quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ida

"Ida" (2013) de Pawel Pawlikowski é um filme que foge do comum, seja em sua narrativa ou em sua estética. Com um enquadramento de formato quadrado junto a uma fotografia lindíssima em preto e branco, sua duração é de apenas 82 min, a cadência é lenta e não há grandes eventos, mas toca em assuntos sensíveis, como o holocausto e a religião. O tema do filme é tratado de modo delicado e promove sentimentos únicos em cada um que o assiste.
A história se passa na Polônia de 1960 e segue a noviça Anna (Agata Trzebuchowska), uma jovem que desde criança mora num convento, ela está prestes a fazer seus votos para se tornar freira, mas a madre a obriga a ver sua única parente viva, sua tia Wanda (Agata Kulesza), que até então Anna nem sabia que existia. Ao se encontrarem se dá um choque de personalidades, Wanda é uma juíza do partido comunista e alcoólatra e não titubeia ao revelar segredos do passado para a sobrinha. Ela lhe conta que seu nome verdadeiro é Ida e que na verdade tem origem judaica, e cujos pais foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Após receber a notícia Anna decide ir em busca de informações para saber o local onde foram enterrados.
A convivência entre essas duas mulheres completamente diferentes é o que dá uma certa dinâmica ao filme, pois o ritmo é bem lento, a câmera não tem pressa e os diálogos são escassos, Wanda protagoniza pequenos diálogos incríveis, são críticos e ácidos. Já Anna é uma moça calada, tímida e que não sabe absolutamente nada, portanto é compreensível a confusão que a toma, demoramos para entendê-la, porém nessa busca pelo seu passado junto com a tia, acontece uma mudança e mesmo que não seja explicitada em diálogos a entendemos no fim das contas.
A ausência de trilha sonora também faz parte da aura do filme, só escutamos algo quando Ida e a tia estão num hotel. O rapaz que toca saxofone na banda se interessa pela freira, e nessa parte conseguimos reparar em nuances, seu rosto pensativo dá lugar para a curiosidade.
"Ida" é um filme pesado, seco, porém muito bonito, simples e profundo. Pode até parecer que nada acontece, mas é porque ele precisa ser olhado com uma certa precisão, são gestos, olhares e o silêncio que predomina em Ida nos diz muito, ela não sabe quem é, está em busca com muitas dúvidas, sua autodescoberta é difícil, incerta e dolorosa. O que se sobressai é a fotografia, mas o conjunto faz desse longa uma espécie rara dentro do cinema e que deve ser visto com mais carinho e atenção.
Ida não é só o nome verdadeiro de Anna, mas também é a busca, a ida rumo a sua verdadeira identidade. Ao longo do filme a amargura e a dor vai tomando conta da personagem de Wanda, enquanto sabemos o que se passa com ela, pois sempre deixa seus pensamentos as claras, Ida segue como um enigma. Em dado momento Ida decide viver de fato, conhecer o mundo lá fora, se deixar levar pelo amor do saxofonista, mas ela não quer a confusão do mundo externo, ela deseja algo concreto, como as regras do convento, isso de algum modo faz parte de si. A cena final é brusca, com um diálogo mínimo, mas que acaba traduzindo a personagem.

"Ida" retrata o silêncio de personagens marcados por um episódio drástico da História e também reflete a vocação da religião. Ida depois de uma noite de amor com o saxofonista lhe pergunta o que virá depois, ele por sua vez responde: o que quiser, casamos, temos filhos, brigamos e fim, afinal é a vida! Esse diálogo faz Ida perceber que não é nesse mundo caótico que deseja viver e parte rumo ao convento, aonde seu coração percebe que se sentirá bem.
Sem dúvidas um filme que chegará diferente a cada pessoa, para alguns enfadonho, já para outros de uma beleza sem tamanho, uma obra reflexiva, austera e silenciosa. Com personagens complexos em uma história que se desenrola de maneira simples, o longa merece mais de uma assistida e deve ser guardado num cantinho especial da memória.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children)

"Homens, Mulheres e Filhos" (2014) dirigido por Jason Reitman (Juno - 2007) é um filme que aborda um tema atualíssimo, a tecnologia e o como ela tem moldado as nossas vidas. Hoje em dia é normal andar pelas ruas e se deparar com pessoas de qualquer idade com a cara grudada na tela de seu celular, tablet, ou ainda tirando fotos de si mesmo para postar em redes sociais, essa visão é comum, porém há uma infinidades de questões envolvidas e que merecem ser discutidas. Que a tecnologia facilita uma porção de coisas, disso não há dúvidas, mas também estraga de certa forma, ficamos acostumados, solitários e ainda mais dependentes e insatisfeitos.
O longa retrata situações que acontecem aos montes e todos os dias, adolescentes com conceitos distorcidos sobre si, a exibição e a busca pelo status perfeito para ter o máximo de curtidas, o enclausuramento, a depressão, e o como os pais lidam com essa coisa incontrolável que cerca a vida de seus filhos e as suas próprias. O filme não se aprofunda por ser um assunto muito amplo, mas algumas histórias se sobressaem mais que outras e por isso já vale ser visto, para elucidar o que estamos fazendo conosco, afinal tudo depende de como usamos essa tecnologia que faz parte de nossas vidas.
A história se concentra em um grupo de adolescentes e de seus pais. Conforme cada personagem e relacionamento são testados, fica claro a variedade de caminhos que as pessoas escolhem - alguns trágicos, outros cheios de esperança - e que ninguém está imune a enorme mudança social que vem através de telefones, tablets e computadores.
O longa é inspirado no livro de Chad Kultgen e se inicia com uma narrativa do texto "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan na voz de Emma Thompson. Na trama temos Don Truby, um Adam Sandler melancólico, pois cansado da vida de casado acaba descobrindo o mundo erótico da internet vasculhando o histórico de seu filho, que é viciado em pornografia e que não consegue ter ereção de outro modo. Helen (Rosemarie DeWitt), a esposa de Don, cansada do tedioso casamento também passeia por sites com serviços de acompanhantes.
Tim Mooney (Ansel Elgort) é um adolescente que decide largar o futebol na escola para frustração de seu pai (Dean Norris) e colegas. Depois que sua mãe abandonou o lar se infiltrou no mundo dos games online, onde desabafa sobre suas angústias. A única pessoa com quem mantém um contato real é Brandy Beltmeyer (Kaitlyn Dever), uma menina retraída que tem uma mãe (Jennifer Garner) neurótica que controla obsessivamente a internet, chegando a decidir o que a filha vê ou não. Mostrando o lado da liberdade excessiva há Donna Clint (Judy Greer), uma atriz fracassada que deseja satisfazer seu sonho pela filha Hannah (Olivia Crocicchia), ela posta fotos sensuais em um blog para ganhar dinheiro, o que gera valores distorcidos em Hannah. Outra personagem com valores distorcidos é a adolescente Allison Doss (Elena Kampouris), que segue um regime de um site por se achar gorda mesmo sendo um palito. Interessante também a abordagem sobre a sexualidade dos personagens relacionado à internet, o sexo é a maior busca dos internautas.

Todos os personagens estão conectados com o mundo virtual, criam expectativas, se iludem e se esquecem do mundo a sua volta. Não sabem se relacionar, não sabem dialogar e resolver problemas. Com um roteiro simples, Reitman consegue colocar em pauta muitas questões, nos faz refletir no quanto estamos mergulhados nessa tecnologia que subestima o valor da realidade.
O tema não se aprofunda por colocar várias histórias em evidência, algumas não são desenvolvidas mas servem para pensar no como estamos nos relacionando na vida real. Tem coisa mais chata do que sair com um amigo e ele ficar no Whatsapp o tempo todo, ficar tirando fotos da comida, da bebida e postar uma tal felicidade? Ele não percebe o quanto perdeu da companhia do amigo, do local em que estava e do que realmente se passava a sua volta. Será que foi tão divertido assim? O modo como as pessoas usam isso se faz prejudicial, pois é instantâneo e efêmero, o que torna tudo tão triste e desesperador. Claro, há o lado bom, sempre há! Mas estão se formando hábitos dos quais estão se tornando valores.
Não há mal nenhum em navegar pelas redes sociais, postar algo interessante, compartilhar, só que deve-se prestar atenção no que está fazendo, não se tornar um robozinho e consumir lixo eletrônico, cada vez menos as pessoas leem, o impacto da imagem é o que conta, sem falar dos vídeos escrotos que poluem, mas dá para fazer amigos virtuais, trocar ideias e levar isto adiante, mas lembre-se ninguém na vida real tem um milhão de amigos. É necessário dosar, saber parar e desligar.

"Homens, Mulheres e Filhos" diz mais sobre o universo do adolescente, sua sexualidade e o como os pais lidam com tudo isso. São situações que se passam do nosso lado ou conosco. Sem dúvidas merece uma olhada para repensar nas atitudes que tomamos em relação ao mundo virtual. É um filme que dá pra tecer uma série de pensamentos!

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Amor Bandido (Mud)

"Mud" do diretor Jeff Nichols (O Abrigo - 2011) é um filme simples que disserta sobre amizade, amor, descobertas e desilusões de forma muito naturalista.
Mud (Matthew McConaughey) está fugindo da justiça quando encontra dois adolescentes que resolvem ajudá-lo a escapar da polícia e dos caçadores de recompensa. O jovem Ellis (Tye Sheridan), de 14 anos, vai fazer de tudo para garantir que o novo amigo consiga encontrar sua alma gêmea.
Matthew McConaughey compõe um personagem envolvente e faz jus ao nome, com o aspecto sempre sujo ele é estranho, cheio de manias e guarda um segredo. Vivendo num barco preso em cima de uma árvore de uma ilha inabitada ele espera que consiga fugir com seu grande amor. Ellis e Neckbone descobrem esse barco e acabam encontrando Mud, e assim eles vão construindo uma amizade que cada vez mais vai ganhando belos contornos. Mud não é um cara mau, ele foge da polícia, mas isso não quer dizer que seja um criminoso. Mud é passional, ama desde menino Juniper (Reese Witherspoon), uma mulher que corre para os braços dele quando se mete em encrencas.
Os meninos são corajosos e exploram a vida, são interpretações emocionantes e vivas, Tye Sheridan tem uma segurança absurda ao atuar, e junto ao seu companheiro Jacob Lofland firmam uma amizade repleta de valores. McConaughey é um texano legítimo, assim como os outros atores, portanto o longa ganhou um perfeito realismo, o sotaque, o modo de vida, a tranquilidade, tudo está retratado de forma precisa, a natureza também ganha destaque, proporcionando ótimos momentos de reflexão. O ritmo segue lento, mas se sustenta com interpretações incríveis e plenas, diálogos que agregam e fazem com que os personagens evoluam. 

Ellis vai se descobrindo enquanto ajuda Mud, principalmente sobre o amor, aliás ele só aceita ajudar Mud porque tudo o que ele fez foi por amor, em sua casa as coisas não vão bem, seu pai (Ray McKinnon) e sua mãe (Sarah Paulson) estão se separando e ele não entende, também se apaixona por uma menina mais velha e acredita estar namorando, o que o decepciona bastante mais tarde.
A linda amizade de Ellis com Neckbone é um dos pontos mais fortes, inocentes porém espertos esses dois garantem as melhores passagens do filme com humor e sensibilidade. Seja nas qualidades ou defeitos, os personagens cativam cada um à sua maneira, a desconfiança que o filme nos gera no início em relação aquele homem de aspecto estranho dá lugar a sentimentos simples.

"Mud" é uma jornada incerta, há muita tensão e as possibilidades são amplas, e o final retrata essa extensão quando Mud visualiza o horizonte do rio Mississipi. Às vezes por mais que seja difícil é preciso aceitar.
O que fica desta história é a emocionante amizade entre os meninos e um cara desconhecido, as descobertas e o amadurecimento de Ellis, e as complexidades do amor. Simples e natural, "Mud" é um enorme suspiro de satisfação!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Qual é o Nome do Bebê (Le Prénom)

"Qual é o Nome do Bebê" adaptado de uma peça homônima e dirigido pela dupla de franceses Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte (autor da peça original), é uma comédia inteligente e com diálogos afiadíssimos, impossível desgrudar os olhos da tela e não se surpreender com a trama que brinca com situações aparentemente bobas. Não se deixe enganar, tudo o que acontece dentro daquele apartamento nos faz refletir e muito.
Vincent (Patrick Bruel) tem 40 anos e está prestes a se tornar pai. Ele é convidado para jantar na casa de sua irmã Elisabeth (Valérie Benguigui) e Pierre (Charles Berling), seu cunhado, e lá encontra Claude (Guillaume de Tonquedec), um amigo de infância. Vincent aguarda sua sempre atrasada esposa Anna chegar. A ausência da mãe parece a situação ideal para que os três bombardeiem Vincent com perguntas e piadas sobre sua futura paternidade. Mas quando lhe perguntam sobre a escolha de um nome para o bebê, sua resposta semeia discórdia entre o grupo, transformando um simples jantar em um verdadeiro caos.
O clima do filme é delicioso, ágil, verborrágico e com atuações de primeira. Tudo começa quando Vincent diz qual vai ser o nome de seu filho, isso gera um enorme desconforto no cunhado principalmente, que discute veementemente sobre tal escolha, a irmã também fica desconcertada, assim como o amigo Claude, então se inicia uma batalha para que Vincent pense no que irá fazer com o futuro de seu filho. Claude acaba percebendo que o amigo estava fazendo uma brincadeira, mas não diz a ninguém, as coisas saem do controle quando Anna (Judith El Zein), a esposa de Vincent chega, a mentirinha vai ganhando contornos tensos e verdades são jogadas na cara uns dos outros. Perguntado sobre o que pensa sobre o nome que irá colocar em seu filho, ela diz que é uma bela homenagem, aí desencadeia-se indignações e insultos, Anna não se segura e ofende dizendo sobre os nomes dos filhos de Elisabeth e Pierre. A partir daí verdades vão aparecendo e as situações vão se embolando.
A intensidade do filme é enorme e isso se dá por ser filmado em uma única sala, são cinco pessoas num pequeno espaço desfiando sem dó tudo o que lhes incomoda, o que lembra bastante o filme de Roman Polanski, "Carnage" - 2011.
O foco está nos diálogos e expressões, bem fiel ao estilo teatral. O entrosamento entre os atores é incrível, passa do cômico ao trágico e do trágico ao cômico em poucos segundos. Cada um dos personagens nos apresenta uma personalidade. Vincent é o bem-sucedido com mulheres e com a carreira e cujo senso de humor é bem incomum. Pierre é o professor de universidade, culto, rodeado de livros e pronto para argumentar. Elisabeth também é professora, mas de educação infantil, é destrambelhada e carente. Claude é o amigo de infância dela, ele é músico e muito sensível, e por isso os amigos pensam que ele é gay. Anna, esposa de Vincent, é independente e a mais chata de todos.

É um filme que flui e que nos tira risos de situações completamente desconfortantes. Retrata perfeitamente como um mal entendido pode fazer um estrago e uma brincadeirinha se tornar algo sério gerando discussões com trocas de ofensas.
"Qual é o Nome do Bebê" é uma comédia francesa espetacular, uma sátira à classe média parisiense. Recheado de diálogos inteligentes e atuações deliciosas, o filme segue num ritmo estimulante com situações que surpreendem a cada cena. Para quem procura algo no gênero que valha a pena não pense duas vezes, assista!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash)

O solitário Andrew (Miles Teller) é um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração e marcar seu nome na música americana como fez Buddy Rich, seu maior ídolo na bateria. Após chamar a atenção do reverenciado e impiedoso mestre de jazz Terence Fletcher (J.K Simmons), Andrew entra para a orquestra principal do conservatório de Shaffer, a melhor escola de música dos Estados Unidos. Entretanto, a convivência com o abusivo maestro fará Andrew transformar seu sonho em obsessão, fazendo de tudo para chegar a um novo nível como músico, mesmo que isso coloque em risco seu relacionamento com sua namorada e sua saúde física e mental. Qualquer aluno de música pode dar exemplos de professores rígidos que pressionam e exigem melhoras, mas o cara apresentado nessa trama vai além, ele quer encontrar a perfeição e para isso usa métodos um tanto questionáveis que nos deixa atônitos em alguns momentos, mas que por ora também compreendemos.
A música é o elemento principal e há diversas referências a músicos consagrados do jazz, como Charlie Parker e Buddy Rich. Andrew é persistente e essa sua característica o faz conseguir suportar o complexo Fletcher. De início quando entra para a orquestra visualizamos abusos por ter tocado fora de ritmo, ele repete, repete e não satisfaz, então Fletcher desfia uma série de insultos pessoais ao garoto e o faz chorar. Humilhações são apenas uma parte do jeito que "ensina", Fletcher acredita que assim não terá músicos fracos ao seu lado, e sempre conta a história de como Charlie Parker se tornou "Bird" para exemplificar.
O título Whiplash além de remeter ao som da chicotada, também é uma música da Don Ellis Band. Fletcher é um carrasco, um sádico, mas ele não é só isso, e ao longo podemos observar boas doses de sensibilidade, coisa inerente a qualquer músico. O personagem é incrível, construído de forma a nos embaralhar, seu aluno é um estímulo já que tem a sede de se tornar grande. A exaustão que acontece nos ensaios é transmitida aos espectadores de maneira impressionante, sentimos a dor e o cansaço de Andrew, assim como sua persistência.
A química entre os atores é ótima e nos desperta diversos sentimentos, vale tudo no jogo que acontece entre eles para encontrar a perfeição. Andrew treina até seus dedos sangrarem e Fletcher é cruel e faz com que os músicos repitam uma única passagem por horas. Não há limite!

Andrew caracteriza muito bem os anseios que um músico nutre, e por conta dessas ambições vem o distanciamento das pessoas, afinal a maioria não está acostumada a lidar com tais perspectivas, a cena na mesa de jantar exemplifica bem essa questão. Sua obsessão é tanta que prefere terminar o namoro, pois dedicará seu tempo exclusivamente para aquilo que mais ama, ele deduz então que ela não entenderá. Ser o melhor exige muito de si e Andrew está disposto a isso, pois quer ser reconhecido por aquele carrasco do Fletcher, e este quer ver até onde o perspicaz baterista pode ir. É uma guerra de egos que perdura até o fim.
"Whiplash" é um filme impressionante, o ritmo não cai em nenhum momento, acompanhar a saga de Andrew é doloroso e emocionante.

Tanto Andrew como Fletcher demonstram sentimentos de arrogância e antipatia, os dois foram feitos um para o outro. O baterista é o achado de Fletcher e a cena final é a grande prova, convidado para tocar numa apresentação Andrew é pego de surpresa novamente pelo ego vingativo do maestro, mas quando parece que irá desistir volta e arrebata numa sequência estarrecedora, fazendo com que Fletcher exiba um semblante de satisfação.
O final é extraordinário, inspirador, visceral, daqueles que temos vontade de dar replay o tempo todo. "Whiplash" é selvagem na questão do amor à música, é uma incrível história de superação com muito suor e sangue. Aos músicos se faz ainda mais fascinante, principalmente aos bateristas. É realmente uma chicotada!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sono de Inverno (Winter Sleep)

"Winter Sleep" do excelente diretor turco Nuri Bilge Ceylan é um filme que vai se aprofundando em seus personagens ao longo de suas 3h16, são diálogos primorosos e densos que retratam a complexidade do comportamento humano e que chegam a durar mais de 20 minutos. Não é um filme fácil, mas não cansativo, ele te prende do início ao fim, observamos pessoas frustradas, deslocadas e que lentamente vamos descobrindo. Ceylan é o cineasta turco mais importante da atualidade, suas características são marcantes e únicas, em seus filmes podemos contemplar silêncios, paisagens, planos abertos e uma fotografia melancólica e fria, vide "Distante" (2002), "Três Macacos" (2008) e "Era uma Vez na Anatólia" (2011). Em "Winter Sleep" o silêncio é substituído por diálogos muito bem construídos e hipnotizantes, é preciso saber antes de tudo que se está diante de uma bela obra de arte.
O protagonista Aydin (Haluk Bilginer) é um ex-ator de teatro que herdou do pai um hotel escavado nas rochas da região da Anatólia, onde vive com sua esposa Nihal (Melisa Sözen) e sua irmã Necla (Demet Akbag), e também administra outros negócios e algumas casas alugadas. Sua vida é pacata e se resume em escrever para um pequeno jornal local sobre temas variados, como religião e política, além de elaborar seu livro sobre teatro.
Acompanhamos a vida destes personagens e devagar vamos traçando seus perfis, Nihal é bem mais nova que Aydin e deixou tudo pra trás para se casar, vive à sombra do marido, mas tenta conseguir ser útil criando um grupo filantrópico, mas não é nos outros em que está pensando, toda essa estratégia é para ter independência. As reuniões são feitas na casa, porém Aydin nunca participa, o que gera a sua desconfiança e contestação, o relacionamento deles é distante e é visível o como Aydin a oprime. Necla, recém divorciada sente-se entediada no local e dialoga sempre com seu irmão sobre seus textos para o jornal, há muita hipocrisia entre eles, mas Necla em vários momentos diz tudo o que acha de Aydin, especialmente o como se ilude ao tentar passar superioridade sendo que é completamente frustrado, essas conversas são um dos melhores pontos, são crescentes, recheadas de cinismo e falsa modéstia.
Aydin vê defeito em todos, se utiliza do seu poder, patriarcado e comete preconceitos, e ainda continua fingindo não ver sua miserável existência e sempre que pode pisa nos outros para se sentir melhor. Logo no começo vemos a cena e que um menino joga uma pedra e quebra o vidro do carro de Aydin, o empregado sai e pega o garoto que tenta fugir, ele é filho de Ísmail, inquilino de Aydin, um pobre homem que não tem dinheiro, há uma grande dívida de aluguel e recentemente foi humilhado na frente da criança. Não percebemos quem está certo ali nesse início, o empregado quer dar uma lição de moral no homem e este explicitamente constrangido vai ficando nervoso, Aydin vê tudo de longe. O irmão de Ísmail chega e acalma os ânimos e promete pagar tudo, faz cara de coitado, mas quando se vão os xingam. Por várias vezes aparece no hotel para que o garoto peça desculpas pelo vidro, é nítido o como ele quer parecer submisso para que sintam pena e amenizem a situação do dinheiro. Aydin o repudia.

"Winter Sleep" respeita os diálogos e é neles que contém a essência do filme, são acalorados e revelam personagens complexos numa aparente tranquilidade que é ampliada pelo local, lá no fundo todos são mesquinhos e egoístas. Quase pro final do filme há uma discussão com um professor, aí revela-se exatamente quem é Aydin, ele tenta de toda maneira se manter por cima, sempre ganhando, se impondo perante os outros esconde sua pobreza interior, as conversas vão revelando traços de seu caráter. No fim de tudo o ser humano mais admirável acaba sendo Ísmail, o pobre bêbado que não consegue pagar suas dívidas. A cena que Nihal vai tentar ajudar a família levando dinheiro é sensacional.
Nuri Bilge Ceylan se inspirou em Tchekhov para compor "Winter Sleep", que é um grande estudo sobre o comportamento e contradições humanas.
Impressionante o como o filme prende a atenção, ele tem um ritmo interessante que se utiliza de uma fluidez verborrágica com tons de cinismo. As trocas de farpas são bem frequentes e com isso os personagens desnudam-se e conseguimos observar o que há dentro deles, a verdade por trás de algumas atitudes e o porquê de certos relacionamentos ainda se manterem, como o de Aydin e Nihal.

Aydin é aquele cara que tem poder e dinheiro, não conquistou, herdou. Não vivenciou grandes sofrimentos, portanto não procura entender, apenas despreza, distancia-se e mantém-se em sua caverna longe da realidade. Se sustenta em sua intelectualidade a fim de espezinhar aqueles que entram em embate consigo. Um protagonista que revela-se aos poucos ao espectador e cujo efeito não é imediato. "Winter Sleep" é denso e além de seu roteiro, a fotografia é deslumbrante!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Sonho de Wadjda (Wadjda)

"Wadjda" da diretora Haifaa Al Mansour é o primeiro filme produzido por uma mulher na Arábia Saudita. Muito belo, mostra uma menina que foge à regra e consegue conquistar o que quer num país completamente fincado numa cultura machista. Coloca em pauta que mesmo a passos lentos algo está sendo mudado, um novo mundo está se abrindo. E a prova disso é exatamente o filme existir.
A história é bem simples, acompanhamos Wadjda (Waad Monhammed), uma garota que destoa do ambiente em que vive, percebemos isso logo no início quando a câmera foca o seu tênis descolado, enquanto o restante das meninas da escola usam sapatilhas idênticas. Na sua casa veste jeans e camiseta, além de não utilizar o véu sempre que sai. Ela é esperta e gosta de brincar com seu amigo Abdullah, certo dia ela se encanta por uma linda bicicleta e promete a seu amigo que quando a tiver disputará uma corrida para ver quem ganha. Sua primeira estratégia é pedir a mãe, mas ao ouvir um não começa a juntar dinheiro, seja com as pulseiras que vende na escola ou com algumas situações que ela capta de longe e tira proveito. Mas tem um porém, na Arábia Saudita as mulheres não podem andar de bicicleta, é algo vergonhoso devido a exposição.
Wadjda mora com a mãe (a deslumbrante Reem Abdulah) que vive um conflito com seu marido, pois este deseja uma segunda esposa. A figura da mãe é bastante forte, mas exibe características de uma mulher oprimida no decorrer, como tentar agradar o marido de todas as maneiras, chegando a negar um trabalho mais cômodo por medo de ciúmes.
A esperança de conseguir a bicicleta surge quando se inscreve num concurso para leitura do Alcorão, Wadjda vê uma boa oportunidade, com o prêmio ela iria comprá-la e assim teria seu sonho realizado. Wadjda não tem o jeito, tropeça nas palavras, mas é determinada e vai aprendendo a recitar com o coração, do jeitinho que sua mãe lhe explicou.
É uma trama previsível, sem grandes acontecimentos, mas super importante, linda, cativante e inspiradora. Não tem como não se apaixonar pela personagem que não se importa com os costumes do país. E é isso mesmo que as novas gerações precisam, de coragem para mudar as coisas dessa cultura opressora em relação as mulheres.

O filme faz crítica à opressão causada pela cultura e abre a discussão sobre os abusos que se escondem dentro dos costumes, mas não ofende em momento algum, a diretora coloca de forma singela na tela e consequentemente vamos analisando, como uma menina não poder andar de bicicleta ou mulheres serem mau vistas por trabalhar ao lado de homens, entre tantas outras coisas que são banais aos olhos ocidentais.
Um marco na história do cinema saudita, "Wadjda" retrata que há muitas oportunidades para as mulheres, basta ter coragem e enfrentar, assim como Haifaa Al Mansour fez ao dirigir este filme. 
A bicicleta é a metáfora para a liberdade, Wadjda ao final exemplifica bem essa questão ao disputar e ganhar a corrida com seu amigo. É um filme que merece atenção para vislumbrar possibilidades, a vontade de quebrar regras impostas e a felicidade de se conseguir algo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Abutre (Nightcrawler)

"O Abutre" (2014), tradução que faz jus ao personagem de Jake Gyllenhaal é um filme que foge dos moldes hollywoodianos e impressiona pelo roteiro e atuação.
Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) é um homem determinado e desesperado por trabalho, que descobre o mundo em alta velocidade do jornalismo sensacionalista em Los Angeles. Ao encontrar equipes de filmagem freelances à caça de acidentes, incêndios, assassinatos e outras desgraças, Lou entra no reino perigoso e predatório dos nightcrawlings - as minhocas que só saem à noite. Nele, cada lamento da sirene da polícia pode significar uma tragédia em que as vítimas são convertidas em dinheiro. Ajudado por Nina (Rene Russo), uma veterana do sensacionalismo sanguinário que se tornou a cobertura de notícias nos canais de televisão locais, Lou ultrapassa a linha entre o observador e o crime para se tornar a estrela de sua própria história.
Lou Bloom entrou pro rol de personagens inesquecíveis, repleto de nuances é um cara sem escrúpulos, ele não tem o sensor de moral, até porque é um sociopata. No início o vemos viver de maracutaias, rouba ferragens e as vende, tenta obter um emprego normal, faz um belo discurso sobre si mesmo dizendo aprender rápido, mas acaba não conseguindo. De volta para a casa se depara com um acidente de trânsito e ao ver pessoas filmando o ocorrido analisa possibilidades e a ideia de fazer o mesmo aparece, tenta uma vaga na equipe que está no local, porém recebe um não. Lou é muito atento e presta atenção em cada detalhe. Sozinho e determinado compra uma câmera amadora e uma radioescuta, assim inicia as suas perseguições a fim de filmar acidentes, incêndios e assaltos para vender às produtoras de programas jornalísticos da televisão. Não se importando com a dor alheia, a quebra de regras e filmar pessoas ensanguentadas, não demora para que atinja seu objetivo e consiga prestígio com alguma emissora. Nina é aquele tipo que adora sensacionalismo, quanto mais focar em detalhes horrendos melhor, pois o público aceita fácil e é fato que as pessoas "adoram" uma tragédia, por mais que se critiquem essas práticas de jornalismo, a audiência só aumenta, essas técnicas de fisgar o telespectador pelas emoções exageradas e especular sobre um caso prende a atenção.
Lou Bloom de primeira já faz imagens impactantes mesmo que ruins, o jornal compra, edita e o que vemos é uma distorção dos fatos. Com o dinheiro adquire equipamentos profissionais, traça meios de melhorar e contrata um assistente, de repente não é mais um mero cinegrafista e sim um empreendedor. Ambicioso ele quer capturar os melhores ângulos e para conseguir é capaz de se infiltrar na cena do crime, mudar corpos de lugar e mexer em evidências. Ele utiliza todos os meios possíveis para ter o que quer, e tudo isso sem esboçar nenhum sentimento, a não ser a adrenalina de estar capturando imagens, seus olhos estão sempre atentos e centralizados.

O roteiro de Dan Gilroy que estreia na direção é certeira, não há rodeios, tudo está as claras e consegue satisfazer o espectador. "O Abutre" é um filme noir moderno, ele traz um assunto que faz parte do cotidiano, pois é só ligar a televisão que veremos notícias de mortes se transformando em histórias escabrosas que são repetidas diversas vezes sem se importar com os familiares e sua dor. O abuso de imagens, tom da voz, comentários desnecessários são artifícios para prender a atenção das pessoas. O filme é uma sátira sobre essa inescrupulosidade. É assustador esse absurdo.
Toda a composição do personagem impressiona, sua maneira de se portar, suas paradas, seus olhos sempre arregalados e diretos e os diálogos enfatizam um alguém doentio.
Lou Bloom é um psicopata que não suja as mãos, ele vai construindo tudo como quer, manipulando as pessoas, sabe dos pontos fracos e se utiliza disso. Faz isso com seu assistente, um coitado que necessita de emprego e aceita o que Lou diz, e Nina, mas essa não é tão diferente dele, para garantir seu emprego também não vê impedimentos, o que gera aí uma dupla execrável. 

"O Abutre" é um filmaço e sem dúvida alguma indicado para quem gosta de personagens marcantes e assuntos atuais. Jake Gyllenhaal é um ator talentoso e que sabe muito bem interpretar personagens insanos. Vale a pena conferir esta produção que se destaca numa das melhores de 2014.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Instinto Materno - Child's Pose - Pozitia Copilului

"Instinto Materno" do diretor romeno Calin Peter Netzer é um filme intenso que gera bastante discussão.
É uma noite fria de março, Barbu (Bogdan Dumitrache) está de carro, a 50 km/h acima do limite de velocidade, quando ele atropela uma criança. O garoto morre logo após o acidente. Uma pena de prisão entre três e quinze anos o aguarda. Hora de sua dominadora mãe, Cornélia (Luminita Gheorghiu), intervir. Arquiteta formada e membro da classe alta da Romênia, enfeita suas estantes com livros não lidos de Herta Müller e é afeiçoada por sua bolsa cheia de cartões de crédito. Ela começa uma campanha para salvar seu fraco e apático filho. Com subornos, ela espera que irá convencer as testemunhas a dar declarações falsas. Mesmo os pais da criança morta podem ser apaziguados por algum dinheiro.
Peter Calin Netzer retrata uma mãe consumida pelo amor-próprio, em sua luta para salvar seu filho perdido e também sua família, há tempos dividida. Num estilo quase documental, o filme reconstrói meticulosamente os acontecimentos de uma noite e dos dias que se seguem, fornecendo uma visão minuciosa e contundente sobre o mal-estar moral da burguesia da Romênia e das instituições do Estado, como a polícia e o judiciário. O cinema da Romênia vem crescendo significativamente expondo temas contemporâneos, é um pequeno grande cinema que deve ser explorado com toda certeza.
Em "Instinto Materno" acompanhamos atentamente a trajetória de uma mãe que se coloca à frente para limpar a barra do filho, aconselha-o a mentir em sua declaração, vai atrás da testemunha para combinar e oferecer dinheiro, desdenha dos policiais, enfim ela tem uma gama de artimanhas para 'proteger' seu filho, do qual não se dá muito bem com ela, aliás a família já havia sido quebrada restando somente as aparências. A atriz Luminita Gheorghiu é a estrela do filme representando o papel de uma mulher frustrada que tenta de forma torta e egoísta trazer seu filho de volta para perto. Barbu já é um homem feito e está em crise com sua namorada, ele se distanciou da mãe e foi morar sozinho, mas é claramente mimado, incapaz, mal educado e inseguro.
Segue-se muitas conversas ao longo do filme e em todas elas ficamos abismados, pois é nítido que Barbu estava em alta velocidade ao atingir a criança, mas mesmo assim as coisas são tratadas friamente e é muito fácil manipular provas. O poder, dinheiro e influências nesses momentos tem um grande peso. A família da criança só é retratada no final, são pessoas humildes que não sabem o que fazer com o sofrimento e pedem justiça. Para Cornélia tudo pode ser consertado com uma quantia significativa e em nenhum instante pensa que uma criança foi tirada dos pais, causa mal-estar ver tanto egoísmo.

Barbu parece não se importar, quer se esconder e pouco fala, raras vezes o vemos preocupado, e não é à toa já que sua mãe o trata como uma criança, aliás é o que ele realmente é, o título original do filme exemplifica bem essa ideia, Child's Pose é uma posição da yoga em que consiste se sentar nos calcanhares com os braços estendidos para frente e que pode ser encarada também como uma postura submissa.
Ao longo do filme vamos tirando conclusões sobre os personagens, e lá pelo final vai dando um enjoo absurdo, a atitude em relação a família do menino é o principal motivo. Cornélia por se sentir superior pensa estar acima de qualquer lei e isso é muito triste, pois sabemos que é algo que acontece bastante, são injustiças atrás de injustiças. A proteção que vemos Cornélia exibir não é exemplo de amor e sim de posse e egoísmo, uma forma de alimentar sua alma vazia.

A cena final em que vão na casa da família prestar condolências, que na verdade é para oferecer dinheiro e talvez conseguir amenizar a situação de Barbu, é impactante. Cornélia entra na casa enquanto ele fica no carro, nos deparamos com um pai que não sabe nem o que dizer e uma mãe em prantos desconsolada que fica falando sobre o como o filho era estudioso e prestativo, Cornélia parece querer competir com a dor daquela mulher dizendo do distanciamento do seu filho, tem um momento que ela não para de falar e demonstra claramente sua frustração, é embaraçoso e gera um misto de sentimentos. A última cena fecha perfeitamente, extremamente significativa e repleta de emoção.
"Instinto Materno" é interessante, tem ótimos diálogos, uma atuação magistral de Luminita e traz um tema que é capaz de criar vários pontos de vista.
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