segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Pequena Inglaterra (Mikra Anglia)

"Na vida, parece que as coisas que se perde são mais valiosas do que as coisas que se encontra. As coisas que se encontra perdem-se novamente. As coisas que se perde, existem para sempre."

"Pequena Inglaterra" dirigido pelo grego Pantelis Voulgaris (Noivas - 2004) é um drama emocional que retrata os percalços do amor. 
Durante a década de 1930, na Grécia, em uma cultura profundamente patriarcalista, mulheres, em seus lares, esperavam os maridos marinheiros retornarem de suas longas viagens, com a chance de eles não voltarem. Savvas Saltaferos (Vasilis Vasilakis) é um marinheiro que tem vida dupla. Além de sua família na Grécia, ele tem laços na América do Sul. As filhas deste marinheiro já estão na idade de casar e quem fica com o encargo de dizer sim ou não para os pretendentes é a rígida mãe que sempre cuidou das meninas sozinha. É uma vida difícil para as mulheres, elas estão constantemente na espera.
Orsa (Pinelopi Tsilika) e Spyros (Andreas Konstantinou) se amam desde criança, fazem juras de amor enquanto ele vai e volta de suas viagens, o sonho dele é ser capitão para poder dar uma vida melhor a ela, que por sua vez promete o esperar. Mas, a mãe acaba rejeitando o pedido de casamento justamente por ser pobre e rapidamente a casa com um um homem rico. Moscha (Sofia Kokkali), irmã de Orsa é mais expansiva e apaixonada por um estrangeiro, só que a mãe descobre e mexe os pauzinhos para que nada aconteça entre eles. Spyros sabendo do casamento de Orsa fica com muita raiva por ela não ter cumprindo a palavra de esperá-lo, então o tempo passa e ele consegue se tornar capitão e por vingança pede a mão de Moscha, a mãe aceita, pois agora ele é rico. As coisas ficam tensas quando Orsa descobre, mas não tem o que fazer, tanto ele como ela reprimem o sentimento, passam anos guardando para não magoar ninguém e acabam sofrendo demais. As cenas em que Orsa escuta os dois fazendo amor por conta do frágil teto da casa é realmente doloroso.
É um filme muito bonito, tanto pela trama que envolve, como pela fotografia, a paisagem é lindíssima. Acompanhamos essas histórias de amor, tanto Orsa como Moscha amam Spyros, e ele sem dúvidas ama as duas também, mas de jeitos diferentes.
O interessante é que as mulheres dessa ilha na Grécia passam a maior parte do tempo sozinhas, seus maridos viajam sempre a trabalho e ficam por um longo período afastados, inclusive Savvas, o pai das meninas que chegou a constituir uma família na Argentina. Vemos os anos passarem e elas lá esperando com medo de que nunca retornem, afinal o mar é perigoso e a guerra bate à porta. 

"Pequena Inglaterra" tem um roteiro primoroso, atuações comoventes e é tecnicamente perfeito, tem aspecto novelesco, porém com um ritmo mais cadenciado, para quem gosta de dramas com muitas revelações é uma ótima indicação. Frustrações, traições e amores impossíveis compõem essa intensa trama. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A Quinta Estação (La Cinquième Saison)

 "A Quinta Estação" é a última parte de uma trilogia sobre o embate do ser humano e a natureza, sendo as duas primeiras "Khadak" (2006) e "Altiplano" (2009), dirigido por Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens.
O drama explora uma grande catástrofe natural, quando o inverno se instala definitivamente, impedindo a chegada da primavera. A natureza não renasce, os insetos desaparecem, as vacas não dão mais leite e a fome começa a tomar conta das cidades. Enquanto isso, os habitantes de um vilarejo buscam um culpado para esta situação.
O longa é apocalíptico, peculiar, imagético e bastante reflexivo. Não é uma obra fácil, ele exige o máximo de atenção do espectador. Os quadros deste filme são sublimes e são eles que nos contam a história, pois os diálogos são escassos. No início vemos um homem tentando fazer um galo cantar, o animal se recusa a tal ato e acaba defecando em cima da mesa, a câmera se move muito sutilmente e demonstra que ali já não há mais jeito.
A história se desenrola a partir daí num vilarejo no interior da Bélgica, as famílias vivem do que plantam, além de produzirem leite e mel, o fim do inverno está sendo comemorado, porém acontece algo estranho, o inverno continua, as vacas não dão mais leite, as abelhas somem e nada mais germina. As pessoas começam a sofrer as consequências e logo o instinto de sobrevivência aparece, nisso se dá uma busca absurda por algum culpado, o ser humano demonstra grande vulnerabilidade, tudo esvai, valores são perdidos. Reflete-se o quão dependente somos da natureza, não existe autossuficiência, se um dia nada mais nos prover começaremos a matar uns aos outros e logo estaremos todos mortos.
É um filme de grande densidade emocional, os acontecimentos dão indícios confusos e peculiares, as abelhas desaparecem, são ouvidos ruídos estranhos na floresta, uma imensa árvore cai, peixes ficam presos na encosta, flores já não brotam mais, as vacas se recusam a dar leite e a terra fica infértil. Fica um tanto claro que a proposta do filme é colocar em pauta os maus tratos dos seres humanos com a natureza, a preocupação com as mudanças climáticas e a necessidade que se tem em encontrar um culpado, principalmente em situações inexplicáveis. Existe um personagem, Pol (Sam Louwyck), que se difere dos outros nessa comunidade, ele se diz poeta e filósofo, seus diálogos são interessantes e estranhos, por exemplo: "Eu prefiro ser um homem de paradoxo que um homem de preconceitos", isso faz a população desconfiar dele, assim se inicia uma caçada e o filme termina demonstrando até onde vai o caráter das pessoas.

Assustador e místico, "A Quinta Estação" é um longa magnífico repleto de detalhes, cujo poder da imagem é imenso. Dá pra pensar muito sobre o como somos pequenos diante à natureza, na lei da sobrevivência, na ignorância, violência e a busca por um culpado pensando assim ter alguma solução. É uma obra instigante que merece ser apreciada!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Na Próxima, Acerto no Coração (La Prochaine Fois je Viserai le Coeur)

 Baseado num dos casos mais estranhos registrados na França, segundo os créditos iniciais, "Na Próxima, Acerto no Coração" (2014) dirigido por Cédric Anger é um suspense psicológico protagonizado por Guillaume Canet (L'homme que l'on Aimait Trop - 2014), um cara doente que não controla sua necessidade de matar, mas que ao longo vai se enroscando em seus próprios atos, pois deixa algumas de suas vítimas apenas machucadas. 
Observamos desde o início as suas manias, o longa não tá afim de criar mistérios, ele é bem direto, já na cena inicial o vemos sair de carro e ir atrás de alguma jovem e bela vítima. Oise, França, 1978. Franck é um policial que, nos dias de folga, comete frios assassinatos ao matar jovens mulheres a quem dá carona. Ninguém tem a menor pista de quem seja o autor dos crimes, sendo que o batalhão onde Franck trabalha é responsável pela investigação. Sem conseguir conter a ânsia em matar, Franck começa a se envolver com a jovem Sophie (Ana Girardot), que trabalha em sua casa e é perdidamente apaixonada por ele.
É explorado quase em detalhes a mente deste assassino, a sua confusão, a maneira de lidar com as pessoas, sua mania de limpeza, a sua rejeição em relação ao ser humano, e diante das informações que vamos recebendo percebemos que ele é completamente perturbado, doente. Em dado momento ele tenta se relacionar com Sophie, que trabalha em sua casa, uma mulher que a seu ver é misteriosa e por isso o fascina. Ele é uma pessoa seca, seu semblante sempre está apático e rígido. Uma ótima interpretação de Guillaume Canet, que é um ator que não costuma passear por muitos gêneros, ele é da comédia, mas é incrível o como está irreconhecível, seu personagem não sorri em nenhum momento. 
Todos os dias ele aluga um carro diferente e armazena em sua casa uma grande quantidade de armas, além de enviar cartas para a polícia toda vez que mata ou tenta matar, o que mais pra frente acaba o revelando. Franck não é cuidadoso, certa vez até brincou com os seus companheiros sobre ele ser o assassino, e quando a suspeita de que alguém da polícia pode ser o psicopata, as coisas começam a desmoronar. Franck é misógino, não suporta a sujeira dos outros e se autoflagela, não há prazer em seu ato de matar, ele sente asco pelo toque, pelo sangue, ou qualquer coisa relacionada a sua vítima. Acompanhamos o seu dia a dia, a sua obsessão com as conversas de seus companheiros de trabalho e o seu distanciamento dos assassinatos que ele mesmo investiga.

Não criamos empatia com o personagem e isso é bom porque diferente dos outros filmes em que nos apaixonamos pelos psicopatas, neste o retrato é de um alguém chato, desgostoso e sem propósitos, seus crimes são apenas crimes. "Na Próxima, Acerto no Coração" não é um grande filme, mas tem elementos curiosos e é completamente direto, um retrato perturbador da mente de um assassino.

sábado, 19 de setembro de 2015

O Gigante Egoísta (The Selfish Giant)

"O Gigante Egoísta" (2013) dirigido pela inglesa Clio Barnard é um drama esmagador sobre a pré-adolescência de dois garotos pobres que dia após dia tentam ganhar a vida para ajudar suas famílias. É uma fábula sinistra sobre a chegada da adolescência.
Arbor (Conner Chapman), de 13 anos é marginalizado e está fora da escola. Ele e Swifty (Shaun Thomas), seu melhor amigo, conhecem Kitten (Sean Gilder), um velho catador de lixo. Usando uma charrete e um cavalo, eles saem pela cidade coletando metal para ajudar o catador. Enquanto Swifty se dá melhor com o cavalo, Arbor se interessa mais em fazer amizade com Kitten e ganhar algum dinheiro. Mas aos poucos Arbor começa a se sentir deixado de lado, o que aumenta sua ganância e faz crescer a tensão entre os três personagens.
O retrato é realista e cru, não há floreios, os dois meninos passam por diversas dificuldades, suas famílias não são exemplos do modelo britânico, eles estão à margem e tanto Arbor como Swifty vão atrás de dinheiro para pagar as dívidas de seus pais e também para as necessidades básicas. Arbor é encrenqueiro e vive se metendo em brigas na escola, principalmente para proteger seu amigo, que é mais passivo, em determinado momento xinga os professores e acaba sendo expulso, o que o faz ainda mais correr atrás de trabalho, ele deixa tudo de lado e vai ajudar Kitten, um nada amigável dono de ferro velho, percorrendo as ruas atrás de entulho que possa valer alguma coisa vai aprendendo sem querer valores, o sofrimento dá lugar à reflexões. Os sentimentos dos personagens são bem evidenciados, há muita revolta, indignação, ambição e solidariedade.
O filme é inspirado no conto homônimo de Oscar Wilde, que conta a história de um gigante dono de um belo jardim, onde crianças da vizinhança brincam entre árvores e flores, porém o gigante decide fechar o jardim para ficar sozinho. Mas, um dia ele se sensibiliza com a visita de um menino e percebe que os melhores momentos são aqueles dos quais compartilhamos com os outros. Uma história que exemplifica o valor da amizade e de sentimentos que realmente nos fazem enriquecer como seres humanos, o filme também reflete sobre essas coisas e o quão nocivo é deixar se levar pela ambição e ganância.

Swify tem uma personalidade mais mansa e sua paixão por cavalos faz com que chame a atenção do dono do ferro velho, que aposta em corridas na rua, ele tem um lindo cavalo do qual Swifty lida com muita destreza. Arbor interessado mais em lucrar vai se perdendo, acaba obcecado em conseguir cada vez mais cobre, chegando a roubar do próprio lugar. Arbor fica à mercê da sorte e aprende o significado do que realmente importa com muito sofrimento.
A trama nos suga para vida dos meninos, a tensão vai aumentado conforme a ambição de Arbor vai crescendo, a interpretação de Conner Chapman e Shaun Thomas é natural e poderosa. Nos afeiçoamos a eles e torcemos para que tudo dê certo, mas assim como a vida o filme não faz questão de colorir, tudo é aprendido com muita dor. Encantador e angustiante, a todo momento esperamos que algo ruim aconteça, é difícil lidar com a agonia que o filme promove.

É uma experiência amarga. Os pais são alheios a educação das crianças, mas ao mesmo tempo desejam que eles estudem, sofrem pela situação, mas deixam tudo nas mãos do destino, este que é implacável, os dois lidam com suas limitações cada um à sua maneira e deixam de lado aspectos importantes para aprender com suas próprias experiências.
A fotografia de cores frias e a ambientação, assim como os objetos dão a sensação de isolamento e decadência, uma desesperança latente. "O Gigante Egoísta" é um filme emocional, mas foge de melodramas, é seco, introspectivo e sincero, uma obra delicada e reflexiva. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Gata Velha Ainda Mia

"Gata Velha Ainda Mia" (2014) longa de estreia de Rafael Primot é sensacional, uma obra nacional que mistura vários gêneros, há drama, suspense e terror psicológico. Complexo, sombrio, sarcástico, e ainda coroado por interpretações surpreendentes de Regina Duarte e Bárbara Paz.
Glória Polk (Regina Duarte) é uma escritora decadente, que resolveu voltar a escrever um livro de ficção após 17 anos de ausência. Um dia, ela resolve abrir sua casa para Carol (Bárbara Paz), uma jovem jornalista que mora em seu prédio e é casada com seu antigo esposo. Empolgada com a oportunidade, Carol logo se dá conta que Glória possui uma faceta obscura, que fez com que tivesse imensa dificuldade em se relacionar com outras pessoas ao longo dos anos.
Regina Duarte fez a personagem de sua vida, completamente fora daquele padrão de novela, ela está irônica e acima de qualquer um, pois é uma mulher que escreveu alguns livros bem importantes, viajou pelo mundo, leu muito e adquiriu experiências marcantes, mas é sozinha e sofre por estar envelhecendo. Decidida a escrever um novo livro, uma espécie de continuação dos outros e uma finalização para sua personagem vemos o seu processo criativo um tanto quanto estranho. Glória aceita dar uma entrevista a revista da qual Carol trabalha, que vê nisso uma oportunidade de ascender em sua carreira, já Glória espera ser notória novamente, a verdade é que essa é a primeira impressão que ela passa, mas no decorrer percebemos que não é tão simples assim, há algumas coisas que são reveladas sobre a vida de ambas, principalmente sobre Carol ser casada com seu ex-marido.
A entrevista segue e Glória vai ficando mais e mais ácida devido as perguntas escrotas sobre sua vida pessoal. Sua arrogância e antipatia crescem e o clima desagradável começa a imperar. Os diálogos são ótimos, em dado momento muito irritada Glória diz a Carol: "Se a pessoa for inteligente você pode fazer a pergunta mais trivial que ela vai responder sempre de forma brilhante e profunda. Mas se a pessoa for medíocre, você pode formular a pergunta mais inteligente do mundo que ela sempre vai te responder de maneira medíocre. Então meu bem, você pode perguntar sobre meus perfumes, meus hobbies, meu signo, mas esteja preparada para as respostas."  

Glória não poupa Carol e despeja nela toda sua inteligência misturada a amargura, é seca, enigmática e presunçosa. Carol admira Glória, mas também não deixa a desejar quando as discussões engrenam. Reflete sobre a juventude versus velhice, literatura, feminismo, amores e a nostalgia de tempos ditos melhores, como neste diálogo por exemplo: "Quando eu trago um bibelô pra dentro de minha casa, é uma memória que eu agarro pra mim, pra sempre, até meu último dia. A minha memória se perde, se esvai sem isso tudo aqui. A geração de vocês não gosta de quinquilharias, vocês não precisam, vocês fotografam, digitalizam, editam, deletam, mas não retém. A informação está em todo canto, mas passa, se perde, vocês não conseguem sentir o cheiro, não conseguem preservar a textura."
Regina Duarte se despe de qualquer vaidade e dá vida a estranha e sedutora Glória que não mede suas palavras e cospe verdades em cima de Carol, Bárbara Paz segura muito bem sua personagem, apesar de menor não decepciona quando precisa se defender. O filme tem um quê de teatro, é tudo muito espontâneo e intenso.
O cenário é o apartamento de Glória abarrotado de quinquilharias, ou melhor dizendo, memórias. A história surpreende por ultrapassar as barreiras de imaginação e realidade. Neste ponto fica claro o quão delicado é a relação do escritor com o seu processo criativo e o quanto dele está inserido em suas obras. "Gata Velha Ainda Mia" é metalinguístico e lá pelo final ele dá uma reviravolta e se torna um tanto agressivo e confunde nosso raciocínio.

Criativo e inteligente a atmosfera de suspense permeia toda a história que é pontuada por excelentes diálogos, o humor também está presente, mas de forma cáustica. Rafael Primot construiu um suspense magnético que foge do mais do mesmo produzido no Brasil, é um filme totalmente independente, sem qualquer patrocínio ou uso de lei de incentivo, portanto é preciso compartilhar para que mais pessoas possam conhecer esse intrigante thriller psicológico.
Glória mostra suas garras e revela que, sem dúvidas, gata velha ainda mia.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Omar

"Omar" (2013) de Hany Abu-Assad (Paradise Now - 2005) é um filme marcante que retrata a realidade conflituosa entre Israel e Palestina e o como a vida das pessoas são afetadas por conta disso.
Um drama político entrelaçado a uma história de um casal de apaixonados, o jovem Omar e Nadia, irmã de Tarek, um velho amigo que dirige uma célula de resistência nos territórios ocupados. Os jovens se veem no meio do conflito entre o serviço secreto israelense e os guerrilheiros palestinos. Ambos são igualmente impiedosos. Para visitar Nadia, Omar precisa escalar o muro construído para separar os territórios. Acompanhamos a dura realidade de Omar (Adam Bakri), um padeiro palestino que se arrisca ao pular o muro que separa os territórios para encontrar seus amigos de infância Tarek (Eyad Hourani) e Amjad (Samer Bisharat), que fazem parte da resistência contra a ocupação, e juntos armam ataques ao serviço secreto de Israel, mas o seu principal motivo ao enfrentar tanto perigo é Nadia (Leem Lubany), irmã de Tarek. Ele sonha em se casar com ela e em breve pedirá a sua mão ao amigo. Tudo muda quando um deles atira em um dos soldados de Israel e a força policial vai atrás deles, Omar é pego e torturado para que entregue os seus companheiros, porém ele se mantém calado, só que o Agente Rami (Waleed Zuaiter) ao se disfarçar de muçulmano e amigo consegue uma simples frase de Omar que mudará a sua vida por completo. Eles sabem quem é o cabeça, e então dão a liberdade a Omar com a condição de que ele descubra o paradeiro de Tarek. Omar se encontra numa grande encruzilhada ao se ver nos dois lados.
A relação entre Omar, Tarek e Amjad se complica quando cresce a suspeita de que um deles poderia ter sido o delator, a tensão é enorme. A subtrama envolvendo Nadia dá algumas reviravoltas, Omar deseja se casar com ela, eles trocam cartas e juras de amor, além dele se arriscar todos os dias para vê-la, mas algumas situações o faz ficar com o pé atrás. Revelações são feitas e ficamos tristes por Omar e a questão que fica é: Quem realmente era seu inimigo?

Omar é um personagem cativante, ele tem um lado ingênuo em relação ao amor e a amizade, até mesmo depois de levar violentos golpes da vida. "Omar" é recheado de cenas de ação e constantemente vemos o protagonista fugindo e pulando obstáculos. Adam Bakri tem grande naturalidade ao atuar, impossível não se encantar por ele. O filme mescla muito bem o lado político e conflituoso com o romance, é uma trama simples, mas com muitas reviravoltas que envolvem medo, raiva e traição. Não há clichês, a história é dura e o final impactante nos faz pensar no quão sofrido deve ser morar em um local desses em que a paz infelizmente está longe de chegar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Goodnight Mommy (Ich Seh, Ich Seh)

"Goodnight Mommy" (2014) dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz é um longa austríaco produzido por Ulrich Seidl ("Paraíso: Amor, "Paraíso: Fé", "Paraíso: Esperança"), o filme tem sido vendido como terror, mas na verdade ele é um drama que se desenvolve como suspense com pitadas de horror. É cru, perturbador e trágico.
No calor do verão, uma casa isolada no campo, entre bosques e campos de milho. Gêmeos de dez anos de idade esperam por sua mãe. Quando ela volta, com a cabeça envolta em ataduras após uma cirurgia plástica, nada é como era antes. Severa e distante, ela fecha a família para o mundo exterior. Começando a duvidar que esta mulher é realmente sua mãe, os meninos estão determinados a encontrar a verdade de qualquer maneira.
O longa se utiliza de alguns elementos bem conhecidos do grande público, porém o que o faz ser uma obra que valha a pena é o seu desenvolvimento, nos conectamos com a história, os dois meninos isolados em uma imensa casa brincam de explorar, percebemos o quão grande é o laço de amizade, além do sanguíneo que os une. Quando a mãe volta pra casa depois de uma cirurgia plástica ficam intrigados, pois está com o humor alterado. Já no início dá pra sacar umas coisinhas em relação aos irmãos, o filme vai dando pistas sutis, mas o que importa realmente é o drama envolvendo esta família.
O ritmo lento dá a tensão exata, assim como a ambientação. A mãe reaparece na casa com o rosto repleto de ataduras e completamente sem paciência com um dos meninos. Os gêmeos Lukas e Elias não se desgrudam e conforme o desenrolar começam a articular planos para descobrir se aquela mulher é de fato a mãe deles. A proposta é exatamente a dúvida sobre os personagens, o que gera um clímax eficaz para a história. Há muitos detalhes e se o espectador for sagaz percebe logo o que se passa, mas mesmo assim não diminui os sentimentos causados.
O longa prima pelo terror psicológico. A atuação tanto dos garotos como a da mãe, vivida pela atriz Susanne Wuest, está excelente, o suspense e o mistério entre eles ficou perfeito. "Goodnight Mommy" instiga a nossa imaginação, a trama é bem desenvolvida e surpreende em seu final. A mãe tem um aspecto macabro envolta naquelas ataduras, o que só faz aumentar a sua rigidez.

Mesclando um bom roteiro com cenas de horror e criando uma atmosfera de suspense crescente, este é o tipo de filme que realmente assusta, pois as situações chegam próximas de nós, afinal trata de traumas e perdas. Muitas pessoas se decepcionaram com o filme devido ao trailer que se tornou um viral, ele causa uma impressão errada.
O terror de "Goodnight Mommy" é psicológico e é angustiante pelo drama dos personagens que permite ao espectador diversas interpretações e conclusões. Classificá-lo como terror seria muito pouco, ele passeia por vários gêneros culminando num final perturbador e trágico.

sábado, 12 de setembro de 2015

A Festa de Despedida (Mita Tova)

"A Festa de Despedida" (2014) dirigido pela dupla de israelenses Tal Granit e Sharon Maymon traz um assunto polêmico, a eutanásia, e com muito bom humor nos faz refletir sobre o direito de decidir quando terminar com a própria vida.
Uma comédia de humor negro sobre a vida e a morte, e sobre saber quando dizer adeus. Um grupo de amigos numa casa de repouso em Jerusalém constrói uma espécie de dispositivo de auto-eutanásia para ajudar um amigo doente terminal a encerrar a vida com dignidade. Quando os rumores da máquina começam a se espalhar, mais e mais pessoas pedem sua ajuda, e os amigos se deparam com um dilema emocional. A eutanásia é um grande tabu para a sociedade, poucos países a permitem e a grande questão que fica é sobre a dignidade humana, afinal ninguém quer sofrer. No filme acompanhamos um doente terminal, há apenas sofrimento, os amigos sofrem de vê-lo naquele estado e a mulher dele pede que acabem logo com isso, então Yehezkel, um engenheiro aposentado constrói um dispositivo em que o próprio paciente decide o momento exato de sua partida, ele aperta um botão em que primeiro se libera um sedativo e logo uma substância letal. A ideia no início é discutida e ponderada, mas entram num consenso de que é melhor para o amigo que seja assim. O fato é que a notícia se espalha pela casa de repouso e ao invés de culpá-los surgem novos interessados.
Com uma narrativa ousada e bem humorada vemos o quão difícil é para aqueles que estão doentes e cujas expectativas são nulas, e também a dificuldade para os amigos e família em torno do doente. Refletimos muito sobre a decisão de querer morrer e a lei que não está aberta nem para pensar sobre o assunto. É um tema delicado, porém em nenhum momento se torna pesado, claro que pensamos na solidão que acompanha a velhice, nas doenças, como o Alzheimer, e a morte.
O filme passa a sua mensagem e propõe o debate, além de dar uma bela lição de amizade. Rimos de algumas situações, como a cena em que todos surgem pelados tomando vinho, também quando aparecem outros interessados na engenhoca de Yehezkel, mas o dilema moral sempre está presente no grupo, a consciência grita, mas o amor ao próximo fala mais alto. A religião é um grande empecilho para que a eutanásia seja discutida, ainda mais em um país como Israel. 

Utilizando-se de um tom divertido e inteligente "A Festa de Despedida" causa empatia, os personagens são adoráveis e as cenas hilariantes. É um filme audacioso, com boas doses de compaixão e extremamente importante. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery)

"Gemma Bovery" (2014) dirigido por Anne Fontaine (Coco Avant Chanel - 2009, Adore - 2013) é uma comédia francesa apaixonante, tanto pela sua história como pelos seus personagens, Fabrice Luchini, um dos melhores atores franceses arrebata nossos corações, justamente por nutrir um sentimento especial pelo clássico "Madame Bovary", de Gustave Flaubert.
Inspirado na graphic novel homônima de Posy Simmonds, retrata a vida de uma mulher condenada ao mesmo martírio de Emma Bovary. A inglesa Gemma Bovery (Gemma Arterton) se muda com o marido para uma pequena cidade francesa. A vida de casada a entedia. Martin Joubert (Fabrice Luchini) e sua esposa, uma mulher com uma vida muito sofrida, acabam de chegar na cidade. Eles procuram fugir do caos de Paris. Martin é padeiro, tem uma mulher depressiva e um filho que não se importa com a literatura, o que o deixa indignado. A sua pacata rotina é alterada quando conhece sua nova vizinha Gemma, um deslumbre visual e que segundo Martin carrega imensas semelhanças com sua heroína favorita, e conforme se dá os acontecimentos ele começa a intervir em sua vida com receio de que ela tenha o mesmo fim.
A trama tem contornos sofisticados, mas sempre com um bom humor presente, a loucura de Martin encanta e a câmera explora a beleza de Gemma, que entediada com o casamento e sem muito o que fazer acaba conhecendo o jovem rico Hervé (Niels Schneider). As intervenções de Martin são engraçadas e beiram a loucura. O filme é repleto de referências ao livro e é divertido perceber cada uma, por exemplo, o jogo de palavras com os nomes dos protagonistas, ou mesmo pelo local, a Normandia e suas edificações antigas rodeadas por bosques. Os diálogos também relembram alguns trechos do livro e a aura de paixão e tragédia permeia toda a trama.
Emma é uma personagem complexa e intensa, para ela não basta as paisagens, ela quer emoções, e seu marido não lhe dá exatamente isso. Recentemente saiu mais uma adaptação do romance de Flaubert protagonizado por Mia Wasikowska, é mais uma opção para quem aprecia a obra. Essa mescla de literatura e cinema sempre dá super certo e o ator Fabrice Luchini é um expert neste assunto, vide "Pedalando com Molière" - 2013 e "Dentro da Casa" - 2012. "Gemma Bovery" é uma homenagem deliciosa e que permite ao espectador delirar junto com o padeiro Martin Joubert.

"No fundo de sua alma, ela vivia esperando um acontecimento."
Envolvente e sedutor "Gemma Bovery" é um filme para apaixonados por literatura, o amor que sentimos ao ler um livro e o quanto a leitura nos influencia, Martin obcecado pelo romance e pelas semelhanças da história com a sua vizinha começa a interpretar os acontecimentos com base no livro, talvez Gemma também estivesse influenciada por ele, já que o estava lendo. 
A melancolia e o humor andam lado a lado, o que confere um grande diferencial para a narrativa, sem dúvidas, uma bela opção para quem aprecia um bom filme francês.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Jîn

"Jîn" (2013) de Reha Erdem (Kosmos - 2010) é um filme realista com ares de fábula, mostra toda a coragem de uma menina que em meio a guerra tenta sobreviver, assim como os animais da floresta.
No sopé dos territórios curdos da Turquia, Jîn (Deniz Hasgüler), uma jovem rebelde de 17 anos, foge de seu grupo de guerrilha para tentar voltar à sua família e à vida normal. Se escondendo de seus companheiros, a quem ela é agora uma traidora, e o exército turco, que a vê como uma terrorista, Jîn, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho, se refugia com os animais da floresta, que estão lutando a sua própria maneira na brutalidade da guerra. 
É um retrato bem interessante sobre o impacto da guerra na natureza, são filmados diversos animais em situações de medo e desespero. Nossa protagonista após deixar seu grupo de guerrilha se esconde na floresta, ela passa por muitos desafios e a sua única saída sempre é voltar para a floresta, e nesses momentos observamos os animais, como o urso que compartilha com Jîn o mesmo esconderijo.
É um filme delicado, mas nem por isso deixa de ser chocante. A guerra destrói absolutamente tudo. Os diálogos são escassos, os acontecimentos falam por si só, Jîn impressiona por sua força e bondade, ela se mostra dura, mas não passa de uma menina que ainda sonha. Andando sozinha pelas montanhas e pela floresta o caminho se mostra cruel, as explosões de bombas são constantes e as perseguições incansáveis. Em dado momento consegue chegar a uma pequena aldeia e entra numa casa para pegar comida e trocar as roupas e poder se disfarçar, ela segue tentando conseguir carona, mas é perigoso demais e novamente se vê fugindo para a floresta. 

É tão triste e absurdo ver este conflito entre turcos e curdos, uma realidade assustadora e que o diretor teve total sensibilidade ao retratar o quão danoso é para todos, e inédito ao expor como sofrem os animais diante a guerra. Um grande ponto a se destacar é a bela e intensa fotografia criando uma certa magia para o espectador.
"Jîn" é um deslumbre visual e mesmo mostrando tanta violência gerada pela estupidez humana há espaço para a sensibilidade e bondade. Uma das cenas mais significativas é quando Jîn encontra um soldado turco ferido e decide ajudá-lo, ela o move sozinha até as montanhas fazendo um grande esforço para escondê-lo. A sua interação com a natureza e o tom respeitoso com que age é espetacular e garante ótimos momentos para a trama. Reha Erdem compôs uma obra de arte anti-bélica que nos emociona e faz pensar na desumanidade.

Jîn é uma heroína, mas ainda é uma menina que sonha, quando ela pega um livro e tenta lê-lo demonstra que infelizmente a vida por lá não dá possibilidades, a fuga e a sua busca pela liberdade é um retrato lindo, porém triste. Reha Erdem é um cineasta sensível que mostra realidades impactantes com ares de fábula repletas de poesia. "Jîn" é uma obra grandiosa e marcante!
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