quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Pieta

"Pieta" (2012) dirigido pelo mestre Kim Ki-Duk faz alusão à escultura mais conhecida de Michelangelo, onde Jesus morto está nos braços da Virgem Maria. O diretor, conhecido por seus filmes em que o silêncio é o grande protagonista, nos traz dessa vez uma história cruel, de vingança, em que o filho é o alvo principal.
Gang-Do é um jovem solitário e que vive uma rotina violenta, trabalha para agiotas, onde é designado a deixar as pessoas que emprestaram dinheiro e não pagaram aleijadas, é conhecido como "açougueiro". O resto de seu dia é marcado por sujeira, comida e masturbação. Até que do nada aparece uma mulher que diz ser sua mãe, essa senhora passa a segui-lo, apesar de ser agressivo no início, sua carência maternal acaba falando mais alto, aos poucos afeiçoa-se, e ela acaba fazendo parte de seu dia a dia. A vingança passa a atormentá-lo, pois agora tem com quem se preocupar, as atrocidades que comete com os outros passa a ser pensadas, e o receio de que se vinguem de sua mãe aparece. Só que na verdade, a vingança parte da mãe dele, em fazê-lo se apegar a ela, a se importar, para no fim fazê-lo sentir dor. É o processo de humanização do personagem. A mãe guarda um segredo e uma dor infindável, da qual só será sanada se concretizar sua vingança. Ela o faz sentir carinho, a protegê-la, para depois tirar da forma mais cruel e dessa maneira ele cai na real de seus atos e se torna "humano", seus sentimentos são resgatados, e a dor traz a sua redenção. Só que conviver com a dor talvez seja algo impossível para Gang-Do.
É um filme que induz a sentimentos fortes, o protagonista que no início esbanja frieza e distanciamento, acaba exibindo seu ponto fraco, pois sozinho não tinha aonde depositar seus desejos e sentimentos, quando a mulher que diz ser sua mãe aparece, conquista-o justamente neste ponto, que sempre foi um vazio em sua vida, e desta forma ela o preenche, e agora ele consegue sentir e expor amor. Ela faz com que ele cada vez mais sinta profundamente, pois a pancada final terá que ser certeira para que entre em si mesmo e perceba o mal que causou não só a ela, mas as pessoas das quais ele tirou as possibilidades de uma vida melhor.

Kim Ki-Duk sempre coloca em pauta a redenção, o ser humano reintegrando-se, buscando a si mesmo, em seus filmes anteriores o silêncio é o ponto forte e esbanjam poesia, diferente deste que não poupa violência física e psicológica. É cruel e dolorido.
Seus filmes merecem ser vistos, tira-se grandes mensagens e entendimentos, ele coloca à prova grandes questões que permeiam a nossa vida. "Pieta" não é agradável, mas a podridão humana existe e não pode ser escondida, a vingança é tratada da forma mais amarga possível.
A câmera foca na dor exprimida tanto na mãe como de Gang-Do, suas frustrações e carências são marcadas por expressões bem delineadas. O processo de vingança traz mudanças inacreditáveis nele, e a decisão tomada se faz crucial.

Há também a crítica ao capitalismo extremo, e que o dinheiro é o principal valor na vida de um ser humano, onde ele dita as regras sem se importar quais serão as consequências. E se impõe sobre valores e sentimentos.
"Pieta" tem recebido duras críticas, chamado de filme pretensioso, e que Kim Ki-Duk talvez tenha errado a mão. Não é o seu melhor filme, talvez eu ainda continue preferindo seus longas sensoriais em que o silêncio diz muito, mas "Pieta" não passa despercebido e tão pouco é ruim, é uma obra que merece respeito, mesmo não agradando a todos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vivendo / Living / Zhit

"Zhit" (2012) trata do assunto morte de uma forma fria para quem o assiste, mas mesmo assim é impossível não se colocar no lugar daquelas pessoas, diariamente somos bombardeados com notícias de mortes e perdas irreparáveis para as famílias. E então como lidar com a morte de uma pessoa querida, aquela que está dia após dia ao seu lado, sua companhia, sua alegria, seu porto seguro? A resposta não existe, é só o tempo que cicatriza, apesar de não apagar essa dor, é apenas vivendo, assim como o título sugerem, que as coisas se amenizam e recuperamos uma parte da força que foi-se junto com a pessoa amada.
O filme conta três histórias, todas elas marcadas por perdas. Na primeira, Galya é mãe de duas meninas gêmeas, que por se tornar alcoólatra depois da morte do marido, acabou perdendo a guarda das filhas. Com muita força de vontade ela tenta recuperar as meninas de volta provando que está apta para isso, porém a vida guarda surpresas das quais muitas vezes são inevitáveis, no caminho as duas garotas morrem em um acidente, a mãe por sua vez nega que elas morreram, e essa situação cada vez mais agravante só tende a piorar. É desolador. Na segunda história acompanhamos um menino que subitamente perde o pai do qual não via, sua mãe contou sobre a morte e depois disso começa a fantasiar uma história dentro de sua cabeça. E por fim, vemos um casal jovem, Grishka e Anton, que após se casarem e ao voltar para casa de trem, Anton é assaltado e espancado, a partir desse ocorrido, Grishka começa a se perguntar qual é a diferença em estar viva ou morta naquele momento, pois sem forças, ela parece estar morta também.
O longa russo é deveras muito melancólico e carregado, a atmosfera fria contribui demais para o sentimento de devastação interior. A trilha sonora bate incansavelmente, assim como a dor em cada um dos personagens que não cessa. Não há outra alternativa a não ser viver, não tem como mensurar a dor, explicá-la ou saná-la, só vivendo e esperar que o tempo ajude entender. O luto pode ser sentido de diversas maneiras, ele pode vir em forma de desespero, revolta, tristeza profunda ou negação.
De forma honesta Vasily Sigarev nos coloca de frente a uma situação da qual evitamos pensar, para quem já passou pela dor da perda irá se ver nos personagens. A aceitação é o último estágio do luto e para isso requer tempo.

É um filme imensamente bonito, os atores se entregaram de forma intensa a suas emoções retratando nada mais que a realidade.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tudo Ficará Bem (Alting Bliver Godt Igen)

"Tudo Ficará Bem" ou "Tudo Vai Dar Certo" (2010) é um filme dinamarquês dirigido e roteirizado por Christoffer Boe. Não é fácil entendê-lo, já que há muitas quebras, as peças vão se encaixar apenas nos 10 min finais, mas para isso é preciso ficar atento a todos os detalhes até então. Não dá pra defini-lo num único gênero, mescla thriller, suspense e lá pelo final o drama. O roteiro é muito intricado, nos faz pensar e maquinar bastante sobre todas as hipóteses do que está acontecendo. Jacob Falk (Jens Albinus) sempre fica obcecado pelas suas histórias, ele está sendo pressionado pelo seu produtor a entregar um roteiro num prazo curto, além disso sua mulher, Helena (Marijana Jankovic), o encurrala para aprontar os documentos necessários para a adoção de um filho.
Estressado Jacob em uma noite acaba atropelando um homem, que vem a saber depois se chamar Ali (Igor Radosavljevic), este pede a Jacob que leve sua bolsa. No caminho ele liga para a polícia informando o acidente e para a ambulância. Quando abre a bolsa, Jacob descobre fotos de prisioneiros de guerra sendo torturados por soldados dinamarqueses. Ao tentar fazer algo com essas fotos, se vê envolto numa rede de paranoia e possíveis conspirações que podem se mostrar muito perigosas, tanto para ele quanto para sua esposa. Jacob mergulha numa trama internacional, ele tem nas mãos provas de crimes de guerra e então passa a querer reencontrar Ali; vai até a polícia, que lhe informa que a chamada foi feita, mas ao chegar ao local não havia corpo nenhum. Jacob começa a desconfiar de todos, mostra as fotos para a sua irmã que lhe indica um jornalista que o poderá ajudar, este o leva a um soldado que chegou recentemente da guerra, mas ele diz que não havia nenhum Ali lá. Depois disso Jacob acredita que todos estão sendo pagos para não dizer absolutamente nada, acaba se enfurecendo e se tornando histérico. A paranoia é tanta que chega um ponto em que não entendemos bulhufas do que está acontecendo, mérito do ator que exprime com precisão a sua obsessão e confusão, do ritmo que se torna eletrizante e do roteiro brilhante.

"Tudo Ficará Bem" é um filme que sabe criar a ilusão perfeitamente, nos envolve na trama, mergulhamos em cada cena a fim de descobrir, mas quando achamos que irá por um lado, aí o filme dá uma bela reviravolta com um flashback. As respostas não são dadas de bandeja, é necessário fazer conexões. Realidade e imaginação se fundem e chega um momento que não dá para definir, essa linha se perde, assim como a mente do protagonista. Fiquei vidrada na cena em que Jacob invade a casa de um "funcionário do governo" e o ameaça. Nesta parte as coisas começam a clarear. A cena acima, por exemplo, é a do tal funcionário torturando a namorada de Ali para que ela diga onde ele se encontra. Bem convincente!

O filme dinamarquês tem uma pegada americana, vide o poster que se assemelha muito ao "The American" - 2010, mas acaba tendo características bem próprias e até peculiares em seu desenrolar, além da abertura sensacional feita de maquetes. A narrativa não é linear, mas não cansa em momento algum, pois é como se sentíssemos necessidade de montar esse quebra-cabeça que mistura realidade e ilusão.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Depois do Casamento (Efter Brylluppet)

"Depois do Casamento" (2006) é dirigido e roteirizado por Susanne Bier, que ficou conhecida pelo filme "Brodre" (2004), do qual ganhou um remake americano chamado "Entre Irmãos" (2009), e também pelo "Hævnen" (2010) que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011. Seus filmes são dramas densos cheios de conflitos pessoais, mas de maneira alguma cai num melodrama sensacionalista.
A trama deste nos conta a história de Jacob Petersen (Mads Mikkelsen), que luta para manter em funcionamento um orfanato localizado numa das regiões mais pobres da Índia. A instituição corre o risco de fechar, até que Jacob é chamado de volta à Dinamarca para falar com Jorgen (Rolf Lassgard), um rico empresário, que deseja fazer uma doação para o local. É difícil para Jacob voltar e deixar suas crianças, principalmente Pramod, que cria desde bebê, mas não pode perder a oportunidade de conseguir melhorar a situação do lugar. Esse aspecto sócio-político com que o filme começa nos fisga de cara, mas a história nos surpreende ao colocar o foco em outro ponto que se desenvolve a partir disso.
A maior sacada é que com toda essa apresentação de personagens nós automaticamente os estereotipamos e os julgamos. Por exemplo: Jacob é uma pessoa bondosa com ideais que ajuda os mais pobres, e Jorgen, o empresário bilionário, um ser egoísta e ambicioso. Fazemos isso com todos os outros personagens, pois as diferenças são drásticas, enquanto na Índia a pobreza é latente, o visual é colorido e bagunçado, na Dinamarca o universo de riqueza predomina e o ambiente é clean. Tudo isso é de propósito, mais tarde nos damos conta do quanto somos condicionados a julgar sem conhecer. Não considero spoiler contar o que vem a seguir porque acontece super rápido, Jacob é convidado por Jorgen a ir ao casamento de sua filha, ele pressionado pela situação de conseguir o dinheiro para o orfanato decide ir, já que o empresário resolverá os trâmites só depois do casamento. Jorgen tem uma família perfeita, é um pai devotado, marido carinhoso e um empresário que sempre esboça atitude. No casamento percebemos que Jacob conhece a mulher de Jorgen, os olhares entre eles revelam isso, aliás os olhares são evidenciados o tempo todo. Uma revelação acontece, a noiva agradece a família e principalmente ao pai que mesmo não sendo legítimo a criou maravilhosamente. A tensão toma conta e Jacob não demora para entender que ela é sua filha.
Aos poucos vamos conhecendo mais profundamente os personagens, e o que pensamos ser não é, as aparências enganam e muito. Há cenas exacerbadamente emocionais, os personagens são mostrados em closes extremos, olhares tristes, desesperados e ansiosos.

É um filme honesto em que mostra que errar faz parte da vida, seja por imaturidade ou escolhas próprias que acabam atingindo alguém próximo, mas estes erros podem ser corrigidos e redimidos se houver uma oportunidade.
Dentre todas as cenas destaco a de Jorgen lá pelo final do filme, é dilacerante. Mads Mikkelsen é perfeito atuando (como sempre), mas quem rouba a cena é Rolf Lassgard, acredito que pela situação e o posicionamento dele em relação a tudo.
É um filme que vai crescendo, os personagens vão se descaracterizando e inevitavelmente as emoções vêm à tona. É mais um belo exemplar de como Susanne Bier sabe construir dramas com conflitos intensos sem parecer uma novela melodramática.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

No Caminho das Dunas (Noordzee, Texas)

"Noordzee, Texas" (2011) é um filme belga dirigido pelo estreante em longas-metragens Bavo Defurne. Pim (Jelle Florizoone) é um menino quieto. Um sonhador. Ele vive com sua negligente mãe Yvette (Eva van der Gucht) em uma pequena cidade da costa belga em meados da década de 70. Pim cresce desenhando e sonhando com uma vida de fantasia, e chega à adolescência mantendo seus desejos emergentes em segredo. Aos 15 anos, seu maior sonho é seu amigo e vizinho Gino (Mathias Vergels), por quem alimenta uma grande e não correspondida paixão. Pim mora com sua mãe que é completamente relapsa, desde pequeno silenciosamente brinca de ser princesa e frequenta a casa de seus vizinhos que o acolhem como sendo da família. Ele atravessa sua infância cuidando de si mesmo e nutrindo uma paixão por Gino, quatro anos mais velho. Já adolescente enfrenta as dores e as alegrias das descobertas, no início a paixão é correspondida, os dois vivem momentos maravilhosos juntos, mas Gino não é bem resolvido com sua sexualidade, então se envolve com Françoise e vai embora para viver com ela. Um duro golpe para um garoto que não tem com quem conversar.
Pim apesar de ser muito ingênuo é capaz de cuidar de si mesmo, sua mãe deseja viajar pelo mundo tocando sanfona, e ao surgir uma oportunidade não pensa duas vezes. Além de ser abandonado pelo seu primeiro amor, é deixado também por sua mãe. Com isso é acolhido pelos vizinhos, mas a mãe de Gino e Sabrina está muito doente e a situação se agrava dia após dia. Acomodado no quarto onde Gino dormia ele passa seus dias desenhando, Sabrina nutre uma paixão por ele, mas sabe que nunca terá chance. Ela o chama de sonhador. O tempo passa e a mãe de Gino adoece mais, no hospital ela demonstra seu último desejo em uma cena linda e muito significativa.
O filme tem uma fotografia de encher os olhos destacando as paisagens deste lugar tão pacato. O protagonista carrega em sua feição um ar puro e inocente, o que passa muita credibilidade tornando o drama bem realista.

Filmes que abordam o despertar da adolescência pendem sempre pro lado mais clichê, mas neste a simplicidade e a inocência sobressai de uma maneira emocionante sem ser piegas. É realmente lindo e triste observar a vida deste garoto que precisa cuidar de si ao mesmo tempo que se descobre. O romance é tratado de forma sutil e bem leve. A trilha sonora é outro fator que compõe perfeitamente com o contexto todo.
Todas as cenas são trabalhadas nos detalhes, como por exemplo, a primeira onde ele ainda criança se desnuda e coloca uma coroa na cabeça, ou a caminhada cheia de expectativa até a casa de Gino, e até mesmo o seu silêncio diante as coisas que lhe acontecem. Há muitas cenas repetitivas, como o desleixo da mãe e seu comportamento espalhafatoso no bar onde trabalha, mas a história prima pelo romance e o drama é secundário, porém não menos importante.

É um retrato sensível, inocente e puro das descobertas, somos conduzidos por silêncios, olhares e gestuais. A temática gay é explorada delicadamente. Pim é um sonhador, um menino que sorri com os olhos e que demonstra amor sem ao menos dizer uma palavra. "Noordzee, Texas" mistura tristeza e beleza esbanjando poesia.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Bol

"Bol" (2011) é um filme produzido pela indústria cinematográfica do Paquistão, Lollywood, situada em Lahore. Dirigido por Shoaib Mansoor, a trama conta a história de uma família que enfrenta problemas financeiros por causa do desejo do patriarca de ter um filho homem, a fim de que este mais tarde tome a dianteira e assuma as responsabilidades que todo homem muçulmano recebe. Hakim não entende o porquê sua mulher só gera meninas, teimoso ele continua tentando e com isso a família só aumenta, quando Suraiya dá à luz ao seu oitavo filho, eis que nasce um hermafrodita, entre discussões decidem ficar com a criança, mas com a condição de que nunca saia de casa para nada. Saifullah cresce sem o carinho do pai, assim como todas as suas irmãs, ele as trata muito mal, não as deixam estudar e só fazem o trabalho de casa, não têm contato com nada e ninguém, além disso Suraiya, sua mulher sofre agressões morais e físicas. Zainub é quem conta esta história, no início a vemos indo para a forca, pois foi considerada criminosa pela justiça do Paquistão, seu último desejo é contar para a mídia o que lhe aconteceu, e principalmente deixar-lhes uma pergunta. Após a aprovação do presidente ela começa a narrar.
Zainub é uma mulher pensante, não é submissa e sempre contesta os pensamentos arcaicos de seu pai, vinda de um casamento arranjado que não deu certo é ainda mais rejeitada. A renda da família tem diminuído a cada ano que passa, Hakim é dono de uma espécie de farmácia da qual receita alguns medicamentos manipulados, uma profissão antiga que está sumindo. Com isso Saiffulah é compelido a procurar emprego, como é muito bom em desenhar arranja um lugar para trabalhar, mas lá há pessoas de mau caráter que acabam o estuprando, e em razão disso Hakim toma uma decisão horrorosa, acreditando estar fazendo a vontade de Deus. Em detrimento desta absurda atitude sua situação financeira se agrava mais ainda. Nesta parte a vida de Hakim muda radicalmente, não tendo mais como obter dinheiro para pagar as dívidas que fez, aceita a proposta de um cafetão para ensinar o alcorão a seus filhos, mas com o passar do tempo aceita uma outra proposta, um tanto quanto bizarra, engravidar Meena, a mulher do cafetão, pois Hakim é especialista em prover meninas.

O tempo todo o filme passeia entre tradição e modernidade, conceitos e preceitos que já não podem mais sobreviver, mesmo numa sociedade tão repressiva como a do Paquistão. O machismo e o poder que o homem acha que tem sobre a mulher ainda persiste, mas aos poucos mulheres com pensamentos mais libertários seguem suas vidas, trabalhando e escolhendo com quem casar, é preciso uma boa dose de coragem, como Zainub fez. A questão mor que o filme levanta é a de colocar filhos no mundo sem pensar que estes podem sofrer. Em seu desabafo Zainub diz que deveria ser crime dar à luz a uma criança que será mantida sob regime rígido, sem o mínimo de educação, alimentação e onde não há dignidade. Se não tem como cuidar, amar, alimentar, dar educação a um filho não o tenha, pois será mais um "mendigo". Ter filho não é brincadeira, é uma responsabilidade séria e que exige mudança interna e externa. A pergunta que ela deixa a mídia é: Por que somente matar é pecado? Dar à luz também deveria ser!
"Bol" levanta diversos temas sociais que são urgentes, e mesmo que esta história se passe em um lugar completamente distante e diferente do nosso, o assunto cabe perfeitamente a qualquer outro.
Expondo principalmente a hipocrisia da religião e o egoísmo do homem a narrativa é envolvente e densa, mesmo sendo longo não cansa, prende-nos do começo ao fim. As atuações são impressionantes e apesar das firulas na parte musical, é um filme que tem um propósito e coloca o dedo na ferida sem receio algum. É um retrato muito atual e importante.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Segredo do Lago Mungo (Lake Mungo)

"Lake Mungo" (2008) é um falso documentário que relata a dor e as incertezas de uma família ao perder a filha afogada. De convencional não tem absolutamente nada, não é totalmente terror, mas gera uma grande tensão sobre o que se está vendo, muitas dúvidas acerca do ocorrido. Na verdade mais que um documentário que especula o sobrenatural é um drama cheio de dor e revelações. 
Alice Palmer, uma jovem de dezesseis anos, afoga-se enquanto nada na barragem local. Quando o corpo é recuperado é atribuído o veredito de morte acidental. A família começa então a experimentar uma série de eventos estranhos e inexplicáveis centrados na sua casa e áreas envolventes. Profundamente inquietados, os Palmer procuram ajuda de um parapsicólogo, Ray Kemeney. Uma série de pistas leva a família ao Lago Mungo onde o passado secreto de Alice emerge.
O filme segue com depoimentos dos familiares sobre o dia fatídico, os amigos dizem a respeito como era a personalidade de Alice, perguntas surgem e então coisas estranhas acontecem na casa. Matthew, o irmão de Alice, começa a se interessar por fotografia, uma forma de passar o tempo. A família sente muito fortemente a presença da garota na casa, os lugares que ela costumava ficar, e em um dado momento o pai chega a dizer que a viu entrar em seu quarto. Matthew ao revelar as fotografias percebe algumas coisas estranhas, de início uns borrões, mas a silhueta de Alice vai ficando bem visível, intrigados todos da casa concordam em colocar câmeras para tentar captar esta presença que sentem constantemente. O sobrenatural aparece não em forma de sustos, mas naturalmente, como se fosse realmente algo comum. As aparições são tantas que os pais acreditam que Alice continua viva e até pedem para exumar o corpo para terem certeza se era o dela. Depois da confirmação os pais se sentem mais aliviados, porém continuam sentindo coisas estranhas na casa, então recorrem a um médium muito conhecido.

Quando alguém muito próximo morre, principalmente quem está sempre ao lado, claro que é comum sentir a presença na casa, mais ainda quando as pessoas guardam objetos e roupas, o sentimento de presença é muito forte, mas com o passar do tempo nossa mente vai se habituando a uma nova vida. Algumas pessoas têm mais dificuldades em lidar com o luto e acabam se apegando a qualquer coisa, Matthew fez isso utilizando a fotografia, manipulou todas as fotos, mas isso chega até ser compreensível, pois a dor de perder alguém é imensurável, cria-se um tipo de necessidade no querer acreditar em coisas que vão além da nossa percepção. Dá um certo alento crer que há algo depois da morte. Só que mesmo com a confissão do garoto, eles continuam com as câmeras nos cômodos, e o que descobrem a seguir não é mais sobrenatural, e sim uma pessoa real que está no quarto de Alice e parece estar procurando alguma coisa. Então, segredos vêm à tona e a imagem de Alice, a garotinha perfeita, se desfaz, eles encontram uma fita que obtém um segredo que era só dela, e que nem os amigos sabiam. A partir desse fato os pais vão a fundo e tentam desvendar o que estava acontecendo com a filha; encontram seu diário, descobrem que aconteceu algo na viagem que ela fez com os amigos e imagens de celular revelam que Alice escondeu pertences perto de uma árvore. Muitas dúvidas surgem para os pais, dessa forma decidem ir atrás de respostas, viajam até o local e percebem que Alice não estava bem, ela estava tendo sonhos estranhos e pensamentos mórbidos. Não há uma conclusão exata, mas as cenas finais são muito interessantes e obscuras.

O mockumentary não segue os moldes conhecidos, ele claramente parece real, sem dúvidas um dos melhores que vi neste estilo, há muitas reviravoltas e surpreendentes revelações. Serve tanto para quem deseja ver algo diferente no que se refere ao terror, quanto ao drama que é bem forte e retrata perfeitamente a dor e as incertezas sobre a morte. Cada um absorve de uma maneira, alguns podem achar tenebroso pelo lado sobrenatural, outros se apegam mais ao drama que impressiona.
O que fica martelando é o fato de que não conhecemos profundamente quem está perto de nós, todos têm segredos que só guardam para si mesmos. Alice não estava mais ali para se defender ou explicar, a família teve que seguir em frente e reconstruir a vida.
"Lake Mungo" vale muito a pena, convence e envolve até o último minuto.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O Passado (Le Passé)

O iraniano Asghar Farhadi (Procurando Elly - 2009) é um diretor que sabe explorar como ninguém dramas familiares. Em "Le Passé" traz um enredo repleto de segredos e surpresas. Esse é seu primeiro filme filmado fora de seu país, Farhadi não está afim de mostrar as belezas que contornam a cidade luz, o foco está na aparente banalidade da vida, circunstâncias que aparecem uma hora ou outra, como o passado não resolvido que volta trazendo grandes dilemas. É intenso e tudo muito envolvente, o ritmo do filme não cai jamais, é de uma condução magnífica. Asghar Farhadi é um exímio diretor.
A história começa quando Marie (Bérénice Bejo) vai buscar seu ex-marido Ahmad (Ali Mosaffa) no aeroporto de Paris. Aos poucos descobrimos a relação que há entre os dois: separados há 4 anos, Ahmad está vindo de Teerã para assinar o divórcio definitivo do casal. Sendo hospedado na casa da ex-mulher, ele acaba sendo inserido em todos os conflitos familiares existentes. Marie vive junto de suas duas filhas advindas de outro casamento e o novo namorado Samir (Tahar Rahim), que trouxe seu filho pequeno Fouad. Lucie, a filha adolescente, não aceita o novo namorado, e o clima dentro da casa parece ficar pior a cada dia que passa, sobretudo quando a relação do casal parece ficar mais séria com o surgimento de uma gravidez. Além disso há a esposa de Samir que está em coma por tentar o suicídio. Marie foi deixada por Ahmad uns quatro anos atrás, aos poucos vamos descobrindo o que o levou a isso, mas o fato dele voltar para assinar o divórcio cada um entende à sua maneira. A intensidade dos fatos vão aumentando à medida que revelações são feitas, Lucie carrega nas costas uma culpa gigantesca que envolve questões morais.
"Le Passé" é um filme completo, principalmente por seu enredo primoroso e as atuações maravilhosas, tanto de Bérénice Bejo, uma mulher comum que sofreu decepções amorosas e ainda nutre essas feridas, como de Ali Mosaffa, o ex-marido que é um homem compassivo e sempre aberto para tentar ajudar e amenizar a situação da família, e Tahar Rahim, o namorado de Marie, que nos surpreende e muito, seus sentimentos vão se acentuando conforme o desenrolar, ele é dono da cena final, da qual nos emociona e causa uma tensão muito forte. A imprevisibilidade é a grande sacada deste filme.

A culpa é um sentimento muito explorado e nos mostra o quanto uma pessoa fica impossibilitada de prosseguir com ela martelando em sua mente. Muitos mal-entendidos acontecem por falta de diálogo e compreensão, se as pessoas fossem honestas com suas decisões sem precisar mascará-las, muitas coisas poderiam ser evitadas.
Toda escolha vem carregada de consequências, por isso deve ser colocado de forma explícita sem encobrir sentimentos ou fatos, de repente uma situação desencadeia outra, verdades surgem e acaba deixando relações futuras prejudicadas. Às vezes escondemos pequenos segredos achando que nada irá acontecer, mas o incrível é que nada se esconde por muito tempo. O caso da empregada de Samir exemplifica esse pensamento. Ela escondeu algo e isso teve um peso enorme. "Le Passé" é um filme maravilhoso, um drama universal que retrata bem as imperfeições das relações humanas.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A Espuma dos Dias (L'écume des Jours)

"A Espuma dos Dias" (2013) do diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - 2004) é baseado no livro de Boris Vian, importante obra da literatura francesa escrita no final da década de quarenta. Na história Colin (Romain Duris) é um jovem que tem a sorte de ser rico o suficiente para não precisar trabalhar, um dia conhece Chloé (Audrey Tautou) em uma festa, se apaixona, e rapidamente se casa com ela. Porém, já na lua de mel, a moça desenvolve uma rara doença: uma flor de lótus cresce em seu pulmão direito e para matá-la é preciso que Chloé se cerque o tempo todo de flores frescas, o que leva Colin à falência.
Colin divide sua casa com o cozinheiro Nicolas (Omar Sy), e um pequeno rato que age como um humano, também recebe sempre a visita de outro amigo, Chick, que é obcecado pelos pensamentos de Jean Sol Partre. A tragédia é certa e aos poucos o surrealismo criado por Gondry vai se desfazendo. A atmosfera do filme é muito semelhante a de um sonho, como se tudo fosse possível e não houvesse empecilhos, as traquitanas deste universo são bizarras, como por exemplo, um piano que produz bebidas de acordo com suas notas musicais. Com certeza é um filme único e interessante, mas infelizmente o drama envolvendo o casal se desfaz, o visual se sobressai bem mais que a história e as geringonças se tornam mais importantes que os personagens.
"A Espuma dos Dias" pode ser considerado uma fábula adulta, mas para quem não consegue se infiltrar neste mundo fantástico não verá beleza alguma, muitas coisas não fazem sentido, e é justamente esse o encanto do filme, como num sonho onde tudo pode ser alcançado e conseguimos por meios estranhos atingir nossos objetivos.
O personagem Colin é um homem que ainda possui um menino em si, ele não conhece responsabilidades, e o porquê dele possuir todo aquele dinheiro não nos é explicado, na verdade nem é preciso. O fato é que tentamos obter respostas o tempo inteiro, o desenrolar não ajuda e muitas coisas ficam no ar.
Muito inteligente é a mudança drástica de ambiente, enquanto Chloé vai definhando o cenário alegre e colorido do início vai ganhando tons mais escuros e se torna melancólico, é devastado, assim como os sentimentos de Colin.
É um filme repleto de detalhes, que traz uma bonita e triste história sobre o encontro do amor, realização de sonhos, o inesperado que traz situações inusitadas, e então a realidade que vem assombrar.

É uma obra inovadora e que esbanja criatividade, além de marcar de vez o estilo de fazer cinema de Michel Gondry. Para quem sempre está reclamando que não há novidades e que os elementos utilizados são sempre os mesmos, "A Espuma dos Dias" vem como um presente, que sabendo apreciá-lo será muito satisfatório.
"A Espuma dos Dias" é um filme excêntrico e exibicionista, marca a passagem de uma vida rodeada de magia pelas responsabilidades que inevitavelmente aparecem. É um filme que salta aos olhos mas que carece em provocar emoções.
Gondry conversa muito bem com o surrealismo, é onde ele se sente à vontade e aqui ele coloca toda sua inventividade se baseando em um livro que fez parte de sua vida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Helen / As Faces de Helen

"Helen" ou "As Faces de Helen" é um filme denso que retrata a depressão exatamente como ela é: uma doença. Muitas pessoas não entendem e associam com a tristeza, mas a verdade é que está muito além de um sentimento. A depressão é um distúrbio psiquiátrico que necessita ser tratado, neste filme a doença é destrinchada e mostrada em seus vários estágios. Helen (Ashley Judd) é uma mulher bem-sucedida que tem um casamento feliz e um bom relacionamento com a filha. Porém, existe algo que ela tenta esconder: sua bipolaridade, que vem à tona em um surto devastador, mudando a forma de ver o mundo. Agora, cabe à sua família e amigos mostrar a ela que a vida continua bela. O quandro depressivo de Helen vai aumentando e junto vem os pensamentos suicidas desencadeado pelo uso de antidepressivos, o marido não sabendo mais como lidar com a situação dentro de casa decide interná-la, e aí acaba descobrindo que Helen já havia apresentado um episódio anterior no período pós-parto de sua enteada.
Helen é uma talentosa professora de música e aos poucos vai perdendo a vontade de viver, difícil compreender as causas, pois sua vida é praticamente perfeita, por isso a narrativa do filme faz questão de explicar que depressão é doença e é necessário tratamento. A sua família sofre junto e tenta ajudá-la, mas ninguém é capaz de lidar com sua dor, apenas uma jovem estudante que conhece muito bem o estado depressivo. Essa garota tem papel fundamental nesse período em que Helen está passando. Helen chega abandonar seu lar por pensar que é melhor o afastamento, daí por diante passa a viver com Mathilda, cuja vida é rodeada de sofrimento. Em dado momento o marido transtornado pergunta para Helen: "O que essa garota tem de mais para você escolher ficar com ela?", e então Helen diz: "Ela não me pergunta como me sinto, ela sabe". É preciso passar por isso para saber exatamente o quão dilacerante é estar neste estado incapacitante.
O filme segue num tom sério, as cenas são todas trabalhadas nas emoções. Ashley Judd está perfeita em todas suas nuances. O interessante é que o marido não a deixa mesmo que não entenda o que se passa com ela, quando Helen se afasta ele deixa claro que a ama e a quer por perto, e isso nunca irá mudar. Muito bonito também a relação que ele tem com sua enteada, sempre sincero expondo o que acontece, o que acaba enfurecendo ainda mais Helen.

De todos os filmes que abordam o tema depressão este é o que chega mais próximo da realidade, desmistifica várias coisas, além do tratamento de choque que é rodeado de tabus. É possível um recomeço, mas é necessário um clique para que desperte algo na consciência, no caso de Helen foi sua filha ter ido atrás dela, e também o desfecho trágico de Mathilda. Existem vários tipos de depressão, Helen pensava na morte constantemente, já sua amiga queria viver, se apegava a meros detalhes, mas quando viu que a realidade em que se encontrava não mudaria não conseguiu suportar. Essa parte retrata aquele dito que quem quer se matar não fica falando, vai lá e faz.
O filme tem um roteiro maravilhoso, atuações impecáveis e é extremamente válido para tirar dúvidas que acercam esta doença. Interessante também por retratar tanto o lado da família como da pessoa doente, imagine o como é difícil para quem convive entender o que passa na mente de alguém totalmente desestabilizado, necessita-se de muita paciência e amor.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

The Silence (Das Letzte Schweigen)

"The Silence" (2010) dirigido por Baran Bo Odar conta sobre um crime, cujo dois pedófilos fazem parte, enquanto um mata o outro apenas observa e pega os fones de ouvido da menina de 11 anos, que logo após é jogada no rio. Dado isso os dois fogem. Após 23 anos o crime se repete da mesma forma, só que o corpo da garota não é encontrado tão facilmente, os amigos pedófilos distanciaram-se há muito tempo, sendo que o cúmplice casou-se, teve filhos e aparentemente estava livre de sua mente desequilibrada. Mas vendo a notícia do assassinato percebe o quão igual é o daquele de tantos anos atrás.  Perturbado parte em busca de seu antigo amigo, sabe-se lá para quê, pois o personagem é de um silêncio absurdo, ele apenas demonstra desespero. Nisso as investigações estão a toda para tentar desvendar esse mistério, há o foco em dois policiais, um já reformado e que nunca desistiu de solucionar o primeiro caso, e outro mais jovem marcado pela perda da mulher e com vários tiques nervosos, que procura seguir em frente e resolver o segundo caso. Paralelamente encontramos as famílias das duas jovens, uma mãe que nunca conseguiu se desfazer da tristeza causada pela perda da filha, e um casal que agora lida com a incerteza da filha desaparecida.
No início de tudo os pedófilos se cruzaram ao acaso, um percebendo que o outro não parava de observar as crianças do parque, onde um deles era o zelador, acabam se aproximando e entendendo que cultivavam o mesmo desejo, assim eles começaram a partilhar segredos de suas mentes pérfidas, por exemplo, gravando vídeos sexuais com meninas que ainda nem desabrocharam. O mais velho dos pedófilos sentia realmente carinho pelo seu amigo, o único que talvez o entendia, e o segundo crime está ligado nessa questão, mas a insanidade do outro cara é tanta que acaba se afundando cada vez mais em mentiras e acusações.
"The Silence" caminha num ritmo lento, mas com muito cuidado afim de que entendamos os dramas dos personagens. Um ótimo filme, surpreendente pelo final onde acontece exatamente o que não queremos que aconteça, e isso é bom. O silêncio é retratado pelo pedófilo perturbado pela imagem do crime que não sai de sua cabeça, e agora ele revive sem saber de fato o que é verdade. O cúmulo é ir visitar a mãe da menina morta a 23 anos atrás, é a cena crucial para desvendar a verdade, que na realidade não é a certa.

Não se sabe exatamente o que se passa na cabeça do pedófilo mais novo, talvez o medo de ver que é um monstro e que não consiga viver normalmente, por isso a vontade de fazer algo que o tire dessa condição acaba aparecendo. O silêncio dá as suas explicações e são tomadas como certas. Encerra-se a história, mesmo que a desconfiança de um policial apareça, dá-se por encerrado. Pois é melhor crer no silêncio ao seguir os passos do barulho que não dá sossego. No final nos deparamos com uma história de amizade certamente estranha, mas que para os dois fazia sentido, juntos se complementavam em suas loucuras doentias. Sozinhos, um ficaria eternamente atormentado e o outro seguiria com seu segredo guardado. Realmente os psicopatas se reconhecem e sempre se guiam pelo olhar. 
"The Silence" é um filme curioso, pois de algum modo nos faz gostar imensamente da trama.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dorfpunks

Dirigido por Lars Jessen o filme é inspirado no livro homônimo do músico Rocko Schamoni, que conta sobre sua juventude e as influências do movimento punk que moldaram sua personalidade.
É o verão do ano de 1984. O jovem Malte Ahrens, conhecido como Roddy Dangerblood, mora com os pais em uma área montanhosa cercada de lagos e florestas na cidade de Schleswig-Holstein Schmalenstedt, no norte da Alemanha. Ele acabou de descobrir o punk, gênero musical que chegou com certo atraso à região. Além de ouvir punk e andar pelas florestas bebendo e conversando sobre música, envolve-se em confusões com outros garotos que vivem por ali, o que é visto com profunda desaprovação pelos seus pais. Mas quando ele conhece seu vizinho Schwaster, finalmente consegue encontrar sua própria definição de punk e, com isso, um pouco de liberdade.
Os jovens são descontrolados, revoltados, cujas ideias são revolucionárias demais para o modo de vida que vivem, eles bebem, se drogam, vivem em festas e principalmente se juntam para conversar e trocar pensamentos na floresta. E foi numa dessas conversas na floresta que surgiu a vontade de criarem uma banda punk. Designando quem tocaria o quê começaram a se inspirar nas letras e harmonias, porém a banda era muito ruim, não ensaiavam constantemente, e quando foram participar de um concurso acabaram sendo vaiados. Os meninos tinham personalidades distintas. O anarquismo, o stalinismo, a vontade de mudar o sistema e contestar as massas permeiam o filme, mesmo que de maneira superficial. O modo que faziam para que os outros percebessem as suas revoltas era por meio das roupas, atitudes agressivas e o desregramento da vida. Só que a música começou a bater forte em um dos meninos, Roddy se apaixonou pela arte de tocar, empolgado ele queria ensaiar e se tornar membro de uma banda de verdade, mas isso ia contra as regras de um dos garotos que abominava o capitalismo e o mercado consumidor. E os outros não estavam nem aí. Sozinho e desiludido encontra no vizinho antes nem percebido a chance de poder traduzir a sua própria maneira de ser punk. A cultura punk é pouco descrita, na verdade o filme trata da instabilidade juvenil, o existencialismo que os cerca numa cidade que pouco se aproveita. Mostra a vontade de mudar, de ter liberdade e viver. Ser punk é primeiro revolucionar-se por dentro e depois gritar para todos: eu sou assim mesmo, e daí? Cecil von Renner traz muito carisma ao seu personagem e pontua bem quando começa a mudança, a revolução que acontece em si mesmo. O filme é a memória de um tempo selvagem, da desilusão e da euforia da juventude, essa que tem diminuído com o passar dos anos. As pessoas não contestam, não questionam, apenas vivem em seus mundinhos confortáveis.

O punk simboliza a liberdade, o bater das asas ao dizer que algo não está certo, colocar o pensamento para fora, buscando o melhor e uma mudança drástica. A trilha sonora marca de maneira fantástica a história, principalmente quando Roddy se deslumbra com as dicas musicais do dono de um bar. 
A contestação é a alma dos punks, a liberdade individual, a manifestação contra a hipocrisia, os privilégios, a sociedade conformista e as desigualdades sociais. Para quem tem esse espírito "Dorfpunks" é uma ótima sugestão, mesmo que o filme trate o assunto de maneira leve.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Takva - O Temor de um Homem de Deus

"Takva" é uma produção da Turquia juntamente com a Alemanha. A palavra numa tradução literal seria temor a Deus. Por isso nem vou utilizar o subtítulo brasileiro "A Fuga de Deus", acho mais conveniente usar o traduzido ao pé da letra, "O Temor de um Homem de Deus".
"Takva" mostra o quanto a fé pode ser cruel a um homem que vive afim de não cometer pecados e desapontar o seu Deus. Viver fora de sua fé é se sujeitar a um mundo do qual designam mundano. Se sujeitar a um Deus que tudo vê e que no menor deslize pune, a própria consciência se torna o seu Deus, impossibilitando de ter uma vida social. Apesar de achar muito bonito teoricamente a maneira como os islãs oram para seu Deus e todos os rituais de conexão, as palavras que se tornam quase um portal para essa fé, não consigo crer em um Deus tão rude e punitivo, talvez pela visão ocidental em ter a fé não vinculada com a religião, por exemplo, posso ter fé na vida, em mim e nas pessoas que me rodeiam, sem necessariamente louvar um Deus a todo momento. A fé é diferente de crença. Mas numa religião tão castradora como é o Islamismo, Alá é o único que pode salvar e absolver.
Na história Muharrem é um homem humilde e introvertido que vive de forma limitada e solitária. Adere de forma rígida a doutrina islâmica, inclusive a abstinência sexual. Sua extraordinária devoção atrai a atenção do líder de um rico e poderoso grupo islâmico de Istambul que oferece um cargo de coletor de renda das suas inúmeras propriedades. Emprego novo, Muharrem, lança-se ao mundo moderno, o mesmo que ele evitara com sucesso durante toda sua vida. Logo começam a surgir os conflitos pessoais. Ele se torna orgulhoso, dominador e desonesto. Para piorar a situação, sua paz interior está abalada pela imagem de uma mulher sedutora que o atormenta nos seus sonhos. Agora sua devoção está virada, o medo de Deus começa a dominar seus sentidos. Fechar os olhos pro mundo que nos cerca e unicamente fazer da vida devotada a Deus, é um passo para a loucura e é isso que acontece ao nosso personagem. Ao lidar com pessoas diferentes, dinheiro, começa sem querer se questionar e entrar em parafuso, os desejos começam a aflorar, a ganância, o sexo, e tudo isso o atordoa, pois ele é um homem de Deus, que ao menor erro, sente medo do que pode acarretar se desobedecê-lo.
Metade do filme é exposto todo o seu fervor a Alá, somos puxados para seu mundo. A outra metade é a mudança que ocorre em seu íntimo e a confusão que o toma. O filme trata de um segmento da religião islã. Designados como Sufis, os islãs místicos. É uma série de conceitos e práticas que passam pela pobreza, reclusão, ilusão, privação da alma, cantar e dançar; é baseado em uma mistura de muitas religiões e filosofias diferentes.

O profeta Muhammad diz: "Aquele que fizer um ato que não está de acordo com meus comandos deve ser rejeitado" - Ou seja, a desobediência a Deus e a seus princípios está fora de questão. O medo de um religioso fervoroso diante a um mundo diferente deste é bem compreensível. O ritual de conexão é muito instigante, são rezas proferidas em uníssonos que crescem de acordo com uma dança hipnótica. Realmente um deleite visual que o filme propõe. É um longa particular e para quem o assiste é necessário se despir de visões pré-definidas e preconceitos religiosos, é um olhar diferente do qual estamos habituados.
A tal da submissão é exposta, a abdicação da vida dos prazeres tem seu preço e se não conseguir ser fiel a sua crença o final disto pode ser cruel, e assim nos mostrou Muharrem. É preciso respeitar todas as crenças, mesmo que isso vá contra as suas ideias de vida. Cada um encontra seu Deus de uma forma e o nome que se dá, é irrelevante. No caso dos islãs é uma tradição impenetrável e acima de tudo uma cultura que a nós parece absurda. O homem tende a distorcer as coisas e não seria diferente com a religião.
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