sexta-feira, 28 de março de 2014

O Capital (Le Capital)

"O Capital" (2012) é dirigido pelo cineasta grego-francês Costa-Gavras (O Corte - 2005), especialista em filmes com teor político. O capitalismo é selvagem e beneficia somente os ricos, no filme vemos essa realidade, e sobretudo a respeito dos bancos que em nome do lucro agem de maneiras antiéticas.
A história segue Marc Tourneil (Gad Elmaleh), que faz qualquer jogo para assegurar sua posição como presidente de um banco francês, cargo que lhe foi dado temporariamente depois que seu antecessor é afastado devido a um tratamento médico. Digladiando-se com executivos norte-americanos, instituições financeiras japonesas e colegas que não veem a hora de roubar seu cargo, Tourneil aproveita as horas vagas para seduzir e ser seduzido pela modelo Nassim (Liya Kebede).
É com muita ironia e cinismo que a história se desenrola, Marc por vezes confidencia detalhes olhando para a câmera, ele exemplifica bem o perfil de magnata que é movido a dinheiro e que a qualquer momento está disposto em arquitetar meios para lucrar, uma das tantas jogadas que aparece no filme é a inspirada na reforma de Mao Tsé-Tung, quando Marc organiza a demissão em massa dos funcionários das filiais do banco ao redor do mundo, o bônus por cada demissão gera um aumento significativo nas ações, ou seja, suas contas nos paraísos fiscais engordam. Parte do banco Phenix caiu nas mãos de um grupo de investimentos estadunidense e lá as regras são outras. Liderado por Dittmar Rigule (Gabriel Byrne), que exige medidas gerenciais das quais não cabem ao modelo europeu. Na hora das transações financeiras os rivais se tornam aliados, então Marc faz um acordo, justamente com o cara que queria derrubá-lo e promove uma cilada para os americanos.
A interpretação de Gad Elmaleh é a grande sacada, já que o personagem pede frieza, muita ambição e inescrupulosidade, por vezes a esposa dele pergunta para quê necessita de tanto dinheiro, pois ela já era rica de berço e ele antes de ser presidente tinha um cargo de confiança, Marc diz que é para ser respeitado e ter poder. A ambição, o cinismo, e principalmente o poder gerado pela posse do capital é algo afrodisíaco.

A obsessão que Marc sente pela modelo Nassim nos deixa confusos, não sabemos se ela faz parte de alguma armadilha, ele fica praticamente cego pelo simples desejo de possuí-la. Também tenta se aproximar da economista workaholic Maud (Céline Sallette), muito inteligente, evidentemente ética e disposta a desvendar os mecanismos. Isso a faz ficar por fora, e ninguém a ouve.
A lógica é a do jogo, desde o início quando foi escolhido como presidente temporário, Marc imaginou que aquilo seria uma estratégia, mas ele foi mais a frente e mergulhou para poder tirar proveito de tudo. A ascensão foi rápida e logo começaram as intrigas dos membros do conselho administrativo. De Suze (Bernard Lecoq) é o cara que quer derrubá-lo, mas Marc já sabia disso, aliás ele sabe muito sobre todos, pois contratou um investigador, Marc rouba, mas também é roubado, ele ascende financeiramente e decai moralmente.
Ao final do filme Marc diz: "Eu sou o Robin Hood moderno, roubo dos pobres para dar aos ricos."

É impossível não se interessar pelo todo, por mais que trate de um assunto que as pessoas não compreendam bem, eu mesma não entendo bulhufas como é que funciona o sistema financeiro e certos jogos políticos. Sou leiga e inocente neste aspecto, mas o básico todos deveriam saber, que os grandes enganam e sugam dos mais pobres.
"O Capital" segue na linha do suspense, é incisivo, tenso e coloca nos diálogos pontos extremamente importantes. Costa-Gavras é mestre na arte de fazer cinema com conteúdo político, para quem não tem paciência com este tipo de filme é válido conhecer sua filmografia, ela não é didática ou panfletária, mas faz o que é necessário, exibir a realidade do sistema de forma fria e atual.

"Dizem que o dinheiro é um instrumento. Estão errados. O dinheiro é o amo. Quanto melhor o serve, melhor ele te trata."

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Pequena Loja de Suicídios (Le Magasin des Suicides)

"A Pequena Loja de Suicídios" (2012) é uma animação francesa dirigida por Patrice Laconte. Baseado no livro homônimo do escritor francês Jean Teulé, o filme é uma comédia musical de humor negro. Sim, tem aquelas musiquinhas chatas! Apesar de algumas coisas irritantes ainda acho muito válido vê-lo. O conceito de que animação é para criança já se perdeu faz tempo, o maior exemplo é "Persepolis" (2007). "A Pequena Loja de Suicídios" é só uma amostra de uma boa animação feita para o mundo adulto.
Em uma cidade cinza imersa em depressão e desesperanças, uma família ganha a vida vendendo artigos para ajudar pessoas a cometerem suicídio. Entretanto, os negócios enfrentam problemas quando o filho caçula decide mudar de uma vez por todas essa realidade. O cenário é imensamente decadente, as pessoas não têm esperanças de um futuro, ninguém sabe mais sorrir, a crise econômica assola e todos os valores estão perdidos. A única alternativa é o suicídio, porém é proibido em via pública, aquele que o fizer será multado, os familiares ficam com o encargo de pagar a dívida. Tendo o suicídio como o único caminho, muitas pessoas procuram a loja especializada em artigos para tal, como cordas, venenos, armas e muitas outras coisas.
"Morte ou reembolso" é o lema da família Tuvache, administradores da loja, Mishima é o patriarca, Lucrèce, a esposa, Marilyn e Vincent, os filhos, todos obcecados pela morte. Após o nascimento do novo membro da família, Alan, as coisas vão tomando outro rumo e novas percepções se abrem. Ele demonstra sentimentos opostos, como alegria e amor. Os familiares se irritam com toda a felicidade que esbanja, e temem perder a freguesia. Alan arma várias travessuras com a intenção de apresentar às pessoas que a vida não pode ser levada tão a sério. Ele tenta de todas as formas mostrar que o amor pode salvá-las.
O fator autoestima é bem delineado na personagem Marilyn, ela se sente gorda e feia, portanto deseja se suicidar, mas não pode por fazer parte da família Tuvache e ser herdeira da loja, o que a deixa péssima. Alan tenta ajudá-la a se enxergar e gostar de si mesma, a cena em que ela dança com o lenço é o começo de uma grande mudança.
É inevitável não lembrar de Tim Burton, a aura mórbida do filme lembra muito. Os diálogos politicamente incorretos são criativos, inteligentes e contém um humor ácido. A crítica é fantástica. O mundo caminha a passos rápidos para o pessimismo e a desilusão. Nada mais parece funcionar, e as relações humanas estão distantes e frias. Tudo virou uma espécie de mercadoria com estranhas manobras para atrair mais e mais consumidores.


O roteiro trabalha bem o cinismo, os personagens são os esteriótipos perfeitos dos vendedores que fazem de tudo para vender o produto, não economizam em slogans, propagandas e grandes variedades. Tudo de "melhor" para o cliente. Algo que faz com que o desejo de compra se torne necessário.
Tudo isso é realmente interessante, mas o que incomoda é o fim otimista demais, a mudança repentina de tristeza para a alegria exacerbada deu características de mensagem de auto-ajuda, faltou um pouco de delicadeza nesse processo. O musical é exagerado e forçado. Perde-se em argumento e ganha-se em soluções fáceis. Esses pontos mesmo que desnecessários não fazem com que a crítica se perca, porém desaponta o espectador.
"A Pequena Loja de Suicídios" é um filme que passeia bem pelo humor negro e que deixa uma bela lição de moral ao final. É óbvia, mas é sempre válido lembrar que para curar os males uma boa dose de amor basta!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Alpes (Alpeis)

"Alpes" (2011) do diretor Yorgos Lanthimos (Dente Canino - 2009) é um filme fora do comum, excêntrico mas hiper interessante, como sempre ele insere um tema forte e passa a mensagem de uma maneira estranha. Lanthimos entrou para minha lista de diretores geniais, ao lado de Lars Von Trier e Michael Haneke. Ele é muito criativo na elaboração e no desenvolvimento de seus filmes.
A história é sobre um grupo de pessoas que se encontram regularmente em um ginásio esportivo para discutirem e ensaiarem, denominados como Alpes, cada um escolhe o nome de uma montanha, o nome do grupo é porque cada montanha é insubstituível, mas muito semelhantes, de forma que a substituição de uma por outra se torna imperceptível, eles são substitutos de pessoas que faleceram, muitos os contratam para preencher o vazio que fica após perder um ente querido. A enfermeira vivida pela ótima Aggeliki Papoulia é o foco do filme, ela fica obcecada por uma jovem tenista que sofre um acidente, logo entra pro grupo com o codinome Monte Rosa, mas quando a menina morre não conta a eles, pois uma outra estava escalada para substituí-la. Ela vai por conta própria se oferecer à família, então recebe a missão de interpretar a jovem para os pais que sofrem pela perda. Com o tempo ela acaba se confundindo e as personalidades se misturam, talvez a solidão que sente seja preenchida pelo que faz, se apega naquelas pessoas, o que a fará ter grandes problemas no grupo, e consequentemente ser expulsa. Desesperada não sabe como agir diante a realidade que a cerca.
É complicado se habituar com a forma que o filme se desenrola, mas quando nossa ficha cai é impressionante a densidade que está contida ali. A identidade é a grande questão, os personagens são carentes e têm características bem peculiares. Não dá para negar as semelhanças com os personagens de "Dente Canino", até a forma de andar da personagem central nos remete a ele.
O início do filme é muito bonito, uma ginasta executa com destreza a coreografia, são movimentos precisos, porém ela deseja uma música mais pop e faz o pedido ao treinador, ele nega e diz que não está preparada para algo assim, é uma rigidez que se explica mais ao longo do filme. Eles treinam as personalidades dos falecidos, absorvem trejeitos, gostos, frases, costumes, é uma preparação para que a família realmente ache que a pessoa continua entre eles. Veja o absurdo disso tudo, quem em sã consciência substituiria um ente querido? Eles usam a desculpa que é para amenizar a dor, mas a verdade é que ninguém está afim de sofrer, desejam preencher egoisticamente o buraco que existe dentro deles. Não admitem o período do luto, é como se a pessoa que morreu tivesse culpa pelo sofrimento que eles irão passar, e então contratam os substitutos com o intuito de neutralizar a dor.

O cinema de Lanthimos é autoral, tem seu jeito próprio, consegue atingir um público diferenciado e seleto, nem todos são capazes de se habituar ao seu estilo, sempre há questões morais envolvidas, porém a estranheza da narrativa faz com que afastem os espectadores. Chega um ponto do filme que a interpretação domina, a realidade se dissipa, ninguém tem identidade própria. A ginasta parece encenar para seu treinador, e será que o pai da enfermeira é realmente seu pai? Essas questões vão dando um nó na nossa cabeça.
Muitos desejam ser outros, viver uma vida que não é sua, a sociedade traz essa insatisfação pessoal, absorvemos influências externas o tempo todo e desse modo fica difícil saber o que é inerente ao nosso ser. Se for analisar friamente interpretamos no dia a dia, somos pessoas diferentes dependendo de quem está ao nosso lado. Os comportamentos mudam, tudo muda, e isso sem ao menos percebermos. Essa confusão acontece no filme, a personagem Monte Rosa ao ser afastada por quebrar as regras se sente perdida e angustiada, não sabe o que fazer com sua vida, desesperada ainda tenta adentrar na casa dos pais da tenista, mas é expulsa. Ela se habituou a não ser ela mesma.
Interessante quando os filmes conseguem abranger uma amplidão de reflexões, dá para analisar diversos aspectos da nossa sociedade diante deste longa. É considerado bizarro, mas há diversas coisas no nosso cotidiano que são estranhas, só que por serem executadas pela maioria se tornam normais.

O grande ponto é a carência e o egoísmo. As pessoas têm pressa em preencher o vazio, e principalmente por medo do sofrimento substituem, no filme por pessoas, mas na realidade há vários métodos de substituição.
Yorgos Lanthimos faz parte do cinema grego contemporâneo, cada vez mais os títulos são ousados e de uma técnica impecável, como os recentes: "O Garoto que Come Alpiste" - 2012 de Ektoras Lygizos e "Miss Violence" - 2013 de Alexandros Avranas. É a prova de que a estranheza não está só em Lanthimos, mas sim no cinema grego, e isso é uma grande qualidade. Assistir a estes filmes é um exercício maravilhoso que nos dá a chance de absorver o máximo da história.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Eu Sou Um Cyborg, Mas Tudo Bem (Ssa-i-bo-geu-ji-man-gwen-chan-a)

"Eu Sou um Cyborg, Mas Tudo Bem" (2006) de Park Chan-wook é uma comédia romântica incrivelmente original. É necessário ter um certo desprendimento para poder curti-lo. O longa conta a história de dois pacientes de um hospital psiquiátrico que se apaixonam. Cha Young-goon foi criada pela avó que sofria de esquizofrenia e que pensava ser um rato, a menina cresce apresentando algumas excentricidades, até que tenta o suicídio na fábrica onde trabalha, Young-goon segue uma voz que somente ela escuta, corta os punhos, coloca um fio em cada e liga na rede elétrica. Enquanto está caída no chão o restante continua trabalhando. Após esse fato é hospitalizada em uma clínica psiquiátrica e lá conhece outros internos tão peculiares quanto ela, um deles é Park Il-sun, campeão de ping pong que usa uma máscara de coelho e tem o hábito de roubar as habilidades dos outros pacientes.
Young-goon sofre por ser uma máquina sem manual de instruções e não conhecer o propósito de sua vida, ao contrário de outras máquinas com funções determinadas, como a de refrigerante, por exemplo. A garota não desgruda da dentadura da sua avó, e crê que lamber pilhas e baterias faz com que mantenha sua energia. Comer nem pensar, pois na mente dela isso a danificará. Young-goon não sabe qual o propósito de sua existência, ela acredita que sua avó tem a resposta e conversando com a luz que fica em cima de sua cama descobre que precisa matar todos os enfermeiros do hospital para poder fugir e devolver a dentadura de sua avó, e dessa forma descobrir a missão de sua vida.
A amizade entre Cha Young-goon e Park Il-sun acontece sutilmente, e logo ele se afeiçoa e tenta ajudá-la, principalmente tentando fazê-la comer. O jovem tem uma imaginação muito fértil e inventa uma cápsula (Megatron) que transforma arroz em energia, ele a convence que dará certo e instala em suas costas.
Ao mesmo tempo que o filme soa estranho, ele carrega uma doçura. O personagem Park Il-sun faz de tudo para ajudar Young-goon, e é aí que está todo o encanto do filme. Há cenas esquisitíssimas, como quando Young-goon se transforma numa metralhadora e sai matando todos os enfermeiros do sanatório. É para fugir mesmo dos clichês!
O romance que nasce entre os jovens acontece da forma mais pura e humana possível. O filme em todos os aspectos se torna interessante, desde a fotografia belíssima, os personagens excêntricos, a trilha sonora, os diálogos e as cenas que mesclam realidade e imaginação. Essa mistura criativa e peculiar faz desta obra algo para se ver com um carinho especial. Por detrás da bizarrice, há solidão, medos, traumas, conflitos internos, e sobretudo, amor. Todos têm sua loucura particular, mas há diversas maneiras de ajudar alguém, basta entender e com certeza teremos algo para compartilhar.

Park Chan-wook é cultuado pela "Trilogia da Vingança", mas é válido conhecer seus outros filmes, como "Sede de Sangue", que trata de um tema tão batido, como o vampirismo e o transforma numa obra original e reflexiva.
"Eu Sou um Cyborg, Mas Tudo Bem" é de uma delicadeza sem tamanho, chega a ter um tom lúdico, mas também é um romance leve e diferenciado com pitadas de um humor irônico.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A Cor do Paraíso (Rang-E Khoda)

Majid Majidi é um diretor de extrema sensibilidade, para quem ainda não embarcou nas sutilezas de suas histórias indico além de "A Cor do Paraíso" (1999), "Os Filhos do Paraíso" (1997), "Baran" (2001) e "A Canção dos Pardais" (2008). São filmes que retratam a simplicidade, detalhes da vida, coisas que realmente valem a pena. O cinema de Majid Majidi educa e nos dá a oportunidade de refletir o quanto damos valor para superficialidades. É uma singela poesia sobre pequenas grandes coisas.
Mohammad é um jovem estudante de oito anos que frequenta uma escola para cegos em Teerã. Sua impossibilidade de ver o mundo reforça mais ainda sua habilidade em sentir suas poderosas forças. Depois de um ano, ele volta à sua terra natal, um vilarejo no norte montanhoso do Irã, junto com seu pai, um carvoeiro viúvo. Ao chegar no vilarejo vemos a alegria de encontrar a avó e as irmãs. São muitos sorrisos e toques.
O pai deseja recomeçar a vida, quer se casar, e para isso necessita se apresentar a família de sua pretendida com todos os costumes e rituais da religião. Mohammad é um empecilho na vida deste homem, mas não o julgamos, ele tem os seus motivos e a todo instante vemos o desespero e a tristeza nos seus olhos; em contrapartida, o garoto é muito amado e querido pela avó e as irmãs. Muito inteligente ele possui uma grande sensibilidade, a cegueira o fez enxergar muito mais do que podemos imaginar. O pai não quer que ele seja exposto, é um homem rude que já viveu muitos apuros, agora deseja ser feliz, constituir uma nova família, tem medo do seu futuro e seu egoísmo chega a ser compreensível. São dilemas de um ser humano comum, ele não é totalmente mau e nem bom. Um dia Mohammad vai escondido à escola com suas irmãs, inclusive mostra mais conhecimento e desenvolvimento de leitura que os outros. Seu pai descobre e antes que todos saibam do filho cego, o leva para ser aprendiz de carpinteiro com a desculpa de que ele precisa aprender uma profissão. É claro, ele estava se livrando do menino, mas a vida a todo momento surpreende e reviravoltas acontecem para que pensemos na situação e aprendamos com tais circunstâncias. Depois da partida do garoto a avó ficou muito triste e doente, e não demora para que faleça, essa morte faz com que a família da noiva desista do casamento, pois foi considerado mau agouro.
O longa tem cenas dotadas de uma beleza imensurável, assim como os diálogos, um dos mais lindos é com o carpinteiro que o ensina, e que também é cego. É de cortar o coração. Mas, a maioria das cenas não precisam de falas, elas fluem calmamente e delicadamente.

Mergulhado em tristezas, culpas e desesperanças depois de tudo o que lhe sucedeu, o pai vai buscar o menino, no caminho de volta acontece um acidente na ponte, entre tantas tentativas de se livrar de seu filho ao fim ele resolve ir atrás, então se joga na correnteza a fim de salvá-lo, esses momentos finais são tensos e angustiantes. O que vem a seguir é de uma sutileza maior que tudo.
"A Cor do Paraíso" é uma história de complexidades humanas, pessoas normais que às vezes não conseguem ter uma visão mais sensibilizada da vida, assim como o pai de Mohammad, que não via no filho o quanto era especial. Emoldurado por uma linda fotografia, o filme é para aqueles que desejam acrescentar dentro de si valores simples, mas que fazem toda a diferença.

Muito premiado mundo afora, "A Cor do Paraíso" é impecável, os personagens, o vilarejo, as plantações, é tudo muito belo. É um filme singelo, mas com uma grande sabedoria.
Eis o momento mais emocionante do filme, Mohammad conversando com o carpinteiro sobre Deus: "Nosso professor diz que Deus ama os cegos porque nós não podemos ver. Mas eu disse para ele que se isto fosse verdade, Deus não nos faria cegos para que não pudéssemos ver. Ele então disse: 'Deus não é visível! Ele está em todo o lugar. Você pode sentir. Você pode vê-lo através de seus dedos'. Agora eu o procuro em todo o lugar até o dia em que minhas mãos possam tocar Ele, e então eu vou contar todos os segredos de meu coração."

sexta-feira, 7 de março de 2014

A Montanha Matterhorn (Matterhorn)

Escrito e dirigido pelo holandês Diederik Ebbinge o filme conta a história de Fred, um homem solitário, religioso e completamente metódico. O pequeno vilarejo em que vive parece se resumir a uma única rua que culmina em uma igreja. Fred é viúvo e não fala com seu filho Johan há muitos anos. O filme não nos dá informações de pronta, são pequenos detalhes, uma coisa aqui e outra ali que faz com que liguemos os pontos.
"Matterhorn" já começa em grande estilo com a seguinte frase de Bach: "Não é difícil. Tudo o que se tem de fazer é bater as teclas certas no momento certo", e logo segue com a ária também de Bach "Erbarme dich, mein Gott", que faz parte da "Paixão Segundo São Mateus". Resumindo grosseiramente a música é uma súplica imensamente sentida de um fiel arrependido. Essa música dita o tom do filme, a melancolia e a saudade de um passado. Fred ouve esta música cantada por seu filho aos oito anos de idade, a época que tudo parecia estar em seu devido lugar. A maneira que Fred encontrou para manter esse sentimento é não quebrando sua rotina ou suas manias.
É um filme diferenciado, a narrativa e o ritmo segue calmo, para as coisas se arranjarem existe o tempo certo, a evolução que o personagem sofre demonstra o quão surpreendente a vida pode ser. Fred segue seus dias milimetricamente iguais, espera religiosamente o horário das refeições, arruma os alimentos no prato e todos os seus gestos são comedidos e alinhados. Não há nada fora do lugar. Porém, a sua vida começa a mudar quando decide ajudar Théo, um homem perdido no mundo, e que mais parece uma criança. Ele é manipulável, e Fred consegue aos poucos inseri-lo no seu mundinho, de maneira que acostuma-se a figura estranha de Théo, então passa a morar lá e não demora para que os colegas da igreja venham questioná-lo.
É bizarro o desenrolar disso tudo, pois a intenção inicialmente de Fred era fazer uma boa ação, só que ele acaba utilizando-o para outros meios, vendo que Théo imita animais e com isso anima as crianças, cria uma espécie de espetáculo de circo para se apresentar em aniversários, onde ele narra e canta enquanto Théo imita cabras, galinhas e outros animais.

Fred tem a intenção de ir visitar a montanha Matterhorn, lugar repleto de memórias e significados para ele, e para ir guarda o dinheiro de suas apresentações. Também quer levar Théo, mas acaba descobrindo que aquele homem tem um lar e que é daquele jeito devido a um grave acidente. O legal do filme é não colocar tudo explicitamente, ele faz com que pensemos nas circunstâncias da vida e no como tudo pode mudar de uma hora pra outra. Fred era feliz com sua família, mas com o tempo o filho tão querido demonstrou que possuía vida própria além daquela que o pai desejava para ele. Não suportando expulsa-o de casa, e logo depois sua mulher morre em um acidente. De repente se vê sozinho, cheio de manias em um mundo que se resume a ir somente à igreja.
O assunto homossexualidade aparece no filme de maneira tão sutil que nem percebemos, Fred tenta lidar com isso a partir do momento em que Théo entra na sua vida e todos ficam questionando sua sexualidade, chegando a pichar Sodoma e Gomorra na fachada de sua casa. A mudança interior de Fred acontece, e então surge um caminho para se livrar do peso que carrega em relação ao seu filho. Emocionante ao final quando os olhos do pai e filho se cruzam. Sensação de alívio que o fará seguir adiante.

A cena da imagem acima exemplifica muito bem a quebra que acontece na vida de Fred, enquanto todos do vilarejo estão indo à igreja, os dois seguem na contramão.
A história caminha de maneira leve e despretensiosa, são sentimentos fortes, como culpa, solidão, preconceito, convenções sociais e outras coisas mais, todas tratadas com muita sutileza. Apesar do tom aparentemente sério, o humor está inserido também de forma sutil, seja nas expressões faciais, nos gestuais, ou em situações e diálogos fora do comum.
É necessário se desprender de rótulos, convenções e supostas verdades que já não fazem mais sentido manter, além de que guardar mágoas e culpas só prejudica a nós mesmos. Quanto mais jogarmos para fora sentimentos ruins, mais abertos seremos e mais saídas enxergaremos. O ponto essencial do filme é: Há tempo para tudo nesta vida, até mesmo para subir uma montanha!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ela (Her)

"Her" de Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros - 2010) é um filme interessantíssimo e muito atual, todos deveriam assisti-lo, afinal quem hoje em dia não está conectado? Ele retrata a solidão e o amor em meio a toda essa tecnologia que nos rodeia. 
Em um futuro bem próximo Theodore (Joaquin Phoenix) trabalha escrevendo cartas de amor. Ele dita enquanto o computador as transforma em bilhetes manuscritos. Theodore é um cara melancólico, solitário, mas não chega a ser antissocial, sua personalidade é até cativante. Sua rotina se resume a trabalhar, aliás ele tem uma sensibilidade incrível na elaboração de suas cartas, raramente sai com alguns amigos, tenta alguns encontros, e joga videogame em seu apartamento, melhor dizendo, interage com o videogame. O filme retrata as facilidades que a tecnologia oferece, principalmente quando Theodore adquire um sistema operacional com inteligência artificial.
O OS se chama Samantha, a voz de Scarlett Johansson passa todas as emoções possíveis, é doce, sensual e tem um humor leve que encanta. Os diálogos entre eles são mais como bate-papos descontraídos, é como se ele estivesse conversando com uma pessoa ao seu lado. Essa personalidade humana de Samantha com mais os atributos de uma máquina faz com que Theodore se apaixone, essa relação vai se tornando forte dia a dia, e o que pode parecer estranho a princípio se torna numa coisa natural. Theodore não desgruda de seu celular e mostra tudo para Samantha, ela por sua vez se deslumbra com o mundo e consequentemente por sua própria evolução.
Theodore recebe uma injeção de ânimo, ele sorri diante as exclamações de Samantha. Isso me faz lembrar o quanto esquecemos de prestar atenção nas pequenas belezas que passam todos os dias em frente a nossos olhos. A rotina e o estresse não deixam que as vejamos, e assim nos tornamos pessoas chatas e tristes. A maioria se afunda em seu próprio mundo e mesmo que esteja rodeada de mais pessoas, não significa nada. É um vazio que não se preenche. Theodore parece preencher o seu vazio e amenizar a melancolia que sente ao se relacionar com seu OS, o seu passado, o casamento que vive a assombrar seus pensamentos vão se dissipando aos poucos, os momentos dele com sua ex-mulher (Rooney Mara) são mostrados em flashes como memórias soltas, é um lindo contraponto com o teor da história. Enquanto há contato físico, troca de olhares em seu passado, no futuro há somente distância e solidão.

Há o quesito perfeição, Samantha dá comodidade, não há questões banais envolvidas, é tudo muito prático e rápido, ela organiza, seleciona e sabe exatamente as preferências de Theodore. As facilidades que a tecnologia oferece é grande e isso faz com que cada vez nos mexamos menos, se o computador faz tudo, o que nos resta? Isso apesar de incrível emburrece as pessoas, não existe criatividade se tudo é feito para você.
"Her" é um filme que faz com que os pensamentos se expandam, há diversos aspectos para expor, como o conforto e a comodidade da tecnologia, e as relações que estão se tornando distantes, já não há o fator compreensão, se há algo que não te agrada na pessoa, simplesmente você a exclui, como se fosse numa rede social. Esquece que somos seres complexos, dotados de personalidades distintas. Outra coisa a se pensar é no quanto de informações captamos, não dá para guardar tudo que vemos na internet como Samantha, é tudo mastigado e momentâneo. E nas redes sociais todos estão preocupados em ter quantidade, mostrar o seu melhor, fingir, e isso tudo para quê? Essa é uma ilusão que destrói.
Theodore compartilha belos momentos com Samantha, diálogos, curiosidades, declarações e até sexo, a sua personalidade se desenvolve de maneira tão complexa quanto a de um humano e consequentemente ele se sente atraído. São cenas que contém uma leveza e serenidade, Joaquin Phoenix está magnífico e dá credibilidade a seu personagem, são emoções expostas através de seus lindos olhos.

A perfeição não existe, a plenitude está em se aceitar como se é, e não achar que existe uma felicidade permanente, a plenitude pode estar na tristeza, ou em qualquer outra emoção, é precisamente quando nos damos conta de si mesmos e aceitamos que assim deve ser. Errar faz parte, o maior medo das pessoas é a falha, os relacionamentos minguam porque você oferece algo que não existe, o tempo passa e não dá para sustentar uma mentira. A melhor coisa do mundo é compartilhar o que somos e o que pensamos com alguém que amamos. Isso é viver! Acredito que uma grande parte da humanidade desaprendeu e seguem como zumbis, assim acabam se escondendo em seus pequenos mundinhos virtuais. A imagem mais comum hoje em dia é de pessoas com a cabeça baixa mexendo em seus celulares, são casais, grupos de amigos, todos separados pela tecnologia. A vida virtual se tornou muito mais interessante. "Her" tem uma amplidão maravilhosa, gera pensamentos atrás de pensamentos sobre a sociedade atual e como ela lida com a tecnologia. 
A personagem de Amy Adams, amiga de Theodore que também se apega ao seu OS, diz que se apaixonar é uma coisa maluca, uma forma de insanidade aceita pelo meio, isso pode parecer filosofia barata, mas é bem por aí, nos apaixonamos por reflexos de nós mesmos, e o mais bizarro é que nos apaixonamos com num estalo, basta alguém reproduzir características semelhantes a nossa. 

Spike Jonze nos presenteia com uma história muito atual, cheia de nuances que mistura drama, romance, comédia e ficção científica. Joaquin Phoenix faz um personagem adorável, capaz de transmitir a realidade da situação apenas com seu semblante, é impressionante a naturalidade dele em dizer que namora um OS. É graças a ele que a voz de Scarlett Johansson está perfeita, pois ela se espelha nas reações e diálogos de Theodore.
"Às vezes acho que já senti tudo que deveria, e que, a partir de agora, não sentirei nada de novo, apenas versões menores do que já senti". Entre tantas frases do filme esta é uma das mais interessantes. A insatisfação é um outro sintoma da atualidade, essa rapidez com que tudo flui parece que nada que vier fará tanto sentido. 
É só assistindo para ter a exata noção do que o filme quer passar, são questões que permeiam a nossa vida e que assustam cada vez mais, é imensamente válido porque após assistido inúmeros pensamentos surgem, ele nos estimula a refletir sobre a solidão e o poder que a tecnologia exerce sobre nós. É um assunto muito abrangente, por isso, assista!

segunda-feira, 3 de março de 2014

The Broken Circle BreakDown (Alabama Monroe)

"Alabama Monroe" do belga Felix Van Groeningen é uma obra muito especial, um drama que mescla dor, música, vida, morte, e que ainda discorre por questionamentos religiosos. É um filme muito emocional.
O roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com o roteirista Carl Joos é baseado em uma peça de teatro, escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels. Didier (Jonah Heldenbergh) é músico de uma banda de bluegrass, música popular americana dos anos 40, é a raiz do country que valoriza o bandolim, o banjo, o violino, além dos vocais harmônicos, grande influência da música negra. Dentre os principais artistas está Bill Monroe, do qual Didier adora. Os EUA para Didier é o lugar perfeito, onde os sonhos podem ser realizados. Com um estilo cowboy, barba e cabelos compridos, mora num trailer dentro de um rancho em que herdou da família. A tatuadora Elise (Veerle Baetens) arrebata o coração deste homem, e não demora muito para que se casem. De início Didier ficou incomodado com a rapidez que tudo aconteceu, a gravidez de Elise o pegou de surpresa, mas ele acaba reformando a casa e o que vemos é uma linda família rodeada de bons amigos e música boa.
Com ótimos diálogos o filme não segue uma linha contínua, o que dá um grande diferencial e nos faz prestar mais atenção, e por conseguinte ficar mais envolvidos com a história. Tudo muda na vida desse casal quando a filha de seis anos, Maybelle, fica doente, muitos questionamentos surgem em relação a eles e a vida. As cenas no hospital são imensamente tristes, ter de lidar com uma doença tão ingrata na idade de Maybelle destrói qualquer um. A alternância de tempo faz com que amenize um pouco o drama.

A influência da cultura norte-americana é muito forte, tudo remete a isto, desde o cenário, o figurino, e claro, a trilha sonora. O estilo fragmentado permite que tudo o que está sendo apresentado tenha igual importância, em nenhum momento o romance ou a doença se sobressai mais que ou outro. Interessante porque a música country está associada ao conservadorismo e tem bastante fundo religioso, e Didier é completamente descrente. A cena em que a filha pega o pássaro morto e pergunta para onde ele vai, Didier se recusa a dar qualquer explicação que sirva de alento, pois irá contra a sua forma de pensar. Para ele depois da morte só existe a escuridão. Não há nada de "virou uma estrelinha". 
A desconstrução da ideia que ele faz dos EUA acontece quando assiste na TV que a religião barra as pesquisas das células tronco. Também há uma cena em que Bush faz um discurso sobre o terror do 11 de setembro, isto tudo culmina numa revolta muito grande após sua filha morrer, e ele despeja palavras encima de palavras num show para que todos ouçam que acreditar em religião é atraso de vida. Em dado momento Elise diz: "Ninguém pode ser tão feliz. A vida não é assim." Pois é, quando a vida parecer colorida demais pode apostar que algo ruim vai acontecer, perfeição não existe, a vida não dá respiro. Após a morte da filha os dois não conseguem mais se encontrar, e por mais que eles queiram as circunstâncias e os pensamentos díspares não deixam. 

Didier sabe que Elise acredita que Maybelle é o pássaro que visita a varanda de vez em quando, e depois de uma briga ela decide ir embora e então é aí que tudo se quebra de vez. Elise muda o nome para Alabama e seu controle emocional não sustenta os ataques descrentes de Didier. O filme não pende pro lado de que se deve crer em algo, mas a verdade é que as pessoas ficam frágeis quando perdem alguém, principalmente da forma como Elise perdeu Maybelle, acreditar é como uma necessidade, um acalento, uma forma de ter paz no coração. E o final nos mostra o quanto é perigoso destruir o meio de defesa das pessoas. É um filme triste que chega a doer, me surpreendeu imensamente, não esperava que teria tantos questionamentos embutidos. Além de que a trilha sonora é algo que soma bastante para que o filme não se torne tão trágico, ela emociona e dá força. A música vibra!

"Esta pequena estrela é, na verdade, um sol. Um sol que está muito, muito longe. Sua luz tem que viajar um longo caminho, por um longo tempo, para alcançar teus olhos. Então, é possível que essa pequena estrela já tenha desaparecido antes que a sua luz chegue aqui. É quando você vê algo que não está mais lá. Só que isso não importa, porque a luz dessa pequena estrela continua viajando para além dos seus olhos. Sempre mais. E essa pequena estrela vai existir para sempre. Para todo o sempre." Esse trecho em que Didier conversa com Maybelle no hospital é um dos mais lindos do filme. Há muito para se dizer sobre, cada cena, cada diálogo, mas assistam, pois é a melhor maneira de entender a dimensão deste excelente drama. 

sábado, 1 de março de 2014

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa)

Dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, "O Banheiro do Papa" (2007) é baseado em acontecimentos reais. Em maio de 1988, o Papa João Paulo II visita o Uruguai e a cidade de Melo, próxima a fronteira com o Brasil. O povo espera a visita de milhares de pessoas e decidem aproveitar para ganhar dinheiro, montando barracas de linguiça, chouriço, algodão, doce, torta frita, balões, etc. Beto, o personagem central é um contrabandista, viaja todos os dias com sua inseparável bicicleta ao Brasil a fim de comprar encomendas para as vendas e mercadinhos de sua cidade. Na esperança de conseguir algum dinheiro tem a brilhante ideia de construir um banheiro no quintal de sua casa, porque acredita piamente que virá muitas pessoas à cidade ver o Papa, e consumindo, com certeza terão vontade de ir ao banheiro.
Beto é o retrato de um homem trabalhador, que luta pelo sustento de sua família, a esperança salta de seus olhos. O filme cativa pela sua simplicidade, os personagens são reais. Não se trata de religião neste longa, a chegada do Papa é apenas um pano de fundo para mostrar os conflitos dos personagens, os percalços e toda a trajetória por uma vida melhor. O que acontece é o seguinte: O Papa vem à cidade, porém os visitantes não! A maioria são habitantes do Uruguai, e ninguém comprou nada, o banheiro de Beto ficou esperando seus visitantes. Um ponto a ser destacado deste filme é que faltava a privada do banheiro, e Beto literalmente correu para conseguir que desse tempo antes que as pessoas pudessem querer usá-lo, esse é o momento mais emocionante, ver aquele homem cansado fisicamente e psicologicamente de uma vida pobre e modesta. Os moradores sofreram muito com isso, sobraram comidas, bebidas e foram desperdiçadas ou doadas, foi uma tremenda falta de sorte, como avisa os créditos inciais. Uma calamidade econômica. A mídia contribuiu imensamente para esse desastre, dizendo que milhares de brasileiros visitariam a cidade de Melo, isso mostra o quão sensacionalista e mentirosa são os meios de comunicação.
Sonhos foram criados por conta disso, a filha de Beto tinha o desejo de se tornar radialista e com certeza o dinheiro iria ajudá-la. Tudo foi por água abaixo. "O Banheiro do Papa" se mostra um filme humanista, o Papa foi, falou algumas palavras, abençoou o local e se mandou, o povo percebeu que ele não pode fazer nada, quem faz são eles mesmos, todos os dias tentando melhorar suas vidas. O grande evento era uma oportunidade, em desespero ou pura ignorância, o povo se endividou ao invés de lucrar, mas o olhar otimista persiste e nos mostra que ideias sempre surgem, e a esperança está entranhada no ser humano, principalmente nos mais simples.

"O Banheiro do Papa" é um filme triste e feliz, que nos conta uma história simpática sobre um povo pobre que busca melhorar de vida como qualquer outro, acho que qualquer um veria a visita do Papa como um meio de ganhar dinheiro, mas quem adivinharia que não iria aparecer a quantidade de pessoas dita pela mídia? Por isso é que não se deve acreditar em tudo que aparece na televisão.
Um filme criativo que esbanja esperança, esperança de um cinema maravilhoso bem pertinho de nós. E Beto não se deu tão mal, ficou com um banheiro novinho!
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