quarta-feira, 27 de abril de 2016

Runoff

"Runoff" (2014) dirigido por Kimberly Levin é um drama bucólico que retrata a dificuldade de se tomar decisões em situações desesperadoras. A beleza da terra não pode mascarar a brutalidade de uma cidade de fazendeiros. Com a aproximação da colheita, Betty enfrenta uma nova realidade aterradora e vai tomar medidas extremas para salvar sua família quando eles são ameaçados de serem expulsos de suas terras.
Betty (Joanne Kelly) e Frank (Neal Huff) estão com muitas dificuldades financeiras, a última alternativa para Betty é aceitar um trabalho ilegal, que consiste em se desfazer de substâncias químicas num rio, elemento químico que antigamente eles próprios vendiam. Seu marido está doente, mas esconde isso da família, ele é um homem trabalhador, rígido e que pouco pode fazer em suas condições, Betty desesperada com a situação acaba nem se dando conta do como o marido se encontra. Seu filho mais velho Finley (Alex Shaffer) se sente mal, pois não deseja seguir sua vida ali, quer ser desenhista e para isso precisa de dinheiro, que infelizmente está escasso. A única e última alternativa de Betty é a proposta de outro fazendeiro para se desfazer das substâncias químicas.
O filme discute a ganância corporativa que deixa os pequenos produtores rurais à míngua, questões políticas são abordadas, e o como a natureza sofre com todas essas porcarias que são jogadas nos rios. O desenvolvimento é lento, a história gira em torno desta decisão que vai contra a moral da personagem, mas que inevitavelmente precisa fazer para sobreviver. A fotografia destaca a paisagem rural do estado de Kentucky, região sudeste dos EUA. As cenas são construídas cuidadosamente, e devido as vestimentas e modo de vida passa facilmente por um filme mais antigo. O som ambiente dá um aspecto de total naturalidade, é tranquilo mesmo retratando situações desagradáveis.
Joanne Kelly está ótima na pele de Betty, ela tenta conseguir meios para ganhar dinheiro, mas ninguém aceita, pois agora compram tudo de empresas. Seu marido é totalmente contra o esquema ilícito, então ela age sozinha, vindo logo depois pedir ajuda a seu filho mais velho, sem contar exatamente o que contém nos barris. O filho mais velho de Betty interpretado por Alex Shaffer cresce bastante na trama e se torna um personagem envolvente e que alterna entre ser um adolescente cheio de problemas a um garoto que precisa enfrentar a realidade de sua vida. 

"Runoff" é um longa independente que marca a estreia da diretora Kimberly Levin, ela prima por um tema, ritmo e estética totalmente diferentes. 
Decisões sempre são difíceis, ainda mais quando interferem em questões morais e aquilo que vai contra a nossa maneira de pensar, mas o ser humano age de muitas formas em situações desesperadoras, Betty agiu, e certamente teve que arcar com muitas consequências.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Meu Rei (Mon Roi)

"Mon Roi" (2015) dirigido por Maïwenn (Polisse - 2011) é um filme dolorido e magnificamente bem atuado por Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot, a história nunca perde o fôlego, acompanhamos a trajetória de um relacionamento amoroso, desde a sua fase inicial até a dura decisão da separação, seja a física, mas, principalmente, a psicológica.
A abordagem imparcial da diretora ao retratar um relacionamento abusivo é interessante, a personagem sofre pelo fato do marido ser um sacana, mas ela o ama compulsivamente, o coloca num pedestal. Muito se diz sobre a paixão e o como ela arrebata as pessoas, inclusive deixando-as doentes de corpo e mente, Tony (Emmanuelle Bercot) é esse exemplo, quando se depara com Georgio (Vincent Cassel) em uma boate fica encantada com seu jeito desprendido e sedutor, ela já o conhecia da época de garçonete e foi até ele, mas este não a reconheceu. No fim, ele resolve ir até ela e os dois começam a se envolver. Tudo é maravilhoso e divertido no início, não há porquê se preocupar, vivem momentos intensos e loucos, e então decidem se casar. Tony acaba cedendo ao desejo de Georgio de ser pai, e o fato é que tudo começa desmoronar ainda quando está grávida, ele não para em casa, vive em festas com seus amigos moderninhos e ainda por cima se preocupa demasiadamente com uma modelo que já foi sua namorada. Tony entra numa crise absurda e Georgio decide morar em outro apartamento, porém continuando casados, o que só faz piorar as coisas. São cenas intensas vividas pela atriz Emmanuelle Bercot, ela vai da felicidade plena à ruína em pouco tempo, a sua personalidade ganha uma aura pesada e isso é passado ao espectador com muita naturalidade, ficamos péssimos com as situações retratadas. 
Tony é diferente de Georgio, ela é uma advogada centrada, séria, ele é dono de restaurante, charmoso e bon vivant, durante a conturbada relação ela vai descobrindo segredos e ele vai se deparando com uma mulher neurótica. São altos e baixos, juntos se fazem mal, separados também não conseguem viver. 

O filme é todo construído de flashbacks e a transição para o passado é muito sutil. O início se dá com Tony internada em um centro de recuperação após um grave acidente de esqui. Dependente da equipe médica e de analgésicos, ela tem tempo para olhar para trás e avaliar o relacionamento turbulento que ela experimentou com Georgio. Por que eles se amam? Quem é realmente o homem que ela amou? Como ela foi capaz de submeter-se à uma paixão sufocante e destrutiva? Para Tony, é uma reconstrução difícil que agora se inicia, um trabalho corporal que talvez permita que ela definitivamente sinta-se livre.

"Mon Roi" é um filme duro, difícil passarmos pelas cenas ilesos, mas é um retrato honesto das tensões de um relacionamento que acaba pelos mesmos motivos que se iniciou. Colocar o outro num pedestal certamente acarretará danos futuros, afinal todos têm defeitos, manias e segredos. Se recompor é trabalhoso, Tony continuará tentando entender o que lhe aconteceu. A bela cena final resume isso.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A Ovelha Negra (Hrútar)

"A Ovelha Negra" (2015) dirigido pelo islandês Grímur Hákonarson é um conto pastoril fascinante sobre a relação homem/natureza e os laços familiares que a vida às vezes afrouxa, mas que termina unindo repentinamente.
Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson) são irmãos e não se falam há aproximadamente 40 anos. Eles moram em propriedades vizinhas e são obrigados a conviver. A vida é simples e pautada pela criação de ovelhas e as competições destes animais, onde é analisado o porte. Gummi é esperto e observador e é ele que descobre uma doença infecciosa, a scrapie, nos rebanhos de Kiddi. E, infelizmente, todos da região precisarão abater seus animais para que a doença seja exterminada. Os criadores se preocupam, pois o inverno está chegando e o único sustento deles são as ovelhas. Kiddi fica com raiva de Gummi, este que sempre invejou o irmão por ter os animais mais fortes e bonitos. As desavenças são marcadas por um sutil humor, soa como duas crianças brigando. Não se sabe bem onde a rivalidade começou, o fato é que Kiddi é um homem rabugento e alcoólatra e Gummi vivaz e compenetrado, mas ambos solitários e aficionados por seus animais.
A criação de ovelhas na Islândia é super importante e é um dos principais meios de subsistência, nesse lugar tão gélido e pacato observamos a vida de fazendeiros, de pessoas que se preocupam como vão ultrapassar a próxima estação do ano. O inverno é rigoroso e sem as ovelhas fica impossível. Outros criadores optam por sair do local, mas Gummi resiste e antes que venham abater os seus animais, ele mesmo dá um jeito em tudo. Só que em dado momento precisará de ajuda e aí vai pedir a seu irmão, que não pensa duas vezes e o socorre. O relacionamento com os animais é de puro afeto, Gummi e Kiddi se orgulham de ter ovinos de linhagens campeãs, algo que vem de família e que a todo custo tentarão manter.
Apesar do clima melancólico, frio e solitário, há pitadas de humor, por vezes peculiar, mas que envolve e deixa a narrativa interessante. É um filme muito bonito, a paisagem da Islândia é deslumbrante, um deserto gelado, natureza bruta, o ser humano ali precisa se adaptar e aproveitar tudo que ela lhe traz. A natureza é majestosa e por muitas vezes cruel. No fim de tudo percebemos o quanto o ser humano se apega a sentimentos pequenos, desperdiçando vida e amor ao próximo, quando na verdade, o que mais queremos é um abraço que aconchega e aqueça nossa alma.

É uma experiência contemplativa que nos faz pensar nas relações familiares, na sensação de pertencimento, e também no como somos pequenos diante à natureza, mas, principalmente, como as nossas atitudes mesquinhas se tornam ridículas e completamente desnecessárias em uma situação de desespero. Ao final os irmãos se unem numa belíssima cena que transborda fraternidade e amor.

Além das ovelhas, um outro animal se faz importante na Islândia, o cavalo, "Cavalos e Homens" (2013), dirigido por Benedikt Erlingsson é um filme que retrata essa realidade, é um outro conto bem típico vindo desta terra tão curiosa chamada Islândia. 

sábado, 16 de abril de 2016

Achados Musicais

Eis um compilado de achados musicais que tive o prazer de encontrar ao acaso no Youtube, são artistas que não se classificam em gêneros ou estilos únicos, todos fazem uma mistura generosa de muitas e muitas coisas. Aproveitem a lista e descubram a beleza de cada um!

"Quem ouve música, sente a sua solidão de repente povoada." (Robert Browning)

Rhye - EUA
É um duo composto por Mike Milosh (Canadá) e Robin Hannibal (Dinamarca), sim, são homens, apesar de tudo soar feminino, a voz macia e sensual produz essa impressão. O álbum de estreia intitulado "Woman" foi lançado em 2013. É tudo envolto por uma aura enigmática, e justamente por isso se torna intrigante. Confira o álbum "Woman".

Ane Brun - Noruega
Dona de uma voz singular, Ane Brun encanta, especialmente por seus vibratos, é doce mas potente. Já lançou seis álbuns, sendo o mais recente "When I'm Free" (2015), que mergulha num universo trip-hop, como na canção "Directions". Ane Brun tem um poder incontestável em sua voz, as músicas mais intimistas demonstram isso, "Oh Love" e na impressionante versão da música "Halo".

Yael Naim - Israel/França
Yael Naim é uma preciosidade, ela canta em diversos idiomas, toca variados instrumentos e nos embriaga com toda essa musicalidade. Ela ficou conhecida na mídia após sua canção "New Soul" ser exibida no comercial de um Laptop da Apple. Também se destaca por alguns covers, como em "Toxic". Em seu mais recente álbum "Older" (2015), seu som está ainda mais refinado, uma mistura de blues, jazz, folk, sua voz é delicada, vem de mansinho, mas é de total entrega. Um som prazeroso! Confira aqui.

Julien Doré - França
Vencedor da quinta temporada (2007) do programa de televisão Nouvelle Star, Julien Doré é um artista pop, mas que se diferencia dos outros, tem uma personalidade marcante e uma voz suave super charmosa. Tem vários hits e clipes sensacionais, vale conhecer! "Paris-Seychelles", "Kiss Me Forever".

Son Lux - EUA
Ryan Lott, mais conhecido por Son Lux é um artista multitalentoso, sua música nada convencional é chamativa e nos convida a viajar por lugares inimagináveis, a mistura de instrumentos orgânicos e eletrônicos cria uma atmosfera única. A sua voz é frágil, melancólica e penetrante. Um som diferenciado e poderoso! Facilmente se encontra suas músicas em trilhas sonoras de filmes, como "Easy", que está no longa francês "Mon Roi". Confira mais dele: "Change Is Everything", "You Don'tKnow Me", "Lost It To Trying".

My Brightest  Diamond - EUA
My Brightest Diamond é o projeto da cantora, compositora e multi-instrumentista Shara Worden. É um som que vai além, desconstrói, experimenta e liberta. A vocalista é impressionante, tem uma base erudita, assim como toda a parte instrumental da banda. É pop, mas não é! O quinto álbum "This is My Hand" é um trabalho admirável, começando pela primeira faixa "Pressure", que conquista pela interessante musicalidade. "Love Killer" e "This is My Hand" também se destacam. 

Marie Fisker - Dinamarca
Cantora e compositora, Marie Fisker tem um som forte, original e pessoal, é uma mistura de folk, country, rock progressivo, além de pitadas de outros gêneros. São canções simples, mas pontuais regadas a diversas emoções. Sua voz é sensual e intensa. Lançou seu álbum de estreia "Ghost of Love" em 2009. Confira as canções: "My Love, My Honey", "Seven Days".

Glass Animals - Reino Unido
Glass Animals é um quarteto inglês, cujo som passa pelo misterioso e psicodélico, a bela e sexy voz de Dave Bayley hipnotiza, a atmosfera das músicas são intensas, apesar de serem suaves. Com influências de batidas africanas misturada a sintetizadores cria-se um efeito sonoro bem interessante. A banda lançou seu álbum de estreia intitulado "Zaba" em 2014. Confira as faixas "Hazey", "Black Mambo" e "Gooey".

Les Fils du Calvaire - França
Composta pelo talentoso trio Clément, Damien e Jonathan, a banda lançou recentemente seu primeiro álbum "Les Fils de..." O som é algo novo, mistura muitos elementos prevalecendo a música eletrônica, o charme da língua francesa combina perfeitamente com toda a aura sedutora e também divertida, é bonito, gostoso e impossível não se deixar levar pelas batidas que se alternam. Foi lançado um videoclipe erótico e interativo da música "Rester avec Toi". Confira outras faixas, "Gin Fizz", "Qu'est-ce Qu'on est Bien".

The Muddy Brothers - Brasil
Fundada em 2012, o trio de Vila Velha/ES é formado por João Lucas (Voz e Gaita), Will Just (Guitarra e Violão) e Renato Just (Bateria), o som é um blues rock, mas tem diversas influências, entre elas a psicodelia. É fácil lembrar de Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Black Sabbath, mas a banda tem identidade e faz um som clássico de maneira impecável. O álbum de estreia "Handmade" foi lançado em 2013 e agora apresentam o novo trabalho intitulado "Facing the Sky", que foi gravado totalmente independente. Bom demais!

Julia Sarr - Senegal/França
Julia Sarr transcende as linguagens e nos aproxima da essência da música, sua voz suave, porém forte atinge diretamente nossas emoções. Ela já trabalhou com muitos músicos de renome como backing vocal. Sua música mistura jazz, soul e a tradicional música senegalesa. Tem dois álbuns lançados, "Set Luna" (2006) em parceria com Patrice Larose (virtuoso guitarrista de flamenco) e "Daraludul Yow" (2014). Confira as faixas "Adjana", "Doom L'enfant".

As Bahias e a Cozinha Mineira - Brasil
Composto por vocalistas trans, Assussena Assussena e Raquel Virgínia, a banda tem influências de nomes como Gal Costa, Novos Baianos, Amy Winehouse e Ney Matogrosso, o grupo propõe uma discussão acerca do machismo, da misoginia e de qualquer tipo de intolerância. A sonoridade é original e de imensa qualidade, além do timbre maravilhoso das cantoras. Com um trabalho tão lindo e livre certamente irá atingir mais e mais público. O primeiro álbum, "Mulher", foi gravado durante três anos, em meados de 2012 e lançado oficialmente em 2015. 

Jain - França
Jain é multicultural, mistura a música eletrônica com batidas africanas, hip hop, reggae, pop, etc. A fusão é devido ter morado no Congo e Emirados Árabes, ela é cheia de ideias, estilo, está sempre vestida de um modo contrastante. É interessante que mesmo sendo super diferente a sua música se adapta e se absorve facilmente. Lançou seu primeiro álbum chamado "Zanaka" em 2015. Vale muito a pena conhecer!

Y'akoto - Gana/Alemanha
Y'akoto é daquelas artistas que ama a música que faz independente se vai ser sucesso ou não. Suas letras são críticas e diz respeito a toda a humanidade, o conteúdo é universal. Seu som é uma mistura de soul, funk e blues, lembra um pouco Amy Winehouse e Macy Gray. Tem dois discos lançados "Baby Blues" (2012) e "Moody Blues" (2014).

Jibóia - Portugal
Jibóia é o projeto solo do músico Óscar Silva, ele não precisa de muito para produzir as suas delirantes músicas, um órgão, uma bateria e uma guitarra já é o suficiente, sem esquecer de dizer dos inúmeros pedais que usa. O poderoso mix de ritmos e influências exóticas nos deixa em estado de transe. A cantora Ana Miró, conhecida pelo seu projeto solo Sequin colabora com a sua doce e inebriante voz. Já no segundo disco intitulado "Masala", as músicas levam nomes de cidades do mundo todo. Confiras as faixas "Treta Yuga", "Dvapara Yuga" do álbum "Badlav".

Zaza Fournier - França
Zaza Fournier é cantora, compositora e instrumentista, ela caminha pelo pop e a música folclórica francesa. Não tem como não se apaixonar por sua voz e seu estilo peculiar, além de tudo ela está sempre acompanhada pelo seu acordeão. Puro charme! Tem três álbuns lançados "Zaza Fournier" (2008), "Regarde-moi" (2011) e "Le Départ" (2015). Ouça as canções: "Le Départ", "Comptine Pour une Désespérée" e "Vodka Fraise".

Hannah Williams - Reino Unido
Hannah Williams tem uma voz de arrepiar, vem da alma, do amor, do desejo, o som é um soul/funk/blues de primeira, e os músicos sensacionais, qualidade inenarrável. Seu álbum de estreia "A Hill Of Feathers" (2012) recebeu elogios de Sharon Jones e Charles Bradley. É um turbilhão de emoções.

Blubell - Brasil
Cantora e compositora, Blubell nasceu na cidade de São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo, mas cresceu na capital. Desde 2006 desenvolve seu trabalho autoral. Antes disso, fez parte de bandas independentes. Tem quatro álbuns lançados: "Slow Motion Ballet" (2006), "Eu Sou do Tempo Em Que A Gente Se Telefonava" (2011), "Blubell & Black Tie" (2012) e "Diva é a Mãe" (2013). O som de Blubell é nostálgico, nos remete aos anos 20 ou 50 facilmente, é divertido e também teatral, é uma mistura de blues, jazz e bolero, ela canta, mescla idiomas, sussurra, mas tudo com muita sofisticação. As letras são simples, porém super modernas, há um contraste entre melodia e letra e esse é o charme de Blubell.

Imany - França
Nadia Mladjao, mais conhecida por seu nome artístico Imany, é uma cantora de afro soul. O nome escolhido por ela significa "fé" no dialeto suaíle, falado nas Ilhas Comores. Quando jovem foi uma atleta de salto em altura, tornando-se posteriormente modelo de uma grande agência, e foi nas viagens que despertou seu talento para a música. Lançou seu primeiro álbum em 2011 intitulado "The Shape of a Broken Heart", um registro despretensioso, simples, mas muito gostoso de ouvir. A sua voz rouca é marcante e muito apaixonante, aliás esse álbum é bem romântico. Seu segundo álbum "Sous les Jupes des Filles" lançado em 2014 é também a trilha sonora do filme homônimo de Audrey Dana.

Imelda May - Irlanda
Imelda May mistura jazz, a rebeldia do punk e a animação do rockabilly, uma boa pedida para dar uma agitada. Já dividiu os palcos com nomes como Elton John, The Supremes e Elvis Costello. Ela também compõe e toca um instrumento chamado "Bodhrán", um tambor tipicamente irlandês. Tem quatro álbuns lançados: "No Turning Back" (2005), "Love Tattoo" (2008), "Mayhem" (2010) e "Tribal" (2014).

Noora Noor - Somália/Noruega
Noora Noor é considerada a rainha do soul na Noruega, ela é uma excelente cantora de blues e neo soul, equilibra perfeitamente potência e suavidade, vai de graves a agudos com total naturalidade. Tem três álbuns lançados, sendo o último "Soul Deep" (2009). É realmente um som que te toca na alma.

Liniker - Brasil
Liniker é de Araraquara, interior de São Paulo, um artista nato cheio de amor e poesia, está super em evidência e é uma grande promessa da música brasileira. Suas canções vão do samba a black music e soul com uma roupagem bem moderna, o ritmo swingado e sua voz grave levemente rouca e potente é uma delícia, e a banda Caramelows que o acompanha é simplesmente sensacional. Liniker é autêntico e usa seu corpo de forma política para expressar a liberdade de ser quem se é. Lançou seu EP "Cru" em 2015 e em breve sairá seu álbum de estreia "Remonta". Estamos no aguardo ansiosamente!

Dicas extras:

"Le Ring" é um programa da Deezer (serviço de Streaming de música) apresentado por Aline Afanoukoé, consiste na apresentação de artistas com a missão de superação de si próprios e respeito pelo público. O palco é um ringue e antes de começar o show os convidados se olham no espelho e dizem palavras que vier a mente. É gravado no famoso "La Bellevilloise" e transmitido pelo canal France Ô. São quatro músicas e a interação com o público é incrível. Confira aqui!

Criado em 2009, na Rádio Cultura Brasil, estreou na TV Cultura em 2011 e segue com a missão de mostrar a música brasileira de hoje. Apresentado por Roberta Martinelli, o "Cultura Livre" recebe artistas (cantores ou bandas) no estúdio. Eles tocam suas músicas, falam sobre a carreira e respondem perguntas da audiência. A interação com o público é um destaque da atração. Por meio das redes sociais e de uma chat-line, os telespectadores podem enviar suas perguntas e comentários aos artistas. Confira aqui.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Vingança Está na Moda (The Dressmaker)

"The Dressmaker" (2015) não segue uma fórmula pronta, seu roteiro passeia por algumas situações inusitadas e os gêneros se alternam, culminando num final surpreendente. É curioso o como a história se modifica e isso acaba incomodando, mas é um exemplar que vale a pena ser visto justamente por essa característica e pela majestosa atuação de Kate Winslet.
Baseado no livro "The Dressmaker", de Rosalie Ham e dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse (Colcha de Retalhos - 1995), conhecemos uma atraente mulher (Kate Winslet), que retorna à sua cidade natal na Austrália rural. Com sua máquina de costura e estilo haute couture, ela transforma as mulheres e demanda a doce vingança de quem não acreditou em seus feitos.
Acompanhamos o retorno de Myrtle "Tilly" Dunnage a sua peculiar aldeia em algum lugar do deserto australiano, o ano é de 1951, e ela volta com a intenção de mostrar para aquelas pessoas que conseguiu vencer na vida e que eles ainda continuam com suas vidinhas miseráveis. Chegando lá encontra sua mãe, Molly (Judy Davis), completamente abandonada numa casa caindo aos pedaços entulhada de quinquilharias, claro, a saudade a trouxe de volta, mas o seu desejo é descobrir o que de fato aconteceu em sua infância quando foi obrigada a deixar a aldeia. Tilly foi acusada de assassinato e ela cresceu perturbada com essa visão, mas agora está disposta a reinterpretar seu passado, fazendo com que caia as máscaras daquela comunidade cheia de segredos.
Tilly estudou em Paris e se tornou uma grande modista, sua figura elegante se destaca em meio ao cenário seco e desolador. Percebendo que as mulheres se interessam por seu trabalho, vê nisso uma oportunidade para se aproximar daqueles que a olham com desdém. Em pouco tempo ela muda a maneira de vestir das mulheres, todas em grande estilo desfilando pelo empoeirado local.
Kate Winslet interpreta uma femme fatale, mas ao mesmo tempo se sente amaldiçoada, no decorrer do filme observamos que isso é verdade. Judy Davis está incrível e rouba a cena por diversas vezes, Liam Hemsworth como Teddy também se destaca, ele consegue dissipar a imagem de galã de blockbusters e traz um personagem mais simples. Hugo Weaving já pende para o lado cômico da história, aliás o filme alterna demais entre o drama e a comédia, as vezes dá certo e outras não, mas no todo acaba se tornando interessante. Algumas situações bagunçam tudo e nem se sabe mais onde se encaixa a vingança, mas no final ela vem certeira.

A força do filme está nas interpretações, nos diálogos e nos acontecimentos inesperados, além do figurino exuberante contrastando com o ambiente, e a trilha sonora composta por David Hirschfelder que complementa toda a história.
"The Dressmaker" é um filme irregular, mas um exemplar interessante e gostoso de assistir. Kate Winslet está matadora! 

terça-feira, 12 de abril de 2016

O Perfume da Memória

"Uma mora na casa do medo. Outra mora na casa da coragem. Às vezes trocam."

"O Perfume da Memória" (2016), terceiro longa de Oswaldo Montenegro (Solidões - 2013) é um filme poesia, lindo em todos os sentidos, ele é permeado por belíssimas canções, compostas e interpretadas por Oswaldo Montenegro. Duas musicistas, a flautista Madalena Salles e a violoncelista Janaína Salles também ligam as cenas, além da bela narração feita pelo próprio Oswaldo que nos introduz suavemente à história.
O amor que chega sem avisar e que se instala sem preocupações, um amor que ultrapassa barreiras, regras e se impõe acima da razão. Acompanhamos o amor surgir entre duas mulheres que pensam a vida de formas completamente diferentes. Uma sabe de um segredo que pode afastar ou aproximar as duas. Uma afinidade mágica, ameaçada pelas circunstâncias.
Ana (Kamila Pistori) é uma mulher que age pela razão, ama e respira arte, e vive em seu próprio mundo por saber que a vida comum não lhe basta. Laura (Amandha Monteiro) é o oposto, emocional e carente, abandonada pelo marido no dia de seu aniversário sofre sozinha, mas ela guarda um segredo no fundo de uma gaveta, um caderno de poesias do qual nunca mostrou a ninguém. Ana bate à porta de Laura e tenta de todas as formas conhecê-la, soube por amigos em comum que Laura estava só e ferida após o marido a deixar. Ana é envolvente, inteligente e estimula a curiosidade da outra. O fato é que sem mais nem menos Ana entra no apartamento e daí pra frente se inicia uma relação afetuosa, afinidades e diferenças as une.
A conversa flui e as possibilidades de novos sentimentos surgem, um outro ar toma aquela casa, Laura vai se encantando por Ana, e essa noite regada a vinho e desabafos ganham contornos de inúmeras cores. São conversas animadas, inteligentes e fascinantes. Difícil definir o momento exato em que acontece a conexão, na verdade, não tem como saber onde é que tudo começa. Claro, entre as duas há discordâncias, Laura é emoção e se entrega as suas paixões, já Ana se priva e foge quando percebe que irá se aprofundar.

"O Perfume da Memória" é extremamente poético, a sensibilidade da história penetra a nossa alma e nos faz lembrar de nossas próprias paixões, do porquê é que nos apegamos a certas pessoas, e o que nos faz querer ter alguém para compartilhar tudo.
É um filme especial que ao mesmo tempo nos faz sorrir e também chorar. A trilha sonora é sublime, Oswaldo Montenegro nos presenteia com tantas sutilezas, uma imensidão de sentimentos invade e ficamos atordoados ao final. Tristes e felizes, assim como uma paixão que nos toma por completo em um segundo de distração.

O filme é independente e está disponível no canal do Youtube de Oswaldo Montenegro. Clique aqui.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Flores Silvestres (Kytice)

"Kytice" (2000) dirigido pelo tcheco F.A. Brabec (Máj - 2008), é uma série de sete curtas ligados tematicamente e baseados nas baladas (poema narrativo de assunto lendário) escritas há 200 anos por Karel Jaromír Erben, considerado por alguns como o equivalente tcheco de William Shakespeare. Elas são histórias populares, bem conhecidas pelos tchecos. A aura é de conto de fadas, mas todos com atmosfera sombria. O tema é a morte e acompanhamos histórias que ora são absurdas e bizarras, ora tristes e cruéis.
O primeiro conto que dá nome ao filme "Kytice" (Flores Silvestres) é sobre uma mulher que morre em uma tempestade. Ela é enterrada e seus filhos cuidam de seu túmulo, que floresce. Este episódio atua como suporte para os outros preparando o enredo e humor para os que o sucedem.
O segundo intitulado "Vodník" (Homem das Águas) conta sobre uma garota que vai até o rio apesar dos alertas de sua mãe sobre o perigo que ela tem previsto. A garota cai no rio e é levada e se torna esposa de uma criatura que vive lá. Ela dá luz a um filho, mas deseja ver sua mãe novamente. O barqueiro alerta ela sobre as terríveis consequências do seu possível retorno. Este mito eslavo é muito conhecido, e sem dúvida, um dos mais interessantes apresentados, a criatura que vive nas águas, cujo corpo é coberto por algas coleciona suas vítimas no fundo dos lagos. A moça ao cair nas águas rapidamente é transportada e seduzida, porém com o passar do tempo ela se sente angustiada por querer voltar e ver a sua mãe. O final não poderia ser mais trágico.

O terceiro conto é sobre uma jovem virgem, que reza pelo retorno de seu noivo da guerra, não importando o preço. Entretanto, ela não sabe que ele morreu durante a guerra e quando sua oração é respondida, ela não percebe que ele retornou do túmulo e quer levá-la com ele. Esse carrega traços de um humor negro, ao mesmo tempo que diverte, aterroriza.
O quarto conto "Polednice" (A Bruxa do Meio-Dia) retrata uma mãe cansada, ela prepara a comida na cozinha e está frustrada pelos choros constantes de seu filho. Ela ameaça a criança dizendo que a bruxa irá levá-la embora se não parar de chorar. A bruxa ouve seu chamado. Essa história cria uma tensão irritante, o choro da criança é estridente e incessante, a bruxa está passeando por lá, é hora do almoço, e desnorteada a mãe acaba pedindo que leve o seu filho, claro, se arrepende, mas a bruxa não se importa.

O quinto conto chamado "Zlatý Kolovrat" (A Roca de Ouro), diz sobre um príncipe real, ele observa uma linda jovem banhando-se no bosque, então descobre onde ela vive e exige tê-la como esposa. Mas sua madrasta planeja matar a jovem e colocar sua própria filha no lugar dela. O jovem rei durante uma caçada se apaixona por uma bela fiandeira. Pede à horrível madrasta da jovem que a leve até seu castelo. Esta concorda, mas no caminho juntamente com sua filha, mata a jovem, corta mãos e pés, além de arrancar seus olhos. Coloca tudo em um saco e mãe e filha seguem em direção ao castelo. Ao chegarem o rei confunde a filha da madrasta e acaba se casando com ela. Mas um homem misterioso encontra o corpo da bela e envia um mensageiro ao castelo com uma proposta: trocar as mãos por uma roca de ouro, o pés por um fuso para a roca e os olhos por um carretel. Consegue fazer a troca e com auxílio de uma água mágica junta os pedaços e a moça volta à vida. Ao retornar da guerra, o rei pede à sua esposa para que teça alguma coisa para ele e enquanto ela o faz, a roca de ouro revela o crime ao rei. Ele corre para a floresta, encontra sua verdadeira amada e vivem felizes para sempre. Tanto a madrasta como sua filha são devoradas por lobos.

O sexto conto "Dcerina Kletba" é sobre uma moça que mata o filho bastardo e é enforcada pelo crime. Prestes a ser enforcada ela amaldiçoa sua devota mãe. O último conto "Štedrý den" (Christmas Day) retrata as antigas tradições de natal, os desejos, o destino, tudo visto em rituais.
A trilha sonora composta por Jan Jirásek é especial e contribui demais para o clima do filme, a fotografia também se destaca, cada conto exibe o seu diferencial, é um longa mágico, poético, obscuro e cheio de signos. "Kytice" é ótimo para se encantar com a cultura e as lendas tchecas, o macabro é posto de forma delicada, tudo é envolto por um fino véu de sutilezas, temas brutais e tristes são regados a poesia. É um filme lindo que cativa os curiosos e os amantes do cinema tcheco. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Solidões

"Solidões" (2013) dirigido por Oswaldo Montenegro (Léo e Bia - 2010) é um filme que desperta emoções e demonstra variados lados da solidão. Realizado com recursos próprios e a Coprodução do Canal Brasil, o roteiro, a direção e a trilha são assinadas pelo artista. "Solidões" vai do riso ao drama, do musical ao documentário, da comédia romântica à sátira cruel, em várias histórias que se ligam, se encontram. Vanessa Giácomo, além de narrar o filme, interpreta uma mulher que perde a memória e rejeita sua vida anterior se recusando, a partir daí, a ter contato físico ou emocional com qualquer ser humano. Oswaldo Montenegro, no papel do "Demônio", enfrenta sua solidão andando pelo mundo, morrendo de saudade de Deus. Um diabo sádico, divertido, que sai por aí oferecendo infinitas possibilidades aos solitários, caso aceitem suas inusitadas condições e exigências. É um filme extremamente emocional e que ficará para sempre guardado na memória. O seu grande diferencial é misturar artes, gêneros e visões. A narração de Vanessa Giácomo é belíssima e nos toca profundamente, fazendo com que olhemos para dentro e percebamos que todos nós somos uma ilha. "Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo que mataram, é uma ilha."
O filme é permeado por personagens interessantes, como o homem (Pedro Nercessian) que encontra com o seu próprio eu, Ronaldo (Eduardo Canto), um garçom colecionador de frases, precisa aguentar uma cliente embriagada (Kamila Pistori). Um músico do interior de Minas Gerais que vai tentar a sorte no Rio de Janeiro, o deficiente físico que tem o apelido de Chico Atrasado e sempre exagera as histórias que ouve, e a diretora de elenco (Madalena Salles), que fez o teste de seleção dos atores, passa por um curioso exercício de metalinguagem. Entre tantos outros e suas solidões.
O roteiro é delicioso, inteligente, filosófico, intimista e todo recheado de metáforas, algumas frases ficam gravadas, são verdadeiras pérolas de poesia, outras são irônicas e divertidas, como quando Oswaldo Montenegro aparece interpretando uma espécie de ladrão, conhecido como Demônio, e começa a dialogar com a personagem Mariana. Em dado momento ele diz: "Chocolate quente, licor e charuto. Essa sim é a santíssima trindade". Há muita ironia envolvendo a religião, tanto em diálogos como na trilha sonora. 
Do drama existencial ao humor inteligente, essa obra equilibra perfeitamente todos os gêneros que possui, todas as artes que apresenta, é uma mistura maravilhosa que só poderia ter saído da mente brilhante de Oswaldo Montenegro, ele é um virtuose em tudo que se propõe.

O filme desnuda a solidão, a expõe de todas as maneiras possíveis, reflete-se o que é a solidão para cada individuo, as partes em que há os depoimentos de pessoas comuns fica bem explícito o como cada um carrega a sua, umas com bom humor, outras com dor e pesar. A trilha sonora é linda e às vezes o filme até parece um grande clipe, mas nada que retire a sua beleza, aliás o que o torna tão especial é essa mistura, esse não se enquadrar em nenhum estilo. É sempre bom se deparar com filmes que fogem do mais do mesmo, de artistas que se arriscam, que trazem temas pertinentes e ousam em sua carreira.
"Solidões" é envolvente, inteligente e poético, é filme para almas sensíveis, para pessoas que não sentem medo de mergulhar profundo em si mesmas.

"A solidão é como um nome que se esquece, como um homem que envelhece, sem viver o que sonhou, é como um trânsito em plena madrugada, é o poeta na calçada que ninguém, nunca, escutou."

O filme está disponível no canal do Youtube de Oswaldo Montenegro. Clique aqui.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Vampire

"Vampire" (2011) dirigido por Shunji Iwai (April Story - 1998, Hana e Alice - 2004) é um drama poético que retrata nada mais que a solidão. Não espere terror ou coisas sobrenaturais, o filme é delicado e sensível ao mostrar um lado macabro e bizarro do ser humano, e a sua inaptidão para a vida.
Um professor, com sede de sangue, busca mulheres com tendências suicidas na internet para serem suas vítimas. No entanto, ele sempre se enternece por elas antes de matá-las.
Primeiro longa no idioma inglês do japonês Shunji Iwai, que mantém a sua essência simples, porém obscura, esqueça todo o fascínio que envolve a figura de um vampiro, todo o mistério e elegância, o personagem de "Vampire" é apenas um ser humano, aliás demasiadamente humano, pois ele sente no âmago as dores de sua existência. Simon vivido por Kevin Zegers é um homem solitário, vive com sua mãe que sofre de Alzheimer, e inclusive ele cria uma maneira de mantê-la no quarto com uma engenhoca bem interessante feita de balões, ele é professor de biologia de uma escola secundária e tem o hábito de ajudar jovens suicidas a se matarem em troca do sangue delas. Ele procura por belas garotas na internet que não queiram mais viver e ele ardilosamente propõe que elas deem o seu sangue. A primeira cena já mostra ele coletando o sangue de uma suicida, ela diz a Simon que não deseja sentir dor antes de morrer e então aceita o seu método de coleta. Ele bebe o sangue com dificuldade e minutos depois o vomita. 
O filme tem cenas que provocam estranheza, mas ao mesmo tempo nunca perde sua delicadeza, todos os personagens são frágeis, alheios a vida e complexos. "Vampire" claramente demonstra o quão difícil são as relações humanas. Também há momentos tensos, a câmera não titubeia em mostrar perfurações feitas por agulhas e o sangue se esvaindo do corpo. 
O protagonista vai em busca de mais vítimas, todas suicidas em potencial que rondam lugares propícios, como pontes, e aquelas que externam isso através da internet em sites e grupos, Simon as fisga, marca um encontro dizendo que também se suicidará e as manipulam para que aceitem o seu processo de retirada de sangue, ele jamais machuca a vítima, não provoca dor e sente afeição por cada uma. Ele bebe o fluído vital pensando assim ter encontrado o sentido de sua vida.

Simon é ambíguo, ele é um assassino em série, mas demonstra repúdio a um grupo de "vampiros" que atacam as jovens de maneira violenta, as sufocando e estuprando e mordendo-as no pescoço com dentes falsos de metal, sente carinho por Ladybird, uma de suas possíveis vítimas, que escapa de um suicídio coletivo, do qual ele também estava. Quando ele vai a casa dela para a coleta se humaniza de tal modo que desiste do ato. Os dois se envolvem momentaneamente, e por fim vai embora. O terror da situação se transforma numa bela poesia. O desespero está presente em toda a narrativa, porém de maneira contida. 
"Vampire" é angustiante, dolorido e cria uma sensação estranha no espectador, o tema pesado é convertido em beleza e encantamento, impossível não se compadecer por Simon.

Kevin Zegers está perfeito, seu semblante, seu modo de se portar, todos os diálogos de seu personagem são interessantes e mostram o seu espírito perturbado. Ao longo observamos as suas nuances, destaque para a cena em que uma de suas alunas parece querer cometer o suicídio e ele a aconselha, depois ela confessa ter sido brincadeira para chamar a sua atenção, mas ao final ele termina doando seu sangue a ela. Confuso, irônico, é uma situação que acaba o atormentando muito, uma outra personagem importante e que ele pouco se importa é a irmã de um policial que vive em sua casa, o desprezo dele acaba provocando a sua derrocada.
"Vampire" tem uma estética apurada e etérea, a trilha sonora quase inteiramente no piano destaca a sensibilidade, e a narrativa passeia entre o terno e excêntrico sem dificuldades. É uma produção que merece atenção!
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