segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Lágrimas de Abril (Käsky)

Guerra Civil Finlandesa, abril de 1918. Os brancos vitoriosos caçam os guardas vermelhos remanescentes. Cerca de 2.000 mulheres lutaram entre os soldados vermelhos, entre elas Miina Malin, comandante do esquadrão feminino. Após escapar do fuzilamento, Miina é recapturada por Aaro Harjula, um soldado branco que acredita em justiça e dignidade. Contrariando as ordens de seu superior, Harjula decide levar Miina à corte marcial para ser julgada. Durante o trajeto, acontece algo que mudará o destino dos dois.
Baseado no romance de Leena Lander, "Lágrimas de Abril" é um mergulho em um cenário de violência, miséria, poesia e desejos reprimidos, emoldurados por uma belíssima fotografia. As mulheres eram definidas como "lobas", e eram consideradas uma grande ameaça. A guerra é somente um pano de fundo nessa forte história, aqui questões humanas são colocadas em xeque, decisões cruciais, que quando tomadas, as consequências chegam de maneira dolorosa. A tradução do título para "Lágrimas de Abril" é extremamente acertada e sensível, pois o original "Käsky" é algo como "Comando" se traduzido ao pé da letra. 
O personagem Harjula é o ponto forte, pois em meio a tanto ódio e terror, ele ao contrário dos outros têm sentimentos e lamenta pelos prisioneiros que mais tarde serão executados. Miina consegue escapar de uma execução, em que mais ou menos quinze mulheres são capturadas ao tentar enfrentar o exército branco. Depois de uma noite de desforra, em que os soldados usufruem de seus corpos de maneira insana, executam-as, restando apenas Miina, que logo é pega pelo Harjula. Este por sua vez deseja um julgamento justo para aquela mulher, e por conta própria a leva à corte, só que no caminho acontece um imprevisto, onde ficam presos em uma ilha, e sentimentos mais fortes se revelam. Ao chegar no cenário de seu julgamento encontramos um homem rústico e bem peculiar, Emil Hallenberg é sisudo, intelectual, mas esconde algo em seu íntimo. Ele tem o poder de libertar ou não Miina, mas a mantém só para poder ficar perto de Harjula, que mais tarde percebemos suas verdadeiras intenções. Vendo que o soldado tem um carinho extra por Miina, Emil aproveita para tirar tudo que pode do seu querido Harjula.
O filme é apenas um retrato insosso dessa guerra. Também não pode-se dizer que é propriamente um romance, dada a frieza dos personagens que é necessária naquele ambiente. O desfecho do filme é surpreendente e emociona. Uma ponta de esperança, a liberdade de Miina faz com que Harjula lute para que ela consiga sobreviver, e ir ao encontro do menino que sua amiga antes de morrer a fez prometer encontrar.

"Lágrimas de Abril" é visualmente belíssimo e envolvente, ele segue um ritmo próprio em que as situações seguem sem serem forçadas. Muitos finlandeses o definem como um filme sem conteúdo, apenas como "um pedaço de guerra". Mas é perceptível que é um filme requintado e extremamente sensível, apesar da frieza, que deve ser da natureza dos finlandeses. Harjula é dotado de uma sensibilidade mais humana, Emil é mais caricato, porém em seu íntimo é um ser carente, e Miina faz o papel de uma mulher forte, durona e impenetrável. Pode-se dizer que a sensibilidade existe, mas não é aparente e explícita. É um filme característico e peculiar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Banda (Bikur Ha-Tizmoret)

"A Banda" (2007) é um filme israelense dirigido por Eran Kolirin, e conta de forma deliciosa a trajetória de uma pequena banda da polícia egípcia que foi convidada para tocar na inauguração de um centro cultural em Israel. Chegando no aeroporto eles percebem que não há ninguém ali os esperando, por pura falta de sorte são esquecidos. A banda então decide se deslocar por conta própria, mas acabam se perdendo e vão parar em uma cidade em algum lugar no coração do deserto. Lá tentam buscar informações em um bar e descobrem estarem no local errado e o ônibus só passará no dia seguinte, daí por diante conhecemos mais a fundo os integrantes da banda, assim como Dina, a ousada dona do bar, e os dois amigos dela que vivem lá sentados. Dina hospeda dois deles, o líder sisudo da banda Tawfiq, vivido pelo maravilhoso Sasson Gabai, e Haled, o rapaz mais novo. Os outros se dividem na casa dos amigos de Dina.
Através de sutilezas vemos o choque cultural entre o velho e o novo, o conflito entre árabes e israelenses é mostrado com total delicadeza, e a mulher é vista sob um ponto de vista distinto, Dina é extravagante, forte, cabelos soltos, uma beleza diferente mas muito feminina. A todo momento as diferenças acontecem, porém todos ali desejam o mesmo, a felicidade.
Para os mais sensíveis "A Banda" se faz necessário, é um deleite acompanhar personagens tão ricos e que apesar de diferentes se complementam, a fotografia é belíssima, o tom azul contrasta com a paisagem, é engraçado toda a estranheza que o figurino dos integrantes da banda causa nas pessoas. O amor por suas tradições também é retratado, e o respeito que cada um deve ter com o outro independente de religião é evidenciado com muita leveza e um fino humor, do qual o ator Sasson Gabai realiza magistralmente, ele mescla comicidade e sensibilidade perfeitamente, um outro filme dele que exemplifica essa qualidade é "O Porco de Gaza" (2011)
A amizade que cresce entre Tawfiq e Dina é linda, ele pouco fala, mas seu olhar diz muito, Dina o convida pra comer e fala sobre relacionamentos, é uma mulher que conserta o carro e que toma a frente, por vezes Tawfiq se sente estranho, mas não demora para que se abra e conte fatos de sua vida. Os dois são tristes, há muitos sentimentos guardados, enquanto Dina está desesperada para conseguir um pouco de amor, ele está num constante silêncio, é muito difícil dar o próximo passo, mas a grande mudança se dá no final na relação de Tawfiq e Haled.

O filme dá uma lição do quanto o ser humano precisa se aproximar uns dos outros, pois todos nós temos dores e buscas insaciáveis, poderíamos tentar compreender, ao invés de nos apegarmos a rivalidades que só aumentam o desequilíbrio. É triste ver que as relações cada vez mais se vão, e o que fica é apenas solidão e sentimentos que destroem tanto os demais como a nós mesmos.
"A Banda" é uma joia do cinema, emociona, diverte, causa a reflexão, tem um roteiro impecável, cenas memoráveis, interpretações únicas, e uma trilha sonora que embeleza ainda mais toda esta história. Ao final eles conseguem pegar o ônibus e ir à inauguração do centro cultural, a música tocada é das coisas mais belas que acontece nesta pequena obra de arte.
O filme ganhou 38 prêmios em festivais mundo afora, e não é à toa, ele cativa mesmo e cria-se uma simpatia imensa, é pra indicar sem medo e desfiar elogios. Merecedor de aplausos a cada frame!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Garoto que Come Alpiste (To Agori Troei To Fagito Tou Pouliou)

"O Garoto que Come Alpiste" (2012) do diretor grego estreante Ektoras Lygizos é baseado livremente na obra-prima de Knut Hamsun, "Fome", que retrata a história de um jovem escritor sem teto que mesmo tendo dificuldades de arranjar emprego, andar em farrapos e passar muita fome consegue manter sua dignidade e altivez, é um livro que gera bastante desconforto, é caótico e por vezes confuso, o personagem alucina mas mantém a sua consciência, claustrofóbico é a palavra que o define.
O filme de Ektoras é também uma obra-prima, o diretor consegue já em sua estreia compor algo de imensa valia. Yorgos é um jovem artista, cantor lírico, de 22 anos, mora num apartamento no subúrbio de Atenas, desempregado e sem muitas oportunidades vive de forma miserável, passando fome ele encontra como fonte de alimento o alpiste do qual dá a seu passarinho e única companhia.
O interessante é que Yorgos não é um mendigo, mas uma pessoa como qualquer outra em busca de suas vontades, a cena em que ele fracassa por não saber cantar alemão direito, ou as tentativas de emprego comuns demonstram a sua dificuldade de se integrar. É impactante por ele ser um jovem que tem todos os quesitos para se estabelecer na sociedade, mas o que vemos é a decadência e a fome que cada vez mais aumenta. Não há diferença entre ele com as pessoas que cruzam seu caminho, é como se qualquer um pudesse estar passando por isso, a dignidade é a única que resta.
Mais uma vez o cinema grego acerta em cheio ao expor o drama que a crise da Grécia provocou nas pessoas deixando-as na miséria, há vários filmes com esse enfoque, como o perturbador "Miss Violence", de Alexandros Avranas.
O longa causa muito desconforto, a câmera é praticamente colada ao personagem, o que nos faz chegar bem perto de sua sufocante situação. Yiannis Papadopoulos se entregou a um personagem difícil com maestria, ele passa sentimentos intensos para quem assiste a sua trajetória. Em certo momento ele prova de seu próprio sêmen, a cena é considerada polêmica, mas não foge do contexto, é um ato desesperado, assim como ao entrar no apartamento de um senhor já à beira da morte e comer açúcar, o único alimento da casa. Qualquer coisa se torna comestível quando se está com o estômago vazio, no livro de Hamsun o protagonista vive a mastigar pedaços de madeira.
As coisas só pioram para Yorgos, despejado ele se refugia em uma construção da qual esconde seu passarinho a fim de ir procurar alimento, há também uma moça que ele se interessa, espia ela quase sempre e até chegam a se aproximar, não há diálogos, ela o leva até sua casa, oferece comida e começam a se beijar, mas a cena que se segue é assustadora, ao passar a mão nos cabelos de Yorgos sai um tufo, a garota questiona o que acontece, daí ele fala sobre o quanto tempo está sem comer e as sensações que sente. Entristece vê-lo saindo com uma marmita a ponto de chorar, então ele se senta em um local cheio de jovens e come, grita, come e grita...

"O Garoto que Come Alpiste" é filme para poucos, retrata a miséria e a busca pelo último resquício de dignidade, apesar de se passar na Grécia com toda a crise que a cerca, essa história pode acontecer em qualquer parte do mundo, existem muitas pessoas assim como Yorgos que estão sofrendo com a fome e a decadência, e elas podem estar bem perto de nós sem ao menos nos darmos conta.
É uma obra reflexiva, o sistema aprisiona os nossos anseios, quem fica alheio a "realidade" para tentar vivenciar o seu sonho tende a sofrer as duras consequências, pois a fome não é somente saciar as lamúrias do estômago, mas também as da alma.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Cabana (Die Summe Meiner Einzelnen Teile)

"A Cabana" (2011) é um filme alemão com uma forte crítica social, ele questiona o que é ser louco em uma sociedade que sufoca, onde a hipocrisia domina deixando de lado certos aspectos individuais. A tradução do título é bem pobre e não passa seriedade ou profundidade, coisa que o longa tem de sobra. É imensamente triste se for parar pra pensar, dá vontade de se embrenhar em meio a floresta assim como Martin, sentindo a leveza do silêncio para então dar vazão ao que castramos em nós mesmos com o tempo. O título original ao pé da letra é: "A Soma de Todas as Minhas Partes" (Die Summe Meiner Einzelnen Teile).
Quem é o louco afinal? Aquele que se deixa levar pela onda caótica da rotina, cujo único pensamento é gerar dinheiro para sobreviver, ou aquele que se abstém de tudo isso? Por que quando alguém não deseja fazer parte simplesmente por não se encaixar é taxado como louco? Martin percebe o quão ordinária a sociedade pode ser, principalmente na questão do tratamento de sua saúde mental, o aprisionando e o dopando, sendo que isso não o ajudará de fato. A história segue em ritmo lento e acompanhamos a decadência do personagem, é emocionante toda a sua trajetória.
Martin (Peter Schneider) é um talentoso matemático com uma carreira promissora, mas devido a uma internação em uma clínica psiquiátrica é visto como doente mental, ele perde o emprego e termina vivendo como um mendigo. Algo muda quando conhece Viktor (Timur Massold), um garoto ucraniano que perdeu sua mãe por uma overdose. Ambos solitários e deslocados decidem fugir do barulho da cidade e vão para a floresta, lá a ideia de construir uma cabana parece o começo de uma nova vida. Eles se tornam muito amigos. Não há quase diálogos porque Martin não fala a língua do garoto, o que torna as situações bem contemplativas.
A "loucura" de Martin é libertadora e em meio a natureza consegue acalmar sua mente, percebe-se que quando andava pelas ruas da cidade ele era inquieto e contava sem parar, as cenas em que começa a se integrar no local, subindo em árvores, respirando ar fresco é as das mais bonitas, é como se estivesse se encontrando, é a naturalidade de ser.

Outra personagem que sofre a angústia e a pressão de se tornar um alguém é Lena, que trabalha como assistente de dentista, Martin se apaixona por ela e a encoraja a viver de forma idílica também. Os problemas de Martin vem desde a infância, seu pai o maltratava, mas não sabemos mais que isso, o filme deseja expor o quanto o ser humano é sugado e pressionado, chega um ponto em que não se aguenta mais, no caso do protagonista, assim como de tantas outras pessoas exige-se tratamento a base de remédios para poder seguir em frente, Martin foi internado, trancafiado em uma clínica, o que só fez piorar sua situação, após sua saída não conseguiu mais se estabelecer segundo os padrões sociais.
Martin é descartado e isso revolta, pois é como se fosse apenas uma peça nas engrenagens do sistema. Em dado momento desesperado vai até a casa do cara que certa vez o atropelou, ele pega o dinheiro e o carro a fim de conseguir fugir com Lena e Viktor para Portugal, onde existe uma comunidade alternativa. Esse roubo faz com que Martin seja procurado tanto pelos médicos que o trataram, como pela polícia. Em nenhum momento o julgamos, na verdade o que surge é identificação.

Dirigido por Hans Weingartner que assim como fez em "Edukators" (2004) critica o capitalismo e a sociedade que exclui o que incomoda e julga desnecessário, gerando desigualdades e provocando revolta, tristeza e desesperança.
O longa não poupa e coloca em xeque as clínicas que tratam as pessoas que sofrem de algum distúrbio mental, aprisionar e dopar não vai curar ninguém, isso é violência e só faz tirar a realidade deixando de ser quem se é aos poucos.
O filme causa tristeza, para os seres mais pensantes é desesperador, difícil ter que viver em função de algo que não lhe é prazeroso, e o pior é saber que não há escolha, ou você faz parte, ou é excluído e taxado como louco, entre outras coisas.
Viktor na verdade é Martin quando criança, ele o resgata e salva a figura do menino que ainda podia sonhar. Na floresta ele junta todas as suas partes e consegue aliviar suas angústias, e de fato ser livre. Porém, o final nos aprisiona junto com o personagem, é torturante ver que não há escapatória.
"A Cabana" é um filme profundo, poético, silencioso, reflexivo, além de ter uma trilha sonora bem bonita e um personagem para se guardar na memória.

"O medo não é uma droga. O medo é desnecessário. É supérfluo. Você não precisa dele."

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Fita Azul (Electrick Children)

"A Fita Azul" (2012) é um filme independente da diretora estreante Rebecca Thomas, a história é no mínimo peculiar e baseia-se na sua própria vida que é de origem mórmon, os conceitos, o fundamentalismo, a alienação e o valor da fé são questionados de maneira agradável sem jamais fazer qualquer tipo de crítica, a visão é completamente inocente e por vezes surreal.
Rachel (Julia Garner) é uma adolescente de 15 anos de uma comunidade mórmon em Utah, já no início nos deparamos com ela dando um depoimento para o pastor e também padrasto, ele lhe faz perguntas sobre sua fé e se ainda continua pura, tudo isso é gravado pelo meio-irmão Mr. Will (Liam Aiken). O gravador gera um certo fascínio na garota que deseja ouvir seu depoimento, à noite escondida ela vai procurá-lo e se depara com diversas fitas, ela coloca uma fita azul e se inebria com o seu primeiro contato com a música e o rock'n roll, a canção é um cover de "Hanging on the Telephone", da banda The Nerves, esta que dá o tom ao filme, impossível tirá-la da cabeça após o seu término. Depois desse contato Rachel acredita que está grávida, uma concepção imaculada, o resultado dá positivo e o padrasto e líder Paul (Billy Zane), decide expulsar Mr. Will, pois na noite em que ela foi procurar o gravador Gay Lynn (Cynthia Watros), a mãe, os viu juntos.
O filme não dá respostas ao espectador, ele foge dos clichês e situações fáceis, nós deduzimos ao longo o que de fato aconteceu. Rachel desesperada por não aceitar um casamento arranjado às pressas resolve fugir, rouba a chave da velha caminhonete e acelera o mais que pode, ela crê que encontrará o pai de seu filho (a voz no gravador), o que ela não contava é que Mr. Will estava dormindo na traseira, ao chegar em Las Vegas é que se dá conta. Nessa parte surgem os contrastes, e estes são fortíssimos. Os dois são adolescentes que parecem de uma outra época, as roupas, a maneira de se portar, falar, tudo é novidade, o mundo se abre a eles quando conhecem Clyde (Rory Culkin), um garoto rebelde, livre, que vive numa espécie de comunidade com vários amigos músicos e skatistas, o ambiente é o oposto daquela vida que levavam no campo. Eles experimentam novas sensações e Clyde acaba se apaixonando por Rachel, ele compreende a garota por ser um alguém de certa forma alheio a tudo também.
Rachel busca a voz que a engravidou, mas o destino a leva para uma descoberta maior. De fato o longa se assemelha a um conto de fadas, mas é isso que gera beleza ao filme, o aspecto de inocência em meio a efervescência é algo inacreditável.

O interessante é que cada um pode tirar suas próprias conclusões, existem várias pistas sobre quem a deixou grávida, o filme não quebra a aura singela com respostas tristes.
"A Fita Azul" é uma releitura ao milagre de Maria, e disserta de forma sutil sobre questões religiosas, fundamentalismo e o fervor exacerbado que gera a alienação.
É um exemplar original, sem dúvidas uma amostra vigorosa de criatividade. O elenco é ótimo, Júlia Garner como Rachel esbanja delicadeza, a pureza dela é tão linda que desejamos que não seja retirada por alguma verdade devastadora. Rory Culkin como Clyde é rebelde e deslocado, Liam Aiken como Mr. Will faz um papel de mais maduro, quando na verdade ainda nem descobriu-se, suas experiências mal-sucedidas em Las Vegas demonstram isso. No final cada um faz a sua escolha, algumas coisas são reveladas e outras ficam no ar para nós decidirmos.
O filme é feito de contrastes e descobertas, é preciso embarcar na história, caso contrário não surtirá efeito.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Grande Beleza (La Grande Bellezza)

"A Grande Beleza" (2013) de Paolo Sorrentino (Aqui é o Meu Lugar - 2011) ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014, entre outros prêmios, é um filme maravilhoso que faz com que pensemos sobre a beleza nos dias de hoje, onde tudo é tão superficial e sem sentido. A Grande Beleza, na verdade, pode estar escondida nos detalhes de nossas memórias e em lugares que não paramos para observar. Com certeza é um filme amplo e que discute muitos assuntos.
Imensamente difícil compor um texto que traduza o que esta obra causa, confesso que a primeira vez que o assisti não consegui captar todas as nuances da história, me entediei e enxerguei apenas exuberância e rebuscamento. Pois é, meu olhar não se aprofundou nas sutilezas e nas questões. Na segunda vez pude perceber e sentir melhor o filme a cada cena e diálogo, assim como a trilha sonora da qual mescla música erudita e eletrônica.
A história é sobre um jornalista que amargamente relembra sua apaixonada e perdida juventude. Em Roma, durante o verão, o escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade, e desde o grande sucesso do romance "O Aparelho Humano", escrito a décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida, e talvez voltar a escrever. A cena inicial exemplifica muito bem toda a aura que permeia essa questão da beleza, é a celebração do aniversário de Jep, uma festa gigantesca onde se mistura das mais variadas figuras, todas desesperadamente ansiando por atenção ao som de "Far l'Amore" de Bob Sinclar, a música eletrônica impera, além de bebidas, danças exóticas com mulheres enjauladas e celebridades em decadência, a alta sociedade está lá toda reunida.
Toni Servillo está soberbo como Jep, ele é um homem cínico e que de maneira delicada diz verdades às pessoas, sua feição por vezes se torna uma caricatura. Seus diálogos são primorosos, absolutamente todos.

A câmera passeia por Roma e seus incríveis monumentos, o contraste entre o antigo e o moderno está presente. Jep é um ser noctívago e praticamente vive em festas e reuniões intelectuais com amigos, uma das cenas mais incríveis acontece nesses encontros em que debatem sobre política, literatura e afins, até que após uma colega ficar se vangloriando de como sua vida é maravilhosa e como os tais livros que lançou são interessantes e elaborados, Jep discorda, então nervosa grita para que ele fale o que sabe sobre ela, Jep simplesmente desmascara a socialite de maneira precisa, fria, mas sem sair de sua elegância. Todos ali mesmo sendo ricos e influentes estão completamente sozinhos e tristes. É a decadência, o ócio, em dado momento Jep pergunta a uma mulher o que faz, e ela responde: "Eu sou rica". Hospedada em um hotel luxuoso, a única coisa que pensa é tirar fotos de si mesma, quando diz que vai mostrá-las a Jep, ele vai embora. Impossível lidar com uma pessoa tão rasa, pois chega um ponto em que é preciso selecionar com quem se quer conviver.
O filme também faz uma crítica a arte moderna retratando uma garotinha que não gosta de se apresentar, mas devido ao grande dinheiro que gera é obrigada pelos pais a jogar inúmeros baldes de tinta em uma parede, ficar inteiramente suja, compondo assim sua suposta arte. A arte tem que ser feita com a alma, desejo, inspiração, a garota estava sendo forçada a fazê-la e chega até chorar em sua apresentação. O público chiquérrimo precisa se nutrir de "arte" para dizer que faz parte do alto escalão, mas será que eles conseguem enxergar a beleza? Nessa cena, Ramona (Sabrina Ferilli), a acompanhante de Jep, filha de um amigo seu, dono de boate, sai indignada, e então Jep vai até um rapaz que é o guardião das chaves dos palácios, e em seguida passeiam entre enormes salões, reencontrando o espírito dos antepassados e suas tradições.

Ao saber da morte de sua primeira namorada, Jep começa a pensar mais sobre seu passado e a vida que leva, ele volta a ter sensações que havia perdido desde que foi para Roma e se tornou um mundano, realmente não tinha como escrever um outro livro, já que não há sobre o que escrever, excessos geram apenas o nada. A convivência com Ramona também o leva a repensar muitas coisas, principalmente em relação ao amor em sua essência, e a morte.
A religião é outra questão abordada e traz um cardeal, do qual Jep tenta fazer algumas perguntas espirituais que o aflige, mas logo percebe-se que a única coisa que ele quer é falar de receitas culinárias, também há uma religiosa centenária que consideram uma santa, fã do livro de Gambardella, em certo momento ela lhe pergunta porque não escreveu outro livro, e ele responde que está a procura da Grande Beleza, então ela o questiona se ele sabe porque ela só come raízes, Jep diz não saber, e a resposta é a seguinte: "Porque raízes são importantes". Uma resposta tão simples, mas repleta de significados, o que demonstra que a beleza está intrínseca, e é só uma questão de saber olhar e perceber tudo ao redor.

Não adianta ficar procurando beleza no externo, é necessário olhar para si mesmo e buscar no íntimo nossos desejos e o que nos faz felizes de verdade, deixar que os outros definam quem somos também é fatal, pois acabamos perdendo a sensibilidade. A maioria vê o belo em futilidades, a imagem é poderosa, mas a beleza está no simples e nas pequenas, porém importantes situações, uma memória, por exemplo, é capaz de nos dar uma felicidade imensa, e como em Jep um começo para refletir no como tem sido sua vida. Esse filme é recomendado sem restrição, todos deveriam ver, e principalmente rever, ele abre um leque de pensamentos que precisam ser discutidos e reavaliados.
O que existe são esteriótipos de beleza, assim como Jep diz: "É tudo um truque", somos iludidos e sugados sem querer para um mundo fútil onde até a arte é falsa, estamos diante de uma beleza que não agrega, tudo aparenta ser, mas é vazio e triste.
"A Grande Beleza" é um filme grandioso com cenas e imagens apuradas, diálogos certeiros, crítica eficaz, trilha sonora magnífica e uma interpretação sublime de Toni Servillo.

"Após uma vida de embaraços e espasmos de beleza incompleta e imperfeita sedimentada pelos dias claros e noites frescas, sob muito falatório do que deveria ser, surge o manto suave e indelével da morte que nos encerra na imortalidade de nossos anos passados ao lado de pessoas que nem sempre nos foram agradáveis."

"Termina sempre assim. Com a morte. Mas primeiro havia a vida. Escondida no blá blá blá. Está tudo enterrado entre a tagarelice e o barulho. O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. As intratáveis e inconstantes pinceladas de beleza. Depois, a miséria desgraçada e o homem miserável. Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo. Blá blá blá, blá, blá, blá, blá."

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Exuberante Deserto (Adama Meshuga'at)

"Exuberante Deserto" (2006) conta a história de Dvir, um garoto que está prestes a completar 13 anos, idade em que se celebra o Bar Mitzvah, vivendo em uma comunidade judaica, o Kibutz, ele enfrenta as dificuldades e as transformações que acontece consigo e ainda lida com Miri, sua mãe depressiva, também vive com eles o irmão mais velho que logo entrará para o exército, o seu pai morreu há alguns anos, mas a causa nunca é revelada a Dvir.
A comunidade aceita receber o namorado de Miri, um suíço não-judeu, Stephan é bem mais velho e isso faz com que todos do Kibutz olhem de forma estranha quando chega, mas a mãe de Dvir está contente com a chegada do novo amor e com todo carinho que ele lhe dá. A convivência não é tão fácil e não demora para que se envolva num conflito e seja expulso da comunidade. Dvir sente pela partida, pois estava vendo a melhora da mãe e a esperança de uma família, com toda essa confusão ela entra num estado cada vez pior, se afunda em uma tristeza absoluta. Dvir faz de tudo para ajudá-la, mas sem resultados. O garoto precisa se preparar para o seu Bar Mitzvah, pois é uma fase complicada, ele é uma criança que de repente se vê adulto tendo grandes responsabilidades. 
Dirigido por Dror Shaul que faz de Dvir seu alter ego nos deparamos com a opressão de se viver em conjunto num Kibutz nos anos 70, localizado em meio a um deserto. Kibutz é uma comunidade criada em Israel baseada no socialismo e no sionismo. É considerado por muitos uma das melhores experiências de vida comunitária já ocorrida na história, e é tido como a base da, hoje reconhecida, força da comunidade israelita por seus preceitos e senso de ajuda mútua. 
Todos ajudam e as tarefas são distribuídas de forma igualitária, mas é óbvio que quando algo sai fora do eixo começam a se incomodar, Miri, por exemplo, por conta de suas alternâncias de humor deixa de executar sua função, o que faz com que os membros discutam sobre ela entre outras coisas numa espécie de conselho.
Viver em comunidade exige-se perder a individualidade, e é isso o que "Exuberante Deserto" nos mostra. Miri começa a duvidar do caráter daquelas pessoas, será que elas são tão boas a ponto de decidir as questões alheias? Logo no começo vemos um homem que sempre comanda as discussões em um ato horroroso, Dvir acaba vendo a tal cena, mas fica calado, o fato é que a pessoa não se transforma num alguém melhor por viver em conjunto, quanto mais fechada for, mais satisfações terão que ser dadas, a privacidade deixa de existir.

"Exuberante Deserto" é dividido em quatro capítulos, cada um deles representando uma estação do ano. Interessante pois o filme nos é passado pelo olhar do garoto que amadurece bem antes do que devia acontecer naturalmente, também tem a questão do primeiro amor, há uma cena lindíssima de primeiro beijo. É uma oportunidade de conhecer hábitos dos quais desconhecemos, além de nos proporcionar uma trilha sonora maravilhosa.
O drama de Miri se acentua e o convívio com os demais se torna impossível depois da celebração do Bar Mitzvah, o que assusta Dvir, mas ao final ela o incentiva a sair de lá e procurar algo melhor para si, principalmente no que diz respeito a sua liberdade. 

É um filme crítico e com certeza nos faz pensar sobre o conceito de se viver em comunidade, pois ela dá impressão de liberdade, quando na verdade é um fechamento. Por mais que se distribuam em partes iguais funções e etc, as pessoas são diferentes entre si, umas são mais frágeis, outras tem tendência em liderar, outras instintos violentos e por aí vai... Não é um filme grandioso, mas emociona e é muito eficaz em sua mensagem.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Caché

 "Caché" (2005) dirigido por Michael Haneke é um filme lento e que não faz questão de nos dar respostas, ele segue uma linha de suspense e tensão, o efeito é pós filme, impossível não se incomodar com as atitudes dos personagens que refletem muito sobre o nosso cotidiano.
Um dia Georges (Daniel Auteuil) e sua esposa Anne (Juliette Binoche) recebem uma fita de vídeo com imagens de sua casa, que fora filmada por uma câmera instalada na rua. Depois disso começam a receber desenhos sinistros. Assustado, o casal tenta descobrir o autor daquelas misteriosas ameaças que perturbam a paz de sua família. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar. Georges é um apresentador de TV de muito prestígio, um intelectual, pai de família e com uma vida cômoda, ele é o típico homem que não pensa um segundo sequer nos outros, tudo está muito arrumado em sua maravilhosa forma de viver, até que as fitas misteriosas começam a desarranjar essa calmaria que o rodeia.
De início a mulher de Georges pensa ser um fã louco, ou alguma brincadeira infantil, mas à medida que as fitas vão chegando juntamente com desenhos estranhos a situação vai ficando cada vez mais tensa entre o casal. Georges começa a suspeitar de uma pessoa que fez parte de seu passado, mas em nenhum momento ele conta para sua esposa, no que faz ela sofrer e não entender o que de fato acontece. Georges vai atrás do homem que supostamente está enviando as fitas e os obscuros desenhos, a partir desse momento conhecemos um pouco do passado desses personagens e suas culpas, e a maneira como cada um lida com o próximo. Ao chegar na casa de Majid (Maurice Bénichou) que fica contente em vê-lo, Georges o acusa e de forma violenta o questiona sobre as fitas, é impressionante o quão triste Majid fica, é visivelmente um homem pobre e que guarda em si mágoas, pois como a história nos mostra ele era filho de um criado da casa dos pais de Georges e quando seu pai morreu, a família queria adotá-lo, mas Georges era uma criança mimada que já nutria preconceitos e muita inveja, e fez com que levassem Majid embora. Essa angústia que Majid carrega é por ter perdido a oportunidade de ter sido um alguém melhor perante a sociedade. Assim como Georges o é atualmente, um homem bem-sucedido. 

Conforme o desenrolar percebemos que a pior pobreza é a que vem de dentro, Georges é um sujeito que não tem consciência e honestidade, ele não se importa já que se julga melhor que os outros, há tantas cenas em que ele despreza os demais, seja por preconceito ou simplesmente por atrapalhá-lo. A cena mais tocante é quando o filho de Majid vai procurá-lo, ali percebe-se toda a podridão e o egoísmo de um ser humano que faz questão de esconder os acontecimentos e passar por cima das pessoas, ele por fora representa uma coisa, mas por dentro é outra. É sempre a imagem que predomina. 
Quantas e quantas pessoas não se escondem por debaixo de suas máscaras que dão conforto e rendem uma vida bacana, porém quando certas verdades vêm a tona, não importa, com certeza farão qualquer coisa para ter de volta a tranquilidade de seu cotidiano. 

"Caché" é uma experiência abrangente e o seu final nos deixa em silêncio, a sensação é de desconforto e uma torrente de pensamentos surgem acerca desta história que nos é contada de maneira fria. Não tem como ficar indiferente. O cinema de Haneke é real e por isso perturba, mas é extremamente necessário.
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