terça-feira, 29 de março de 2016

Príncipes da Estrada (Prince Avalanche)

"Príncipes da Estrada" (2013) dirigido por David Gordon Green (Joe - 2015) é uma refilmagem do filme islandês "Á Annan Veg" (2011), e de forma despretensiosa conta a história de dois trabalhadores da rodovia que vão passar o verão de 1988 longe da cidade em que vivem. A paisagem isolada torna-se um lugar de desgraça, já que os homens encontram-se em desacordo um com o outro e com as mulheres que deixaram para trás.
Alvin (Paul Rudd) é um homem que aprecia a solidão e seu trabalho reflete em sua personalidade, ele passa longos períodos nas rodovias, pintando faixas, colocando placas, etc. Em um desses serviços Alvin decide contratar Lance (Emile Hirsch), irmão de sua namorada, o rapaz tem dificuldades em se posicionar na vida e não parece ter muitas ambições. O local em que estão foi atingido por um misterioso incêndio, onde grande parte da floresta foi destruída, assim como algumas casas e famílias. O lugar tem uma aura melancólica e fantasmagórica, os personagens secundários que por vezes dão as caras intensificam este clima. 
Juntos eles vivem momentos de tédio, descontração e de muita solidão. Alvin é um cara tranquilo que não vê o silêncio e a solidão como algo ruim, já Lance é impaciente e custa para se adaptar ao trabalho. Pouca coisa acontece, mas acompanhamos uma evolução importante na vida dos dois, tanto na amizade que se forma, como na mudança que se faz interiormente nos dois. Paul Rudd está surpreendente, um homem sério, delicado e que não tem medo de expor seus sentimentos. Emile Hirsch também está ótimo e proporciona momentos que vão da monotonia à intensidade. 
O filme é marcado por diálogos interessantes, mesmo que seja por vezes regado a filosofia barata, traz a questão de que não há fórmulas para uma relação dar certo, seja ela de romance, amizade, ou qualquer outra. Alvin, por exemplo, trabalha duro, se distancia da mulher que ama, tudo em prol do bem-estar deles, mas o que recebe em troca é egoísmo e desamor. Lance é um menino perdido que nem sabe onde está, vai para onde o vento o levar, o trabalho e a convivência com Alvin ao final dá uma certa direção, a amizade que se constrói aos poucos faz com que ele tenha com quem compartilhar suas aflições, e de certo modo crescer interiormente, assim como Alvin que chora pelo amor, mas sabe que é uma pessoa que merece o melhor.
"Príncipes da Estrada" tem um clima melancólico, o ambiente aumenta essa sensação, não se passa carros por lá e o serviço se torna em vão, isso serve como uma metáfora para a vida, onde você se esforça, se quebra, e que mesmo assim parece que nada acontece, porém sem perceber a transformação está se realizando.

David Gordon Green sem dúvida é um cineasta que sabe percorrer por caminhos diversificados, de comédias escrachadas, como "Pineapple Express" (2010) a filmes independentes, como "Joe" (2015). É sempre satisfatório acompanhar diretores que se arriscam e que dão a chance a atores já tão estereotipados no gênero comédia, no caso, Paul Rudd. Ele é a maravilha do filme, se destaca e nos apaixonamos completamente por sua personalidade, claro, inquestionável a complementação de Emile Hirsch na trama também. Outro ponto a acrescentar é a trilha sonora, a canção "Bad Connection" foi composta por Emile Hirsch e Paul Rudd e é ela que dita o tom do filme.
"Príncipes da Estrada" é um filme simples e que não tem pretensão nenhuma, é delicioso acompanhar a evolução da amizade dos personagens.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Top 10 - Filmes de Vampiros

Segue uma lista imperdível para quem curte o universo vampiresco, a maioria dos filmes primam pelo drama e romance e se destacam não só pela estética, mas também pela beleza narrativa. Confiram:

10- 2019 - O Ano da Extinção (Daybreakers - 2009) de Michael Spierig e Peter Spierig
Em 2019, a população mundial quase toda foi transformada em vampiros por um tipo de vírus e estes levam uma vida socialmente próxima do normal, vivendo principalmente a noite. A pequena parcela da população sobrevivente virou gado em instalações de coleta de sangue para manter a maioria viva. Agora com a raça humana ameaçada de extinção, os vampiros terão que capturar os humanos restantes ou desenvolver uma nova raça para perpetuar a espécie. Enquanto isso, um grupo secreto descobre uma nova maneira de lidar com os vampiros.

09- Vampyros Lesbos - 2008 de Matthew Saliba
Uma homenagem do cineasta independente Matthew Saliba ao clássico "Vampyros Lesbos", de Jess Franco, narrada através de imagens, como o famoso curta "La Jetée", de Chris Marker. Conta a história de Linda, uma solitária dona de casa cujo marido, Omar, não lhe dá a mínima. As coisas mudam quando ela conhece a misteriosa Condessa Nadine - uma vampira em busca de alguém com quem passar a Eternidade.

08- Vampire - 2011 de Shunji Iwai
Um professor, com sede de sangue, busca mulheres com tendências suicidas na Internet para serem suas vítimas. No entanto, ele sempre se apaixona por elas antes de matá-las. Um drama poético que retrata nada mais que a solidão. Não espere terror ou coisas sobrenaturais, o filme é delicado e sensível ao mostrar um lado macabro e bizarro do ser humano, e a sua inaptidão para a vida.

07- Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire - 1994) de Neil Jordan

Acidentalmente um repórter (Christian Slater) começa uma conversa com um homem (Brad Pitt) que diz ser um vampiro com duzentos anos e conta a trajetória de sua vida, desde a época em que ainda não era vampiro e como foi infectado pelo vampiro Lestat (Tom Cruise), com quem teve grandes aventuras mas também grandes desavenças.

06- Byzantium - 2013 de Neil Jordan
Clara (Gemma Arterton) é uma jovem mãe vampira que morde sua filha Eleanor (Saoirse Ronan). Procurando por refúgio, a dupla mortal conhece o solitário Noel. Pouco tempo depois, a adolescente faz amizade com Frank (Caleb Landry Jones) e conta que elas sobrevivem com sangue humano há cerca de 200 anos. O segredo começa a se espalhar e o passado das mulheres vai voltar para assombrá-las.

05- Sede de Sangue (Bakjwi - 2009) de Park Chan-wook
Um popular e adorável padre de uma pequena cidade, se torna voluntário de um experimento médico, que dá errado e o transforma em vampiro. Ao tentar reverter o processo, começa a ter um caso com a esposa de um amigo e mergulha cada vez mais na imoralidade. 

04- A Garota Que Anda à Noite (Girl Walks Home Alone at Night - 2014) de Ana Lily Amirpour
Coisas estranhas acontecem em Bad City. Uma cidade iraniana fantasma, lar de prostitutas, viciados, cafetões e outras almas sórdidas. Um reduto de depravação e falta de esperança, onde uma vampira solitária persegue os habitantes mais repugnantes. Mas quando um garoto conhece uma garota, uma história de amor incomum começa a florescer… vermelha como o sangue. Com uma estética impecável, é um conto de horror que envolve uma série de simbolismos. É melancólico e muito intrigante! Saiba+

03- O Que Fazemos Nas Sombras (What We Do in the Shadows - 2014) de Jemaine Clement  Taika Waititi
Viago (Taika Waititi), Deacon (Jonathan Brugh) e Vladislav (Jemaine Clement) são três vampiros que dividem uma casa. Algumas das dificuldades que eles têm na vida é serem imortais, encontrar sangue humano em festas noturnas, lidar com a luz solar e não conseguirem adequar a maneira de se vestirem aos padrões sociais, além de ter que pagar o aluguel e ainda conviver entre si dentro da casa.

02- Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive - 2013) de Jim Jarmusch
Este filme mostra a história de amor entre dois vampiros (Tilda Swinton e Tom Hiddleston), cansados da sociedade onde vivem. Durante muitos séculos eles vivem uma relação juntos, até serem interrompidos pela incontrolável irmã caçula da vampira (Mia Wasikowska).
"Only Lovers Left Alive" retrata o tédio vivido pelo casal e a absorção que fazem com a arte ao passar dos séculos, também recordam episódios caóticos da humanidade, como a peste negra. É um filme de vampiros que diz muito sobre nós humanos, do quanto estamos caminhando para um vazio infindável, uma vida automática, carente de cultura e desprovida de sensações. Saiba+

01- Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In - 2008) de Tomas Alfredson
A história é ambientada no subúrbio de Estocolmo, em 1982. Oskar (Kåre Hedebrant), um frágil garoto de 12 anos sempre atormentado pelos colegas de escola, sonha com vingança. Ele apaixona-se por Eli (Lina Leandersson), garota bonita e peculiar que não suporta sol e comida. Eli dá a Oskar força para lutar, mas o menino é colocado frente a um impasse quando percebe o que ela precisa fazer para sobreviver: até onde pode o amor perdoar?

terça-feira, 22 de março de 2016

Românticos Anônimos (Les Émotifs Anonymes)

"Românticos Anônimos" (2010) dirigido por Jean-Pierre Améris (A Linguagem do Coração - 2014) é uma comédia romântica divertida e deliciosa, retrata de maneira leve e descontraída dois personagens que sofrem de timidez crônica e a arte do preparo do chocolate. É um filme que nos traz bons sentimentos e uma vontade imensa de experimentar os mais variados tipos de chocolates.
Jean-René (Benoît Poelvoorde) é dono de uma pequena fábrica de chocolate, Angélique (Isabelle Carré) é uma talentosa chocolateira, os dois tem muito em comum, a timidez excessiva e o travamento social, a solidão acompanha a vida deles desde sempre. Angélique frequenta um grupo de ajuda que a impulsiona e a faz querer procurar um emprego, ela decide ir na fábrica de Jean-René, este que esconde sua ansiedade num semblante austero, que sem muita demora a contrata, mas devido a falta de diálogo, ela acaba como representante de vendas. A fábrica está à beira da falência pelo fato dos chocolates serem clássicos demais.
Jean-René faz terapia e sempre está colocando exercícios de socialização em prática, tem grande dificuldade em demonstrar sentimentos, especialmente para as mulheres, quando se apaixona por Angélique, o terapeuta vai lhe ajudando com a aproximação, primeiro a chama para jantar, mas termina fugindo do restaurante, sua ansiedade é extrema e não consegue parar sentado e a todo minuto vai ao banheiro trocar a camisa por causa do suor excessivo. O desenvolvimento da relação deles garante cenas hilárias e apaixonantes, Angélique parece avançar a partir do momento que tem a ideia de reerguer a fábrica, ela conta a história de um eremita que fazia chocolates para a chocolaterie mais famosa de lá, e então decide colocar em prática as receitas, na verdade, era ela que fazia os chocolates em casa e os levava à loja, a sua timidez não deixava que trabalhasse fora. Os chocolates fazem sucesso, até viajam para expô-los e com isso a relação vai se estreitando. Os funcionários da fábrica já sabiam que Angélique era o eremita e não vão permitir perdê-la, e para isso Jean-René precisa ir atrás dela e se declarar. Angélique fica em dúvida se eles darão certo por serem tão iguais e questiona se não se afundarão juntos. 

O filme é uma comédia romântica maravilhosa, cujo enredo é simples e até inocente, mas não deixa de ser inteligente refletindo sobre o como a timidez crônica é prejudicial. O elenco é sublime, Benoît Poelvoorde interpreta um sujeito sensível que se disfarça de durão, é cheio de tiques e manias e que vai superando aos poucos e tentando conviver com seus medos e dificuldades, percebe que acompanhado tudo pode ser mais fácil.
Isabelle Carré faz uma personagem doce, mas sem exageros, como a própria diz: o amargor disfarçado do chocolate é que o distingue dos outros doces, ela é exatamente assim. O preparo do chocolate, todo o carinho envolvido, desde a escolha dos ingredientes à degustação são cenas charmosas e que dão água na boca. Também tem partes musicais em que Angélique canta belamente, assim como Jean-René interpreta em francês a canção russa Ochi Chernye.

"Românticos Anônimos" é um filme saboroso, engraçado, sensível e fascinante. O roteiro delicado expõe o como é terrível ter que conviver com medo de tudo por causa da timidez. É possível escondê-la e até superá-la como demonstra os personagens, ajustando-se as asas o voo se concretiza. 

"... A cada passo me sinto mais segura.Tudo vai ficar bem tenho certeza o mundo é meu. Eles vão me ver brilhar eu realmente acredito em mim. Eu acredito em mim quando o sol brilha. Eu acredito em mim quando a chuva cai. Eu acredito no regresso da primavera. E, acima de todas as outras coisas eu acredito em mim..."

quinta-feira, 17 de março de 2016

Victoria

"Victoria" (2015) dirigido por Sebastian Schipper (Um Amigo Meu - 2006) é um filme alemão rodado todo em plano-sequência com a câmera na mão durante uma madrugada. Em um clube, Victoria (Laia Costa) conhece Sonne (Frederick Lau), que está no local com seus amigos, e, rapidamente, há uma forte conexão entre eles. Mas o início do romance é interrompido quando o grupo de jovens é forçado a pagar uma antiga dívida. Victoria, impulsivamente, decide ajudá-los e entra no jogo como motorista. Mas o que começou como uma louca aventura pode se tornar um pesadelo.
Victoria é uma imigrante espanhola que tenta se adaptar e se integrar, mas sem muito êxito, até que conhece quatro berlinenses na saída de uma boate, ela muito carente topa sair com eles para beber e fumar, entre papos descontraídos conhecemos um pouco de cada um, os rapazes são arruaceiros e um deles já foi preso, Boxer (Franz Rogowski) foi protegido na prisão e agora precisa pagar uma dívida, para isso necessita de seus colegas, um deles por ter bebido demais fica incapacitado e Victoria acaba aceitando participar. Interessante o como ela é absorvida por tudo, o que a faz querer isso? Conforme a madrugada transcorre ela vai se sentindo parte do grupo, ela flerta com Sonne (Frederick Lau), o que não se concretiza por eles sempre estarem em estado de alerta, o plano-sequência dá a sensação de frenesi e se intensifica ainda mais um pouco depois do meio do filme.
Testemunhamos o encontro, as decisões e as consequências, fazemos parte da história, o trabalho realizado por Sturla Brandth Grøvlen, o operador de câmera é excepcional e cria grandes momentos de tensão e euforia. As escolhas feitas por Victoria demonstram ingenuidade e uma vontade imensa de fazer parte de alguma coisa, muito do que acontece é inverossímil, mas demonstra claramente o quanto uma má decisão pode ser fatal, e que num piscar de olhos o que estava relativamente calmo se transforma num verdadeiro caos, afinal quem procura por encrenca termina a encontrando. Às vezes as pessoas se dão mal simplesmente por pura inocência, pode-se dizer que Victoria foi a que saiu ilesa disso tudo, mas será que valeu a pena? O crime compensou?

Victoria se deixou levar, mas também não é tonta, entrou no plano porque quis e por ter uma vida sem atrativos, ela precisava de aventura e adrenalina, em um diálogo com Sonne diz ter estudado piano a sua adolescência toda e em dado momento sua professora disse que ela era uma má pianista e estava perdendo tempo, então havia revolta, tristeza, e com certeza deve ter ido a Berlim para fugir. Ela é passiva, mas não idiota, fez suas escolhas, lidou com as consequências, e ao final numa cena muito comovente e forte, concluiu o que deveria fazer.
É um roteiro simples, previsível, a técnica se sobressai e é ela que aguça a nossa curiosidade e faz do filme um diferencial, as atuações estão boas e naturais ao longo de mais de duas horas sem cortes, e a trilha sonora encaixa-se perfeitamente com a aura criada. 
"Victoria" nos insere numa turbulenta madrugada cheia de decisões e circunstâncias pesadas. É um drama eletrizante e imersivo!

terça-feira, 15 de março de 2016

O Novíssimo Testamento (Le Tout Nouveau Testament)

"O Novíssimo Testamento" (2015) dirigido por Jaco Van Dormael (Sr. Ninguém - 2009) é uma comédia sarcástica que ora pende para o absurdo, ora para a crítica, as metáforas estão espalhadas por toda parte, em todos os personagens. É divertido e sagaz ao colocar o foco não somente no cerne religioso e sim na questão do machismo, o Deus patriarcal que tudo domina. 
Deus existe e mora em algum lugar de Bruxelas, arrogante e grosseiro passa os dias digitando em seu computador ultrapassado regras escrotas para tornar a vida humana mais difícil, com ele mora sua mulher submissa e sua filha Ea, que arquiteta um plano de vingança para seu pai. Decidida a escrever um novíssimo testamento, pede conselhos a seu irmão J.C, que não passa de uma estátua que ganha vida em alguns momentos. Ea quer livrar a humanidade desse Deus e pra começar entra na sala secreta de seu pai e invade o seu computador arcaico, e então manda a data exata da morte de todas as pessoas, todos ficam assustados achando ser algum hacker, mas quando as mortes começam a bater com as datas percebem ser verdade, aí algumas pessoas decidem fazer extravagâncias, realizar seus sonhos, abandonar seus empregos, e outras continuam na mesma, outras ainda sabendo do tanto de vida que terão brincam, por exemplo, um rapaz que se joga de tudo que é lugar e se salva por não ser o dia de sua morte. Com o passar do tempo ninguém mais tem medo e a figura de Deus se torna dispensável.
Deus é retratado como um sujeito sem escrúpulos, bruto, machista e que se vangloria, frases como "eu seja louvado" são ditas a todo o tempo, ele trata a sua mulher como um nada e a sua filha com estupidez, até que ela se vinga e ele precisa tirar o traseiro do sofá e ir atrás para tentar reverter a situação, no que se mostra ainda mais incompetente e vítima de suas próprias regras.
Enquanto isso Ea está coletando seus seis novos discípulos para escrever o novíssimo testamento, primeiro encontra um mendigo do qual irá escrever os relatos das pessoas que ela escolheu, entre eles está uma moça solitária que se apaixona por seu assassino, um menino que decide virar menina, a mulher que abandona o marido e começa a namorar um gorila, entre outros.
Benoît Poelvoorde como Deus está sensacional, ele bebe, fuma e xinga, o filme desconstrói a imagem sublime e celestial e coloca Deus em uma frágil posição. Em meio aos humanos é tido como um maluco, um bêbado. Ea interpretada por Pili Groyne esbanja graciosidade e inteligência, os momentos em que conversa com as pessoas são os melhores, ou quando ela escuta a música vinda de dentro de cada um, e também quando decide inventar um sonho para a pessoa. Yolande Moreau como a mulher de Deus, intitulada Deusa, vive a fazer seus bordados e a ver jogos de beisebol, no final do longa ela demonstra toda a sua doçura e prova que o mundo pode ser reformulado e ter todas as cores e possibilidades. O toque feminino faz toda a diferença!
"O Novíssimo Testamento" abarca uma série de questões, em toda cena existe algo para se pensar, tudo é envolto em um tom de comédia e toques surrealistas, mas não se engane há grandes reflexões.

O que você faria se soubesse a data exata de sua morte? Abandonaria sua rotina, transformaria sua vida, ou simplesmente a esperaria da mesma maneira que antes? Diante deste fato alguns personagens, os discípulos que Ea escolheu refletem sobre o que sentem ao saberem o dia exato em que vão morrer. Deus se torna uma figura ultrapassada, assim como seu computador, a ideia de um Deus que tudo vê, tudo comanda e tudo julga é repressora, machista e ilusória. A maior mensagem do filme é para sermos o que bem entendermos, livres de qualquer julgo. Não há nada que nos impeça de ser feliz a não ser nós mesmos.
Jaco Van Dormael soube colocar delicadeza, sátira, fantasia, crítica, metáforas num delicioso roteiro e deu de presente ao espectador um longa engenhoso.

Discutindo as relações humanas, a consciência da mortalidade, o machismo da religião, as influências moralistas que regem as vidas das pessoas, adentramos em um mundo completamente ficcional e estranho, mas ao mesmo tempo real e crítico. A comédia serve para dar leveza e o humor não tem limites. Outro ponto positivo da trama é sua estrutura episódica que dá a liberdade de brincar com os personagens.
"O Novíssimo Testamento" é uma comédia brilhante, desfaz conceitos, preconceitos e proporciona um olhar mais amplo para a vida, ao invés de procurarmos sentido em algo dito superior, é mais válido tomar consciência de si mesmo e perceber o que de fato nos faz feliz. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

45 Anos (45 Years)

"45 anos" (2015) dirigido por Andrew Haigh (Weekend - 2011) é um drama melancólico, mas belíssimo que demonstra o quão difícil é lidar com o fato de que nunca conheceremos uma pessoa por completo. As escolhas feitas na vida pesam e será que apenas o amor é capaz de superar tudo o que acontece em um relacionamento?
Falta apenas uma semana para o 45º aniversário de casamento de Kate Mercer (Charlotte Rampling) e o planejamento para a festa está indo bem. Contudo, uma carta chega para seu marido, passada cinco décadas o corpo de seu primeiro amor foi descoberto, congelado e preservado nas geleiras dos Alpes Suíços. Geoff (Tom Courtenay) se desestabiliza emocionalmente, não consegue se conter, Kate de início o ouve, o compreende, mas ele se preocupa demasiadamente com tal notícia e tudo o que Kate parece fazer é invisível aos seus olhos, como a festa de 45 anos que acontecerá dentro de uma semana. Ele relembra o relacionamento passado e chega um momento em que Kate não admite mais, e aí ela descobre um forte segredo. Kate vai da curiosidade à inquietação, começa a reinterpretar seu presente.
A sensação que o filme causa é de pura angústia e medo, pois você escolhe se casar com alguém que também fez igual escolha, passa-se uma vida juntos, mas aí na velhice descobre que, talvez, nunca tenha sido de fato importante. Que nunca foi a escolha real. Dilacerante olhar para trás. Imagine você perceber que seu marido viveu um luto e que conduziu a vida dele e a sua baseado no que poderia ter sido com a outra.
Geoff já havia contado sobre esse relacionamento a Kate, ela sabia que tinha sido algo intenso e rápido, que a moça tinha morrido nos Alpes Suíços, mas depois que recebe a carta notificando-lhe que encontraram o corpo congelado, suas lembranças começam a ferir Kate, são detalhes que parecem se sobressair diante uma relação de décadas.
"45 Anos" é simples e de ritmo lento, acompanhamos a passagem dos dias como se fossem capítulos, onde se dá as mudanças entre o casal, às vezes parece que nada acontece, são assuntos banais, caminhadas, ou seja, exatamente como a vida de um casal idoso é, mas nunca perde sua força, pois tudo que está sendo mostrado é importante, principalmente nos olhares de Kate. Charlotte Rampling está magnífica, uma atuação sensível e cheia de dor, sua personalidade calma dá lugar a dúvidas e a um estranho ciúme. Tom Courtenay na pele de Geoff está fragilizado, nostálgico, confuso, porém nesse turbilhão continua a amar a esposa. Mas essa semana não era para ser marcada por sentimentos negativos. 

O filme tem cenas delicadas, diálogos interessantes, o lugar bucólico onde vivem proporciona um sentimento maior de melancolia, e a trilha sonora faz parte da história contada, são canções emocionais, por exemplo, "Smoke Gets In Your Eyes", de Platters, "Go Now", de Moody Blues, "Happy Together", de The Turtles, entre outras.
"45 Anos" é todo construído de sutilezas, é um filme sensível, real e dolorido. Charlotte Rampling está soberba, uma atuação que nos traz pra perto da personagem, percebemos seus sentimentos se modificando, as dúvidas a atormentado, sua vida se despedaçando, suas expressões nos contam tudo, especialmente ao final. Fique atento a cada minúcia deste longa!

terça-feira, 8 de março de 2016

Homesick (De Nærmeste)

"Homesick" dirigido por Anne Sewitsky (Happy, Happy - 2010) trata de um tema tabu, o incesto. É um tanto complicado mexer em tal assunto, mas em nenhum momento os conflitos importantes em relação a isso surgem, e talvez, o filme possa ser encarado apenas como um romance melancólico. É notável que os personagens sejam desprovidos de afeto e isso é o fator primordial para o desencadeamento dos acontecimentos. Portanto, o incesto é um pano de fundo para retratar essas deficiências afetivas. 
Charlotte (Ine Marie Wilmann) tem 27 anos e é professora de balé, a relação com a mãe é distante e o pai definha no hospital, seu único elo é sua amiga Marte (Silje Storstein - O Mundo de Sofia, 1999), Charlotte é uma pessoa de extremos e parece invejar a amiga. Tudo muda quando decide se aproximar de seu meio-irmão Henrik (Simon J. Berger), este encontro torna-se algo sem limites, eles dois não tem ideia do que é ter uma família normal. Como pode um amor fraternal se manifestar se você nunca o experimentou antes?
A mãe escondeu de Charlotte que abandonou o filho quando pequeno, Henrik por várias vezes diz que a vida da irmã era pra ser sua. São traumas que perturbam e os encontros que era para ser um acerto de contas terminam na cama. Ine Marie Wilmann como Charlotte carrega todo o filme nas costas e se desdobra para compor sua personagem. Ela é uma mulher de complexos, a amizade entre ela e Marte demonstra o quão doente sentimentalmente é. Chega a dar pena dela, é uma busca por aceitação e Henrik se deslumbra ao vê-la, pois mesmo tendo formado uma família parece incompleto e o novo sempre acaba gerando a ilusão de preenchimento, essa relação permite isso a eles. As cenas de sexo são esteticamente impecáveis, eles transam sempre de maneira selvagem, à medida que o relacionamento deles avança a insanidade aumenta. Henrik larga tudo e Charlotte tenta se desvencilhar do namorado, aliás ela se mantém afastada de todos. 
O filme tem cenas lindas, como a dança inicial em câmera lenta, e outras intensas, como a cena em que eles se batem. É difícil definir que sentimento se sobressai entre eles, o fato de serem irmãos não quer dizer nada, pois é apenas um laço sanguíneo, não houve qualquer convivência, são pessoas estranhas. 

O tema é espinhoso e promove bastante discussão, mas a diretora utilizou um tom elegante e não questiona ou julga o incesto, a ênfase está mais na solidão de cada um.
"Homesick" é o tipo de filme que não agrada a maioria por ter o incesto como tema, mas a verdade é que a história traz de forma delicada o como é complicado lidar com a carência afetiva, a relevância de laços familiares e a solidão.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Macbeth: Ambição e Guerra (Macbeth)

"As coisas que começam mal, fortalecem-se pelo mal"

"Macbeth" (2015) adaptação da obra de Shakespeare dirigido por Justin Kurzel (Snowtown - 2011) é um filme impecável em todos os sentidos. Um deslumbre visual, fiel ao texto, trilha sonora soberba e atuações densas. A história se passa no século XVI, Macbeth (Michael Fassbender) é o senhor de Glamis, e lidera um exaurido exército da tropa real, a caminho da batalha final. Eles defendem a causa de Duncan (David Thewlis), Rei da Escócia. No entanto, após a vitória no campo de batalha, Macbeth recebe de três bruxas uma profecia em que dizem que um dia ele será o Rei da Escócia. De volta à sua casa, ele compartilha a notícia com sua esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard). A ambição toma conta dos dois e, juntos, eles tramam uma maneira de alçar Macbeth ao poder.
Os diálogos são rebuscados mantendo o texto da obra original e é sublime como os atores souberam levar para que tudo não soasse totalmente teatral. As palavras proferidas têm grande peso. Outro destaque são as filmagens ao ar livre nas terras altas escocesas, o diretor explora bastante essa paisagem com diferentes tonalidades de vermelho. 
O ritmo do filme é diferenciado e pode ser cansativo àqueles que se acostumaram com uma linguagem mais simplificada ou mastigada, "Macbeth" tem requinte e brilha justamente por isso, não é apenas uma história sendo contada, há diversas camadas ali que podem ser percebidas mesmo depois do filme terminar, a profundidade é enorme.
A sensação de acompanhar a destruição de Macbeth é dolorida e incômoda, presenciamos o inferno, sua humanidade se desfazendo, sua mente se esvaindo. 

Michael Fassbender entrega um dos melhores personagens de sua carreira e olha que ele tem uma filmografia invejável, ele sucumbe e se consome, assim como a manipuladora Lady Macbeth, vivida pela linda Marion Cotillard, que passa pelo mesmo processo de autodestruição. 
A ambição e a ganância são sentimentos perigosos que alimentados indevidamente geram a tragédia, Macbeth convencido pela mulher a matar o Rei Duncan, imediatamente consegue o trono, pois é o parente mais próximo, já que os filhos do rei fugiram com medo de também serem assassinados. Macbeth não fica com a consciência tranquila e o medo de perder a posição o apavora, quando recebeu a mensagem das três bruxas de que seria rei, Banquo também recebeu uma profecia, um de seus filhos seria rei algum dia. Então, Macbeth planeja matá-los, porém o filho de Banquo escapa e daí pra frente seu desequilíbrio e crueldade toma formas terríveis e culminam em seu trágico fim.
As cenas de batalha são lindíssimas, acompanhamos a brutalidade dos combates de maneira detalhada, a câmera lenta intensifica a violência permeada por uma névoa incessante.

As cenas em que o silêncio predomina também são de imensa magnitude. A adaptação é genuína e confere um ar de grandeza.
Em "Macbeth" o lado sombrio do ser humano se revela, a ambição, a ganância e a culpa corroem levando à loucura e a autodestruição. Sem dúvida uma obra de arte e uma reflexão atemporal.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mamma Gógó

"Mamma Gógó" (2010) dirigido pelo islandês Friðrik Þór Friðriksson, um dos mais respeitados de seu país e responsável por colocar o cinema da Islândia em evidência. "Filhos da Natureza" (1991) foi o filme que abriu as portas e surpreendeu ao ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1992. Em "Mamma Gógó" o diretor não perde a oportunidade e brinca com o fato, diz que tal filme é um fiasco e os islandeses não ligam para a história, que reflete sobre a velhice. Existe uma discussão interessante sobre a paixão de fazer filmes.
Um cineasta (Hilmir Snær Guðnason) ambicioso torce por uma indicação ao Oscar apesar do fracasso absoluto de seu último filme na Islândia, sua terra natal. Ao mesmo tempo, sua mãe (Kristbjörg Kjeld), outrora enérgica e inteligente, é diagnosticada com Alzheimer. 
A história retratada é uma semi-autobiografia do diretor, que durante as filmagens de seu filme, sua mãe começa a sofrer cada vez mais pela perda de memória, diagnosticada com Alzheimer, ele passa a cuidar mais da mãe, que apesar de outras duas filhas, é sempre a ele que recorre. O filme não é somente sobre a dificuldade de se envelhecer, mas também sobre fazer cinema, a metalinguagem utilizada é sutil e fascina.
Gógó por conta de sua doença protagoniza situações cômicas, desde a deixar seu neto sozinho com uma garrafa de vodca na sala, a quase incendiar a casa, e a fuga pela descarga do banheiro quando já se encontra numa casa de repouso. Claro, refletimos muito sobre a dificuldade de se lidar com tal doença, o envelhecimento e a morte, mas é um filme leve e gostoso de assistir.
Destaque para a fotografia e a natureza majestosa em estado bruto da Islândia, e também os toques fantasiosos da trama que o tornam ainda mais sensível. Os diálogos alternam-se entre o drama e a comédia e fica impossível não se simpatizar com a Mamma Gógó, uma senhora que antes era uma mulher independente, e que de repente se vê necessitando de cuidados, é resistente diante a ir a uma casa de repouso, mas as filhas demonstram impaciência e o filho está numa fase complicada, mas ele acaba sendo o único a ajudá-la. 
O retrato do envelhecimento é dolorido, mas neste longa o diretor soube dar um tom agradável e até cômico.
"Mamma Gógó" é um exemplar brilhante vindo da Islândia. É um filme comovente, afável e que homenageia a velhice, o cinema, e acima de tudo, o amor.
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