sexta-feira, 25 de abril de 2014

Nada (Nic)

"Nic" (1998) dirigido pela polonesa Dorota Kedzierzawska é uma pequena obra de arte. É um retrato em tons pálidos da vida de Hela, uma mãe que vive em uma cidade grande com poucos recursos e muitas crianças. Neste cotidiano vamos acompanhando onde a bruta realidade e o sonho se entrecortam em meio aos gritos e silêncios.
Dorota Kedzierzawska entrou para minha lista de diretores preferidos, seus filmes são sensíveis, e retratam sempre as tragédias sociais, problemas que acometem as pessoas mais simples. Não tem como não se emocionar, ou ficar comovido com as histórias que sempre estão envolvidas em uma fotografia e narrativa diferenciada.
Meu primeiro contato com o cinema de Dorota foi em "Eu Existo" (2005), que acompanha a busca de identidade de um menino que não tem ninguém e que tenta achar-se diante ao mundo onde só o que importa é a condição financeira e superficialidades. A delicadeza deste filme é imensa e consequentemente nos toca, afinal todos nós buscamos nos encaixar na sociedade e em si mesmos. Um outro filme belíssimo de Dorota é "Hora de Morrer" (2007), neste é retratado a velhice e fala do inevitável, a morte. A fotografia em preto e branco só ressalta o tom de solidão. É muito realista em mostrar a velhice e todos os fatores e consequências que a rodeia.
Em "Nic" que na tradução literal significa Nada, acompanhamos Hela, uma jovem e bela mulher que está afogada em uma vida sem perspectivas, com três filhos e um homem que lhe trata mal. Quando engravida novamente seu desespero aumenta, pois não quer contar ao seu marido por medo de sua reação, afinal a situação financeira é bem decadente. Ela tenta de todas as formas abortar, mas as questões morais e religiosas aparecem. Até que não tendo o que fazer acaba por ter o bebê escondida no banheiro e medidas extremas são tomadas. Hela é um ser humano perdido que busca um pouco de amor em qualquer possibilidade que encontra, mas toda vez é maltratada, seus olhos sempre estão olhando para dentro de si mesma e refletem apenas desamor, desilusão e desencaixe. Para esta mulher já não há esperanças, então perde a vontade e desejos, a dor assume e tudo que lhe acontece já não importa mais.
É um filme amargo, sufocante, angustiante. Nos faz refletir sobre ter direitos em relação ao querer e o não querer, principalmente no que se diz respeito a gravidez.

Não é fácil pra ninguém, para as mulheres então, é bem comum encontrarmos histórias semelhantes, moças jovens com vários filhos sem ter condições de criá-los e até de amá-los, e cujos maridos são ausentes, ou violentos. Imagina o ser humano que essas crianças se tornarão, no mínimo serão esvaziadas de amor e perspectivas. Essas histórias existem aos montes. Diante desta situação se perde a esperança e o amor à vida.
Em meio há tanto sofrimento existe beleza, e ela é intensificada por causa da fotografia em tons pastéis, que mais parece uma sucessão de quadros. É realmente uma pequena obra de arte.
É belo, contido, sensível. Um retrato do oprimido e da perda do amor. Os filmes de Dorota reproduzem de maneira real aspectos da vida que o cinema pouco explora. São delicados, emocionantes e indispensáveis, além de podermos nos embebedar em suas belas fotografias.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Ventre (Womb)

"Ventre" (2010) do diretor húngaro Benedek Fliegauf (Apenas o Vento - 2012) é um filme desconhecido que retrata um assunto polêmico, incômodo, e que assusta a maioria das pessoas.
A história segue Rebecca (Eva Green) que ao passar algumas semanas na casa de seu avô, num lugar estonteantemente lindo, se apaixona por Thomas (Matt Smith). As duas crianças parecem se encontrar uma na outra, entre brincadeiras e olhares criam um forte laço, mas Rebecca precisa ir embora, ela e sua mãe vão morar em Tóquio. Doze anos se passam, então ela retorna ao lugar em busca de Thomas, o reencontro é estranho e silencioso. Atualmente Rebecca trabalha com software e Thomas é um ativista ambiental, bem maluquinho, cheio de ideias e sonhador. Matt Smith caiu como uma luva para o seu personagem, assim como Eva Green para o seu, que já pende para um lado misterioso, quieto, mas que expressa pelo olhar sentimentos intensos e inquietantes. Nada acontece entre eles, apenas conversas, Thomas concorda em levar Rebecca a uma manifestação da qual ele é um dos líderes, porém na viagem ocorre um acidente indiretamente provocado por Rebecca, e ele morre.
Isso tudo pode parecer um spoiler imenso, mas é só o começo. Rebecca consumida pelo amor, pela culpa e por todos os fatores que permearam a sua relação com Thomas, tem a ideia de fazer uma fertilização a partir do DNA do seu amado, gerando um clone. Para isso ela precisa da autorização dos pais dele, a mãe é irredutível, já o pai é simpatizante. O fato é que ela faz essa fertilização e nove meses depois nasce o bebê, seu filho. É supostamente assim que deveria ser segundo a ética, a moral, e a religião. Mas para Rebecca...
O filme não discute sobre a clonagem, algumas coisas são jogadas, como as crianças da escola que têm preconceito de uma menina que é clone da mãe de sua mãe, mas não é explorado, apenas fatos são expostos, pois é um assunto delicado e tabu na sociedade. Thomas não sabe que é um clone, sua mãe conta sobre o acidente, sobre seu pai, mas nada além disso.
Já com doze anos, a situação vai ficando tensa e indecifrável. A relação mãe/filho começa a ser questionada por nós espectadores, brincadeiras, um banho, há algo embutido em Thomas, um sentimento por sua mãe que nem ele mesmo entende, e Rebecca demonstra em seu olhar, que o deseja. No início do filme, quando pequena ela tinha o hábito de olhar Thomas dormindo, passava os olhos pelo seu corpo, isso se repete quando ela olha seu filho na banheira, enquanto o garoto declama uma poesia.

O filme é muito complexo por não ser tão explícito em diálogos, ou se focar em algo fortemente, portanto pode se tornar chato e confuso, mas é preciso assisti-lo com atenção para ler nas entrelinhas os desejos de Rebecca, que desde o início demonstra sua obsessiva paixão por Thomas. Ela queria uma segunda chance, já que seu amor não foi consumado, o destino, ou seja lá o quê não deixou que acontecesse, e a medicina estando tão avançada em relação a clonagem, não pensou duas vezes em brincar de "Deus", e desse modo poder reviver algo tão latente quanto era o seu amor por Thomas.
O problema é quando Thomas se torna homem e começa a namorar, a situação vai ficando tensa ao extremo. Os olhares de Rebecca se tornam muito estranhos. Vale ressaltar que ela se isola com o filho ainda pequeno. O lugar é dominado pelo vento e a solidão. O intuito é ser apenas ela e ele no mundo.
A fotografia é outro ponto importante, toda trabalhada em tons de azul, ela entra completamente em harmonia com o roteiro e o ritmo da narrativa. Dá um clima de incertezas e cria uma agonia em quem o assiste. A única ressalva é que a personagem não envelhece na história, passam-se os anos e continua a mesma.

Thomas vai percebendo algo diferente na relação, pois nunca existiu sentimentos maternos ali, por exemplo, quando chega perto de Rebecca sente que ela fica estremecida, e ele também sente desejos, a confusão o toma já que não sabe que é uma cópia. Um dos momentos mais polêmicos é quando acontece o que Rebecca sempre quis, acredito que a maioria que o assiste se perde e não consegue analisar que quando eles se unem, se amam, ela perde a virgindade. Por fim, Thomas vai embora, afinal lidar com tais circunstâncias seria enlouquecedor.
Apesar de toda a loucura envolvida em relação ao amor que Rebecca sente, o filme nos propõe a pensar até que ponto existe o parentesco, gerar uma criança não significa ser mãe desta. É isso que está em pauta. Ela não se sentia mãe dele, apenas emprestou seu ventre para saciar seus desejos. E, então o que aconteceu entre eles pode ser considerado incesto? Também coloca em xeque o sentimento amor, que no caso dela era puro egoísmo.
É aflitivo, angustiante, incômodo, é filme para quem gosta de um cinema mais diferenciado, assista de mente aberta e se inebrie com uma fotografia arrebatadora.

"Acabou. Eu sempre vou falar com você. Não importa se você não diga nada. O fato de você já ter ido não significa que não esteja aqui."

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis)

"Inside Llewyn Davis" (2013) dirigido pelos irmãos Coen (Um Homem Sério - 2009), cuja marca são seus personagens em sua maioria decadentes, e sempre marcados por um homem nada convencional, apresenta neste um fracassado cantor folk, chamado Llewyn Davis, interpretado maravilhosamente pelo talentoso Oscar Isaac. Ele é um cara que não tem absolutamente nada, vive de sofá em sofá. Llewyn está claramente cansado de percorrer atrás do sucesso e quando tem alguma chance sempre se apresenta de forma avessa ao mercado. Depois de perder o amigo com quem fazia dupla, as coisas pioraram e muito, ainda tem que lidar com a gravidez de Jean (Carey Mulligan), uma amiga com quem saiu algumas vezes e que atualmente namora Jim, um músico promissor, interpretado por Justin Timberlake. E também precisa cuidar de um gato, que por descuido escapa do apartamento dos Gorfein, um casal amigo. Inclusive o gato é o único a receber cuidados e proteção de Llewyn, que basicamente não se preocupa com nada. Mas, mesmo assim o gato some do apartamento de Jean, ele acaba reencontrando o gato mais tarde, só que ao levar de volta para seus amigos, eles constatam que não é o mesmo.
Levemente inspirada na biografia do músico Dave Von Ronk, que viveu a vida toda em Nova York ao lado de Bob Dylan, Joan Baez, Joni Mitchell, entre outros que conseguiram alcançar o sucesso, já Ronk nunca o atingiu.
É um filme que arrebata, principalmente pela sua linda trilha sonora, a cada canção cantada por Llewyn é uma torrente de emoções. A música flui naturalmente dele. Vem do âmago. O cenário é o início dos anos 60, o folk ainda estava buscando espaço. Os irmãos Coen não caem em obviedades, não há reviravoltas no roteiro, mas a intensidade dos momentos vividos por um músico fracassado que tem a música cravada em seu ser é envolvente, tenso e dolorido.
A música emana deste personagem, cujos olhos acentuam um cansaço e uma melancolia imensurável. É um sujeito recolhido, que não sabe se conectar, mas sempre encontra pessoas que o ajudam, seja com um sofá ou dando trabalhos extras, pois ele praticamente não ganha nada com suas apresentações. A cena em que Llewyn é chamado por Jim para gravar a música "Please Mr. Kennedy" no estúdio é impagável, ele não poupa comentários e ainda reclama da letra. É realmente hilário. As cenas com o gato também são ótimas, parece ser o único vínculo que ele estabelece. O personagem de Ocar Isaac cativa, mesmo tendo os defeitos aflorados e estragar todas as relações. O diferencial neste filme é exatamente contar o oposto, como os próprios diretores disseram: histórias de sucesso existem aos montes.

Recheado de cenas maravilhosas, destaco quando Llewyn tem a oportunidade da sua vida e se apresenta em frente a um produtor musical, ele viaja horas, passa por maus bocados, e no momento decide tocar uma canção linda e hipnotizante chamada "The Death of Queen Jane", mas ao terminar o produtor simplesmente lhe diz que não vê dinheiro ali, não é comercial. Há uma quebra de sentimentos, pois a canção é tão poética, melancólica, e quando acaba o cara olha e diz secamente que não serve.
Antes de chegar a este lugar ele pega carona e no carro está um homem que assim como ele é a decadência em pessoa, mas que não perde a oportunidade de ser sarcástico, nesta parte graças ao grande John Goodman a característica tão marcante dos irmãos Coen aparece, o humor cáustico.
Particularmente "Inside Llewyn Davis" me fascinou, não é um filme que agrada a todos e tende a ficar de lado, mas para quem curte a atmosfera dos filmes dos irmãos Coen e uma trilha sonora cortante com belas músicas no estilo folk, é um prato bem cheio. A produção musical é de T-Bone Burnett, responsável pela trilha de "E aí, Meu Irmão, Cadê Você?"

A escolha de Oscar Isaac para o papel foi perfeita. Impossível não escutar toda a trilha sonora após o término. A música "Hang Me, Oh Hang Me" que abre o filme é uma das mais lindas, assim como aquela que ele canta para o pai "The Shoals of Herring", entre tantas outras. 
A história de Llewyn Davis não vai à lugar algum, mas não deixa de ser interessante. É um filme melancólico, tocante e irônico. Vale a pena ver!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Samsara

"Samsara" (2001) de Pan Nalin é uma "história de amor espiritual" filmada nas imponentes locações geladas do Himalaia. É sobre experiências e decisões. O foco está nas buscas empreendidas por duas pessoas diferentes. De um lado, um homem procura pelo esclarecimento espiritual por meio da renúncia ao mundo real. De outro, uma mulher quer encontrar esclarecimento no amor e uma nova vida inserida no mundo. Essas duas buscas em determinado momento se cruzarão e conectarão irreversivelmente a vida dos personagens. Tashi passou três anos meditando, ao sair da reclusão e recuperar suas forças, questões surgiram em sua mente, principalmente quando vai ao vilarejo próximo e se apaixona por Pema. Não conseguindo controlar seus instintos deixa o mosteiro e vai atrás de sua amada.
"Samsara" é uma palavra de origem sânscrita que significa "fluxo incessante de renascimentos através dos mundos". A maioria das tradições considera Samsara uma condição a ser superada, pois os ciclos se repetem apenas no homem que não atingiu sua iluminação.
O maior conflito do ser humano é lidar com os desejos, não existe felicidade plena, estes desejos nos levam para a dor e o sofrimento, mas é a partir daí que evoluímos e adquirimos uma consciência mais elevada. Buda teve uma vida mundana antes de alcançar a iluminação e isso foi indispensável para conseguir chegar a tal patamar: Anular desejos. Em determinado momento, Tashi questiona seu mestre sobre a liberdade que lhe prometeu quando entrou ainda criança no mosteiro, e termina dizendo: "Tem coisas que devemos desaprender para poder aprendê-las. E tem coisas que precisamos possuir para poder renunciá-las."
Tashi segue em busca de seus desejos, começa a trabalhar na propriedade do pai de Pema e logo eles se envolvem. A grande pergunta é: Será que Tashi apenas queria satisfazer seus desejos sexuais, ou houve um amor verdadeiro? Dentro da aura do filme acredito que Pema foi essencial para o desenvolvimento espiritual de Tashi, assim como Yashodhara foi para Siddhartha (o primeiro buda). E o filme nada mais é que o retrato desta história. Podemos contemplar um diálogo riquíssimo entre Tashi e sua esposa sobre o papel da mulher no budismo. Pema foi deixada com o filho e Tashi seguiu de volta ao mosteiro, ele constatou que tudo não passava de uma ilusão. Quando seu mestre Apo falece, começa a pensar em todas as decisões e percebe o que realmente sua alma necessita. Outra frase que permeia o filme e explica muito: "O que é mais importante, satisfazer mil desejos ou conquistar apenas um?". Qual a vantagem em se conquistar mil desejos, se estes não passam de ilusões e felicidades momentâneas?

Siddhartha talvez tenha conseguido chegar a iluminação graças a Yashodhara, mas quem se lembra dela? Foram através das experiências ditas mundanas que ele conseguiu experimentar o amor, o sofrimento e todos os sentimentos que acometem as pessoas, vivenciou uma tórrida paixão, a paternidade, o trabalho braçal, e desejos menores que parecem serem maiores que tudo. Mas Yashodhara já era compassiva, e então porque ela não se tornou um buda? Ao fim, acabou sozinha, com um filho e renunciou a tudo, ou seja, ela também alcançou a iluminação.
"Samsara" conta uma bela história e nos mostra essa parte esquecida, a da mulher de Siddhartha. É um filme grandioso, com uma fotografia exuberante e cenas extasiantes. Uma obra-prima!
É impossível colocar todas as nuances do filme em um texto, é preciso vê-lo e mais de uma vez, acredito que seja de grande aprendizagem a nós que fazemos parte de um fluxo constante, estamos aprendendo a cada minuto, o importante é ter essa consciência e amadurecer nossa mente e espírito. Melhorar nas pequenas coisas cotidianas já é um avanço, saber escutar, ficar calado, questionar, compreender o outro, eliminar sentimentos mesquinhos. O essencial é buscar conhecimento e passá-lo adiante.

O filme tem uma abordagem interessante sobre o budismo que aqui no ocidente tende a ser distorcido em alguns aspectos. É de uma beleza sem tamanho, a paisagem já demonstra a amplidão que permeia a história e os conceitos. A cultura é belíssima!
Tudo é um ciclo, até que entendamos os verdadeiros valores e nos livremos das insignificâncias, assim atingindo a iluminação.

Deixo a reflexão final do longa: "Como alguém pode impedir uma gota d'água de jamais secar? Atirando-a no mar."

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cupido (Kismet Diner)

"Cupido" é um curta produzido pela Cornetto e conta a história de Laura, que trabalha num restaurante e adora compor e cantar, o chefe empolgado com a voz da moça decide dar o microfone a ela para animar os fregueses. Muito tímida Laura percebe que um único cliente não a olha, e é justamente por ele que seu coração bate mais forte. Todos os dias ela canta e encanta, mas o belo rapaz nem sequer a olha, mas a vida tem dessas coisas e quando menos se espera a resposta aparece.
O curta em questão é meigo e é impossível não tirar um sorriso dos lábios de quem o assiste, além do mais as músicas cantadas por Laura são lindas e emocionantes, especialmente a última é de tirar lágrimas dos mais sensíveis.

De vez em quando é necessário se encantar, olhar direito para cada coisinha que nos acontece, afinal as melhores coisas da vida são simples. Só é preciso saber a linguagem de cada uma delas.


"Algumas coisas na vida são '3 pelo preço de 1'. Outras coisas, como o momento que alguém realmente escuta seu coração, não tem preço. Há milhares de histórias de amor esperando para serem vividas todos os dias. Fé? Destino? Quem sabe! Esta é só mais uma..."

terça-feira, 8 de abril de 2014

Boneca Inflável (Kûki Ningyô)

"Boneca Inflável" (2009) dirigido por Hirokazu Koreeda (O Que Eu Mais Desejo - 2011) é baseado no mangá homônimo de Yoshiie Goda. A história é sobre Nozomi (Donna Bae), uma boneca inflável comum comprada por um homem solitário para substituir o lugar de seu antigo amor. A narrativa é interessante e original. Acompanhamos os passos de Hideo (Itsuji Tao), seu cotidiano banal e sem graça que se resume a trabalhar e chegar em casa para saciar seus desejos com a boneca interpretada de forma muito doce pela atriz Donna Bae.
Hideo, na verdade se sente só e busca mais do que satisfazer seus impulsos sexuais, ele trata Nozomi como se fosse real, lhe dá banho, penteia seus cabelos, compra roupas e conversa sobre como foi seu dia no trabalho. Um dia, acontece o inesperado e a boneca ganha consciência e um coração, deslumbrada com tudo ao redor decide sair e explorar, dessa maneira percebe que a maioria dos seres humanos são sozinhos e vazios. Nozomi é ingênua e para ela tudo tem brilho, primeiro descobre a fala, depois o significado das coisas, cai nas aflições humanas, e por fim o amor. Muitos podem achar a história maluca, a premissa passa essa ideia, porém conforme o filme se desenrola percebemos metáforas profundas sobre a maneira que vivemos e nos comportamos na sociedade.
Nozomi consegue um emprego em uma videolocadora e consequentemente se apaixona pelo atendente Junichi, em meio a esse universo dos filmes, que não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, Nozomi percebe o vazio que habita nas pessoas, e então acha que existem outros como ela. A insatisfação, a solidão e a rapidez com que tudo flui é o principal agravante para a vida se tornar triste, já não há tempo ou paciência para olhar ao lado e quem sabe encontrar um alguém interessante, cada um existe e se isola em seu próprio mundinho. A maior desculpa hoje em dia é o "não tenho tempo", mas não se permita acreditar neste pensamento, quando o interesse existe, há sempre tempo.
O filme tem uma beleza peculiar e o que o ajuda é a maravilhosa interpretação de Donna Bae, sua transformação acontece como num conto de fadas, seus olhos diante ao mundo sempre estão arregalados e curiosos. Os efeitos especiais são simples e naturais, basicamente são jogos de câmera e maquiagem. É bom se apegar aos detalhes e nos diálogos que Nozomi estabelece com outros personagens, eles vão crescendo aos poucos e ganhando forma.

Nozomi ao final das contas se torna mais humana do que a maioria das pessoas, e inclusive percebe que ter um coração não é nada fácil. Numa das cenas ela encontra o lugar de onde veio e conversa com seu criador. Uma outra cena lindíssima é quando se encontra com um idoso solitário que passa todos os dias sentado no banco do parque. A conversa entre eles é magnífica e chega a ser filosófica. O velho diz: "Diga, conhece um inseto chamado efêmera? A efêmera morre um ou dois dias após dar à luz. Seu corpo é vazio. Ao invés de estômago ou intestino é apenas preenchido por ovos. É uma criatura que nasce apenas visando a procriação. Humanos não são muito diferentes."
Nozomi entende que pode haver outros como ela, bonecas que se transformaram, diariamente vê uma trabalhadora com uma meia que se assemelha a "cicatriz" que tampa todos os dias, e até lhe dá a maquiagem que usa, a mulher acha que esse gesto é por causa de sua aparência, pois está obcecada com a possível demissão no trabalho por uma moça mais nova.
Essa interação com outros personagens dá abertura para vários questionamentos, como solidão, individualismo, compulsão, e valores que se tornaram verdades absolutas e que as pessoas incansavelmente buscam, o padrão de beleza, por exemplo, ou o ato de consumir sem necessidade.

"Boneca Inflável" é um ótimo filme, traz uma importante mensagem de forma lírica e fantasiosa, é triste e doce ao mesmo tempo. As cenas iniciais principalmente tem uma aura de inocência, Nozomi ao se transformar e sentir a vontade de sair, começa a imitar os gestos das pessoas, como andar sempre apressada. Ela observa e absorve um pouco de cada um, aprende e se insere nos moldes da sociedade. Tudo isso para descobrir que todos assim como ela, são esvaziados. O sentido de humanidade está perdendo-se, uma vez que os vínculos estão se tornando mais frouxos e efêmeros.
É filme para se pensar nos valores que ditam as regras da sociedade, valores que só servem para nos deixar insatisfeitos e solitários. De vez em quando é preciso se inflar de vida para que as possibilidades apareçam e enxerguemos as belezas cotidianas.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive)

"Only Lovers Left Alive" de Jim Jarmusch retrata a história de um casal de vampiros cansados da sociedade onde vivem. Indo contra a maré que exalta a imortalidade, Jarmusch prefere mostrar a melancolia e o tédio que permeia o dia a dia deles. A imortalidade não é tão sedutora se tudo de importante já foi visto e vivido.
Adam (Tom Hiddleston) é muito quieto e pensa demais nas mudanças que ocorreram durante os séculos, em todos os seus diálogos existe uma crítica para o modo que os humanos, denominados como "zumbis" por ele, vivem. Eve faz um contraponto a figura de seu amado, enquanto ele veste preto e vive amargurado por sua condição, Eve (Tilda Swinton) é uma figura clara que esbanja desejos e vontades. Ambos são muito intelectualizados. No início estão afastados, morando em locais diferentes do mundo, mas os opostos quanto mais longe, mais fracos se tornam, portanto não demora para que Eve vá ao encontro de Adam.
Conseguir se alimentar se tornou algo perigoso, já não se pode sair atacando as pessoas no meio da rua como no século XV, é preciso ficar escondido. Além de que eles são suscetíveis às impurezas do sangue, como doenças e drogas. Em certo momento surge a irmã de Eve, interpretada por Mia Wasikowska, que parece ter instintos mais primitivos e intenções duvidosas. Mas o casal é muito forte, os dois juntos construíram algo incapaz de se quebrar. De fato, é muito poético, o sentimento é a mesma de ler aqueles romances carregados de melancolia, a sensação é de saudosismo por uma época em que tudo parecia mais profundo.
O filme faz muitas referências culturais, desde Schubert a Lord Byron, além dos nomes dos personagens remeter aos primeiros moradores da Terra. O melhor amigo de Eve, interpretado por John Hurt, é o vampiro Marlowe. Christopher Marlowe foi um poeta e dramaturgo que morreu em circunstâncias misteriosas no século XVII. Também há referências atuais e do cenário underground, como Jack White. Todas essas referências fazem com que o filme se torne delicioso para o espectador. E por falar em delicioso, as cenas em que eles ingerem o sangue é as das mais bonitas, é servido em belas taças ou até mesmo em forma de sorvete.

O clima é dark, o ritmo lento, assim como deve ser a vida de um vampiro. A crise existencial de Adam é a mesma de várias pessoas que se sentem à margem da sociedade atual, que cada vez mais está carente de cultura e afogada por um meio vazio e sem sentido, tentar buscar respostas para tantas coisas que acontecem no mundo hoje em dia é impossível.
O não encaixe de Adam, o faz vangloriar mortos. Em vários momentos ele reclama com o que os "zumbis" são capazes de fazer, a contaminação da água por exemplo é citada, e o como ninguém está nem aí pra isso. Adam tem o espirito de poeta na mais plena depressão. Eve tem um otimismo sutil que fascina e gera momentos interessantes e engraçados ao filme.
É uma obra sofisticada e muito atraente, a trilha sonora ajuda bastante na composição dos personagens, e chega a nos embriagar. 

Há quem diga que os filmes de Jim Jarmusch sejam tediosos e cults demais, não há reviravoltas em suas histórias e o silêncio é bem trabalhado. A decadência é algo que atrai o diretor.
"Only Lovers Left Alive" retrata o tédio vivido pelo casal e a absorção que fazem com a arte ao passar dos séculos, também recordam episódios caóticos da humanidade, como a peste negra.
É um filme de vampiros que diz muito sobre nós humanos, do quanto estamos caminhando para um vazio infindável, uma vida automática, carente de cultura e desprovida de sensações.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Emprego (El Empleo)

"El Empleo" é um curta muito inteligente e exemplifica de maneira simples mas eficaz o sistema atual: A "coisificação" do ser humano na sociedade em função do emprego.
Acompanhamos um dia de trabalho de um homem. Em seu mundo, objetos e pessoas não possuem diferenças. Dirigido por Santiago 'Bou' Grasso e roteiro desenvolvido por Patrício Plaza, o curta arrematou mais de 100 prêmios mundo afora.
Com menos de 7 minutos consegue passar a crítica de que as pessoas cada vez mais perdem a identidade e deixam de fazer coisas que gostam para simplesmente servir, são nada mais do que uma peça de quebra-cabeça. Usamos e somos usados o tempo todo, e ao final resta somente infelicidade ou indiferença. A ideia é genial e dá aquela sacudida no comodismo nosso de cada dia.
Por mais bizarra que pareça a situação, a ordem social está mantida, mas é uma realidade ilusória, onde tudo parece estar no lugar e todos têm suas pequenas fatias do bolo. Os trabalhadores precisam produzir, produzir, caso contrário não servem, é o valor medido pelo que se tem e produz, ao invés do que se é. 

O rosto dos personagens representam bem o cansaço e o vazio atual, pessoas seguindo suas rotinas, com seus horários, afazeres, e nada mais. Cada um com sua função. O início mostra o homem se levantando, acendendo um abajur, que é uma pessoa, tomando café da manhã, onde cadeiras, mesa também são pessoas, assim como o meio de transporte, semáforos, dentre tantas outras coisas. O que mais impressiona é o semblante melancólico, que nos faz ficar na dúvida, se é infelicidade ou indiferença, além de reavaliar o que significa trabalho. Será que o trabalho realmente dignifica o Homem?

São minutos que valem a pena, uma verdadeira obra crítica e reflexiva! Deem atenção aos créditos finais, está sob forma silenciosa, porém exclamativa.

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