quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Incompreendida (Incompresa)

"Incompreendida" (2014), terceiro longa de Asia Argento (Transylvania - 2006) é um filme que retrata uma menina em fase de transição em meio a uma família disfuncional, escrito em parceria com Barbara Alberti, talvez o roteiro tenha algo de autobiográfico, já que Asia Argento é filha do mestre do terror Dario Argento e da atriz Daria Nicolodi, certamente algumas memórias inspiraram a sua doce protagonista, Aria. Demonstrando toda a difícil missão de crescer sendo rejeitada e incompreendida pelos próprios pais adentramos num universo perturbador e triste, mas que evoca sensações de ternura e carinho.
Roma, 1984, Aria é uma menina de nove anos de idade. À beira do divórcio, os pais infantis e egoístas de Aria estão muito preocupados com suas carreiras e assuntos extraconjugais para cuidar adequadamente de qualquer uma das necessidades da criança. Enquanto suas duas irmãs mais velhas Lucrezia (Carolina Poccioni) e Donatina (Anna Lou Castoldi) são mimadas, Aria é tratada com indiferença e frieza. Mesmo assim, ela anseia em amar e ser amada pela família. Na escola, a menina se destaca academicamente, mas é considerada desajustada por todos. Ela é incompreendida. Seu conforto resume-se em seu gato Dac e sua melhor amiga, Angelica. Ao ser expulsa da casa dos pais e abandonada por todos, até mesmo por Angelica, Aria finalmente chega ao limite do que pode suportar, e toma uma decisão inesperada em sua vida.
O pai (Gabriel Garko) é um ator narcisista cheio de superstições e que atua em filmes de gosto duvidoso, a mãe (Charlotte Gainsbourg) é uma pianista de sucesso que vive a vida sem limites. Aria (Giulia Salerno) fica entre as duas irmãs, ela diz, a mamãe tem Donatina, papai tem Lucrezia, entre idas e vindas da casa deles, pois diversas vezes é expulsa, sua única fonte de amor é o gato Dac. Aria é uma menina inteligente, esperta e que tenta de todas as maneiras conseguir ser notada por seus pais, ela é alvo dos colegas de escola, que não a identificam como uma garota, Angelica, sua melhor amiga, em determinado momento também a deixa de lado, existe uma inocência em Aria que faz com que ela se isole. Como toda pré-adolescente é apaixonada por um menino popular e rejeita o estranho que gosta dela de verdade. Ela se destaca na escrita, impossível não se emocionar quando ganha o prêmio de melhor redação e lê na frente de todos e imagina seus pais a ouvindo. "Não acho que o anjo da guarda seja um guardião invisível que nos espia. Isso me assustaria como um fantasma porque ele me vê, mas eu não o vejo. Acho que o anjo entra em alguém que está perto de nós e nos protege. O meu entrou num gato preto que se chama Dac. Quando ninguém percebe que quero um carinho, ele percebe. Todos os carinhos que não recebo, eu dou a ele. Um pequeno gesto de amor eu faço durar como um pirulito. Vocês sabem o que é um pirulito? É uma bala redonda que parece não acabar nunca. Mas acaba. É uma bala imaginária, como o amor".
Interessante em uma parte do filme que sua mãe está com um cara mais novo, rebelde e este diferente dos outros adora Aria, é lindo vê-la sentindo-se amada, dói ver o quanto necessita de gestos de carinho, toda vez que a mãe demonstra ela se entrega, mas da parte da mãe não significa nada, isso vai pesando em Aria, que cada vez mais se sente abandonada. Na casa do pai não há lugar para ela, a irmã sempre dá um jeito de colocar a culpa de algo nela, na casa da mãe também sempre diz ou faz coisas que vão contra o sistema caótico. Em muitos momentos vemos a vagar pelas ruas com sua pesada mochila e seu gato Dac. 

A estética do filme contribui para o sentimento de deslocamento, as cores, o estilo kitsch do ambiente traduz a confusão do lar e da falta de aconchego, outro ponto é a trilha sonora que complementa para aura dos anos 80.
Giulia Salerno se agiganta na tela, uma menina excêntrica e com fortes valores contrapondo com sua figura frágil, ela resiste em meio a tanto egoísmo e individualismo, ela floresce em meio a um ambiente hostil e decadente, sua inocência resplandece. É uma atuação delicada, mas com muito vigor. O filme é pessimista e coloca em questão toda a sordidez com personagens caricatos, aliás, é muito bem colocado este exagero para explicitar a tamanha vaidade da mãe e do pai de Aria.

"Incompreendida" é melancólico, excêntrico, doce e encantador ao expor a mais completa ausência de afeto, Aria é uma menina que lida com inúmeros fatores e descobertas, ela é ousada e está sempre em busca de um pouco de amor, como ela diz ao final, "não contei isso para me fazer de vítima, mas para que me conheçam melhor. E talvez, sejam um pouco mais gentis." 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Presidente (The President)

"O Presidente" (2014) do sublime diretor e ativista Mohsen Makhmalbaf (Gabbeh - 1996, O Silêncio - 1998) retrata com imensa sensibilidade uma fábula sobre a destituição de um ditador e a substituição de uma violência por outra gerada a partir do ódio, da desordem e do desejo de vingança. Mohsen com um olhar inteligente e amplo nos oferece um ponto de vista difícil, porém essencial de que a violência seja qual for nunca será o caminho, a vingança contra o seu opressor é tão cruel quanto aquela sofrida.
Numa aldeia fictícia do Cáucaso, o Presidente (Mikheil Gomiashvili) em fuga tem apenas a companhia do neto (Dachi Orvelashvili) de cinco anos. Um golpe de Estado aconteceu e o ditador agora circula pelas terras que um dia governou disfarçado de músico. Pela primeira vez ele se aproxima realmente da gente que por tanto tempo liderou, finalmente conhecendo aquele que era seu povo.
O filme é todo composto por belas cenas de imenso impacto, ele já se inicia mostrando o poder concentrado na figura de um homem cruel, mas que exibe carinho por seu neto, a humanização do personagem, com um simples telefonema ordena que as luzes da cidade se apaguem, o menino brinca com o poder que lhe é oferecido e a repete até que de repente a ordem de acender não seja concedida, é o início da revolução. A família do governante pega um avião para outro país e o menino aos prantos não deseja ir, como ainda o Presidente não tinha noção da proporção dos acontecimentos fica com o neto, a situação se agrava rapidamente com os cidadãos em fúria e é obrigado a fugir, se disfarçando de músico. A jornada é humanista, mas não permite a redenção ao tirano, ele se vê diante do povo que sofreu com a suas maldades, antes a opulência o afastava da realidade, apenas ordenava, não via o sofrimento, agora relegado à miséria sente medo rodeado por uma população com sangue nos olhos para matá-lo, sua sensibilidade é ativada, mas principalmente por conta da convivência com seu neto. O medo o domina, ele vai fugindo e cada canto que se esconde continua oprimindo as pessoas, por exemplo, na casa do senhor que corta sua barba e cabelo. Interessante observar a gradativa despersonalização do garoto, antes um menino mimado que se exibia com títulos e honras, em sua inocência vai deixando de lado esses costumes, por muitas vezes comete deslizes ao se dirigir ao avô com pompa e elegância e fazer continências. 
Por se passar em um lugar fictício essa fábula pode ser encaixada em qualquer sociedade, a mensagem é de como o poder transforma os seres humanos, e que é preciso tomar cuidado com políticos que exibem falácias agradáveis, que dizem o que queremos ouvir diante de situações críticas, onde nada mais parece funcionar o desejo de um líder cresce, se a população der poder suficiente, é certo que não acabará bem. 

A reflexão sobre o poder e a violência é pertinente e causa um mal-estar, apesar da sensibilidade que o diretor imprime, a história é pesada e os alívios cômicos que perpassam algumas cenas é algo como um riso desesperado. Lidar com um personagem mal que não poupa a população da fome, trabalhos infantis, estupros e muita violência enquanto esbanja em seu palácio e logo após a derrocada se infiltrar disfarçado e conviver com essas pessoas dilaceradas e ainda tentando salvar seu pequeno neto - a inocência em meio a tanta odiosidade, é deveras muito complexo. Aproximamo-nos dele e à medida que a história avança e as pessoas compartilham as suas misérias que foram causadas por esse ditador, gera estranheza perante essa situação de humanização, mas percebemos que o ódio nunca é o caminho, é preciso refletir para percorrer de outra maneira, a violência que essa população quer cometer contra ele é também perversa, é um ciclo interminável de crueldades, é necessário parar para questionar. O filme propõe que pensemos nestes limites.

"O Presidente" é uma obra impactante que prima pelo debate e consciência, o regime extremista é sempre uma má escolha, o diretor sabe do que está falando, viveu na pele torturas e atentados, os filmes de Mohsen Makhmalbaf precisam ser vistos, são essenciais.
Destaque para a emocionante interpretação do pequeno Dachi Orvelashvili, é pra aplaudir de pé, suas inocentes ações causam tensão e toda a sua composição, olhares e gestuais são incríveis. O filme gera angustia e é delicadamente aflitivo.

"Reações violentas geram violência e, portanto, paz gera paz. Nossa responsabilidade, como artistas, é difundir o conhecimento. Só a cultura nos salva."
                                                                                                    (Mohsen Makhmalbaf)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Demônio de Neon (The Neon Demon)

"Demônio de Neon" (2016) dirigido por Nicolas Winding Refn (Drive - 2011) é um filme que conta de maneira bizarra a obsessão pela beleza e a busca pela perfeição que o mercado da moda impõe. 
Jesse (Elle Fanning) é uma jovem de 18 anos que acaba de chegar a Los Angeles. Dona de uma beleza natural impressionante, ela tenta a sorte como modelo profissional. Após tirar algumas fotos mórbidas para um jovem fotógrafo, é contratada por uma conceituada agência de modelos. Bastante ingênua, ela passa a lidar com o ego sempre inflado das demais modelos e também com a maquiadora Ruby (Jena Malone), que possui intenções ocultas com a jovem.
O filme prima pela estética visual, somos hipnotizados pelas cores e os enquadramentos caprichados passam a exata superficialidade do culto à beleza, não há profundidade no tema, ele vai por um caminho diferente, prefere demonstrar em tons obscuros o como essa loucura toma conta das mentes de meninas que trabalham no ramo da moda e beleza, o vazio que tudo isso provoca reflete no desenvolvimento do filme, por isso pode aparentar que nada está sendo discutido na trama, são apenas belas imagens e diálogos rasos. E, é isso afinal das contas que faz o filme ser tão incomum, a sua superficialidade é intrínseca. Outro ponto a se destacar é a trilha sonora eletro-pop - característica do diretor - que conversa com a atmosfera do longa. 
Elle Fanning personifica precisamente o padrão que se diz ideal e perfeito, tem consciência de sua beleza e já em seu primeiro desfile a inocência que emanava dá lugar ao narcisismo e arrogância, ela vê reflexos de si mesma e os beija. As outras modelos a invejam e tudo o que querem é atingir a perfeição, Bella Heathcote e Abbey Lee estão ótimas em suas personagens estranhas e obcecadas, uma delas não poupa em cirurgias plásticas, elas veem suas carreiras estagnarem quando o foco se volta em Jesse que encanta a todos do meio. Jena Malone como Ruby é multifacetada e vagueia entre inveja e desejo, ela por vezes maquia defuntos e é dona de uma cena que envolve necrofilia. As situações que se desencadeiam depois que Jesse ganha outras cores e assume a doce presunção de que todos querem ser ela, são recheadas de simbolismos e a aura sombria aumenta.

Dentro deste universo da moda em que a beleza é a única qualidade várias artimanhas são utilizadas para conseguir estar nos holofotes, o filme leva ao extremo e retrata este mundo efêmero e cruel. A frieza com que a trama é conduzida evidencia mais ainda o vazio, por exemplo, na cena em que Jesse é exposta ao fotógrafo que a olha clinicamente dentro daquele ambiente que exala impessoalidade. Há uma parte em que um estilista diz sobre a diferença entre a beleza construída por cirurgia plástica e a beleza natural, e que a única coisa que importa para todos é o visual, a história de que a personalidade, a beleza interior se faz essencial, é pura hipocrisia. Principalmente para a mulher é uma luta interna constante, pois a mídia pressiona com padrões ditos certos, para aquelas que trabalham com a beleza e que são olhadas como um mero enfeite que pode ser substituído a qualquer momento é milhões de vezes pior. 

"Demônio de Neon" é um terror psicológico bizarro que provoca e impressiona, coloca em questão a obsessão pela beleza e tudo o que a rodeia de forma surreal e perversa. O filme não é agradável e isso não é somente por causa das cenas desconfortantes que envolvem necrofilia e antropofagia, por exemplo, mas precisamente por retratar o quão doentio é viver buscando a perfeição estética, e por mostrar apenas a superfície e nada mais.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Amor, Plástico e Barulho

"Amor, Plástico e Barulho" (2013) dirigido por Renata Pinheiro (Estradeiros - 2011) é um filme pernambucano que traça um recorte cultural do efervescente e descartável cenário musical, especificamente, o brega. É também uma ótima amostra do quão difícil é percorrer esse caminho artístico com tanta competição e variedade, onde hoje é sucesso e amanhã já está velho, os sonhos e a esperança pelo glamour conduzem duas mulheres a diversos sentimentos.
Shelly (Nash Laila), uma jovem que sonha em se tornar cantora de brega, inicia sua carreira como dançarina de uma banda se apresentando em casas noturnas e programas de TV locais do Recife. Jaqueline (Maeve Jinkings), a cantora veterana da banda Amor com Veneno, é a sua inspiração e um possível espelho do seu destino. Inseridas em um mundo onde tudo é descartável, como o sucesso, o amor e a própria cidade na qual habitam, elas vivem a difícil trajetória em busca da sobrevivência pela arte que parece ser seu último recurso na vida.
O relacionamento entre Shelly e Jaqueline vai da admiração à rivalidade, pois a carreira de Jaqueline está em decadência, como ela própria diz: "O sucesso é um copinho de plástico bem vagabundo", e o dela está todo rasgado e prestes a ser jogado fora, já Shelly vislumbra um futuro promissor, empolgada tenta mostrar o seu talento em toda e qualquer oportunidade, o que irrita Jaqueline e a afasta da menina. Ela descolore o cabelo, se insinua mais nos shows e ao achar que é musa de um cantor em ascensão cria a ilusão que seu momento pode estar próximo, mas existem tantos empecilhos que as dificuldades aparecem logo no começo. Jaqueline é sensual, intensa e sofre com o seu declínio, ela vive dizendo que faz o que bem quer e que é louca mesmo, isso é porque preferiu seguir seu sonho e deixou a filha aos cuidados da mãe. O mercado fonográfico quer rostos novos e para ela resta apenas se apresentar em lugares deprimentes. A cena em que testa o som cantando "Chupa que é de uva" é extremamente melancólica e uma das melhores do filme. Ela se afoga na bebida e dificilmente a vemos sem um copinho na mão.
O longa é realista, insere um cotidiano comum e a simplicidade de artistas que tentam se manter na ativa com hits grudentos e danças envolventes. O cenário brega é mostrado com naturalidade, é verdadeiro e sem pudor, mas o roteiro não deixa de fazer crítica à obsessão pela fama e a conquista de um espaço por mais mínimo que seja, também ao mercado que promete mundos num dia e os descarta no outro, e assim promovendo o mesmo ciclo.

A entrega das atrizes a suas personagens impressiona, Maeve Jinkings brilha, traz garra, personalidade e ao mesmo tempo desgosto por saber que perderá seu lugar, já Nash Laila é sonhadora e apesar dos percalços certamente persistirá por ser jovem, a cena final retrata essa questão. As cores excessivas, o figurino, a linguagem, tudo é bem trabalhado e conquista por capturar exatamente essa realidade. É um filme com identidade, a sua alma é brega. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)

"Capitão Fantástico" (2016) dirigido pelo ator Matt Ross é um belo filme que traz reflexões acerca da vida, o que realmente tem importância e agrega, questiona as regras da sociedade, o modus operandi, e também a criação dos filhos sem qualquer vínculo com o meio. 
Ben (Viggo Mortensen) é o pai de seis crianças, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.
Ben e sua esposa decidiram criar seus filhos longe das normas e besteiras do cotidiano, as crianças são fortes e sabem de tudo, desde trabalhos pesados, como plantar, caçar, escalar, mas sem deixar de trabalhar a mente também com literatura, política e física quântica, são todos inteligentes, questionadores e muito dedicados. A figura da qual eles celebram é a do ativista político norte-americano Noam Chomsky. Tudo muda quando a esposa de Ben acometida por uma doença acaba falecendo, os filhos querem ir ao enterro, mas Ben sabe que não serão bem recebidos pelos pais dela por causa do formato de vida que escolheram, por fim eles vão e tentarão impedir a cerimônia, já que ela era budista e desejava ser cremada e as cinzas jogadas na descarga de um banheiro público. A educação que Ben passa a seus filhos é a mais clara possível, não há tabus, não há hipocrisias, tudo é ensinado nos mínimos detalhes, a disciplina é a ordem, mas permeada com harmonia e alegria. O personagem de Viggo Mortensen exagera em alguns aspectos quase os tornando verdadeiramente em selvagens, ele é rígido sobre a alimentação e não há futilidades que tirem o foco. Mas em determinado momento confrontado pelo pai de sua esposa começa repensar em alguns conceitos, decide então que seus filhos tenham uma vida comum e aprendam a viver de acordo com a sociedade, triste ele vai embora e os deixa na casa dos avós. Os filhos, por sua vez, não o abandonam e o ajuda a se reerguer, juntos concretizam o desejo da mãe e seguem com amor, bom humor e música.
Vespyr (Annalise Basso), Bodevan (George MacKay), Rellian (Nicholas Hamilton), Zaja (Shree Crooks), Kielyr (Samantha Isler) e Nai (Charlie Shotwell) são excelentes e cada um com sua personalidade cativa, representa um lado doce e mais suave da vida, de viver com o suficiente e respeito à natureza. Porém, o interessante é que em nenhum momento o filme coloca que o lado de Ben é o certo, pois há pontos negativos, querendo ou não impondo também regras. O que o filme propõe é repensar a sociedade em que vivemos, o suposto roteiro que devemos seguir e se caso decidirmos não segui-lo, com certeza seremos criticados, pressionados e taxados de loucos e alienados. 

Pertinente quando posto em evidência a educação, para viver socialmente talvez eles não sejam tão espertos, foram criados em outra fôrma, ainda mais se colocados num sistema de ensino quadrado e limitado cheio de repetições que focam em valores distorcidos. Ambos os lados têm defeitos, buscar um equilíbrio entre esses dois universos é algo que sempre pode ser trabalhado em nós, por exemplo, reduzir o consumismo, ter uma conexão com a natureza, questionar padrões, ser quem se é verdadeiramente. 
Destaque para a paleta de cores vivas e vibrantes que deixa a fotografia estonteante, a trilha sonora é marcada pela ótima canção "Varðeldur", de Sigur Rós, e ainda encanta com uma versão de "Sweet Child O' Mine" cantada por Samantha Isler, e outras, como "I Shall Be Released" de Bob Dylan.

"Capitão Fantástico" é leve, divertido e pontuado por ótimos diálogos e cenas hipnotizantes, mas não se aprofunda nas complexidades do tema, é uma boa e palatável história que deixa a seguinte pergunta: Você vive, ou apenas sobrevive?

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Krisha

"Krisha" (2015) dirigido pelo estreante Trey Edward Shults é um filme extremamente bem filmado, ele utiliza três formatos de filmagem que mudam de acordo com os sentimentos da protagonista, a tela começa dando o tom de realidade, passa pelo delírio, e por fim a sensação de desordem e sufocamento. A trilha sonora é outra aliada e condiz com a paranoia crescente de Krisha, aliás, a interpretação de Krisha Fairchild é merecedora de prêmios, intensa, enigmática e desajustada. Tendo apenas sua perspectiva da situação acabamos por adentrar em sua mente e acompanhamos seu caos interno se exteriorizar.
Este filme caseiro ganhou notabilidade, recebeu prêmios e se tornou uma surpresa indie, foi gravado em nove dias na casa da mãe de Trey, este que acumulou funções como diretor, roteirista, editor e também ator, interpretou o filho de Krisha. O elenco amador é composto por membros de sua família, Krisha na vida real é tia de Trey. 
Depois de anos ausente, Krisha (Krisha Fairchild), uma alcoólatra em reabilitação, se reúne com sua família nas férias. Ela percebe que diante dela está a oportunidade de consertar os erros do passado. Porém, os delírios de Krisha conduzem o feriado para uma experiência atordoante que ninguém vai esquecer.
O filme se inicia com um close angustiante de Krisha, logo a câmera a segue chegando no local, ela erra a casa e resmunga, fica claro que não está muito animada. Ela se depara com uma grande casa cheia de pessoas e cachorros, a dificuldade em se estabelecer é visível, sempre nos cantos Krisha só quer arranjar um jeito de ter contato com seu filho, que foi acolhido pela tia devido os problemas. Na casa o barulho predomina, enquanto Krisha está preparando o enorme peru para comemorar o feriado, sua irmã foi buscar a mãe delas, também com intuito de reconexão. Nesse meio tempo ela conversa com uma pessoa e outra, mas sem se sentir inserida de fato na família. É como se ela precisasse demonstrar a todo instante que está recuperada. Ela observa a família o tempo todo. O filho a evita, troca duas palavras e se afasta, o trauma vivido por ele jamais será esquecido e ainda mais por estar num meio que deu estabilidade emocional, talvez nunca mais a queira como mãe. As tentativas de Krisha são em vão, ao falar sobre o como ele gostava de cinema e que ele não precisa seguir a profissão que querem, denota que realmente ali não existe nenhum tipo de envolvimento.
Toda a relação que estava sendo praticamente disfarçada por receio, desaba quando Krisha derruba o enorme peru no chão após saciar-se bebendo, o reencontro e a conversa com a sua mãe não foi das melhores e a deixou desnorteada. A irmã nervosa a coloca de lado e percebe a bebedeira, daí os delírios e o caos tomam conta de sua mente sufocando-a naquele ambiente. 

"Krisha" é um furacão de emoções e toca em dolorosas feridas, as relações entre parentes, por exemplo, cada um tem a sua maneira de pensar e quando alguém não se encaixa no núcleo familiar, a primeira coisa que surge é a hipocrisia no tratamento dessa pessoa, outro ponto bastante pertinente é o vício e a destruição que ele causa por onde passa, acentuando ainda mais o desconforto familiar. A tensão que se cria na casa durante esse feriado ganha grandes proporções, é um retrato difícil e realista de que família nem sempre é sinônimo de conforto. 

sábado, 10 de dezembro de 2016

A Frente Fria Que a Chuva Traz

"Tem muita gente escrota nesse mundo..."

"A Frente Fria Que a Chuva Traz" (2015) dirigido por Neville de Almeida (Matou a Família e Foi ao Cinema - 1991) é um filme irônico e provocador, coloca em evidência o vazio de uma juventude de elite que busca meios para saciar a solidão e o tédio de suas vidas. Após quase duas décadas longe do cinema, Neville de Almeida, ícone do cinema marginal brasileiro, retorna com uma produção interessante e que aponta para a classe dominante que passa por cima de tudo para terem o que querem.
O filme é baseado no texto de Mário Bortolotto (originalmente uma peça teatral) e mostra o luxo e o lixo, o asfalto e o morro, a miséria e a fartura convivendo lado a lado. Especificamente, o Morro do Vidigal - que tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade maravilhosa.
Os jovens retratados são ricos, mimados, insolentes e que pensam que podem se apropriar de tudo, não há limites. Eles alugam uma laje na favela com uma vista belíssima para o mar e lá dão festas infindáveis regadas a sexo e drogas, eles pagam o quanto for preciso e ainda levam um segurança junto para impedir que os pobres do morro apareçam. A fetichização da favela é exposta, eles querem o espaço, a droga, mas sem se misturarem. 
Os personagens exibem facetas arrogantes, despojadas, ridicularizam o dono da laje, Gru (Flavio Bauraqui) que é chamado de inúmeros xingamentos preconceituosos, existe uma barreira imensa entre eles, apesar de estarem ali no mesmo ambiente fica claro a linha que os separa, por vezes Gru se irrita com a bagunça, mas por outras deseja fazer parte, e por fim explora-os o máximo que pode, afinal ele organiza tudo, desde bebidas à drogas. A interpretação estereotipada cai perfeitamente para o tom do filme, aliás o formato teatral pode irritar em alguns momentos, mas esse diferencial aproxima da realidade, a força está nos diálogos que em sua maioria causam desconforto e repulsa.
O grupo é formado por três garotas e dois garotos, destaque para Chay Suede como Espeto, numa vibe de pegador e, especialmente, Johnny Massaro como Alisson, este encarna o exato retrato do jovem que nunca ouviu um não e acredita que o dinheiro e seu sobrenome lhe garantirá a superioridade. As meninas interpretadas por Juliane Araújo, Nathalia Lima Verde e Juliana Lohmann dão valor para futilidades e só pensam em sexo e drogas. Mas quem rouba a cena é Bruna Linzmeyer e sua Amsterdã, uma viciada em heroína, moradora da favela que precisa se prostituir para conseguir manter seu vício, toda vez que há festas lá se mistura entre eles para poder beber e usar drogas de graça, mas nessa última festa uma série de situações se desenrolam a partir do momento que um cantor sertanejo universitário surge para animar a festa, Amsterdã o desdenha e começa a expor todo o seu nojo e ao mesmo tempo vontade de fazer parte daquele universo.

Amsterdã sem freios vai apontando a falsidade, a hipocrisia que os rodeia, em uma das cenas ela diz: "todos querem brincar de povão, mas não querem neguinho de verdade subindo na laje deles". O segurança, outro ser afogado no vazio revela mais tarde a sua angústia e em algumas frases também evidencia que não há nada relevante naqueles jovens, estão à deriva, esbanjando dinheiro, se colocando como donos do pedaço, cometendo preconceitos, tentando preencher a falta de perspectiva com sexo e drogas. 
Outro personagem a se destacar é o cantor, interpretado magistralmente por Michel Melamed, que antes morava no Vidigal e que após o sucesso se vangloria como o supremo, a estrela pop, as meninas se insinuam, os meninos o adulam, a cena em que o segurança o ironiza é sublime, a realidade salta na nossa cara, impressionante. É caricato e isso não é um defeito, ao contrário, esse excesso retratado na figura desse cantor é como um espelho das inúmeras figuras "artísticas" que empesteiam a mídia.

Neville de Almeida continua certeiro e sagaz, retorna com um filme sarcástico e insuportável, sim, a crueza pode afastar e assustar. Esses personagens realmente dão enjoo, mas é o retrato atual de jovens que por fora reluzem e que por dentro se perdem na escuridão do vazio e da solidão, que se acham donos do mundo, que se apropriam, humilham e se preenchem com entretenimentos momentâneos e doses cavalares de artificialidades.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Bridgend

"Bridgend" (2015) dirigido pelo dinamarquês Jeppe Rønde não é um grande filme, mas é curioso e carrega uma atmosfera misteriosa e uma tensão psicológica desconfortante. Uma das belezas do longa é a fotografia que joga com a falta de luz para criar uma aura fantasmagórica, são quadros belíssimos. A ambientação pesada surte efeito, chama a atenção, porém sem se aprofundar nas questões.
A história baseada em fatos reais retrata a chocante onda de suicídios cometida por adolescentes - que começou em 2007 e continua até hoje - na cidade de Bridgend, País de Gales. A causa é desconhecida e várias são as hipóteses, o fato é que nessa cidade o suicídio contagia esses jovens, que parecem ter na morte a solução para os seus problemas.
Sara (Hannah Murray) e seu pai, Dave (Steven Waddington), chegam a uma cidade assustada após uma série de suicídios de adolescentes. Quando ela se apaixona por James (Josh O'Connor), começa a sentir a depressão generalizada do lugar. Dave é policial e investiga os casos, enquanto Sara, inicialmente uma menina alegre, começa a conhecer os jovens desta cidade, ela sai em encontros estranhos, eles tem uma espécie de ritual em um lago, vários amigos já se mataram por enforcamento, ela sente o peso do lugar conforme adentra no universo desses habitantes, principalmente quando começam a tirar suas vidas, ela se apaixona por James, filho do sacerdote local que tenta passar ensinamentos religiosos ao grupo de amigos. Várias estranhezas ocorrem, são colocadas algumas alternativas do porquê dos suicídios, o mais perto da realidade seria um pacto feito através da Internet, uma decisão coletiva motivada por inúmeros fatores, como mídia, tédio, crise econômica, família disfuncional, etc. Há um elo entre eles em que não podem sair da cidade.
Sara vai sendo absorvida pela depressão, pela falta de perspectiva, é sugada pelas festas e programas esquisitos, como nadar com todos pelados em um lago gelado no meio da floresta, e entre rituais para os amigos que já se foram se transforma também, seu semblante se torna obscuro e obsessivo. O pai preocupado tenta tirar Sara de lá e colocá-la num colégio interno, o que só agrava as circunstâncias. 

O magnetismo do sentimento de niilismo é algo inexplicável, o diretor foi certeiro na ambientação depressiva e sombria, o tédio que permeia essa pequena cidade com clima chuvoso é sinistro; dentre tantas teorias a respeito, a relação conflituosa entre pais e filhos seria umas das causas do enforcamento de tantos jovens.
"Bridgend" é um filme que se sobressaí mais pela atmosfera criada e a fotografia, é um exemplar curioso e que gera discussões sobre essa afeição e culto pela morte.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Chocolate (Chocolat)

"Chocolate" (2015) dirigido pelo ator Roschdy Zem (Omar me Matou - 2011) tem dois atores espetaculares em cena, o consagrado ator de teatro e neto de Chaplin, James Thiérrée e o simpático e grandioso Omar Sy. O filme traz questões pertinentes sobre as relações de poder na sociedade francesa da Bélle Époque, a efervescência da burguesia para as novidades e também para várias teorias preconceituosas, como a eugenia, dentro desse hostil território Rafael Padilha, denominado por seu companheiro Chocolate, tenta sobreviver.
Baseado em fatos reais conta sobre Rafael Padilha, que nasceu em Cuba em 1868 e foi vendido quando ainda era criança. Anos depois ele consegue fugir e é encontrado nas docas por um palhaço que o coloca nas suas apresentações. Em seguida, Padilha passa a ser conhecido como Chocolate, tornando-se o primeiro artista circense negro na França, um grande sucesso no final do século XIX.
A única chance para Chocolate era trabalhar em um circo como selvagem para colocar medo na plateia, era muito comum na época o circo dos horrores, onde exibiam bizarrices, geralmente pessoas com deficiência física, e foi num desses que o caminho de Rafael como palhaço se iniciou, após Foottit, palhaço de origem inglesa e com fama ter a ideia de uma dupla com ele, sendo ele o palhaço mal-humorado e Chocolate exagerado. Os números não demoram a virar sucesso e logo são contratados por um grande circo, é realmente lindo ver a desenvoltura dos dois em cena, as expressões, as acrobacias e os improvisos. Juntos conseguem prestígio, fama e dinheiro. Chocolate é adorado pelas crianças, também pelas mulheres, ele gasta com luxos e isso não deixa de ser incrível para a época, visto que ele poderia ter tido um destino cruel. Porém, Chocolate toma consciência de que existe muito mais para se conquistar, entra em conflito com o seu companheiro sobre os números, pois não quer mais ser chutado, uma guerra de egos surge e se entristece ao perceber como as coisas ao seu redor verdadeiramente são, ele vê que nunca se nivelará aos brancos, sempre será o exótico e selvagem, mas ainda assim tenta a carreira de ator de teatro, sendo o primeiro negro a interpretar Otelo, de Shakespeare, mas não consegue devido ao preconceito; o que dava certo era reproduzir estereótipos para a burguesia.  

"Chocolate" é uma dramédia agradável e além de trazer a aura lúdica e inocente da arte circense, em especial a dos palhaços, inteligentemente reflete sobre o racismo com profundidade. Inevitável não se sentir desconfortável em algumas cenas, as risadas são substituídas por diversas emoções.
É um filme que causa empatia, Chocolate com seu grande sorriso e trejeitos encanta de primeira, Omar Sy sabe compor personagens simpáticos, Foottit, ao contrário, é solitário e triste, vamos nos afeiçoando aos poucos a ele, um grande artista, cheio de ideias, mas que carrega a sina de ser o palhaço triste e do qual guarda um segredo, o filme dá uma dica que poderia ser sobre sua sexualidade. James Thiérrée interpreta com maestria, tem amor pela arte circense e foi ele mesmo que criou os números apresentados.

A dupla Foottit e Chocolat são um marco para a história do circo, o filme tem enorme valor por resgatar a história de Chocolate, essa importante figura esquecida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um Deslize Perigoso (Dope)

"Dope" (2015) dirigido por Rick Famuyiwa (Confirmation - 2016) trata com bom humor os estereótipos vigentes, todos os clichês exibidos têm o propósito de reflexão mesmo com um tom de comédia, o filme apresenta questões importantes sobre a sociedade atual.
Malcolm é um nerd que leva a vida em um bairro violento em Los Angeles enquanto se desdobra nas admissões das faculdades, entrevistas acadêmicas e provas de conhecimento. Malcom recebe um convite para ir em uma festa underground que o leva em uma aventura, permitindo que ele se transforme de nerd à narcótico, para, finalmente, ser ele mesmo.
Toda a aura do filme faz referência aos anos 90, o visual dos personagens, as músicas, especialmente o rap americano, a aventura faz parte da narrativa e o trio de amigos passam por inúmeras situações negativas, mas tiram proveito e ganham experiência. Eles vivem em um local permeado pela violência e que parece não haver outro caminho a não ser as drogas, Malcom (Shameik Moore), Jib (Tony Revolori) e Diggy (Kiersey Clemons) são geeks e querem um futuro diferente, eles também tocam em uma banda que esporadicamente aparece na trama. A inadequação deles no meio em que vivem é gritante e tudo contribui para que percam o rumo. Quando o traficante do bairro, Dom (A$AP Rocky) os convida para uma festa, Malcom decide ir por causa de Nakia (Zöe Kravitz), namorada de Dom. Nesta festa acontece um tiroteio e no dia seguinte a mochila de Malcom está lotada de drogas. Com Dom preso, eles são perseguidos por traficantes rivais, enquanto isso um amigo os ajuda a vender a droga, e por coincidência o avaliador de faculdade de Malcom está metido nesta história também, o que o faz querer desfazer da droga vendendo pela internet pelo sistema de Bitcoin.
Leve e divertido, "Dope" não se aprofunda politicamente na trama, mas reflete o racismo atualmente e ainda quebra estereótipos, Malcom, por exemplo, apesar de viver em um ambiente pesado deseja ir para Harvard e fará com que isso se concretize.
O figurino é um charme e ajuda na descaracterização, a trilha sonora é outro ponto forte que traz ainda mais a sensação de nostalgia, conversa perfeitamente com as situações e confere originalidade, o filme tem tema atual mas tem espírito de anos 90, existem os clichês, mas são usados a favor e de forma inteligente, fazendo com que o espectador tenha a chance de refletir sobre os julgamentos que se faz somente pela aparência, local de origem, etc.

A linguagem moderna diz o essencial e desconstrói estereótipos. Comédia e crítica social se mescla agradavelmente.
O discurso final de Malcom - que quebra a quarta parede - é excepcional e um belo tapa na cara, exprime com exatidão e bom humor todo o pré-julgamento que as pessoas fazem com as outras. 

"Na minha vida, sempre me achei entre quem realmente sou... e como sou percebido, entre categorias e definição. Eu não me encaixo. E eu achava que isso era uma maldição, mas... agora começo a ver... talvez seja uma benção. Quando você não se encaixa, é forçado a ver o mundo de vários ângulos e pontos de vista. Ganha conhecimento, lições de vida de muita gente e lugares. E essas lições, para o bem ou para o mal, me moldaram. Então, quem sou eu?"

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Moolaadé

"Nenhuma menina será mais cortada!"

"Moolaadé" (2004) último filme dirigido por Ousmane Sembene (Faat Kiné - 2001) é um grito de liberdade contra uma suposta cultura religiosa, uma realidade cruel e bruta da qual meninas passam em prol da "purificação", a mutilação genital não é uma prática exclusiva do Islamismo, que aliás não está no Alcorão, é uma prática sem fundamento e selvagem que inferioriza a mulher. Em alguns lugares se a mulher não for circuncidada são excluídas da sociedade, este filme levanta questões importantes e impacta pela violência que essas mulheres passam, e certamente um meio de promover a rejeição a este ato.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
Nesta aldeia a única que enfrenta fortemente as Salindana, as mulheres que cortam as meninas, é Collé, tanto que não permitiu que sua filha passasse por isso, com a ajuda das outras duas esposas de seu marido, principalmente a mais velha, acolhe quatro meninas em sua casa e invoca o moolaadé, onde uma fita colocada no portão impede a entrada. A cada dia a situação se complica, os homens do vilarejo não aceitam que desmereçam o poder deles e mandam que o marido de Collé a chicoteie a fim de proferir as palavras que quebrem o moolaadé, mas ela aguenta firme e permanece lutando. A união das mulheres se intensifica quando a morte de uma criança se dá durante essa prática, da qual a própria mãe a sequestrou durante o açoite e a levou. Usando qualquer tipo de faca e feito no meio do mato, sem nenhum tipo de assepsia muitas não suportam e morrem, as outras sobrevivem com traumas físicos e psicológicos horrorosos. São cortados os pequenos e grandes lábios, além do clitóris em alguns casos, por estética e também por acreditarem que assim a gravidez será mais fácil. A cena em que Collé morde o dedo de tanta dor durante a relação sexual com o marido, devido as consequências da violência sofrida quando pequena é uma das mais fortes, juntamente com a que é açoitada.

É o retrato de tradições misóginas que vão sendo perpetradas por ignorância, mas graças a mulheres como Collé estão aos poucos sendo extintas. Em vários países em que esta prática é comum está sendo ilegalizada. É complicado redefinir uma cultura, há o embate entre direitos humanos e o valor antropológico, quando mulheres se opõem a este ritual são excluídas pelos homens por não terem sido purificadas, são rejeitadas pelo fato de rejeitarem um costume ancestral. Sem informação dificilmente se toma consciência, como demonstrado no filme o rádio foi um grande aliado, os homens até tentaram impedi-las, mas com o companheirismo e a busca por maior expressividade acabou se formando uma aliança capaz de resultados significativos. A cena final exemplifica um começo da liberdade feminina com o canto e a coragem.

"Moolaadé" é um levante feminista, a personagem Collé tão resistente e consciente é uma figura para se inspirar.
Ousmane Sembene compôs uma narrativa bela, envolvente, direta, prioriza o discutir de ideias, um filme político rico, lúcido e necessário.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Michael Kohlhaas - Justiça e Honra (Michael Kohlhaas)

"Michael Kohlhaas" (2013) dirigido por Arnaud des Pallières (Parc - 2007) é uma adaptação da obra homônima, lançada em 1810, de Heinrich Von Kleist, onde aborda questões políticas da época, as injustiças cometidas pela nobreza e também pela igreja. O tema é a honra e retrata que a linha que separa a justiça da vingança é muito tênue, o bom cidadão na ânsia de reparar a sua dignidade não demora a ser corrompido pela maldade.
No século XVI, na região de Cévennes, no centro-sul da França, vive o vendedor de cavalos Michael Kohlhaas (Mads Mikkelsen). Ele tem uma vida tranquila e próspera, até sofrer uma grande injustiça de um nobre poderoso. Michael, homem religioso e íntegro, não vai medir esforços para conquistar novamente sua honra, mesmo que seja preciso iniciar uma guerra por todo o país.
O barão (Swann Arlaud) que diz ter permissão da rainha quer que Kohlhaas entregue a seus homens dois de seus melhores cavalos como garantia, já que ele não tem documentação para entrar nas terras, logo fica sabendo que foi enganado e que seu amigo Cesar (David Bennent) foi atacado pelos cães do barão, ao reaver seus animais os encontra em um estado deplorável, indignado recorre à justiça, mas o barão usa de sua influência e vence o caso, Kohlhaas sente a necessidade de ter sua honra restaurada e quando decide apelar para a rainha, sua esposa dá a ideia de que ela vá e peça, já que diante de uma outra mulher, talvez compreenderia a situação. Mas dá tudo errado e sua esposa é assassinada, aí Kohlhaas cego por todas as injustiças monta um exército e vai à guerra.
Por onde ele passa deixa rastros de morte, o que era para ser apenas a recuperação de seu sustento, desencadeia numa luta de classes. Em dado momento os homens de Kohlhaas não sabem mais porquê estão lutando, fica evidente que a exagerada vontade dele vencer é algo pessoal e não necessariamente tratar das representações de poder.
A violência chama a atenção da princesa que propõe anistia, mas com a condição de que cessem o caos. Desfaz o exército, porém o descontrole já havia sido instaurado e mais uma vez se vê envolto em intrigas e traições, quando menos espera é preso e o desfecho surge de maneira dúbia, conseguindo a tão almejada justiça para si e sua filha, a devolução de seus cavalos em estado impecável, mas ao mesmo tempo condenado à morte.

"Você vive tanto pelo amor como pelo medo que você inspira. Se inspirar apenas medo todo mundo despreza você. Só o amor, é sinal de fraqueza."

Mads Mikkelsen como Kohlhaas é magnífico, contido e ambíguo, uma figura imponente que desperta sentimentos variados. Friamente observamos as suas ações, honra e justiça acaba se tornando apenas vaidade.
A narrativa é lenta e tensa, as cenas enfatizam a beleza do local e mesmo sendo uma obra simples tem um quê de épico. Kohlhaas coloca tudo a perder em busca de vingança, um meio de acabar com as injustiças do império. O protagonista se vê em dúvida em muitos momentos sobre suas decisões e segue até o fim nessa dualidade.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Hora e a Vez de Augusto Matraga

"Sapo não pula por boniteza, 
Mas porém por precisão." (provérbio capiau)

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (2011) dirigido por Vinícius Coimbra (A Floresta Que se Move - 2015) é baseado no conto homônimo do livro "Sagarana", do escritor Guimarães Rosa, o filme narra a história de Augusto Matraga (João Miguel), fazendeiro mineiro valente e mulherengo, à beira da falência, que ao buscar vingança por sua mulher tê-lo trocado por Ovídio Moura (Werner Schunemann), quase morre após cair em uma emboscada armada pelos capangas do Major Consilva (Chico Anysio). "Renascido", depois de ter sido cuidado por um casal, Matraga dedica o resto da sua vida à sua fé e ao trabalho, esperando "sua hora e sua vez" chegar, até fazer amizade com o rei do sertão, Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), e seu bando de jagunços.
A história já foi adaptada em 1965, dirigida por Roberto Santos, tanto essa primeira versão como a segunda são obras maravilhosas que evidenciam o povo sertanejo, a vivência rural, as lutas entre fazendeiros, a violência e o misticismo. Conhecido como Nhô Augusto e também como Augusto Matraga, João Miguel encarna perfeitamente um sujeito rude que é capaz de qualquer coisa, executa maldades por pura crueldade e não se importa com a sua fazenda que está arruinada e tão pouco com a mulher e a filha, haja vista a decadência do marido, dona Dionóra (Vanessa Gerbelli) decide ir embora com Ovídio Moura levando a filha Mimita, enquanto isso seus capangas colocam-se a serviço de seu inimigo Major Consilva Quim Recadeiro (Chico Anysio), restando o frouxo, mas fiel Quim (Irandhir Santos). Nhô Augusto sabendo disso resolve se vingar matando todos, no caminho é pego em uma emboscada pelos capangas do Major que o esfolam, mas no momento em que iam matá-lo se joga de um penhasco. Dado por morto, Quim inconsolável vai até a fazenda do Major buscar vingança, mas o coitado termina sendo morto. Contudo, Nhô Augusto é encontrado por um casal de negros velhos, a mãe Quitéria e o pai Serapião, que cuidam com paciência deste homem que aos poucos se recupera, mas agora ele é outro homem, aparentemente. Religioso, se submete ao trabalho duro, a penitências e a rezas, espera ser perdoado pelas suas crueldades e deseja ir para o céu encontrar com Deus. Nhô Augusto tem notícias de sua família, mas prefere ficar aonde está. Um dia, Nhô Augusto oferece estadia a Joãozinho Bem-Bem, jagunço de larga fama, acompanhado de seus capangas, faz tudo o que pode para agradá-los e vendo a destreza de Matraga, Joãozinho o convida para acompanhá-lo, mas ele recusa e prefere continuar só.
Recuperado, Augusto põe-se a viajar sem destino num jumento, ele sente que chegou a sua vez quando reencontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando prestes a executar uma vingança contra um assassino que fugira. Neste momento ele opõe-se e começa a matar os capangas de Joãozinho, e no fim entra em um peculiar duelo.

"Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia…"

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é um filme feito com minuciosidade, apuro e vigor, a estética é linda e captura nosso olhar a cada frame, a trilha sonora remete ao faroeste e complementa perfeitamente o clima da história. As magníficas interpretações de João Miguel e Irandhir Santos, este que o pouco que aparece se sobressaí, especialmente é de reverenciar, João se entrega e suas expressões nos conduzem a dualidade de sua alma, a transformação da qual passa é brusca, de um homem mal para religioso e passivo, ele é ambíguo, complexo. Brilha também José Wilker e Chico Anysio, ambos falecidos, foi o último trabalho deles no cinema. O filme ganhou diversos prêmios, mas teve alguns problemas burocráticos na distribuição e com alguns anos de atraso a produção chegou ao circuito comercial, mas sem grande visibilidade, infelizmente.

Fiel à prosa de Guimarães Rosa, é um deleite a sonoridade dos jogos com as palavras, o lúdico e mítico, os maneirismos expostos encantam e reverenciam a obra. 
"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é irretocável, um belíssimo exemplar nacional que merecia ser exaltado pelo capricho que foi concebido.

"E tudo foi bem assim, porque tinha de ser, já que assim foi."

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Lamento - The Wailing - Goksung

"O Lamento" (2016) dirigido por Hong-jin Na (O Caçador - 2008) é mais um exemplar da exímia capacidade dos sul-coreanos em compor thrillers. É um filme que exige um pouco de atenção, tanto por ele aparentar ser confuso e por ser repleto de camadas, como também pela sua longa duração. Mas, inevitavelmente, ao fim o choque que ele causará irá compensar e muito a experiência. 
A chegada de um misterioso estranho (Chun Woo-hee) em uma aldeia tranquila coincide com uma onda de assassinatos cruéis, causando pânico e desconfiança entre os moradores. Quando a filha do oficial de investigação Jong-Goo (Kwak Do-won) cai sob a mesma magia selvagem, ele chama um xamã (Hwang Jung-min) para ajudar a encontrar o culpado.
Ambientado em Goksung, aldeia pacata aos arredores de Seul, um local que emana algo de misterioso e tenso, de repente se transforma num verdadeiro caos quando pessoas começam a ter acessos de fúria e loucura e matam seus próprios familiares. Para investigar os casos o atrapalhado e preguiçoso Jong-Goo entra em cena, ele nos conduz a esta intricada trama e de modo histriônico vai se aprofundando nas questões que podem estar envolvidas, Jong-Goo desconfia de um estranho japonês que mora só no meio da floresta. As coisas pioram quando a filha do policial parece estar possuída por algum espírito maligno, aí entra a figura do xamã para tentar a livrar disso e também para descobrir o que está acontecendo.
O filme retrata fortemente o mal, são variadas as suas facetas, ele pode surgir em qualquer ocasião e de incontáveis formas, se chegar muito perto dele, talvez seja contaminado, e se ainda tentar eliminá-lo, será consumido. O aspecto místico e religioso está inserido, um pedaço da cultura oriental com representações de guardiões e demônios e tantas outras superstições. 

"Mas atemorizados, pensavam que viam algum espírito. Ele, porém, lhes disse: Por que estais perturbados? Olhai as minhas mãos e os meus pés, apalpai-me e vede; porque um espírito não tem carne ou ossos, como vedes que tenho."

"O Lamento" tem uma narrativa complexa, porém vamos aos poucos descobrindo esses personagens com características ambíguas e decifrando os enigmas da trama, o diretor prima pelas reviravoltas e surpreende o espectador quando tudo parece se esclarecer, ele vai introduzindo cada vez mais perguntas sem respostas, no que desconcerta à medida que a história avança. É um filme imersivo que traz à tona uma incrível quantidade de simbolismos. 
Por ter uma cadência lenta e ser longo às vezes se torna enfadonho, mas nada que comprometa. Outro ponto é o humor que acaba dispersando a atenção, aliás são diversos os subgêneros na trama, mas no decorrer sempre há um lembrete de que é um terror/horror, os elementos utilizados instigam e não são poucas as cenas em que a brutalidade está presente.

A sensação que o filme causa é poderosa, o mistério, o horror atmosférico, as perguntas, o jogo que é feito conosco é sarcástico. 
Um dos maiores pontos a se destacar é a mudança do personagem principal, ele começa como um policial bonachão e vai se transformando, ganhando nuances, um ser humano dúbio que bambeia na linha tênue que separa a justiça da vingança.
"O Lamento" é permeado de cenas interessantes e que contêm pistas, é preciso estar imerso na trama para compreender, por exemplo, na cena de abertura, o japonês pescando com dois anzóis já é um aviso. Um grandioso filme feito para rever e cada vez mais formular interpretações. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Lei de Herodes (La Ley de Herodes)

"A Lei de Herodes" (1999) dirigido pelo mexicano Luis Estrada (A Ditadura Perfeita - 2014) é um filme de humor ácido que retrata todos os possíveis e impossíveis artifícios utilizados no meio da política para atingir o poder, expõe sarcasticamente a corrupção e o que o poderio faz com o ser humano. Carrega uma forte crítica social com personagens caricatos e inescrupulosos. Representa de forma mordaz o poder e a corrupção política no México durante o longo mandato do Partido Revolucionário Institucional (PRI). O longa foi produzido em 1999, portanto, o país ainda estava sob domínio do partido. Uma importante obra para evidenciar e denunciar essa ditadura. 
A história se passa durante o mandato de Miguel Alemán Valdés, em 1949, e conta a história dos habitantes da localidade mexicana de San Pedro de los Saguaros, um povoado rural habitado por nativos indígenas, que lincham e decapitam o prefeito local com um facão quando na tentativa deste fugir do povoado com o dinheiro público. O período eleitoral se aproxima e o governador Sánchez (Ernesto Gómez Cruz), não disposto a ver arruinada sua posição por um escândalo político, ordena que Fidel López (Pedro Armendáriz Jr.) o secretário de governo, nomeie um novo prefeito para San Pedro. López decide que o mais indicado até que se realizem as próximas eleições é Juan Vargas (Damián Alcázar), um inofensivo funcionário da limpeza e antigo militante do PRI, que seguramente não será tão corrupto como seu antecessor. Juan chega à aldeia sem lei, ou melhor, apenas com a lei da corrupção. Vários métodos são experimentados e o crime parece o único a resultar. O outrora simples e honesto Juan transforma-se no mais abominável político pronto para fazer de tudo e conseguir extorquir dinheiro do povo.
Juan tem ideias para fazer crescer o povoado, mas sem verbas fica difícil e vendo a situação piorar decide pedir dinheiro ao governador, que recusa as propostas, então Juan quer renunciar, mas é aconselhado e ainda ganha uma pistola e a Constituição, onde há tudo que precisa saber, nessa parte o diálogo é primoroso e reflete muito bem o momento em que Juan começa a ser corrompido. A lei de Herodes o toca, pois como se diz: "Ou te calas ou te prejudicas". Ao voltar Juan já não é mais o mesmo, a partir do momento que descobre os benefícios que tem ao cobrar impostos abusivos se transforma num tirano, a pistola serve para amedrontar a população e a Constituição permite que ele crie mais impostos e aplique multas. As situações que se desencadeiam são hilárias e cada vez mais Juan ultrapassa os limites da moral, a interpretação de Damían Alcázar é magistral, antes um homem de coração puro que segue a boa conduta, se envolve nas teias da corrupção e a ganância o torna violento, passando por cima de qualquer um. Os impostos do povoado aumentam e novos são criados, até o bordel é tomado para si, quando promete eletricidade no local, vemos que somente o poste é erguido, as farsas, as mentiras, todos os podres que permeiam o antro político são explicitados sem receio algum.

Satisfatório assistir um filme inteligente e com humor certeiro, parece ser atemporal também, já que passa-se os anos e o cenário continua praticamente igual. São filmes como esse que elucidam que quem tem o poder nas mãos nunca vai ser um alguém bom. O ser humano apodrece-se em vida pela ganância, atropela os demais para atingir seu objetivo, mesmo que para isso precise utilizar a violência. Juan percebeu que era fácil se dar bem ali no povoado, mas quando alguém tentava atrapalhar seus planos não pensava duas vezes, arquitetava um meio de colocar a culpa em outro e até matava se fosse preciso. 

"A Lei de Herodes" é um filme que demonstra as manobras da corrupção no México, mas que acaba se tornando universal. Com um humor cortante, personagens desprezíveis e um roteiro envolvente consegue retratar a realidade das falcatruas políticas. Luis Estrada se configura como um dos cineastas contemporâneos mais interessantes, ele é um exímio diretor, suas obras contêm uma enorme força e são essenciais, pois tratam de temas pertinentes, principalmente envolvendo política e sociedade com um tom satírico. Grande filme, grande diretor!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nossa Irmã Mais Nova (Umimachi Diary)

"Nossa Irmã Mais Nova" (2015) dirigido por Hirokazu Koreeda (Boneca Inflável - 2009, Pais e Filhos - 2013) é um filme delicado que coloca em ênfase o cotidiano e a valorização da vida através de acontecimentos tristes. A família é tema recorrente na filmografia do diretor, inspirado em um mangá de Akimi Yoshida, conta sobre três irmãs - Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) - que vivem juntas em uma casa grande na cidade de Kamakura. Quando seu pai - ausente da casa da família nos últimos 15 anos - morre, elas viajam para o interior para seu funeral, e conhecem Suzu (Suzu Hirose), sua tímida meia-irmã adolescente. Após criar laços rapidamente com a órfã, elas convidam-na para viver em Kamakura. Suzu ansiosamente concorda e uma nova vida de alegres descobertas começa para as quatro irmãs.
É de um episódio melancólico que nasce uma bela amizade, Suzu é uma adolescente madura e que tem carinho pelo pai que acabara de falecer, já as outras o tem como uma figura distante, apenas a mais velha tem recordações do pai. A mãe das meninas há tempos foi embora e os dois lados guardam mágoas e também orgulho para se visitarem. Sachi, Yoshino e Chika são super diferentes entre si, mas se amam e se protegem, moram juntas e se viram como podem na grande velha casa que a família deixou. Com a morte do pai, surge uma aproximação significativa com Suzu, ao convidá-la para morar com elas em Kamakura, Suzu aceita. Daí pra frente os silêncios predominam grande parte da trama, principalmente a respeito dos sentimentos, os diálogos giram em torno do dia a dia, às vezes uma conversa sobre o passado vem à tona e observamos como cada uma lida com os acontecimentos.
Sachi é a mais velha e responsável, tem um comportamento sério, ela é enfermeira e mantém um caso com um médico casado, Yoshino é engraçada e despojada, mas a sua inconstância em empregos e com namorados revela uma faceta triste, ela está sempre tomando cerveja ou umeshu. Chika é excêntrica, risonha, mas silenciosa. A relação entre elas é agradável, apesar das brigas corriqueiras nunca deixam que nada as afete. Suzu chega na casa com curiosidade e esse ambiente novo lhe proporciona um outro olhar, já que suas irmãs têm uma visão diferente do pai. Ela vai à escola, participa dos treinos de futebol e experimenta novas sensações. As conversas são interessantes por mostrar vários ângulos da história, com Sachi é como se fosse uma mãe falando, com Yoshino são conselhos de amiga e com Chika é uma troca, Suzu conta as suas lembranças e a outra imagina que poderia ter sido com ela.

Um ponto da trama a se destacar é a visita da mãe, ela quer conhecer Suzu e ver como tudo está, dar seus palpites, entre tantas desavenças o que predomina no fim é a angústia da distância que há entre elas, Sachi tenta reverter um pouco, uma tentativa para que dali pra frente seja diferente. O diálogo que acontece no cemitério resume a relação entre elas, ao visitar o túmulo da avó de Sachi, a mãe diz: "Por todo esse tempo que não a visitei, minhas desculpas. E por não ser uma boa filha". Sachi a olha espantada, pois reflete perfeitamente na relação delas.
É com encanto que tudo se desenvolve e com espontaneidade e sinceridade que as coisas se transformam, não há grandes eventos ou reviravoltas, é o cotidiano simples que Hirokazu Koreeda tanto preza que se desnovela, é a delícia de viver os momentos mais comuns, e também passar pelas tristezas e sofrimentos com coragem e amabilidade.

"Nossa Irmã Mais Nova" mesmo tendo algo de melancólico, principalmente ao que concerne a dificuldade dos laços familiares, é quase sempre alegre. As emoções são muitas, são contidas, reprimidas, não existe muito contato físico e demonstrações de afeto, a cultura japonesa tem essa característica, mas os olhares e as palavras ditas são suficientes para entender. Para completar a trilha sonora composta por Yoko Kanno complementa com a aura serena e tocante. O longa é deveras uma poesia visual que inebria a cada cena.
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