terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Grande Beleza (La Grande Bellezza)

"A Grande Beleza" (2013) de Paolo Sorrentino (Aqui é o Meu Lugar - 2011) ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014, entre outros prêmios, é um filme maravilhoso que faz com que pensemos sobre a beleza nos dias de hoje, onde tudo é tão superficial e sem sentido. A Grande Beleza, na verdade, pode estar escondida nos detalhes de nossas memórias e em lugares que não paramos para observar. Com certeza é um filme amplo e que discute muitos assuntos.
Imensamente difícil compor um texto que traduza o que esta obra causa, confesso que a primeira vez que o assisti não consegui captar todas as nuances da história, me entediei e enxerguei apenas exuberância e rebuscamento. Pois é, meu olhar não se aprofundou nas sutilezas e nas questões. Na segunda vez pude perceber e sentir melhor o filme a cada cena e diálogo, assim como a trilha sonora da qual mescla música erudita e eletrônica.
A história é sobre um jornalista que amargamente relembra sua apaixonada e perdida juventude. Em Roma, durante o verão, o escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade, e desde o grande sucesso do romance "O Aparelho Humano", escrito a décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida, e talvez voltar a escrever. A cena inicial exemplifica muito bem toda a aura que permeia essa questão da beleza, é a celebração do aniversário de Jep, uma festa gigantesca onde se mistura das mais variadas figuras, todas desesperadamente ansiando por atenção ao som de "Far l'Amore" de Bob Sinclar, a música eletrônica impera, além de bebidas, danças exóticas com mulheres enjauladas e celebridades em decadência, a alta sociedade está lá toda reunida.
Toni Servillo está soberbo como Jep, ele é um homem cínico e que de maneira delicada diz verdades às pessoas, sua feição por vezes se torna uma caricatura. Seus diálogos são primorosos, absolutamente todos.

A câmera passeia por Roma e seus incríveis monumentos, o contraste entre o antigo e o moderno está presente. Jep é um ser noctívago e praticamente vive em festas e reuniões intelectuais com amigos, uma das cenas mais incríveis acontece nesses encontros em que debatem sobre política, literatura e afins, até que após uma colega ficar se vangloriando de como sua vida é maravilhosa e como os tais livros que lançou são interessantes e elaborados, Jep discorda, então nervosa grita para que ele fale o que sabe sobre ela, Jep simplesmente desmascara a socialite de maneira precisa, fria, mas sem sair de sua elegância. Todos ali mesmo sendo ricos e influentes estão completamente sozinhos e tristes. É a decadência, o ócio, em dado momento Jep pergunta a uma mulher o que faz, e ela responde: "Eu sou rica". Hospedada em um hotel luxuoso, a única coisa que pensa é tirar fotos de si mesma, quando diz que vai mostrá-las a Jep, ele vai embora. Impossível lidar com uma pessoa tão rasa, pois chega um ponto em que é preciso selecionar com quem se quer conviver.
O filme também faz uma crítica a arte moderna retratando uma garotinha que não gosta de se apresentar, mas devido ao grande dinheiro que gera é obrigada pelos pais a jogar inúmeros baldes de tinta em uma parede, ficar inteiramente suja, compondo assim sua suposta arte. A arte tem que ser feita com a alma, desejo, inspiração, a garota estava sendo forçada a fazê-la e chega até chorar em sua apresentação. O público chiquérrimo precisa se nutrir de "arte" para dizer que faz parte do alto escalão, mas será que eles conseguem enxergar a beleza? Nessa cena, Ramona (Sabrina Ferilli), a acompanhante de Jep, filha de um amigo seu, dono de boate, sai indignada, e então Jep vai até um rapaz que é o guardião das chaves dos palácios, e em seguida passeiam entre enormes salões, reencontrando o espírito dos antepassados e suas tradições.

Ao saber da morte de sua primeira namorada, Jep começa a pensar mais sobre seu passado e a vida que leva, ele volta a ter sensações que havia perdido desde que foi para Roma e se tornou um mundano, realmente não tinha como escrever um outro livro, já que não há sobre o que escrever, excessos geram apenas o nada. A convivência com Ramona também o leva a repensar muitas coisas, principalmente em relação ao amor em sua essência, e a morte.
A religião é outra questão abordada e traz um cardeal, do qual Jep tenta fazer algumas perguntas espirituais que o aflige, mas logo percebe-se que a única coisa que ele quer é falar de receitas culinárias, também há uma religiosa centenária que consideram uma santa, fã do livro de Gambardella, em certo momento ela lhe pergunta porque não escreveu outro livro, e ele responde que está a procura da Grande Beleza, então ela o questiona se ele sabe porque ela só come raízes, Jep diz não saber, e a resposta é a seguinte: "Porque raízes são importantes". Uma resposta tão simples, mas repleta de significados, o que demonstra que a beleza está intrínseca, e é só uma questão de saber olhar e perceber tudo ao redor.

Não adianta ficar procurando beleza no externo, é necessário olhar para si mesmo e buscar no íntimo nossos desejos e o que nos faz felizes de verdade, deixar que os outros definam quem somos também é fatal, pois acabamos perdendo a sensibilidade. A maioria vê o belo em futilidades, a imagem é poderosa, mas a beleza está no simples e nas pequenas, porém importantes situações, uma memória, por exemplo, é capaz de nos dar uma felicidade imensa, e como em Jep um começo para refletir no como tem sido sua vida. Esse filme é recomendado sem restrição, todos deveriam ver, e principalmente rever, ele abre um leque de pensamentos que precisam ser discutidos e reavaliados.
O que existe são esteriótipos de beleza, assim como Jep diz: "É tudo um truque", somos iludidos e sugados sem querer para um mundo fútil onde até a arte é falsa, estamos diante de uma beleza que não agrega, tudo aparenta ser, mas é vazio e triste.
"A Grande Beleza" é um filme grandioso com cenas e imagens apuradas, diálogos certeiros, crítica eficaz, trilha sonora magnífica e uma interpretação sublime de Toni Servillo.

"Após uma vida de embaraços e espasmos de beleza incompleta e imperfeita sedimentada pelos dias claros e noites frescas, sob muito falatório do que deveria ser, surge o manto suave e indelével da morte que nos encerra na imortalidade de nossos anos passados ao lado de pessoas que nem sempre nos foram agradáveis."

"Termina sempre assim. Com a morte. Mas primeiro havia a vida. Escondida no blá blá blá. Está tudo enterrado entre a tagarelice e o barulho. O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. As intratáveis e inconstantes pinceladas de beleza. Depois, a miséria desgraçada e o homem miserável. Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo. Blá blá blá, blá, blá, blá, blá."

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