas de violência sem dúvidas se sobressaem, o início do filme impacta, não que o desenrolar perca a força, mas o começo acaba impressionando e emocionando mais. 
"The Cut" é didático, proporciona momentos visuais deslumbrantes e a trilha sonora composta por Alexander Hacke é marcante e condizente, principalmente a música que segue Nazaret o filme todo, além também de contar com a participação de Hindi Zahra no elenco, como a esposa de Nazaret, ela contribui com a bela canção "Everything To Get You Back".

O cinema de Fatih Akin é autoral, tem a característica de ultrapassar fronteiras geográficas e culturais. "The Cut" é a última parte de uma trilogia intitulada "amor, morte e diabo", a primeira parte é "Contra a Parede", 2004, a segunda, "Do Outro Lado", 2007. "The Cut" é um épico histórico/dramático muito bonito e importante, mas falha especialmente na confusão de idiomas, o protagonista fala em inglês quando está entre armênios, mas quando chega nos EUA não compreende a língua, mas não é algo que compromete o valor da obra. É um ótimo filme e fecha de forma magistral a trilogia de Fatih Akin.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Ned Rifle

"Ned Rifle" (2014) fecha a trilogia de Hal Hartley, iniciada em 1997 com "As Confissões de Henry Fool" e "Fay Grim", 2006.
Edward "Ned" Rifle (Liam Aikem) era ainda um menino quando a mãe foi presa, acusada de terrorismo, e uma família religiosa o adota. Ao completar a maioridade, o jovem deixa a casa adotiva convertido para percorrer o país a fim de vingar a mãe – matando o pai biológico. O filme segue o padrão dos anteriores, humor negro, personagens estranhos e diálogos reflexivos. 
Reencontramos Henry Fool (Thomas Jay Ryan), que estava sumido devido a um crime que cometeu, ele continua um homem decadente, alcoólatra, fumante compulsivo e um poeta, se gabando de sua intelectualidade e sempre se esquivando da banalidade da vida.
No primeiro longa ele incentivou o lixeiro Simon (James Urbaniak), irmão de Fay (Parker Posey), a escrever, ele fez muito sucesso com sua escrita considerada pornográfica. Henry se casa com Fay e nasce Ned, logo depois some com a ajuda de Simon, após um acesso de raiva e matar o vizinho. Lembrando que Henry havia sido preso por pedofilia antes de tudo isso. Em "Fay Grim" vemos a dificuldade da criação de Ned, Fay teme que o filho tenha o mesmo destino do pai, Simon foi julgado por ser cúmplice no crime de falsidade ideológica e o menino é expulso do colégio, Fay acaba aceitando colaborar com a CIA, pois acreditam que os registros escritos por Henry, intitulados, "As Confissões", tenha fortes indícios de que ele seja espião com informações importantes. Por fim, Fay viaja à Paris para resgatar os cadernos e, na viagem, vira alvo de diferentes espiões e terroristas internacionais.
Com diálogos afiados, ironias e humor negro, Hal Hartley nos transporta para um outro tipo de cinema, completamente inusitado e cínico. "Ned Rifle" vem para fechar com chave de ouro esta trilogia, Ned decide deixar a família religiosa que o acolheu para encontrar e vingar-se de seu pai, Fay dada como terrorista, foi sentenciada à prisão perpétua. Ele busca informações com seu tio Simon e no caminho se depara com uma garota chamada Susan (Aubrey Plaza), que idolatra Henry Fool e parte na viagem ao lado de Ned. O garoto é religioso e precisará de muito esforço para manter-se sexualmente puro. Todos os personagens são contraditórios, Ned carrega na mala uma bíblia e uma arma.
Simon, tio de Ned, desistiu de escrever e se dedica à comédia stand-up, mesmo não sendo nada engraçado, Susan quer encontrar Henry Fool, ela é obcecada por essa família, tem um passado obscuro com ele e usa Ned para isso. Algumas reviravoltas se dão, cenas regadas a diálogos filosóficos e bastante humor negro. 

Para acompanhar a trama de "Ned Rifle" é necessário que se conheça as duas obras anteriores, elas se conectam de forma inteligente e o filme não faz questão de explicar as situações. Sem dúvidas, Henry Fool é um personagem que nos inquieta, completamente fora do padrão social, que ora fascina, ora perturba.
Liam Aikem como Ned está ótimo e consegue expôr toda a confusão de ser quem é, afetado pela figura do pai, pelo contraste religioso e sórdido da vida. Aubrey Plaza como Susan se sobressai e também consegue passar toda a angústia e a adoração que tem por Henry, sua maneira de se portar foi moldada por esse cara, a dualidade de sentimentos é muito intensa.

"Ned Rifle" tem ritmo contagiante, é inventivo e engraçado, exibe personagens imperfeitos e situações desagradáveis. Trazendo à tona Henry Fool, Fay Grim e Simon Grim embarcamos novamente no universo tão característico e único do diretor Hal Hartley. 
Para quem procura por filmes alternativos, esta trilogia com certeza é uma excelente e peculiar indicação. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente)

"O Abraço da Serpente" (2015) dirigido por Ciro Guerra (As Viagens do Vento - 2009) é uma viagem antropológica, histórica e mística. Um olhar espiritual sobre a vida e também sobre a perda de costumes e identidade.
Karamakate, outrora um poderoso xamã da Amazônia, é o último sobrevivente de seu povo, e agora vive em isolamento voluntário nas profundezas da selva. Os anos de solidão absoluta o tornaram vazio, privado de emoções e memórias. Sua vida sofre uma reviravolta quando chega ao seu esconderijo remoto Evan, um etnobotânico americano em busca da Yakruna, uma poderosa planta capaz de ensinar a sonhar. O xamã decide acompanhar o estrangeiro em sua busca, e juntos embarcam em uma viagem ao coração da selva, onde passado, presente e futuro se confundem, fazendo-o aos poucos recuperar suas memórias. Essas lembranças trazem uma dor profunda que não libertará Karamakate até que ele transmita o conhecimento ancestral que antes parecia destinado a perder-se para sempre.
Baseado nos diários do cientista alemão Theodor Koch-Grungberg (1872-1924, falecido por febre amarela na Amazônia) e do norte-americano Richard Evans Schultes (1915-2001), acompanhamos duas histórias em paralelo, no passado Theodor Koch-Grunberg (Jan Bijvoet), um cientista alemão que pesquisa tudo a respeito da Amazônia está muito doente e recorre ao xamã Karamakate (Nilbio Torres), único sobrevivente de uma tribo massacrada pela invasão colombiana em busca da borracha. De início recusa-se a ajudar, mas cede e o auxilia na viagem para encontrar a Yakruna, planta sagrada, que é a sua única salvação. Junto deles vai também Manduca (Yauenkü Migue), um índio leal ao pesquisador. No futuro vemos Richard Evans Schultes (Brionne Davis), inspirado pelos estudos de Theodor a conhecer a fundo os segredos da Yakruna, se embrenha em meio a floresta amazônica e mais uma vez Karamakate (Antonio Bolivar), agora velho e sem memória, o acompanha nessa difícil jornada que o faz reviver seu passado e assim relembrar quem de fato é.
A mescla de História, biologia, ciência, costumes e culturas diferentes hipnotiza o espectador, os diálogos são grandiosos, e a cada pedaço de rio e terra que se desbrava contém experiências repletas de significados. O misticismo está presente e é muito forte, porém não se limita a isso, o diretor coloca tudo dentro de um contexto histórico, o extermínio dos povos pelos barões da borracha e também pelos jesuítas com a missão de catequizar os índios, impressionante a cena em que retrata um messias histérico e louco, que é apenas uma das consequências da colonização que enfiava a fé cristã goela abaixo destruindo toda a cultura indígena. 

Karamakate tem a preocupação de manter a memória de seu povo, de seus costumes, continuar escutando a música da selva e não terminar a vida como um chullachaqui, um ser vazio e oco que se parece conosco, sem memória e vagando pelo "tempo sem tempo". Ao final quando encontram a Yakruna, representação de esperança, e ao contrário do que aconteceu a Theodor, ele deseja que Evans aprenda a escutar a música, mas antes disso precisou se desvencilhar de todo apego material e também do ego, que permite que criemos ilusões e sentimentos que travam nosso percurso pela existência. Karamakate insistia sobre o excesso de bagagem e o perigo da canoa afundar, para abraçar a serpente e alcançar a sabedoria cósmica é preciso estar livre de tudo. Ao invés de dar a planta ao pesquisador, Karamakate lhe dá de presente a experiência, para então passar adiante todo o conhecimento adquirido como a lembrança de uma cultura e costumes de um povo destruído pela colonização. A dedicatória dos créditos finais diz: "à memória de povos cujas canções nunca conheceremos".

"O Abraço da Serpente" é um filme maravilhoso, crítico sobre o impacto causado pelos brancos, seja em busca de riquezas ou pela inserção da religião, são questões pertinentes e muito bem colocadas. O misticismo é amplamente evocado, como a simbologia da serpente no xamanismo, para Karamakate a serpente desceu da Via Láctea e criou o mundo, e os rios amazônicos são a própria reminiscência da criação. 
A serpente é um animal de poder relacionado à regeneração, sabedoria, sensualidade e cura. Ela fertilizou esse mundo e estaria presente em todos nós na base da nossa espinha, está associada ao chacra básico e à kundalini, poder espiritual adormecido no osso sacro que só pode ser despertado por uma alma realizada.  
A fotografia em preto e branco é um deslumbre, a trilha sonora pontual e as atuações tocantes. Sem dúvidas, um filme especial e que representa toda essa cultura destruída.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Liza, a Fada Raposa (Liza, a Rókatündér)

"Liza, A Fada Raposa" (2015) é o primeiro longa-metragem do realizador húngaro Károly Ujj Mészáros e conta a história de Liza, uma enfermeira em busca do amor que, por ciúme, se vê transformada numa fada raposa (figura mitológica oriental), o que faz com que todos os homens que por ela se apaixonam acabem por morrer. O filme é uma mistura de comédia romântica e fantasia, Liza (Monika Balsai) é uma inocente e solitária trintona à procura do amor. Cuidando de Marta (Piroska Molnár) pelos últimos 12 anos, tem como único companheiro Tomy Tani (David Sakurai), o fantasma de um pop star japonês dos anos 50. Quando Márta morre e Liza é culpada pelos parentes da falecida de tê-la assassinado para herdar seu apartamento, o sargento Zoltan (Szabolcs Bede Fazekas) começa a investigar o caso. Liza ganha confiança lendo dicas de revistas femininas, mas todos os seus possíveis namorados acabam morrendo. O sargento Zoltan, mesmo encarregado de investigá-la, se apaixona por Liza, esta começa a crer que, num acesso de ciúmes de seu amigo Tomy, foi transformada numa fada raposa.
Interessante que "Liza, a Fada Raposa" pode facilmente se passar por um filme doce e terno, mas o diretor soube usar o tom de humor num estilo mais amargo, perceba que sempre há tristeza, solidão e medo envolvidos. 
Após a morte de Márta, Liza tem tempo para procurar o seu amor inspirada por um livro de romance japonês, mas isso desperta a ira do cantor fantasma que é apaixonado por ela, que a amaldiçoa e a impedirá que se relacione, pois os homens logo morrem ao se interessar por ela. O filme é dividido em capítulos, com o nome de quem irá morrer, são situações surreais, muito criativas e originais. O sargento Zoltan, acaba se instalando na casa de Liza, a que herdou de Márta, ela alugou um quarto devido a sua situação financeira, ele vive a anotar sobre Liza e acredita na sua história sobre a maldição. Zoltan se apaixona, mas de maneira altruísta, e segundo a lenda só um amor desinteressado seria capaz de quebrar essa maldição, mas mesmo assim ele não se livra de sofrer acidentes.
Os elementos utilizados são surpreendentes e muitos deles convidam à reflexão, como quando Liza começa a seguir dicas de uma revista feminina sobre como ficar bonita e conquistar um homem. O humor negro está sempre presente, desde ao retratar o gênero comédia romântica, a rede de fast-food chamada Mekk Burguer, mas ao mesmo tempo é melancólico e ingênuo. Difícil classificar esse filme, é uma comédia mordaz com momentos de musical, de conto de fadas, de suspense, de delicadeza e tristeza.

Pode-se associar o estilo a Jean-Pierre Jeunet, mas acrescentaria também um pouco de Roy Andersson e Anders Thomas Jensen. É um filme de ambiguidades emocionais, no humor há um fundo de tristeza e na tristeza há um fundo de humor. 
Monika Balsai encanta interpretando Liza, ela é inocente e possui baixa auto-estima, o filme é peculiar, assim como seus personagens com costumes estranhos, Liza adora o Japão, Zoltan as músicas tradicionais da Finlândia, há um personagem que é louco por comidas que misturam ingredientes dos mais variados, e daí por diante...
A trilha sonora é outro ponto de destaque, em especial "Doki Doki", "Dance Dance Have A Good Time" e "Geronimo", tema do personagem Zoltan. A quem se interessar pela trilha sonora clique aqui.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Dois Amigos (Les Deux Amis)

"Dois Amigos" (2015) dirigido por Louis Garrel e roteirizado em parceria com Christophe Honoré, diretor que já trabalhou com Garrel em vários filmes, "Em Paris" (2006), "Canções de Amor" (2007), "A Bela Junie" (2008), etc. A estreia de Louis Garrel é tecnicamente impecável, as composições de cena, a fotografia ressaltando a introspecção e a complexidade dos personagens, a trilha sonora vibrante e interpretações naturais, porém faltou profundidade nos assuntos abordados.
Clement (Vincent Macaigne), é figurante em filmes, e está loucamente apaixonado por Mona (Golshifteh Farahani), uma recepcionista em uma loja de sanduíche na Estação do Norte. Mas Mona tem um segredo, e se torna evasiva. Quando Clement desesperado para conquistá-la, seu único e melhor amigo, Abel (Louis Garrel), vem para ajudar. Juntos, os dois amigos partem para conquistar Mona.
Abel, é o típico personagem de Garrel, blasé, egoísta, galã e encantador, Clement é frágil, romântico e impertinente, Mona é uma mulher misteriosa, não revela seu segredo, e por isso se torna instável. Clement é apaixonado por Mona, uma paixão que beira à obsessão, mas ela o tem apenas como amigo. Devido a confusão que toma Clement, Abel entra em cena para tentar entender o porquê do amigo estar tão atraído por Mona. Ao se conhecerem há uma faísca, conclusão: há dois homens apaixonados pela mesma mulher, que se interessa pelos dois, mas que não se envolve de fato. 
Louis Garrel é filho do grande cineasta Philippe Garrel, talento hereditário, inclusive já foi dirigido pelo pai, o mais recente, "O Ciúme" (2013). Já trabalhou com notáveis diretores, como Bertolucci em "Os Sonhadores" (2003), portanto, são grandes influências, mas o mais importante disso tudo é absorvê-las e colocar a sua própria personalidade e, sem dúvidas, a sua sensibilidade. "Dois Amigos" é um filme de roteiro simples com personagens complexos, ele preserva o mistério em torno deles, o que encanta mas também cansa, a narrativa fica girando em torno deles sem nada revelar. 
Os dois homens retratados exibem suas fraquezas, não têm vergonha de chorar ou de expôr seus sentimentos, se desconstrói a figura masculina e ainda delineia a amizade, os dois se apoiam, brigam, se abraçam, confidenciam, mas a partir do momento que Abel se relaciona com Mona, a culpa acaba destruindo a relação, ainda mais por Abel esconder isso de Clement. A trama é essencialmente sobre a amizade, só que Mona interpretada pela iraniana Golshifteh Farahani rouba a cena sempre, é charmosa e delicada ao atuar, mas também sensual, ela nunca perde a naturalidade. Há cenas lindíssimas, como a da dança num bar ao som de "Easy Easy" de King Krule.
Clement é irritante, porém em dado momento do longa surge uma ponta de tristeza por observar que ele, o apaixonado da história, acaba sobrando, a tensão sexual entre Abel e Mona é muito aparente, por mais bobo que seja, é impossível não perceber, e daí surge a manipulação sentimental, Abel culpado torna a situação ainda mais difícil. É a complexidade dos sentimentos.

"Dois Amigos" é um drama/romance com pitadas de um elegante humor francês, a história não tem um grande desenvolvimento e nem se aprofunda muito em seus personagens, mas retrata uma Paris diferente e nada glamourosa, porém linda do mesmo jeito, e do mesmo modo se dá com os personagens, reais e desajustados, mas ainda assim charmosos, cada um à sua maneira.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Ele Está de Volta (Er Ist Wieder Da)

"Você nunca se perguntou porque as pessoas me seguem? Porque, no fundo, elas são como eu, têm os mesmos princípios."

"Ele Está de Volta" (2015) dirigido por David Wnendt (Kriegerin - 2011) é um filme de humor ácido que retrata a volta de Hitler nos tempos atuais. Adaptado do livro homônimo do escritor alemão Timur Vermes mostra que um regime de extrema direita ainda pode fazer sucesso nos dias de hoje. Hitler acorda em pleno outubro de 2014 em frente a seu antigo bunker, inconformado com os rumos da política deseja dar continuidade aos seus ideais, para isso se instala numa banca de jornal para se informar e analisar toda a situação, a sua figura causa espanto e curiosidade por onde passa, dado como um comediante a mídia não perde tempo e logo o transforma numa celebridade, ele se aproveita do momento e faz discursos explosivos, por exemplo, sobre os meios de comunicação. Ele é exaltado nos jornais e internet e consegue muitos seguidores.
Adolf Hitler (Oliver Masucci) é ajudado pelo jornalista Fabian Sawatzki (Fabian Busch) que não se conforma com o fato de que seu novo amigo não saia nunca do personagem, eles seguem pelas ruas de Berlim e fazem contato com pessoas reais que não estão representando, elas são entrevistadas e dizem a respeito da política atual, o interessante e chocante é que a maioria das pessoas concordam com ele e exibem preconceitos, principalmente, contra os imigrantes. Hitler não precisa fazer muito esforço para conseguir seguidores, seus discursos atraem, ele diz o que as pessoas querem ouvir e pronto. Ele é vangloriado, tido como um comediante que não sai de seu personagem, o que causa ainda mais furor, ele conquista um programa próprio, dá entrevistas, tira selfies e propaga ideologias naturalmente. 
A mistura de sátira social e documentário traz o diferencial ao filme, ao mesmo tempo que é engraçado, assusta, e o mais importante, alerta, é possível nos dias de hoje um regime fascista se estabelecer, é fácil lembrar de políticos atuantes que se utilizam da oratória para confundir/atrair as pessoas.
"Ele Está de Volta" é um filme profundamente político e questionador, mostra de maneira nova o como o povo alemão se comporta diante a figura de Hitler, mas também é uma crítica à modernidade e o quanto se veicula os discursos de ódio sob roupagens diferentes. Quando Hitler aparece pela primeira vez na TV ele causa uma reação de completo silêncio, ele olha fixamente para a platéia, se impõe e diz: "Quando cheguei ao quarto de hotel, encontrei algo conhecido como televisão por vocês, a tela é fina desse jeito (faz um sinal) fruto da engenhosidade e anos de evolução da tecnologia humana, porém, quando a ligamos eu me surpreendi: todo canal havia cores... e em todos eles, havia culinária. E continua num discurso enérgico: Existem crianças morrendo de fome lá fora, mulheres sendo agredidas e estamos no fundo do poço, o que a TV prefere que vocês vejam? Homens e mulheres cozinhando, como se fosse a última coisa que fariam no fim do mundo que estamos". Fácil se deixar seduzir, não é?


Hitler vai descobrindo esse mundo novo em que voltou, a modernidade e suas tecnologias com o poder e a velocidade das informações, especialmente percebe o como a mídia conduz a população, além de que sai colhendo informações com as próprias pessoas a fim de saber o que elas querem que seja mudado no país. 
Oliver Masucci como Hitler está magnânimo, uma interpretação admirável, ele é exagerado, cínico, eloquente, voraz, e mantém uma postura intimidatória.


O longa é uma comédia inteligente, reflexiva e assustadora. Revela a manipulação que sofremos pela mídia e políticos, somos influenciados por palavras sedutoras bem empregadas, mas que no fundo não passam de mal-intencionadas. O fato é que questionar é a melhor solução, não defender e seguir cegamente ideias propostas, a política é um antro, não há verdades absolutas. É puro jogo de poder e nós temos que ter a consciência para não sermos levados conforme ditam as regras.


É serio que não se precisa de muito para um novo Hitler aparecer, basta alguém com boa oratória, "verdades" que uma população cansada quer escutar, e discursos disfarçados de anti-corrupção com pouco de humor e uma suposta sinceridade. Embora Hitler esteja morto, muitas coisas passadas continuam a ser perpetradas. É preciso estar atento!

Um filme essencial e necessário, assim como o livro de Timur Vermes. São obras desta qualidade que ajudam intensificar a nossa lucidez perante a sociedade em que vivemos.

terça-feira, 7 de junho de 2016

A Noiva (La Novia)

"A Noiva" (2015) dirigido por Paula Ortiz (De Sua Janela à Minha - 2011) é um belo drama saído das entranhas, um filme esteticamente deslumbrante, a imagem salta aos olhos, mas também sublime ao reinterpretar um clássico do teatro sem soar forçoso e afetado. É cheio de estilo, elegante, e do mais puro fel. 
Baseado no livro "Bodas de Sangue", de Federico García Lorca, conta a história de um triângulo amoroso entre dois homens e uma mulher. Dois amantes levam sua paixão desafiando todas as regras morais e sociais, mesmo afrontando seu próprio julgamento. No mesmo dia do seu casamento, a noiva e seu amante escapam a cavalo para viver o seu amor. Sua desobediência terá consequências devastadoras. A noiva (Imma Cuesta), o noivo (Asier Etxeandia) e Leonardo (Alex Garcia) se conhecem desde a infância. Ela viveu uma tórrida paixão com Leonardo, mas terminou por conta de desentendimentos familiares, culminando na proibição de se verem. No dia do casamento, Leonardo aparece e o desejo acaba tomando conta dos dois.
A trama é simples e clichê, porém a abordagem poética e contemplativa faz toda a diferença no como os sentimentos envolvidos chegam até nós. Não é nada agradável, é triste e delicado. Apesar de se distanciar da teatralidade, os diálogos mantêm a poesia e questões existenciais são tratadas de maneira simbólicas e metafóricas. É um filme completo, utiliza-se todos os recursos inteligentemente, roteiro, fotografia, interpretações, direção, trilha sonora, nada se sobressai, é um conjunto perfeito.
A obra fala de paixão, mas, sobretudo, de liberdade. A noiva decide deixar tudo para trás, principalmente, para se livrar de todas as regras impostas e os supostos deveres, a mãe do noivo exemplifica o pensamento machista da época, e, que infelizmente, continua ainda atual. O ritual do casamento é repleto de símbolos machistas e é totalmente entranhado na cultura. É um ato de subordinação e representação de propriedade. Uma figura masculina (pai) entregando a noiva à outra figura masculina (noivo), cuja celebração será chefiada por outra figura masculina (padre), além de tantos outros símbolos que parecem adoráveis. E é triste imaginar que as próprias mulheres alimentam o machismo, como a personagem de Luisa Gavasa, claro, muito se modificou, os tempos são outros, mas mesmo assim nem tanto, o machismo permanece sob outras roupagens. Quebrar paradigmas exige coragem, a protagonista teve a sua dose de coragem e enfrentou tudo e a todos ao fugir com seu amante, mas a tragédia veio logo em seguida, e era anunciada, já no início acompanhamos a volta da noiva ao povoado se encontrando com a mãe de seu noivo trazendo o corpo dos dois em seu cavalo. 

Muito interessante observar o filme dentro desse aspecto feminista e comparar com os tempos atuais, a mulher se desvencilhando dos valores morais e religiosos para se tornar livre, mostrando que não é apenas uma objeto dentro da sociedade.
"A Noiva" é um filme intenso, que revira e inebria, o apelo visual é grande, contém cenas atraentes, mas também diálogos poéticos, trilha sonora encantadora e fortes atuações.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Aferim!

"Aferim!" (2015) dirigido por Radu Jude (Todo Mundo na Nossa Família - 2012) é um filme histórico que retrata com um humor ácido e particular a origem do racismo contra os ciganos. Somos transportados para o início do século XIX, na região sul da Romênia, Valáquia, 42 anos antes da independência. 
O oficial Costandin (Teodor Corban) e seu filho Ionita (MIhai Comanolu) são designados para encontrar Carfin (Toma Cuzin), um escravo cigano que fugiu da propriedade de seu senhorio depois de ter sido acusado de roubar ouro e se relacionar com a esposa do patrão. Transformando a busca em aventura, o filme expõe a escravidão cigana que existiu no país por seis séculos.
O roteiro é baseado em documentos históricos e adentramos nesse contexto de forma muito realística, a fotografia em preto e branco ajuda nessa imersão, os diálogos carregam um forte humor e devido a abordagem cru de seus personagens não se torna tão desconfortante. A estupidez e a ignorância, seres humanos que não pensam por si só, que estão inseridos num grupo e que desprezam qualquer outro que lhe pareçam diferentes. A igreja domina e dita preconceitos, espalhando ódio e medo. Interessante observar a jornada de pai e filho na caça do escravo, a cavalo percorrem a região e são confrontados por dilemas morais. A ignorância está em todos os aspectos, eles acreditam que a terra termina em um precipício, não têm ideia da grandeza do mundo e chamam a lua de planeta, quando questões complexas surgem logo aparece a frase: "como irei saber uma coisa dessas?"
Os esteriótipos em relação aos povos gritados pelo padre é uma das cenas mais engraçadas e críticas, revela uma visão pobre e limitada. Mas após rirmos lembramos que por mais que os tempos tenham mudado muita coisa ainda continua, não é difícil se deparar com ofensas e violência à outrem a troca de nada, como o desprezo aos imigrantes, por exemplo. "Aferim" é um filme único que mistura elementos e que promove um frio na espinha por pensar que o ser humano continua se apegando a pensamentos medievais. Uma frase que marca: "O mundo é assim mesmo!". E como o personagem diz nada do que fizer o mudará, ele continuará sendo assim, cheio de ódio e violência pela busca do poder.

Aferim, expressão turca que significa "bravo" é um filme singular, envolvente, crítico e irônico. A câmera capta quase sempre tudo à distância, os planos longos e abertos apresenta a paisagem que está sendo desbravada. Os diálogos se tornam engraçados pelo fato de não haver argumentos ou justificativas plausíveis, então tudo vira piada. Apesar de tratar de um tema pouco discutido, as raízes do preconceito contra ciganos, o filme se torna universal por colocar em pauta que atitudes passadas ainda influenciam no mundo de hoje. 
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