terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Indo Para Casa (Luo Ye Gui Gen)

"Indo Para Casa" (2007) do chinês Zhang Yang (Banhos - 1999) é uma comédia de humor negro bem leve e que enfatiza valores, como amizade e lealdade, além das tradições.
A história segue Zhao (Benshan Zhao), um operário que decide levar o corpo do amigo que morre repentinamente numa mesa de bar de volta à sua terra natal, para que assim ele seja enterrado segundo as tradições do local. Sem dinheiro para transporta-lo da forma devida, tenta conduzi-lo até a cidadezinha, ele percorre quilômetros e mais quilômetros com seu amigo nas costas, no caminho passa por varias cidades do interior da China e acompanhamos diversas situações engraçadas e cheias de detalhes.
O título original dessa bela obra resume tudo, "Luo Ye Gui Gen", é um provérbio chinês que significa: "a folha que cai, retorna às suas raízes". O filme é uma espécie de road movie, todo o desenrolar é marcado por humor mesmo tratando de um assunto difícil, no início quando percebe que seu amigo está morto Zhao o coloca no ônibus e diz para todos que ele está dormindo, mas quando assaltantes invadem expõe sua situação e por incrível que pareça comove os bandidos, que até deixam todo o dinheiro que tinham roubado, é um diálogo cômico, mas revela o quão digno é esse homem que carrega seu amigo morto nas costas; os passageiros após saberem não o querem mais lá e é deixado na estrada. Ele tenta pegar carona, mas não consegue, aí ele finge que o amigo está passando mal, e assim chega numa cidade e logo se hospeda num local de caminhoneiros e tenta mais uma vez uma carona, mas o único que ia para o mesmo caminho se nega, enquanto isso todos estão curiosos com o amigo. Por Zhao ser um alguém bom de coração ele cativa as pessoas e faz com que elas falem, o cara que não queria levá-lo acaba dando uma carona e até desabafa.
São belos diálogos, belas paisagens, esse filme é aconchegante. São episódios únicos que trazem mensagens de grande teor humano, também evidencia a cultura e tradições de cada lugar retratado. Observamos durante seu trajeto a falta de solidariedade e a ignorância, mas o amor se sobrepõe de forma sublime. É um filme para guardar na memória e ser visto mais vezes durante a vida, principalmente para que lembremos de certos valores que estão se perdendo. É uma obra linda, que mostra um personagem raro, de essência pura.

"Indo Para Casa" tem cenas memoráveis, como quando Zhao decide cometer suicido e experimenta a cova e acaba gostando de estar lá, apesar que desiste de morrer, ou quando acomoda seu amigo em um grande pneu, ou veste ele de espantalho para ir roubar comida num velório do qual conversa com o "morto". Também quando conhece uma mulher que doa seu sangue para conseguir dinheiro e Zhao promete a ela que voltará depois de cumprir sua missão. Mas uma das mais bonitas se dá quando Zhao em cima de um caminhão juntamente com seu amigo morto contempla a paisagem e diz estar muito feliz, e recita: "Se minha pátria fosse uma estrada, eu seria um carro dirigindo contente por ela. Se minha pátria fosse uma árvore, eu seria uma folhinha balançando alegremente em seu tronco."

O diretor Zhang Yang consegue mesclar perfeitamente drama e comédia, tudo está na medida exata se focando em detalhes muito significativos. O filme reaviva em nós o sentimento de compaixão e solidariedade. Assim como Zhao também aprendemos, e essa lição é daquelas que jamais esqueceremos. Assistir "Indo Para Casa" é um bem que fazemos a nós mesmos!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Tango With Lions

"Tango With Lions" é uma banda grega formada em 2007 por Katerina Papachristou. Atualmente fazem parte do grupo Kat (voz, piano, guitarra, harpa e baixo), Yannos (guitarras e vocais), Stravos (cello e bandolim), Nikos V (bateria, percussão e vocais) e Jimmy Estrela (trombone). O álbum de estreia "Verba Time" (2010), foi bem recebido e o single "In a Bar" obteve grande sucesso. O segundo álbum "A Long Walk" foi lançado em 2013.
O gênero é um folk rock hipnótico e as músicas carregam uma certa melancolia, mas sem soar tristes, elas nos ativam a imaginação e por isso se fazem uma ótima companhia. É pra divagar sem medo. O mistério é algo que permeia muitas das canções, e ao mesmo tempo que soa particular e característico é também muito fácil de gostar. É deliciosamente encantador o vocal feminino.
"Tango With Lions" é para aqueles momentos em que queira relaxar apenas com você mesmo. Encontrei a banda já algum tempo e só agora senti a necessidade de compartilhar, pois é um som que é necessário se ouvir em pequenas doses, música por música, sem pressa. É ir se fascinando aos poucos, como uma paixão inesperada. O nome da banda traz um aspecto sonhador e letras que inevitavelmente te levam.

"Verba Time" (2010)
"Verba Time" é um álbum de estilo acústico, muito atmosférico, canções que revelam segredos em um vocal sedutor, são composições pessoais e emocionais. A arte que enfeita a capa foi inspirada pela pintura de Nick Gentry. O álbum conta com doze faixas: "House On Fire", "In A Bar", "Pilgrim Said", "Policeman", "On The Floor", "Right From The Start", "Black", "Red And Yellow Rooms", "Underskin", "Sad Big Blue Eyes", "Angel's Arms", e "Prayers".

O cheiro de madeira, a pose, a piada.


"A Long Walk" (2013)
"A Long Walk" alterna com momentos mais otimistas, porém a maioria das melodias contém uma sombria beleza, o piano e a guitarra são bem marcantes. Dramático e quente, o álbum conta com dez canções, sendo elas: "Slippery Roads", "A Long Walk", "News", "Rainy Fall", "Kite", "People Stare", "Obituary", "Where Heroes Die", "Over The Neon Lights", e "Playground".

Porque você não vem comigo esta noite?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Segredo das Águas / Still the Water / Futatsume no Mado

"Still the Water" (2014) de Naomi Kawase (A Floresta dos Lamentos - 2007) é um filme que foca na força e no poder que a natureza exerce sobre nós, o ciclo da vida é exposto de forma delicada e sossegada. A natureza apresenta suas diversas formas, calma como uma leve brisa a acariciar nosso rosto, ou tempestuosa destruindo tudo que encontra pela frente, além do mistério que a envolve.
Na ilha Amani-Oshima, na costa sub-tropical do japão, há um povoado que é repleto de tradições e que encara a morte com alegria, como um fim de uma vida plena e à integração com a natureza. Eles creem que um deus habita em cada árvore, cada pedra e cada planta. Numa noite de verão, Kaito (Nijirô Murakami) descobre o corpo de um homem no mar, e sua amiga Kyoko (Jun Yoshinaga) vai ajudá-lo a desvendar este mistério. Juntos, aprendem a ser adultos e descobrem os ciclos da vida, da morte e do amor.
Kaito é um adolescente de 16 anos que não tem uma relação direta com a natureza, ele é quieto e não se dá bem com a mãe, seus pais se separaram e foi morar com sua mãe na ilha, é um garoto vindo de uma cidade efervescente e que pouco entende da vida. Certa noite ele encontra um corpo no mar e essa imagem ficará registrada em sua memória, Kyoko ama o mar e nada frequentemente, ela ajuda seu amigo a tentar superar o medo que sente das águas. Em dado momento Kaito diz: "O mar está vivo" e Kyoko responde: "Mas eu também estou", isso representa que para ela não há distinção. Os dois ao longo vão descobrindo o amor e o significado de se tornar adulto. É uma relação que vai crescendo aos poucos e que delineia os medos e os desejos.
Kyoko é apaixonada por seu amigo, já ele não demonstra e carrega um trauma por causa da separação dos pais, não consegue enxergar o vazio que existe na sua mãe e os motivos dela sair com vários homens. Isa, a mãe de Kyoko, é uma xamã do local e está gravemente doente, a morte logo chegará para ela, a dificuldade da menina em ter de lidar com a morte da mãe a assusta, então procura ajuda espiritual com um velho xamã do vilarejo, e este lhe dá conselhos preciosos, como ao dizer que a presença de sua mãe permanecerá acompanhando-a para sempre independente de qualquer coisa.

O filme é recheado de cenas espetaculares, a natureza é a grande personagem, percebemos o quão bonito é quando aceitamos o fato de que nada é eterno, não podemos lutar contra o ciclo da vida, é aquela velha citação: "O velho precisa morrer, para que o novo possa nascer", faz parte da evolução. Numa das cenas finais quando o pai de Kyoko conversa com Kaito a fim de que entenda as circunstâncias de sua vida, compartilha esse pensamento: "Quando surfamos, temos que lidar com o último estágio de uma onda que se originou longe da costa. Ao unir-nos com essa onda, por ser seu último instante, ela carrega uma energia incrivelmente poderosa. Então, quando você sente essa força com todo seu corpo, por um momento, ele se transforma em nada. Nada, ou vazio. De qualquer forma, há a sensação de que tudo, incluindo nós mesmos, permanecemos totalmente serenos". Ele ainda completa dizendo que Kaito precisa ser mais humilde diante a natureza, e que é inútil resistir.
O pai de Kyoko é um personagem que fascina pela sua serenidade ao lidar com tudo no local, o seu amor é transmitido de maneira natural e de tão belas que são suas atitudes chega a nos emocionar. Várias cenas exemplificam, como ao dispor a cama de sua mulher em frente a uma árvore poderosa de mais de quinhentos anos, ou a alegria que ele passa com os amigos e familiares para a esposa à beira da morte, e que consiste numa das cenas mais lindas.

O fato é que temos uma relação distanciada com a natureza, ao invés de sentir que fazemos parte dela. O homem tem a concepção de que é um ser superior, e isso faz com que crie seu próprio declínio, a natureza exerce poder sobre nós, não o contrário.
"Still the Water" é um filme poético, nos faz refletir sobre o amadurecimento e a morte, o ciclo da vida. É um ótimo meio para visualizar a morte por um ângulo mais suave, pois a maioria prefere não pensar nela como se isso pudesse os esconder; o medo e o mistério apavora, mas aprender a lidar é a melhor maneira, aceitar que é um fato inexorável e completamente natural.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Vocês, os Vivos (Du Levande)

"Alegre-se então, por existir, na sua quente e deliciosa cama, antes que a fria brisa bata nos seus pés descalços."

"Vocês, os Vivos" (2007) é o segundo filme da trilogia sobre a existência de Roy Andersson, que começou com "Canções do Segundo Andar" (2000). O diretor ironiza situações cotidianas, papéis que nos submetemos todos os dias, seja no trabalho, família e lazer, geralmente não pensamos, agimos automaticamente, mas ao assistir este longa vemos de fora, e por isso a experiência se torna grandiosa. As cenas provocam riso perante atitudes risíveis, sem sentido, mas que fazem parte da vida de qualquer pessoa.
Um olhar sobre o ser humano, sobre suas conquistas e misérias, sua alegria e seu sofrimento, sua autoconfiança e ansiedade. Personagens que trazem em comum um aspecto solitário, mesmo quando estão cercados por outras pessoas. Um ser humano de quem se quer rir e também chorar por ele, ou ela. É simplesmente uma trágica comédia ou uma cômica tragédia sobre todos os homens e mulheres. Situado em Estocolmo, o tema se encaixa universalmente em qualquer lugar ou qualquer época. Composto por 57 vinhetas com a câmera estática acompanhamos diversas situações, como a professora que não consegue dar aula e sai chorando, a mulher deprimida que acha que ninguém a entende e briga com seu marido que diz frases feitas, como por exemplo: "A vida é dura", "Você precisa tentar", também há a garota obcecada por um músico famoso, o marido que diz ter perdido a aposentadoria em péssimos investimentos enquanto faz sexo com a mulher, o homem condenado a cadeira elétrica por ter derrubado em uma brincadeira um vaso de porcelana valioso, o psiquiatra que cansou de ouvir as pessoas, pois são todas egoístas e resolve prescrever apenas antidepressivos, entre tantas outras. Todos em uma condição de inadaptação, solidão e desespero.
O aspecto dos personagens é de cansaço, a palidez evidencia que todos estão mortos em vida, apenas continuando a seguir suas rotinas. Apesar de apresentar a decadência, os episódios dão um ar engraçado, mas de forma peculiar, o interessante é exatamente o poder de se estar observando, como se víssemos nossas próprias atitudes ali expostas, e percebamos o quão bizarras elas são. Todos estão perdidos em suas próprias solidões. Roy Andersson é um cineasta corajoso, vai contra a maré, não está interessado em agradar, mas sim em colocar sua arte para fora e quem desejar vê-la será bem-vindo, não há preocupações em atrair o público, seus filmes são diferentes e precisam ser refletidos, falam da existência e de coisas que preferimos não pensar.

Essa obra retrata a imperfeição do ser humano, a complexidade que revela o ridículo, o tédio, e a banalidade. Algumas cenas são bem explícitas e outras absurdas e que talvez tenham algum simbolismo, ou não. "Vocês, os Vivos" provoca inicialmente o riso, mas não demora para que ele suma de nosso rosto e entre uma certa angústia.
O título do filme já revela ironia, ao falá-lo um certo sorriso se forma, daqueles quando só nós vemos algo enquanto o restante não percebe.
Poucos são os cineastas que refletem a vida com pessimismo sem cair em total melancolia, ou parecer pretensioso a ponto de ser um cinema exclusivo, Roy Andersson compartilha conosco suas visões sobre o ser humano e faz de maneira universal. O terceiro filme que fecha a trilogia "Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência" já saiu e ganhou o Leão de Ouro deste ano (2014).

Uma das melhores cenas consiste neste desabafo: "Sou um psiquiatra há 27 anos. Estou completamente exausto. Ano após ano ouvindo pacientes que não estão satisfeitos com suas vidas, que querem se divertir, que querem que eu lhes ajude. Isso esgota, podem acreditar. A minha vida não é exatamente muito divertida. As pessoas exigem tanto. Essa é a conclusão a que cheguei: elas querem ser felizes mas são egocêntricas, egoístas e pouco generosas, quero dizer que elas são simplesmente mesquinhas. A maioria. Passar horas tentando fazer uma pessoa mesquinha feliz não faz sentido. Não dá pra aguentar. Atualmente, só receito remédios, quanto mais forte melhor. É isso aí."

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Longa Caminhada (Walkabout)

"Na Austrália, quando um aborígene completa 16 anos, ele é obrigado a vagar pela terra. Durante meses deve viver dela. Dormir sobre ela. Comer de seus frutos e de sua carne. Sobreviver, ainda que para isso tenha que matar outras criaturas. Os aborígenes chamam isso de Walkabout. Esta é a história de um Walkabout."

"Walkabout" (1971) de Nicolas Roeg (A Convenção das Bruxas - 1990) é um filme pouco conhecido. É uma história interessante e original que traça as dificuldades e as limitações da linguagem, além das questões da natureza humana. A dimensão das imagens dão o tom à trama que tem um estilo fragmentado, tudo começa quando dois irmãos ingleses (vividos por Jenny Agutter e Luc Roeg), de classe média alta são deixados pelo pai no meio do deserto da Austrália, sem muitas explicações o homem começa a atirar em direção ao filho enquanto a menina arrumava as coisas de um piquenique, os dois então fogem e o mais estranho é que o pai coloca fogo em seu carro e aperta o gatilho contra si mesmo. Ou seja, as crianças ficam sozinhas em um lugar inóspito praticamente sem nada. Complicado entender esta situação, mas deduz-se que o pai tenha perdido o emprego e desolado com a vida decide acabar com tudo. Há uma certa estafa em relação à vida moderna, algumas cenas sortidas em meio a produção evidenciam correria e a preocupação com o status social. Mas o que importa realmente é o desenrolar do que acontecerá aos dois irmãos. O foco do filme é no personagem de David Gulpilil (Geração Roubada - 2002), o aborígene, que aparece depois de uns 30 min. Após peregrinar pelas areias vermelhas por dias eles acabam encontrando o aborígene que está cumprindo um ritual, e daí por diante dois mundos completamente diferentes são mostrados a nós, uma barreira cultural enorme os separam.
A língua é a primeira dificuldade, ela é limitada em denominar certas sensações e sentimentos. O filme contém cenas espetaculares da vida selvagem do aborígene e os animais que o cercam, em contrapartida vemos cenas de humanos caçando apenas por se sentirem superiores ao animal.
Uma coisa bem interessante a notar é que o menino consegue entender melhor o aborígene e isso se dá pela forma que vê o mundo, ele não está influenciado, não há preconceito, a aparência não importa, o que não acontece com a garota, existe uma distância significativa entre eles, já que sua natureza quase adulta pulsa em relação àquele corpo que ela visualiza, há uma grande tensão sexual que não se concretiza.

Um fator que marca este filme é o como a câmera explora ousadamente a bela Jenny Agutter ainda menor de idade, ela é vista nua em alguns momentos e seus olhares mostram uma sensualidade latente. A garota, talvez não entenda o que acontece e em determinado momento se sente ameaçada por não entendê-lo e por não vê-lo como um igual. Difícil para nós espectadores também compreender algumas atitudes do aborígene, principalmente lá pelo final quando se enfeita e pinta seu corpo de branco e realiza uma dança exótica, não se sabe se é o cumprimento de seu ritual Walkabout, uma dança de acasalamento, ou de passagem. Nos olhos dele vemos desejo e tristeza.
Essa sensação de dúvida acompanha muitas partes do filme, mas de fato é infalível em sua demonstração do quanto somos limitados em entender o outro, o quanto julgamos antes sem tentar perceber que o mundo de cada um é diferente, o que pode parecer inútil para você, ao outro é absolutamente essencial. Tem reflexões incríveis em relação ao modo de vida e o quanto estamos distanciados da natureza, somos levados a agir conforme a sociedade determina que seja, uma pena, pois perdemos uma grande parte de nós que nem chegamos a conhecer.

O filme de Roeg tem cenas duras e sangrentas, animais sendo abatidos e alguns sendo engolidos por outras espécies. A amplidão e a beleza do deserto é evidenciada, mas sem nenhum sinal de sentimentalismo, animais do deserto são retratados, como vários tipos de lagartos, escorpiões, pássaros, cobras e cangurus. Enfim, é a lei da sobrevivência. Quando somos reduzidos ao instinto perdemos aquilo que nos liga aos animais, este longa destaca bem essa questão.
"Walkabout" é um ótimo exemplar da natureza primitiva que querendo ou não existe em cada um de nós, também reflete sobre preconceitos e essa dificuldade de lidar com linguagens e culturas diferentes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Feliz Natal (Joyeux Noël)

Para celebrar o natal o filme "Joyeux Noel" (2005) de Christian Carion é perfeito, foca exatamente na mensagem da paz.
Quando estoura a guerra, na calmaria do verão de 1914, milhões de homens são pegos de surpresa e levados a agir. Chega o natal, com sua neve e vários presentes da família e do exército. Mas a surpresa não viria de dentro dos generosos embrulhos que se encontram nas trincheiras francesas, escocesas e alemãs. Naquela noite, um evento momentâneo mudaria o destino de quatro personagens: um padre anglicano, um tenente francês, um excepcional tenor alemão, seu amor e sua companheira, uma soprano. Durante a noite de natal, acontece o inesperado: soldados saem de suas trincheiras e deixam para trás seus rifles para apertar as mãos do inimigo.
A trégua de 1914 na noite de natal entre combatentes de países aliados no início da primeira guerra mundial, é baseado em fatos reais, este relato mostra que apesar do horror e da violência , o ser humano tem a necessidade de afeto, de sentir aquilo que nos torna humanos, o clima de natal intensifica essa sensação, o que faz deste episódio de paz um dos mais simbólicos. Essa confraternização também só aconteceu devido a aspectos culturais parecidos, franceses, escoceses e alemães tinham muito em comum. Os oficiais, o alemão Horstmayer (Daniel Bruhl), o escocês Gordon (Alex Ferns) e o francês Audebert (Guillaume Canet) mostram compaixão e união. Trocam confidências, todos são jovens, recém-casados que não escondem o medo da guerra. Entre os personagens há um padre escocês recrutado, Nikolas Sprink (Benno Fürmann), um tenor alemão que se alistou no exército e sua mulher, uma soprano dinamarquesa (Diane Kruger), que consegue autorização para visitá-lo. O que os une é a música, quando o tenor alemão começa a entoar a bela e tradicional canção, "Noite Feliz", os escoceses ouvem e acompanham com gaita de foles, e por fim os franceses aparecem curiosos, aliás a trilha sonora deste filme é suntuosa, quase divina, arrepia-se ao ouvi-la.
Concordando com um cessar-fogo uma missa é celebrada pelo padre escocês, e no outro dia, enterram seus mortos além de conversarem, beberem e jogar futebol. Durante um bombardeio de artilharia, ambos os lados entrincheirados se refugiam juntos para evitar mais mortes. Depois disso, o sacerdote é enviado de volta e repreendido pelo bispo, mesmo alegando seu ato ser de humanidade na condução de um ritual religioso. Os alemães envolvidos são levados para outro front e Audebert, o tenente da infantaria francesa, é enviado para Verdun sendo advertido por sua ação que poderia ter representado traição num tempo de guerra.
Muitos filmes retratam exageradamente a imagem natalina, caracterizam demais essa época, "Joyeux Noel", apesar de conter todos os requisitos, árvores de natal, cores e etc, está mais interessado em sentimentos e essa coisa que chamamos de humanidade.

É um fato inusitado e que de início é difícil de acreditar, mas ao desenrolar vai se tornando crível e imensamente lindo.
O sentimento de união é muito aflorado nessa época, porém logo é encoberto por outros ao passar a mágica aura natalina. A harmonia e a gentileza deveriam ser cultivadas o ano todo para que tudo pudesse fluir melhor, e que quando chegasse o natal nada soasse falso e passageiro.
"Joyeux Noel" nos presenteia com lindas cenas, a maioria regada a músicas, a cena mais incrível, talvez seja quando o tenor pega sua árvore de natal e caminha até o centro do combate, enquanto é observado sob a mira de armas.
Tem uma carga excepcional de sentimentos envoltos neste longa, mas isso não o faz ser melodramático, ou careta em transformar tudo em alegria e paz. É um belo exemplar de toda a magia que envolve o natal e sentimentos que são inerentes ao ser humano. Com certeza o melhor filme sobre essa época, vale muito a pena conferir, principalmente no dia de natal!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Houdini

"Houdini" minissérie do canal History estrelada pelo incrível Adrien Brody é um ótimo entretenimento. Produzida por Gerald W. Abrams (pai de J.J. Abrams), roteirizada por Nicholas Meyer e dirigida por Uli Edel (O Grupo Baader Meinhof - 2008).
Com dois episódios a história apresenta a vida do mágico Harry Houdini (Adrien Brody). Vindo de uma infância pobre ele conhece o sucesso quando se torna um grande ilusionista. Ao longo de sua carreira, ele luta para desmascarar falsos médiuns e paranormais. Suas habilidades também o levam a atuar como espião. Harry Houdini (1874 - 1926) foi o maior ilusionista que o mundo conheceu, seus truques consistiam em desafiar a morte, algemas e correntes eram constantes em seus espetáculos, que com o tempo foram ficando cada vez mais sofisticados e perigosos. A minissérie explica de maneira didática a história deste que foi uma celebridade no século XIX, a sua obsessão por si mesmo e em desafiar a morte. O clima é de tensão e a trilha sonora moderna contrasta de maneira genial. Esse é um toque especial da minissérie que surpreende.
Houdini dizia ter nascido no estado de Wisconsin, mas a verdade era que ele tinha nascido na Hungria. Seu pai era um rabino e sua família pobre, portanto ele e seus irmãos começaram a trabalhar cedo. Já adolescente ao visualizar truques de mágica se encantou e ingressou nesta arte, dois livros foram imprescindíveis, "Revelações de um Médium Espírita", e "As Memórias de Robert-Houdin", a autobiografia de um dos mais conhecidos ilusionistas da época. Influenciado por esta leitura Harry adiciona o Houdini como uma homenagem ao seu mentor. Inicialmente fazia truques simples com cartas e moedas, mais adiante se juntou ao seu irmão, onde fazia apresentações em parques e feiras. E foi numa dessas apresentações que ele conheceu uma dançarina que viria a se tornar sua esposa e assistente. Kristen Connoly é Bess, uma personagem realmente encantadora, ela dava apoio a todas as ideias malucas de seu marido, mas com o passar dos anos devido a obsessão dele mergulha nas bebidas e acredita que Harry não a ama.
Jim (Evan Jones) também é um personagem de extrema importância, já que era ele que inventava as geringonças que serviam para os espetáculos. Jim fazia qualquer coisa para o seu mestre. O roteiro revela os segredos, não há mistérios, os truques nos são expostos desde a ideia, desenvolvimento, até o show, as pessoas se extasiavam e não acreditavam no que seus olhos viam, por muitas vezes Houdini foi visto como um alguém com poderes mágicos realmente, um exemplo de quem acreditava nessa teoria era o escritor Conan Doyle (criador do célebre Sherlock Holmes).

Boa parte do tempo Houdini desejava inventar para que saciasse a imprensa e seu ego, algemas e correntes já tinham enjoado o público, outra de suas grandes façanhas consistia em adentrar num grande recipiente cheio de água, e de cabeça para baixo com seus pés pendurados na tampa, o que os espectadores viam por último era a cara de medo e os golpes que Houdini dava contra o vidro, que, então, era coberto por um pano. Dois de seus colaboradores seguravam um machado, por via das dúvidas. Em outro de seus mais famosos escapes, Houdini era pendurado de cabeça para baixo em um guindaste a muitos metros do chão e conseguia escapar de uma camisa de força, aos olhos de milhares de pessoas. Ele realizou esse truque em muitas cidades do mundo. Seus escapes de águas geladas também ficaram extremamente famosos, nos quais Houdini era pendurado em um guindaste ou uma ponte, previamente imobilizado por correntes e cadeados. Em uma de suas apresentações embaixo de águas geladas, a corrente impediu que o mágico saísse pelo espaço que havia previsto. É com essa cena que se inicia a minissérie coroada por interpretações sensacionais, além de uma fotografia de encher os olhos e, claro, a trilha sonora que puxa para o lado da ação.
"Houdini" é um entretenimento de primeira, caprichada ao mostrar o ilusionista mais famoso do mundo, sua obsessão em desafiar a morte, o amor pela mãe e o grande domínio que tinha de seu corpo, que suportava várias pancadas e socos no estômago, e como isso era frequente mais à frente acabou gerando sua derrocada.

Há o período em que Houdini foi recrutado pela CIA e tornou-se espião na Europa antes da Primeira Guerra Mundial, e também quando decidiu desmascarar charlatões no meio espírita.
É uma minissérie que retrata uma figura peculiar e enigmática com um roteiro completo. Vale assistir para ter uma ideia de que pessoas como Houdini são únicas, e que portanto a história precisa ser compartilhada!

O verdadeiro Houdini

"De um modo ou outro, todos queremos escapar. Mas ninguém conseguiu. Ninguém, na verdade, escapou. Não até agora. Porque, no fim, não há escapatória."

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

The Knick

"The Knick" é uma série original do canal Cinemax, criada por Jack Amiel e Michael Begler e dirigida por Steven Soderbergh (Terapia de Risco - 2013), ela conta com 10 episódios de uma história super interessante e envolvente, a medicina é a grande personagem.
Em Nova Iorque, num tempo tumultuoso de grandes mudanças e progresso, os protagonistas serão os cirurgiões, enfermeiras e funcionários do Hospital Knickbocker, que vão até os limites próprios e aos da medicina para salvar os pacientes, numa época de mortalidade altíssima e anterior à invenção dos antibióticos. Entretanto as barreiras morais de sua época, a equipe médica liderada pelo Dr. John W. Thackery (Clive Owen) explora novas técnicas com o objetivo de ampliar os horizontes da medicina. Além das novas tecnologias, a série também tratará de temas como o preconceito racial, os direitos das mulheres, a imigração, as diferenças de classes sociais, a corrupção e a dependência de drogas.
A série mostra de forma impressionante o que era viver em uma época que a medicina dava seus primeiros passos à modernidade. A ambientação é fiel ao início do século XX, as charretes, a luz natural, o vestuário, mas a trilha sonora (música eletrônica) vem para contrastar, o que faz desta uma das séries mais instigantes.
O personagem central vivido por Clive Owen é um cirurgião capaz e que anseia por novos métodos, ele aplica suas técnicas nos pacientes sem preocupação com questões morais ou éticas. Porém, é arrogante e viciado em cocaína para que se sinta sempre acelerado e disposto, ele esconde de todos, mas compartilha mais adiante com a enfermeira Lucy Elkins (Eve Hewson), que apaixonada faz qualquer coisa por ele. O Dr. Thack é admirado, mas quase sempre é distante e frio em suas respostas. Seu personagem foi inspirado no Dr. William Stewart Halsted, considerado um profissional brilhante que realizou diversos procedimentos considerados arriscados e inéditos em sua época.
Muitas curiosidades nos são expostas, como o uso da cocaína líquida administrada em pacientes como analgésico, a evolução em certas cirurgias, como a retirada do apêndice, e também a chegada do Raio X. Dr. Tackery assume o cargo de chefe de cirurgia depois que seu amigo e mentor, o Dr. J. M. Christiansen (Matt Frewer) comete suicídio. Ele escolhe o Dr. Everett Gallinger (Eric Johnson) como seu médico assistente, mas a direção do hospital está mais interessada em contratar o Dr. Algernon Edwards (Andre Holland), um médico que estudou na França, onde chegou a publicar artigos importantes sobre medicina. Mas o problema é que Edwards é negro, portanto não é bem recebido e é praticamente excluído da equipe, mas vendo que Thack tem muito conhecimento decide ficar. Ele é constantemente descriminado, não consegue exercer sua profissão, e acaba criando um consultório improvisado aonde atende apenas negros. Em determinado momento Edwards consegue fazer com que Thack deixe de lado seu preconceito, pois este vê o potencial que há nele, suas teorias e descobertas só tendem a somar.

Fora esses personagens há Bertram Chickering Jr. (Michael Angarano), mais conhecido como Bertie. Filho de um médico que atende os ricos, e que constantemente o pressiona para deixar o local, Bertie admira muito o Dr. Tackery e é apaixonado pela enfermeira Lucy. Herman Barrow (Jeremy Bobb) é o administrador do Knick. Responsável por controlar as finanças do hospital, ele lida com um orçamento apertado, corre atrás de mais doações, e tenta controlar os gastos. Ele só adquire problemas no desenrolar tentando ajudar.
A irmã Harriet (Cara Seymour) é uma freira católica que oferece seus serviços como parteira. Trabalhando em um orfanato, ela também tenta encontrar famílias dispostas a adotar as crianças abandonadas ou órfãs. Em paralelo, ela realiza abortos clandestinos como uma forma de controle de natalidade e de ajudar mulheres que não desejam dar continuidade à gravidez. Ela se associa a Tom Cleary (Chris Sullivan), condutor de ambulância (charrete com sirene manual) que costuma vender cadáveres frescos para hospitais. É uma relação de cumplicidade mesmo que haja diferenças entre eles.

"The Knick" além de mostrar como os médicos se viravam para poder salvar vidas e o grande empenho que existia em buscar novas alternativas, também retrata o preconceito racial, de classes, de imigrantes e de mulheres.
O grande ponto desta série é a maneira como os casos, as doenças são evidenciadas, cenas de cirurgias com todo o aparato que eles usavam são frequentes, "The Knick" é uma série crua, sem floreios ela prende a atenção já de início, não há receio em mostrar corpos abertos e sangue no 'circo', como é chamado o local onde se faz as cirurgias com uma platéia de estudantes e médicos.
É uma série que sacia o espectador, aborda interessantes questões e nos traz conhecimentos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Uma Vida Inteira (Curta-Metragem)

O curta "Uma Vida Inteira" (2012) dirigido por Bel Ribeiro e Ricardo Santini com Alice Braga e Bruno Autran no elenco, mostra que, entre a primeira noite de um casal e a premonição do fim do relacionamento, pode caber uma vida inteira. Baseado na crônica "O Salto", de Antônio Prata. 

Despretensioso e poético retrata as possibilidades do amor e o como é importante fazer acontecer, afinal - "O verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão... porque a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto."
O texto é belíssimo, tem uma fotografia linda e uma trilha sonora apaixonante. É daqueles curtas que nos pegam de jeito, que nos faz querer arriscar para viver o amor sem medos. Real e inspirador, vale dar uma conferida nesta linda obra. 

"A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato — pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente — você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas."

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Banhos (Xizao)

"Banhos" (1999) de Zhang Yang (Indo para Casa - 2007) é um filme extremamente belo que retrata valores dos quais estão se perdendo, como o contato e o amor pelo próximo.
Numa antiga e tradicional casa de banhos, um homem simples e seu filho deficiente mental passam os dias a atender seus clientes que relaxam em banhos quentes, massagens e afins, num ambiente harmonioso e amistoso. Lá, os homens em sua maioria mais velhos jogam conversa fora, desabafam, e acontece até a tal luta de grilos. Da Ming, o outro filho do senhor da casa de banhos retorna para verificar se o pai está bem, pois recebeu um desenho estranho de seu irmão, Da Ming não gosta da maneira como vivem e ainda nutre preconceito por seu irmão deficiente. Ele é completamente diferente, possui outros valores, dos quais não cabem naquele lugar, mas aos poucos vai percebendo a importância de tudo aquilo para seu pai.
Fica claro que Da Ming só apareceu lá porque achou que seu pai tinha morrido, e isso entristece Mestre Liu, que a princípio se mantém distanciado do filho, e este distanciado do que acontece no local, para ele que vive em ritmo acelerado, os banhos que parecem nunca terminar é algo incompreensível. O irmão deficiente Er Ming é um personagem que nos fisga pela sua simpatia, apego emocional com o pai, e habilidade em lidar com a casa de banhos. Vemos sua simplicidade e compaixão pelas pessoas, e algumas cenas se destacam, como quando ele fascinado observa um jovem tímido cantando ópera no chuveiro enquanto o restante não o tolera, ou suas corridas com o pai ao fim do expediente.
Da Ming com o passar dos dias contempla essa rotina e começa a se envolver com o pai e o irmão, ele vai aceitando e por conseguinte não sente mais vergonha. Gostando de permanecer do lado de sua família, ele acaba por adiar a sua partida, ainda mais quando seu pai adoece e fica responsável por ajudar na casa de banhos. Ao assumir o lugar do pai redescobre suas origens e resgata valores. 

O prédio se situa em uma região que irá ser construído um shopping e não demorará para tudo ali ser demolido, mas mestre Liu morre antes. Da Ming permanece no local até o fim, ele vacila em alguns momentos e chega até a deixar seu irmão num local especializado em doentes mentais, mas se arrepende e o busca para morar junto de si, só que ele não disse para a esposa sobre sua existência, o que complica seu relacionamento, ao falar no telefone sobre o assunto, ela simplesmente desliga. Portanto, Da Ming estreita mais a sua relação com Er Ming e percebe o amor verdadeiro.

Há cenas memoráveis, sutis, e até inocentes, Er Ming nos ensina que a simplicidade é o maior valor que o ser humano pode ter, sua generosidade em relação ao jovem cantor de chuveiro emociona.
Vivemos na era do individualismo, onde não há espaço para gentilezas, julgamos o que é diferente por falta de compreensão e por consequência excluímos, todos têm suas certezas absolutas e por isso deixam de aprender a ter olhares diversos. Em "Banhos" vemos a tradição versus modernidade, mas também o como é importante manter laços, seja familiares, ou de amizade. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pássaro Branco na Nevasca (White Bird in a Blizzard)

"Pássaro Branco na Nevasca" dirigido por Gregg Araki (Mistérios da Carne - 2004) é um drama/suspense excelente, curioso, intrigante e surpreendente.
No final dos anos 80, Eve Connors (Eva Green), mãe de Katrina (Shailene Woodley) abandona a família, deixando todos em estado de choque. Kat e seu pai, Brock (Christopher Meloni) tentam colocar a vida em dia, mas logo a jovem começa a ter sonhos perturbadores. Aos poucos, ela irá perceber que há uma verdade terrível por trás do desaparecimento da mãe.
Kat é uma adolescente que tem sua vida alterada quando sua mãe some repentinamente, a garota crê que ela fugiu com um amante, pois seu pai é visto como um banana, e sua mãe era infeliz e insatisfeita com a vidinha de dona de casa. Kat ao receber a notícia não se abate, a relação entre as duas era bem difícil, mas mesmo assim vai à polícia. O roteiro é extremamente elaborado, nos prende do início ao fim, e por mais que algumas pistas apareçam, nada é o que aparenta ser. O mistério vai ganhando contornos cada vez mais estranhos e dramáticos. Essa mistura dá ao longa um ar completamente original e satisfaz o espectador.
A evolução da personagem Kat é natural e vamos seguindo com ela ao visualizar seus familiares de maneira diferente daquela do começo, seu pai aparentemente um homem sem muitas qualidades e sua mãe uma louca, mas graças aos flashbacks compreendemos melhor a história. A figura da mãe atormenta Kat e constantemente sonha com ela, quando vai para a faculdade ficando assim distante do pai e de todo o ambiente que a cercava começa a pensar mais nas coisas que se passaram, retornando para casa vê de forma diferente seu pai, principalmente depois de escutar seus amigos sobre alguns fatos que antes não conseguia absorver. O clique se dá quando o detetive que investiga o caso e do qual ela mantém uma relação casual lhe diz o que realmente acha sobre o desaparecimento de sua mãe.
As reviravoltas são muitas e nos enganam por diversas vezes, a figura do pai é uma incógnita e mesmo que as pistas revelem parte do ocorrido, ainda há surpresas.

Shailene Woodley (Os Descendentes - 2011) faz uma personagem que amadurece, que deixa de lado algumas certezas sobre seus pais e que em certo momento começa a enxergá-los de outra forma, em certas cenas a expressão da garota demonstra uma decepção tão grande e uma dor da qual só o tempo será capaz de apagar.
Eva Green fantástica, como sempre, faz uma mãe que não se satisfaz mais com o casamento e que nutre asco pelo próprio marido, o que nos faz crer que realmente ela abandonou o lar, só que relações nunca são tão fáceis e apontar o certo e o errado é cair numa armadilha certamente, entre duas pessoas pessoas há muitos segredos.Toda vez que Eva aparece em cena é incrível, suas feições dão um show.

"Pássaro Branco na Nevasca" é o tipo de filme que quanto menos souber melhor, é bem diferenciado, o modo como o roteiro foi construído, a bela trilha sonora e sua fotografia de encher os olhos só faz ressaltar a ousadia do diretor. A mescla de drama e suspense funcionou brilhantemente, nos intriga e emociona, além de carregar uma crítica sobre o papel de cada um dentro de uma família. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Minha Vida Sem Mim (My Life Without Me)

"Minha Vida Sem Mim" (2003) dirigido por Isabel Coixet (A Vida Secreta das Palavras - 2005) é um filme comovente do qual retrata um assunto pesado de maneira sutil.
Ann (Sarah Polley) é uma batalhadora jovem de 23 anos, que foi precoce em tudo na vida, especialmente na constituição de sua família. Foi mãe aos 17 anos, e novamente aos 19, e vive com o sossegado marido Don (Scott Speedman) e as encantadoras filhinhas em um trailer no quintal da casa de sua perturbada mãe (Debbie Harry). Trabalha à noite como faxineira em uma Universidade e, embora seja bastante reservada, tem como melhor amiga uma paranoica companheira de trabalho, Laurie (Amanda Plummer).
Isabel Coixet é uma diretora cujo olhar se volta para os acontecimentos da vida, em seus filmes o foco sempre está nas relações e apesar de alguns assuntos serem difíceis, ela torna tudo muito agradável para quem o assiste. Há uma boa dose de sensibilidade em "Minha Vida Sem Mim", acompanhamos Ann, uma moça que sentiu o gosto da responsabilidade muito cedo, com duas filhas e um marido doce, mas não muito adulto, tem que se virar para poder sobreviver, trabalha limpando uma faculdade à noite e não tem absolutamente tempo para mais nada. 
O filme envolve pela linda narração em off da protagonista que em diversos momentos nos fisga pela grande carga emotiva. O fato é que depois de descobrir que está com um câncer intratável decide fazer uma lista de desejos, e é aí que o filme se desenvolve. Pode parecer clichê, mas não é! A delicadeza da personagem, a maneira como as coisas vão acontecendo dá ao filme um aspecto único. Ann não fez muito da vida e conheceu apenas um homem, seu marido. Dentre os desejos da lista está fazer alguém se apaixonar por ela, não demora para que se envolva com Lee (Mark Ruffalo), um homem triste que foi deixado pela mulher, ele é romântico, introspectivo e sua solidão chega a ser visível, pois sua casa é completamente vazia, há apenas livros. Lee se apaixona por Ann, que descobre um outro tipo de amor. Mesmo que ele não saiba muito sobre sua vida, sente algo muito forte, em dado momento Lee diz: "Quando você olha para uma pessoa, pode ver 50% de quem ela é. E querer saber o resto é o que estraga o mundo."
Observamos Ann e a compreendemos ao não querer contar que está doente, todos ao seu redor percebem seu aspecto, mas ela diz que está com anemia e que suas idas ao hospital consiste em tomar vitaminas, ela vai seguindo assim, com um segredo e uma lista de desejos. Uma das cenas mais bonitas é quando começa a gravar mensagens de aniversário para suas filhas até os dezoito anos, nesse momento as lágrimas são inevitáveis. Outro personagem bem interessante é a mãe de Ann, uma mulher claramente insatisfeita com a vida, e que mesmo tendo ainda beleza e vitalidade, prefere desperdiçar reclamando. Ann também deixa uma mensagem para ela, seu marido e Lee.

Ao longo do filme muitos dos pensamentos de Ann são expostos, realmente ela começa a ver e a se portar diferente depois da descoberta da doença, em um momento ao fazer compras no mercado percebe que ninguém ali está preocupado, no mercado ninguém pensa em morte, além de que compram porcarias que vão matar suas famílias, mesmo que aos poucos, e sabendo disso continuam comprando. Em outra ocasião ela narra que não há tempo para pensar porque diante a vida que leva em que se resume a cuidar das filhas, marido e trabalhar não existe pausa para a reflexão. "Pensar. Você não está acostumada a pensar, quando todas essas coisas acontecem a todo tempo e você nunca tem tempo pra pensar. Talvez esteja tão sem prática que esqueceu como se pensa."
O filme já no início nos presenteia com uma reflexão de arrepiar: "Esta é você, na chuva. Nunca pensou que fosse fazer algo assim. Você nunca se viu como - não sei como descreveria - como uma dessas pessoas que gostam de olhar a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr-do-sol. Deve saber que tipo de pessoas estou falando. Talvez não saiba. Seja como for, você gosta de ficar assim: lutando contra o frio, sentindo a água penetrar na sua camisa e a sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés e do cheiro. Do som dá água batendo nas folhas e todas as coisas que estão nos livros que você não leu. Essa é você. Quem teria imaginado? Você."

O filme nos faz refletir sobre o que diríamos ou faríamos se fosse conosco, a decisão de Ann em não contar por não querer sofrimento antes de sua partida é acertada mesmo que difícil, ela pensou nos seus familiares, na dor que causaria a eles, em nenhum momento ela se desespera, claro fica triste e com medo, mas não é egoísta, ela deixa com que todos ao seu redor veja como os ama e vai preparando o depois, seja com as fitas, ou tentando deixar lembranças boas. Ter os últimos momentos em um hospital é inconcebível, por isso vai vivendo se dedicando as filhas, incentivando o marido, e até pensa em deixar alguém já em seu lugar para cuidar deles, então se aproxima da vizinha e fica sonhando que ela poderia ocupar o seu lugar, a convida para jantar e ali deitada debilitada fica imaginando sua vida depois que for. 
"Minha Vida Sem Mim" é um filme de essência, reflexivo e que apesar de ser um assunto muito aflitivo, consegue ter delicadeza.

"Eu rezo para que essa seja a minha vida sem mim. Você reza para que seu amor acabe amando outra mulher e procure aproveitar a vida um pouco, só um pouquinho, seria divertido. Para que procure gostar mais das coisas. Você reza para que tenha momentos de felicidade tão intensa que faça todos os problemas parecerem insignificantes. Você não sabe para quem está rezando, mas reza. Você nem sequer lamenta a vida que não vai ter porque você já estará morta e os mortos não sentem nada e nem lamentam."

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Minha Pequena Princesa (My Little Princess)

"My Little Princess" (2011) aborda um assunto complexo e faz um recorte interessante sobre um caso bem polêmico, a história de Eva Ionesco, que quando ainda muito criança foi a grande estrela de sua mãe, que a fotografava nua e em poses insinuantes. A direção do filme é da própria Eva.
Irina, mãe de Eva se apaixona por fotografia e em sua excentricidade se foca no erotismo, mulheres nuas em ambientes obscuros ao lado de objetos, como caveiras, crucifixos e afins, mas o ensaio mais famoso de sua carreira é o de sua filha, "Eloge de ma Fille" do qual retratou Eva em poses completamente provocantes, isso começou quando ainda tinha cinco anos. As fotos em que Eva aparece nua tem sido alvo de discussões desde que apareceu pela primeira vez em 1970, os tempos eram outros e a liberdade da sexualidade estava muito em voga, porém nem tudo que se diz arte o é de fato. Eva até gostava de posar e é possível ver em seu semblante sempre sério e marcante. Ela também foi modelo de outros fotógrafos, como Jacques Bourboulon, sendo a mais jovem mulher a posar na revista Playboy. Em sua carreira também atuou em filmes, como "O Inquilino", de Roman Polanski, mas talvez seu mais perturbador trabalho no cinema seja em "Maladolescenza" (1977), cujo roteiro se foca nas descobertas sexuais de um casal de adolescentes em um local paradisíaco. Considerado pornografia infantil, o filme chegou a ser proibido em diversos países. Irina acabou perdendo a guarda de Eva, tempos depois esta viria a processar a própria mãe, o filme "My Little Princess" é um acerto de contas, uma maneira de colocar pra fora toda essa angústia vivida por Eva, que alega ter sido vítima de pedofilia.
No filme a atriz Anamaria Vartolomei é Violetta, e tem aproximadamente 10 anos na história, no início vemos o quão ausente sua mãe era, apenas a visitando esporadicamente deixando aos cuidados de sua bisavó, mas ao ganhar uma máquina fotográfica de um dos seus amantes decide fotografar a menina, a ensina caras e bocas, poses e isso a agrada de certa forma, parece uma brincadeira, as duas se aproximam, mas Hannah, vivida pela sempre incrível atriz Isabelle Huppert, se torna obsessiva, principalmente quando começa a ganhar muito dinheiro com as fotos. Ela justifica que o que está fazendo é arte. Conforme o tempo passa a menina sofre, na escola todos a chamam de puta, além de que usa roupas e maquiagem que nada tem a ver com sua idade. A mãe é arrogante e percebe que ali satisfaz suas necessidades, ganhar dinheiro e prestígio dentro do universo artístico, sua excentricidade conquista muitos intelectuais, pois seu discurso de que o que faz é arte é deveras muito sedutor.

Uma história chocante, pertinente e que vale a pena assistir para tirar várias conclusões sobre o que pode de fato ser chamado de arte, e principalmente ao expor que nem sempre uma mãe sabe o que é melhor para seu filho.
O filme conta com uma fotografia espetacular, cores intensas e obscuras, e um figurino de cair o queixo. Hannah é estranha, histérica e cada vez mais afunda sua filha num universo adulto, por muitas vezes a menina sente falta de brincar com outras crianças, mas estas já não se interessam por ela e ainda a insultam por sempre estar vestida de maneira escandalosa. As cenas exploram o como sua personalidade estava sendo moldada e a sua inocência sendo arrancada da maneira mais pérfida. A atriz mirim romena Anamaria Vartolomei está esplêndida, sua evolução na história é natural e sofremos junto com ela pela perda de sua identidade.

Dentro dessa temática é bom ressaltar que muitos pais levam seus filhos em agências para trabalhar na TV, ser um astro mirim, e este acaba sendo a grande fonte de renda na casa, uma responsabilidade é adquirida muito cedo e as influências externas acabam moldando sua personalidade, a arrogância e a prepotência tomam conta desta criança, e mais tarde ela sentirá as consequências, por isso os pais precisam saber dosar e deixar que elas escolham, castrar a liberdade de uma criança é provocar uma dor para vida toda.

Eva Ionesco
"My Little Princess" é um bom filme, desperta curiosidade e conhecemos um pouco mais sobre essa polêmica história sob o olhar da própria Eva. As fotos originais impressionam com o caráter totalmente erótico, expressões e posturas de uma mulher em um corpo de criança, a adultização é clara.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Ato de Matar (The Act of Killing)

"Quem realiza sonhos a qualquer custo deveria apenas tê-los quando dorme. Pois alguns destes sonhos foram os maiores genocídios da humanidade."

"O Ato de Matar" (2012) é um documentário dirigido por Joshua Oppenheimer, e se há algum adjetivo que o classifique é aterrorizante, conforme a história vai sendo revelada ficamos boquiabertos com tanta maldade sendo exaltada.
A obra traz a entrevista com o líder paramilitar Anwar Congo e seus comparsas, incluindo o dono de um jornal, todos assassinos confessos vivendo livremente na Indonésia, orgulhosos de todos os seus crimes. Os diretores convencem Congo e sua gangue, que chegaram ao poder após o golpe militar de 1965, a encenar suas táticas de tortura e matança, como se fosse um filme de verdade, incluindo figurinos e efeitos especiais.
Em 1965, na Indonésia, Anwar e seu esquadrão da morte iam atrás de pessoas consideradas comunistas, líderes sindicais, artistas e opositores do regime indonésio, as técnicas que eles usavam para aniquilar o máximo de pessoas possível nos são mostradas neste filme chocante. Anwar é um homem adorado, seu jeito calmo esconde coisas terríveis, a frieza acompanha esse ser humano que não demonstra arrependimento, só em algumas cenas ele diz que tem pesadelos, mas nada que mude o orgulho que sente de si mesmo. A palavra gângster é usada constantemente, pois assim é que designavam-se. Ao lado de seus colegas Anwar vai reconstruindo episódios chocantes, atos cruéis, como a técnica em que ele enforca com arame, ou esmaga a garganta com o pé da mesa, enquanto isso é mostrado vemos gargalhadas, imponência e apreço pelo que estão fazendo. Num dos momentos mais angustiantes, reconstroem a cena em que um vilarejo é queimado, onde todos os habitantes morrem, as memórias são reavivadas e podemos ver o horror nos olhos daquelas pessoas que se ofereceram como voluntárias, crianças chorando sem parar, um clima pesado paira no ar. Paralelamente vemos jovens seguindo o caminho totalitário sob a denominação Juventude Pancasila. 

"O Ato de Matar" é um documentário difícil de se assistir, por várias vezes parece inacreditável a brutalidade sendo retratada com tanta facilidade. O diferencial deste filme está em mostrar personagens reais, assassinos que continuam impunes, vivendo como heróis. Sem dúvida o diretor teve muita coragem ao decidir retratar o genocídio indonésio, e os protagonistas ao aceitarem expor seus rostos contando coisas horríveis, demonstrá-las só ressalta o quão orgulhosos são de si, porém numa das cenas finais Anwar ao assistir uma de suas encenações diz: "As pessoas que eu torturei se sentiram como eu me senti nessa cena?", e chora. Uma ponta de humanidade é revelada aí, mas não é o suficiente para nos convencer, a frieza e a maldade nunca foi tão presente em um filme.

Totalmente rodado na Indonésia, na cidade de Medan, "Ato De Matar" carrega uma narrativa perturbadora e provocativa ao exibir pessoas que cometeram crimes em situações líricas, como a cena das dançarinas, alguns trechos se repetem e a duração é um pouco excessiva, mas com certeza conseguiu atingir seu objetivo, mostrar a crueldade personificada.
Há uma continuação chamada "Look of Silence" (2014). Neste uma família que sobreviveu ao genocídio na Indonésia confronta os homens que mataram um de seus irmãos.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Blind

"O que é real não é importante, contanto que eu consiga visualizá-lo."

Eskil Vogt é um roteirista de mão cheia, vide seu ótimo trabalho "Oslo, 31 de Agosto" (2011), a sua estreia como diretor só ressalta seu talento em criar narrativas.
"Blind" (2014) é um filme que envolve e mergulha fundo na personagem, a linha entre realidade e imaginação é extremamente tênue e por muitos momentos ficamos em dúvida, isso se dá porque Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) é escritora e devido a sua nova condição não tem vontade de sair de casa, ela segue os dias refletindo e imaginando situações. Ingrid perdeu a visão e tenta se adaptar, no início assim como ela tentamos entender esse novo mundo que se apresenta, ela busca lembrar de coisas que tenha visto bastante, lugares a que tenha ido com frequência, refaz essas imagens na cabeça, a lembrança é uma grande aliada, mas mesmo assim detalhes fogem e por conseguinte tropeços são inevitáveis.
Ingrid tem receio de sair pelas ruas e imagina diversas situações das quais mais tem medo, como atravessar a rua. A descrição que faz sobre estar cega é impressionante, ela passa a viver um outro mundo, não mais o vê, apenas o imagina. Ingrid mora com o marido Morten (Henrik Rafaelsen), fantasias a respeito com quem ele se encontra ou dele estar perto dela a observando é constante. Ao exercitar sua escrita concebe dois personagens, Elin (Vera Vitali), uma mulher triste, sozinha e que sofre pela ausência do filho, pois o ex-marido o puxa cada vez mais para ele, e Einar (Marius Kolbenstvedt), também solitário e viciado em pornografia, ele se apaixona por Elin, mas não consegue a aproximação. Ingrid vai tecendo histórias envolvendo esses personagens, e coloca seu marido em diversas ocasiões também, como criar um encontro entre ele e Elin. O desenvolvimento do longa é leve e tudo se entrelaça no final, Ingrid confunde-se com seus personagens, o que simboliza seu estado de espírito, a metalinguagem nessa parte atinge seu ponto máximo.

Interessante observar que a auto-estima de Ingrid vai caindo, ela acha que o marido tem pena, e não tem vontade de fazer sexo com uma "invalida". Cenas em que imagina ele a observando a invadem, a insegurança é muito bem trabalhada e seguimos junto com a personagem neste novo mundo que veio a ela tão bruscamente.
Realidade e imaginação se misturam com muita beleza nos revelando solidão e medo. Há momentos que fica difícil definir se algumas coisas são fragmentos do que aconteceu, ou somente são fantasias criadas. Em termos de narrativa esse filme apresenta uma criatividade absurda sem deixar a sensibilidade de lado. Recomeços são complicados, somos tão limitados e perder a visão é terrivelmente assustador.
"Blind" chega bem perto da realidade ao retratar a perda da visão e dos sentimentos que causam, o impacto da escuridão, a insegurança, o medo, a adequação, uma complexidade enorme acomete, pois exige-se muito esforço psicológico. Percebe-se e sente-se tudo de outra maneira.

A visão nos permite distinguir belezas, cores, formas, porém acaba por ser tornar limitada, enxergamos somente o que nos convém, perde-se detalhes e pontos de vista. A cegueira desperta outros sentidos, a audição e o tato ganham valor extremo e as percepções se tornam mais intensas. O valor que atribuímos aos nossos sentidos não equivale ao que nos proporcionam, pois tudo se volta somente para a razão nos distanciado da realidade que se faz invisível.
"Blind" oferece muitos sentimentos a quem o assiste, várias questões e nuances são apresentadas, além de ter uma atuação marcante de Ellen e uma trilha sonora que compõe perfeitamente com todo o contexto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Jardim (Zahrada)

"Zahrada" (1995) produção eslovaca de Martin Sulík (Panorama - Krajinka - 2000) é um filme que passeia pela surrealidade e o transcendentalismo. Tudo começa quando Jakub (Roman Luknár) é expulso de casa pelo seu pai depois que ele é pego fazendo amor com uma mulher casada. Ele resolve sair da cidade e dar um tempo no campo. Na antiga casa de seu avô - mais exatamente no jardim. Lá, Jakub lentamente deixa a realidade para trás. Pessoas fora do comum o visitam e coisas estranhas começam a acontecer, algumas delas parecem milagres. Entretanto, Jakub descobre o verdadeiro amor com Helena (Zuzana Sulajová), que o ensina a apreciar os delicados mistérios da vida.
Muitos simbolismos são apresentados nesta obra naturalista que expõe as relações pessoais, os desejos, as escolhas, dentre tantas outras questões que afligem os seres humanos. Da forma mais leve possível acompanhamos o personagem Jakub em suas descobertas. A linguagem do filme é poética, se distancia das narrativas convencionais e é fácil ficar confuso, por vezes as situações são aleatórias, mas aos poucos entramos na aura do filme e percebemos que a delicada abordagem é para nos proporcionar sentimentos dos quais estão se extinguindo com o atual modo de vida.
Jakub é professor, mas há algum tempo deixou de lecionar, morando com o pai alfaiate se relaciona com uma mulher casada, após serem pegos resolve ir morar na antiga casa de seu avô, do qual possui um jardim com macieiras e ameixeiras, a casa está velha, mas é um lugar aconchegante que vai propiciando a Jakub experiências novas, lá ele conhece uma moça de atitudes estranhas, mas muito apaixonante por ser tão espontânea.

Está cada vez mais difícil viver em sociedade, há sempre muitos obstáculos, modos de se portar, regras a seguir, meios de se comunicar que a naturalidade de simplesmente ser o que se é fica impossível, além de que há muita competição e comparação, viver de acordo com o que brota dentro de seu ser é inviável, é preciso estar sempre a frente, saber e ter muito. Diante disso resta espaço para viver, essencialmente? Descobrir simplicidades, pequenas poesias, ouvir, aprender e ser gentil? Uma das coisas mais bonitas em Jakub é o seu olhar perante os outros, várias personagens aparecem em seu jardim em diversas situações e ele sempre escuta, pega para si e de certo modo vai se transformando. E assim, o amor por Helena vai crescendo e sua relação com o pai vai ganhando contornos interessantes, diferentes do início do filme.

"Zahrada" é filme para rever, é sensível e subjetivo. Filmes assim deviam ser mais conhecidos, mas infelizmente o que predomina é o mais do mesmo fazendo com que a grande maioria adquira um gosto padrão, e aí fica complicado aceitar algo com uma linguagem mais poética. Compartilho com carinho este filme e espero que muitas pessoas o consigam assistir para se inebriarem com tamanha beleza. O imenso jardim coberto de maçãs dificilmente será esquecido.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Pedra de Paciência (Syngué Sabour, Pierre de Patience)

"Sobre uma pedra mágica e legendária: "Se encontrar esta pedra, ponha diante de ti, fale dos seus segredos, dos seus sofrimentos. A pedra te escuta. Tudo o que jamais contaria a outra pessoa, você conta à pedra. Você fala com ela, ela te escuta. E um dia, a pedra arrebenta, desfaz-se em pedacinhos. E nesse dia será livre, libertada de todas as suas dores."

"A Pedra de Paciência" do afegão Atiq Rahimi (Terras e Cinzas - 2005) é a adaptação de seu próprio livro homônimo. É uma obra delicada e intensa.
Um herói de guerra (Hamidreza Javdan) é abandonado por seus companheiros do Jihad e pela mãe e irmãos após levar um tiro no pescoço. Em estado vegetativo, ele fica sob os cuidados de sua esposa (Golshifteh Farahani) que vai, aos poucos, confessando seus segredos e impressões ao marido em coma, fazendo dele sua pedra de paciência e seu caminho para uma nova vida.
O ambiente em que essa personagem vive é marcado por violência, repressão e sofrimento, à beira da miséria ela segue os dias cuidando de seu marido. O papel da mulher em sua cultura é algo realmente triste, não há direitos, oportunidades, e tudo é motivo para julgamentos. Os personagens não têm nomes e o filme é marcado pelos monólogos desta mulher. O ritmo da narrativa é envolvente, acompanhamos a trajetória rumo ao seu descobrimento e libertação.
Inabitável é o local que mora, há bombardeios, a água é insuficiente, o farmacêutico já não lhe vende mais remédios pela falta de dinheiro, além de que precisa alimentar suas filhas. Depois de ver seus vizinhos mortos desesperada sai em busca da única que pode lhe ajudar, ela encontra sua tia (Hassina Burgan) e acaba por permanecer no lugar, uma espécie de bordel, mas todos os dias retorna para cuidar de seu marido. Há momentos em que ela precisa escondê-lo, e numa invasão a casa diz ser prostituta para que não abusem dela, afinal esses homens que dizem lutar por uma causa em nome de Deus adoram jovens virgens e meninos órfãos, prostituas são consideradas impuras, e desse modo o homem cospe nela e vai embora, só que o moço que estava junto começa a ir frequentemente em sua casa e a pagar por seus serviços, ele tem problemas de fala e inesperadamente essa mulher se encanta.
Ao revelar sobre si ao marido começa a sentir algo como a liberdade, isso cresce quando a tia conta a história sobre a pedra de paciência. Ela faz de seu marido, a sua pedra. Um ser que nunca a conheceu e que nem no casamento esteve presente por causa da guerra. Aos poucos descobrimos verdades e situações de desespero que pediam uma saída.

No pequeno quarto, angústias, segredos e ressentimentos que foram guardados por tanto tempo são expostos àquele moribundo. Confissões surpreendentes e libertadoras. Bela interpretação de Golshifte Farahani, delicada, expressiva e que se liberta através da fala. O filme é uma crítica/denúncia à opressão que as mulheres muçulmanas são submetidas, mas não deixa de ter seu caráter universal.
Essa realidade é distante de nós e absurda aos nossos olhos, a mulher é vista como um ser inferior, são proibidas de trabalhar, estudar, andar sozinhas, cobrem o corpo e o rosto com a burca em razão da modéstia, a voz é silenciada. Existem muitos casos de viúvas que se tornam pedintes e outros que por suposições são presas, açoitadas ou mortas. Esse retrato terrível também pode ser visto no dilacerante filme "Osama".

Esteticamente perfeito "A Pedra de Paciência" é um filme bonito, elegante, porém carregado e triste. É importante para que cada vez mais se evidencie e discuta sobre o tema, e as mulheres que sofrem qualquer tipo de repressão possam ganhar voz e dar asas a sua natureza.
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