sexta-feira, 30 de agosto de 2013

College Boy - Videoclipe

"College Boy" (2013) é um videoclipe da banda francesa Indochine dirigido por Xavier Dolan. O jovem diretor tem estilo e com certeza está deixando cada vez mais sua marca registrada, a sua maneira de filmar inclui alguns exageros ou manias, como enfatizar o andar em câmera lenta com uma trilha sonora cool e figurinos vintage fashion. Ele traz temas atuais e pertinentes a suas obras, o videoclipe em questão é estrelado pelo ator Antoine Pilon e é bem desconfortável, pois trata do bullying, as cenas são fortes e atingem em cheio nosso psicológico. Filmado em preto e branco mostra um rapaz que sofre nas mãos dos colegas enquanto todos fingem não ver (são mostrados com vendas nos olhos). O clipe incomoda, mas se faz necessário, já que a violência e o ódio tem se disseminado tanto dentro das escolas e afins.
Indochine é uma banda de New Wave francesa que fez sucesso nos anos 80, não lançaram nada relevante até tempos atrás, até aparecer com este novo single "College Boy".
O clipe tem um tom sombrio e é violento, um adolescente é perseguido por um grupo de meninos da escola e sofre com todo tipo de humilhação enquanto professores, alunos, pais e até policiais representam a hipocrisia da sociedade, eles aparecem literalmente vendados.

Chocante ver a indiferença em meio a tanta crueldade. O bullying tem sido retratado de diversas formas no mundo do cinema. Alguns são dramas realistas, como "Depois de Lúcia" - 2012, outros nem tanto, banalizando o tema.
Vale assistir, as imagens representam a ideia de que não se pode calar e fechar os olhos diante a violência contra outro ser humano julgado diferente pelos demais.

Assista aqui


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Onda (Die Welle)

"A Onda" (2008) dirigido por Dennis Gansel (Napola - 2004) retrata como uma sociedade fascista ainda poderia existir, e é através do professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) que faz um experimento na prática com seus alunos que observamos como uma ideologia repetida diversas vezes se faz possível mesmo nos dias de hoje. Baseado em uma história verídica que aconteceu na Califórnia em 1967, onde um professor impôs a ambientação do nazismo aos seus alunos. O projeto durou uma semana, o suficiente para causar vários danos, mais tarde esse evento virou um livro escrito por Morthon Rhue, no qual o filme de Gansel se baseou.
Rainer Wenger ficou incumbido de ensinar a sua turma sobre governos autocráticos, como o fascismo e o nazismo, observando a desatenção dos alunos resolveu colocar na prática, onde a experiência consistia na escolha de um líder, cujo professor ficou com o cargo, e daí por diante os alunos só poderiam se dirigir a ele o chamando de Sr. Wenger se levantando toda vez que queriam falar, escolheram o nome "A Onda", um uniforme para manter a união e se solidificarem como grupo e criaram até uma saudação. A semana foi passando e a coisa foi ficando séria, entre debates sobre o sistema os interessados perceberam que diante da Onda estavam lutando por algo, mesmo causando mal-estar naqueles que não eram ou não se juntavam a eles, não demorou para que a violência entrasse no jogo.
O filme mostra jovens que buscam se autoafirmar em frente a seus colegas, um grupo sempre é mais forte perante a quem está só, veja o desastre que ocasionou a experiência ao aluno que tinha a mente mais fraca, que não tinha amigos ou atenção dos pais, ele pirou, ele estava integrado num grupo por uma causa, a união o fez forte e lhe deu pensamentos completamente violentos. O professor Wenger empolgado com o interesse dos alunos não percebe o quão longe chegaram nesta história toda. Até a diretora da escola o parabeniza, os pais dos alunos perceberam as melhoras e o que era para ser um experimento em sala de aula foi se desenrolando para fora também. Com o interesse de cada vez mais jovens, novos alunos aderiram a Onda, a maioria suscetíveis as ideias, mas para aluna Karo, que tem uma personalidade mais egocêntrica, que não é fraca a ponto de achar que precisa se unir para ser forte, vai contra a Onda, todos a excluem e os problemas só tendem a crescer.

Essa realidade não está tão distante, há várias formas de ditaduras, um exemplo são as torcidas organizadas de futebol que agem com violência e espancam os que julgam serem diferentes. Um pensamento difundido e repetido diversas vezes acaba se tornando uma verdade absoluta. A dissolução da individualidade dá o poder da intransigência e o poder de julgar.
O professor Wenger alertado por um de seus alunos e espantado pelas atitudes fora da escola decide por um ponto final na Onda, então promove um discurso final para todos eles. O desfecho é fenomenal e trágico.

"Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pôde ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em 'A onda'. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho."
"A Onda " é um filme até certo ponto didático, mas sem ter necessariamente esse tom, o roteiro é competente e carrega fortemente a crítica social. Indispensável!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Canções do Segundo Andar (Sånger Från Andra Våningen)

"Canções do Segundo Andar" (2000) do diretor sueco Roy Andersson (Vocês, os Vivos - 2007) é um filme feito de simbolismos, do qual mostra a morte da cultura. A frase que abre o longa e constantemente repetida no desenrolar: "Amado seja aquele que senta" do poeta peruano César Vallejo nos explica a essência, mas não é fácil entender suas metáforas, é preciso prestar atenção no que as imagens têm para nos dizer e aí o filme se torna totalmente compreensível. O que o torna chato por vezes é a narrativa que não segue os padrões convencionais e as tomadas estáticas que remetem a um quadro. Há pitadas de humor negro em relação a nós humanos, a sociedade capitalista e consumista que não para em nenhum momento para se perguntar o porquê de tudo isso, e quem está disposto a parar, observar, pensar, analisar e destrinchar é visto com maus olhos, e por conseguinte, louco.
É noite em algum lugar do hemisfério norte. Naquela cidade, uma série de estranhos incidentes está acontecendo. Aparentemente, uns não se relacionam com os outros. Aliás, o nível de situações surreais que apresentam é tão grande que, por vezes, parecem não ter nenhuma relação: um imigrante perdido na cidade é violentamente espancado no meio da rua; um mágico comete um terrível erro durante um de seus números. No meio dessa confusão, uma figura se sobressai, Karl, que acaba de colocar fogo em sua loja para pegar o dinheiro do seguro. Dormir naquela noite não será fácil para nenhum morador da cidade. No dia seguinte, os sinais do caos estão espalhados por todo o local. Karl é um dos poucos que consegue ver além das aparências. Gradualmente, ele toma consciência do absurdo em que o mundo se transformou e percebe como é difícil se comportar como um ser humano.
O único personagem recorrente é Karl, ele tem dois filhos, um internado como louco por escrever poemas e um taxista que absorve todas as ladainhas dos passageiros e se embebeda no final do expediente. Karl é um livreiro que colocou fogo no seu acervo para poder receber o dinheiro do seguro, o aniversário de 2000 anos de Cristo está chegando e ele resolve aproveitar e comercializar crucifixos, mas a ideia vai por água abaixo, pois ninguém está afim de comprar tal objeto, a fé já não é tão importante, e como um dos personagens diz: "Quem irá comprar um perdedor crucificado?", todos os valores se foram, isso é claro. A mercantilização é o que move essa sociedade caótica. Dia após dia o que interessa é o que convém para si mesmo, ninguém importa-se com o outro, o dinheiro move as pessoas, as seguem como um demônio, a cena em que empresários andam em uma procissão, param e se açoitam é genial, ou o trânsito que não se move, o aeroporto lotado de pessoas carregando bagagens gigantes como se quisessem levar todos os bens materiais existentes, e o sacrifício de uma menina quando diz preferir dividir um bolo ao invés de ficar com ele inteiro, simbolizando a divisão de recursos.

A impressão é que todos estão mortos, a maquiagem empalidece demais os rostos, há uma estafa constante nos personagens, e algumas cenas nos induzem a pensar que todos estão numa espécie de purgatório, há também alguns fantasmas que seguem Karl, que significa que sempre devemos algo a alguém neste mundo insano, sempre tem alguém nos cobrando por algo, não há sossego em momento algum. E o que fazer diante disso? Continuar como escravos, trabalhando feito loucos para ter migalhas. Parar? Nem pensar! Não há tempo para isso, e ai de quem o fizer.
O filho de Karl internado no hospício sempre é visitado pelo pai e irmão, o irmão recita trechos de poesia, já o pai se incomoda por ele não falar e toda vez termina histérico, o que nos faz pensar em quem é o louco na realidade.
É filme para rever, rever e rever, tem simbolismos demais e de primeira vista não dá para absorver de uma vez, uma mente não acostumada a pensar nos porquês não entende, então "Canções do Segundo Andar" é recomendado para quem vê além do banal, pois este é um filme que denuncia a superficialidade de uma sociedade doente que cada vez mais mata a cultura e o hábito de parar e observar.

"Amado seja aquele que senta" diante a rapidez em que tudo flui, pois se não o fizer, é inevitável, o excesso nos leva junto, nos carrega para o superficial onde nada é o suficiente. Sem dúvidas a religião que rege o mundo é o consumismo, o ter é melhor que o ser, já não importa cultivar poesia dentro de si, ninguém está afim, se preferires isso, logo será taxado de estranho ou louco. A mediocridade reina e quem se nega a fazer parte dela, está fadado à solidão.
"Canções do Segundo Andar" é um filme que por vezes parece ser surreal, mas que faz parte de um contexto extremamente realista, e que a mim é completamente triste e melancólico.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Homem de Gelo (The Iceman)

A trama conta a vida de Richard Kuklinski, conhecido como "The Iceman", um famoso assassino que trabalhou para a máfia. Ele recebeu esse apelido por congelar os corpos de algumas vítimas para despistar a polícia sobre quando o crime havia sido cometido. Richard Kuklinski matador da máfia foi condenado em 1986 por assassinar mais de 100 pessoas, ele trabalhou para várias famílias da máfia e foi tido como um grande matador. O filme retrata de maneira fria e distante o personagem em questão, diferentemente de outros que endeusam os mafiosos, neste é apenas um homem a serviço que matava para ganhar dinheiro.
Michael Shannon dá vida a Kuklinski, chamado também de Pollack, e mais uma vez Shannon demonstra sua genialidade ao compor um personagem estranho, indiferente às outras pessoas, ele nem sequer fala, somente executa o que lhe foi mandado e pronto. Shannon brilha em todo filme que participa, vide, "Bug" - 2006, "Shotgun Stories" - 2007, "Meu Filho, Olha o que Fizeste!" - 2009, "O Abrigo" - 2011, ele é a definição de um perfeito ator. Além de Shannon se destacam, Winona Ryder, como sua esposa, Ray Liotta, como chefe da máfia  e Chris Evans, cuja caracterização está impossível de detectá-lo.
Kuklinski era o assassino favorito de sete famílias da máfia da Costa Leste dos EUA, mas também era pai de família, a esposa apaixonada nem se dava conta do segredo do marido, ela e suas duas filhas e os amigos pensavam que ele era um empresário que arriscava, porque às vezes ganhava montantes de dinheiro e por vezes nem tanto, a família era uma boa maneira de enganar a si mesmo e também uma espécie de redenção, pois quando estava com eles tudo isso parecia não existir, porém aconteceram imprevistos e o alvo como sempre, é a família. Kuklinski nunca sentiu remorso por matar as pessoas, era indiferente, só executava a tarefa que pediam, o que ele jamais poderia suportar era magoar e perder a sua família. A cena final em que depõe fica explícito este sentimento.

A sutileza nas passagens de tempo são incríveis, dá-se em estilos de bigode e cavanhaque que o personagem usa, além dos figurinos. O filme não tem grandes qualidades, mantém uma narrativa envolvente apesar de distante, o tom frio cai bem com a expressão inalterável de Shannon. O roteiro não evidencia a questão do congelamento dos corpos, mas retrata o início de sua entrada para a máfia, quando um dos chefes lhe dá uma arma e pede para matar um mendigo, do qual acabara de ajudar, Kuklinski não hesita e o mata.
"O Homem de Gelo" é válido para conhecer a história desse matador, além de se maravilhar com mais uma impecável atuação de Michael Shannon, que ainda continua subestimado ou lembrado apenas por filmes comerciais. O tom do filme é sóbrio e sustenta a frieza do começo ao fim.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Há Tanto Tempo Que Te Amo (Il y a Longtemps que Je T'aime)

"Há Tanto Tempo que Te Amo" (2008) do diretor Philippe Claudel mostra uma profunda reflexão sobre a dor e a ausência. Juliette retorna a sua família e à sociedade após 15 anos presa. Apesar de uma separação familiar drástica no passado, sua irmã mais nova, Léa, decide abrigá-la em sua casa, onde mora com o marido, as duas filhas e o sogro. Aos poucos, a trama revela a aparente amoralidade por trás da tragédia que manteve Juliette afastada por tanto tempo da vida real.
Kristin Scott Thomas interpreta Juliette e mesmo despida de qualquer vaidade continua bela, seu semblante sempre fechado, distante de tudo e todos nos intriga ao querer saber o que de fato aconteceu para que passasse tanto tempo na prisão. Acompanhamos a chegada de Juliette à casa da irmã, da qual a recebe com carinho, junto de suas filhinhas adotadas, seu marido que reluta em tê-la dentro de sua casa, e seu sogro que já não pode mais falar. O crime cometido é repugnante a qualquer um, não demora para que saibamos que Juliette matou seu filho de 13 anos. Apenas algumas pessoas sabem sobre isso, os amigos novos nem sabem que Léa tem uma irmã. Mesmo com o afastamento das duas durante todo esse tempo e a lavagem cerebral que os pais fizeram para que esquecesse Juliette, Léa nunca deixou de amá-la. Juliette nem toca no assunto, está blindada e completamente distante por conta de toda a rejeição que sofreu em tantos anos.
Interessante a cena em que Léa, professora de literatura, discute com os alunos sobre "Crime e Castigo", de Dostoiévski, como a maioria sabe, o personagem Raskólnikov mata uma velhinha a machadadas com a intenção de usar o dinheiro dela para causas nobres, é a tal teoria de que se há uma utilidade, não há mal nenhum em cometer um crime, mas com o passar do tempo Raskólnikov se sente angustiado pelo crime e fica tentado a confessar a fim de expiar seus pecados. A situação de Juliette é parecida e é por isso que sua irmã se exalta tanto nesta discussão com os seus alunos, essa é uma cena chave para entender a personagem Juliette.
A reintegração na sociedade e ter que recomeçar, arranjar emprego, conviver com as pessoas, tudo o que a vida normal exige é difícil, o que mais a incomoda é a distância que toma das pessoas, aos poucos ela tenta, mas não por demonstrar afeto aos demais, isso acaba por se tornar um grande problema. O personagem Fauré sente na pele toda a ausência que emana dela.
Léa tem um papel fundamental na reintegração da irmã, ela é que vai conseguir puxá-la para o presente, para o recomeço e a vontade de sentir-se viva novamente.

O drama dirigido por Claudel é tão bem construído que vai nos dando aos poucos a situação, fazendo com que entendamos sem a necessidade de julgar Juliette. É fato que personagens com olhares dispersos e de poucas palavras nos chamam a atenção, o mistério que há por trás intriga, Kristin Scott Thomas foi perfeita, ela transmite de maneira impecável as emoções sem cair em melodramas.
"Há Tanto Tempo que Te Amo" é feito de sentimentos que nos acometem, situações que acontecem, nem sempre é fácil lidar com que a vida nos dá, às vezes tomamos decisões egoístas e temos que arcar com as consequências, e por conta disso nos tornamos pessoas duras e difíceis de se relacionar, mas precisamos olhar para quem está perto de nós, para quem, que apesar de tudo ainda continua nos amando independente de qualquer coisa. A frase final: "Eu Estou Aqui" é tão forte e cheia de significados que é capaz de mudar o rumo em que tudo está, é acalentador saber que existe alguém que está de corpo e alma ali, presente.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Grande Gatsby (The Great Gatsby)

"O Grande Gatsby" (2013) dirigido por Baz Luhrmann (Moulin Rouge - 2001) é exagerado visualmente, mas sabe-se que o estilo do diretor é este, então é preciso desconectar o olhar crítico que o livro de Fitzgerald possui. O sonho americano e a sociedade em transformação é o contexto da história do autor do livro, já na adaptação este aspecto é vazio e dá mais abertura para o romance e a tragédia. A trilha sonora é a grande ousadia, com Jay-Z, Beyoncé, Alicia Keys, Will.I.am, Lana Del Rey e Gotye. Estranha-se no início, mas o resultado é impressionante.
Jay Gatsby subiu na vida por meios escusos para conquistar Daisy, a burguesinha delicada e vazia da sociedade em questão, ela mora em Long Island no lado tradicional do dinheiro, o misterioso Gatsby mora do outro lado da baía em West Egg, onde os jovens promissores começaram a habitar. Nick Carraway é o narrador, um jovem recém-saído da universidade e com um emprego em Manhattan na bolsa de valores, logo ele se encanta por seu vizinho, os dois se tornam bastante amigos, Gatsby se aproxima na verdade porque Nick é primo de Daisy, sua paixão perdida da juventude, enquanto ele lutava na guerra a moça se casou com um homem rico, Tom Buchanan. Anos depois Jay enriquece e vai em busca de seu amor, que na realidade não é tão romântico como aparece no longa de Baz, Jay ama a ostentação, o glamour e Daisy sempre foi sinônimo de riqueza, e consequentemente ele queria mostrar toda a sua opulência e a maior demonstração disso tudo são as suas festas, onde todos, todos mesmo vão, menos Daisy, até que Nick ajuda com o reencontro. É justamente nessas festas que contém toda a significância da história.
A nova roupagem que "O Grande Gatsby" ganhou surpreende e a trilha sonora conversa bem com a aura criada, já que a ostentação está de mãos dadas com este estilo musical. O filme não é completo, deixa vários simbolismos do livro para trás, toda a dramaticidade em cima do romance mesmo que não prejudique, dá um outro tom à história.

Nick presencia tudo de perto, sabe de todos os mistérios que envolve Jay, os momentos que o descreve são os melhores, inclusive quando fala do sorriso de Gatsby: "Era um desses sorrisos raros que trazem em si algo de segurança e de conforto, um desses sorrisos que você encontra umas quatro ou cinco vezes em toda uma vida. Um sorriso que parecia encarar todo mundo, a eternidade, e então se concentrava sobre você, transmitindo-lhe uma simpatia irresistível."
O filme nos embriaga com toda a sua excentricidade, as atuações são magníficas, apesar de alguns personagens caricatos, como Tom Buchanan, o marido infiel de Daisy, e até Tobey Maguire como o narrador Nick. DiCáprio encarna um Gatsby simpático e misterioso, o que o torna charmoso, Carey Mulligan mistura o vazio da riqueza e a delicadeza de seus gestos.

A maneira que Fitzgerald observava o mundo era de certa forma melancólica, os anos 20 foram de grande efervescência na sociedade, onde todos desejavam aparecer pelo status, o choque de uma modernidade se refletia. "O Grande Gatsby" de Baz Luhrmann não sai tanto desse contexto, mas caminha superficialmente, ele imprime seu estilo dando uma nova roupagem, os personagens não são tão complexos, sua narrativa é apressada e o visual exagerado. Com uma abordagem atual, muito luxo e glamour, a adaptação de Baz Luhrmann se faz excitante.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires)

"Amores Imaginários" (2010) é o segundo longa de Xavier Dolan, cujo explora a paixão, o ciúme, a amizade e a ilusão. A frase que abre o filme: "A única verdade é o amor para além da  razão", de Alfred de Musset resume a aura do filme.
Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) são amigos inseparáveis. Suas vidas mudam quando conhecem Nicolas (Niels Schneider), um charmoso rapaz do interior que acaba de se mudar para Montreal. Um encontro se sucede ao outro e os três logo se tornam um grupo inseparável. Mas Francis e Marie, ambos apaixonados por Nicolas, desenvolvem fantasias obsessivas em torno de seu objeto de desejo em comum. À medida que atravessam as típicas fases da paixão, embarcam numa verdadeira disputa pela atenção do rapaz, comprometendo sua antiga amizade. No decorrer do filme há depoimentos de pessoas que se machucaram ao se entregar desesperadamente a uma paixão, o que poderia soar estranho, na verdade dá certo, as histórias contadas são curiosas e bem reais. Nicolas é um rapaz fascinante para Marie e Francis, charmoso, inteligente, lindo, livre e diversas outras qualidades que olhos apaixonados enxergam. Eles então formam um trio e começam a sair juntos, Marie e Francis disputam a atenção de Nicolas, e este aproveita a adulação.
É inevitável, em algum momento criamos ilusão perante alguém que julgamos ter todas as qualidades possíveis e ainda por cima compatíveis com as nossas. É o tal amor platônico. Você vive intensamente o desejo, a paixão, nutre ela a cada gesto e palavra que a pessoa dirige a você, enquanto o outro não está nem aí. O mundo acaba girando apenas em função desta paixão, a visão é reduzida, tudo é deixado de lado, amizades, compromissos, até que um belo dia essa cegueira temporal desaparece e se dê conta do quão ridículo foi. Mas nem todo resultado é negativo, aprende-se muito, os sentimentos amadurecem, só que há um porém, depois de ter superado, o coração está livre novamente e quando a paixão vem, não tem como controlar, é o mesmo ciclo. O final do filme demonstra isso.
Os personagens apesar de aparentemente demonstrarem sobriedade e até frieza, estão ansiosos em encontrar um amor, estão na fase do tudo ou nada, o desespero emocional é latente. Cada detalhe é crucial na desconstrução deles, os olhares entre si denunciam insegurança.

É um filme sensível que mostra que a razão fica bem longe enquanto a paixão está por perto. Só depois de ter passado por ela é que vemos o quanto idiota é colocar o outro num pedestal. Na maioria das vezes nos apaixonamos por uma ilusão, a pessoa cheia de qualidades existe apenas dentro da nossa cabeça. Dá muita raiva do Nicolas, pois ele se aproveita da paixão dos amigos, ora pende mais pro lado de Marie, ora de Francis, então eles se nutrem vorazmente desse desejo. Francis e Marie chegam a brigar de rolar no chão e Nicolas só olha. A amizade estremece e Nicolas se distancia, já não interessa mais sair com eles.
Xavier Dolan é ousado e não esconde sua pretensão, as tomadas em câmera lenta já se tornaram sua marca registrada, além da trilha sonora brega/cool e figurino vintage fashion. "Amores Imaginários" é um longa que retrata a dor e o prazer de se apaixonar.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Bathory - Condessa de Sangue (Bathory)

Suspeita de torturar jovens virgens para se banhar em seu sangue, buscando a eterna juventude, a bela condessa húngara Erzsébet Bathory foi proclamada como a mais prolífica e mortal vampira da história da humanidade. Seria mesmo culpada, ou apenas vítima da elite política? Inspirada em uma famosa personagem, esta é uma história que se passa em um século de guerras e caça às bruxas, mesclando ficção e realidade, nas diversas faces de uma lenda na época medieval.
"Condessa de Sangue" (2008) é um filme razoável, que fala sobre o mito Bathory, uma mulher poderosa que obcecada pela beleza sacrificava moças virgens para banhar-se no sangue delas, estima-se que matou cerca de 650 jovens. O eslovaco Juraj Jakubisko fez um trabalho parcialmente interessante, o filme poderia ter sido mais enxuto e com menos fantasia. O conteúdo biográfico está todo lá, mas por algum motivo estranho o diretor resolveu colocar o pintor italiano Caravaggio na corte húngara e fizeram-no amante da condessa.
Erzsébet Bathory nasceu no ano de 1560 em uma família nobre, aos 15 anos casou-se com o conde Ferencz por motivos políticos. Grande guerreiro, ele ficava períodos enormes fora de casa, e então ela começou a desenvolver gostos por coisas estranhas, principalmente pelo ocultismo. Erzsébet ficou conhecida por sua beleza e crueldade. Ao longo da sua carreira sanguinária, contava com a ajuda de Ficzko, um demente que escondia os cadáveres e lhe fornecia os instrumentos de tortura. No início de 1610, começaram as primeiras investigações sobre os crimes, todavia o verdadeiro objetivo não era conseguir uma condenação, mas sim confiscar-lhe os bens e suspender o pagamento da dívida que o reino tinha com seu marido.
Erzsébet foi condenada a encarceramento perpétuo na torre de um castelo, só se livrou da pena de morte por ser nobre, título do qual quiseram tirar mas não conseguiram. Ela continuou a jurar inocência, afirmando que as moças morreram de causas naturais.
Resumo da ópera: a condessa era a mulher mais rica da Hungria e o próprio rei devia pra ela, nunca foi provado de fato seus crimes, na verdade no filme dá a entender que tudo foi plantado, pois a ambição humana era o que predominava, ainda mais depois da morte de seu marido.

Cem anos mais tarde, um padre jesuíta localizou alguns documentos originais do julgamento e recolheu histórias que circulavam entre os habitantes. Seu livro sugeria a possibilidade de Erzsébet ter-se banhado em sangue. Publicado no ano de 1720, o livro surgiu durante uma onda de interesse pelo vampirismo na Europa Oriental. Assim começou a espalhar-se o mito de que a condessa eventualmente bebia e se banhava no sangue das moças que matava.
O longa de Juraj Jakubisko causa curiosidade, Bathory é uma lenda fortíssima e mesmo que o "Condessa de Sangue" não seja eficaz em alguns momentos, nos revela o fascínio por um mito, o que há por trás, e principalmente, como surge uma lenda.
A presença do pintor Caravaggio é fantasiosa, serve mais para mostrar a obsessão da condessa pela juventude e seus arroubos amorosos na ausência do marido, além de nos gerar o interesse de ir pesquisar sobre suas pinturas logo após o término do filme.

A história segue num tom de mistério e realmente não dá para saber o que é mito ou verdade. Erzsébet pode ter sido sádica e ter matado inúmeras mulheres, as odiado por sua beleza, mas nenhum registro histórico afirma que tenha realmente matado mais de 650 moças, pois como ela era muito poderosa e influente tudo pode ter sido plantado para a tomada de suas riquezas, porém vale lembrar que o poder naquela época significava impunidade e nada acontecia aos nobres, então eis a dúvida, eis a lenda.

"Quanto menos fatos se sabem, mais ricas são as lendas."

*Outro filme que explora a lenda Bathory é "A Condessa" (2009) dirigido e protagonizado por Julie Delpy.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Renoir

Côte d'Azur, 1915. Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet) é atormentado pela morte da esposa, as dores da artrite e a preocupação com o filho Jean (Vincent Rottiers), que luta na Primeira Guerra Mundial. Eis que surge em sua vida Andrée (Christa Theret), uma jovem bela e radiante que desperta no pintor uma inesperada energia. Rejuvenescido, Renoir a torna sua musa. Quando Jean volta à casa do pai para se recuperar de um grave ferimento na perna, ele se envolve com Andrée e a torna também sua musa, mas de um sonho ainda distante: o de fazer cinema.
"Renoir" (2012) é sobretudo um filme feito para encher os olhos, a fotografia é exuberante, assim como o ambiente e suas belas paisagens, tudo remetendo a paleta de cores do pintor que é considerado fundador do impressionismo. Apesar de Renoir lutar com as dores da velhice, tanto físicas como psicológicas, ele não para de produzir, a jovem ruiva Andrée é sua nova fonte de inspiração, esbanjando jovialidade, sensualidade e liberdade. Ela posa diariamente em meio as flores e aos bosques da imensa propriedade localizada em frente ao mar na Riviera francesa. O lugar é habitado por muitas mulheres, suas criadas, que outrora também foram suas musas.
Quando Jean retorna da guerra conhece Andrée e logo fica encantado pela sua beleza, não demora muito para se envolverem. Interessante que Jean vive à sombra do pai, ele não sabe o que quer, o que irá fazer. Renoir é um patriarca, uma figura espantosamente forte e nem os filhos conseguem se aproximar muito. Andrée deseja ser atriz e em conversas furtivas Jean diz gostar de cinema. Muito tempo depois esse sonho vem a se concretizar, Andrée se torna atriz sob o pseudônimo de Catherine Hessling e Jean Renoir um diretor de prestígio, cujas obras mais importantes são: "A Grande Ilusão" (1937), "A Marselhesa" ('938) e "A Regra do Jogo" (1939).
A maioria das cenas foram feitas para serem apreciadas, da mesma maneira quando olhamos para uma pintura. O tom amarelado transmite uma sensação boa, de luminosidade e alegria, vemos tudo como o próprio Renoir via, a beleza feminina juntamente com a natureza. O filme foi muito feliz em nos transportar através das cores para o mundo de Renoir.
Ainda que o filme trate sobre Renoir, não é exatamente uma biografia, ele retrata os quatro anos antes de sua morte de maneira muito despreocupada, Jean e Andrée são os protagonistas, simbolizam a juventude, o romance e a parceria que estava por vir.

O destaque óbvio vai para a grandiosa atuação de Michel Bouquet, ele encarna um Renoir que apesar das dores, da decrepitude, ainda cultiva a arte em si e a inspiração em pintar belas paisagens e curvas femininas. As partes em que Renoir aparece pintando e dialogando são as mais especiais, o romance dos jovens ainda perdidos não apetece muito ao espectador, e por vezes o longa se torna enfadonho.
Alguns personagens não são desenvolvidos, como o filho caçula de Renoir que também se encanta por Andrée, em algum momento decidiram abandoná-lo na trama, assim como Gabrielle, antiga paixão de Renoir, ela é mencionada várias vezes e até aparece, mas sem muitas explicações. São pequenos pontos negativos, mas nada que comprometa a beleza da obra.

A narrativa é lenta, mas vale lembrar que este longa foi feito para se apreciar cada detalhe e cada movimento. É para se maravilhar com a fotografia e se deixar levar pelo frescor das pinturas de Renoir.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Paradise Now

"Paradise Now" (2005) é um filme palestino que retrata um pouco do conflito que há na região de Israel, a guerra santa vem acontecendo há centenas de anos e ainda hoje causa muitas mortes. Os muçulmanos enfrentam judeus sob a forma de terrorismo e é aí que entra os homens-bomba. Aqui no ocidente temos uma visão um pouco distorcida sobre os ideais dessas pessoas, não conseguimos entender como um ser humano se sacrifica em prol de uma religião ou política. Os enxergamos como loucos, fanáticos, violentos, ignorantes, e a mídia contribui extremamente para que tenhamos essa ideia, mas o que acontece realmente não sabemos, pois vivemos numa cultura adversa e completamente distante. Esse filme nos faz chegar perto desses caras, vemos tudo pelos olhos deles, sem a distorção que provavelmente um filme americano faria, os colocando do lado do ódio. Em "Paradise Now" observamos a realidade vivida e os motivos que levam homens a se entregarem em nome de um ideal.
Dois jovens amigos palestinos, Khaled e Said, são recrutados para cometerem um atentado suicida em Tel Aviv. Após a última noite com as famílias, sem se despedirem, são levados à fronteira com as bombas atadas à volta do corpo. No entanto, a operação não ocorre como esperado e eles se perdem um do outro. Separados, são confrontados com o seu destino e as suas próprias convicções. Said e Khaled são amigos desde pequenos e trabalham juntos, a vinda de um dos líderes do terrorismo muçulmano convocando os dois para uma missão de repente os assusta, mas apesar de serem pegos de surpresa, era exatamente o que queriam, ir os dois juntos. Enfim, o destino estava chamando por eles.
O filme tem cenas excepcionais e tensas, como quando Said se perde do amigo ao se deparar com os inimigos na fronteira, ele anda pela cidade com a bomba acoplada ao corpo, o outro volta à base e a retira, os líderes acham que Said é um traidor por não ter voltado, e então Khaled vai em busca de seu amigo. Said fica confuso e nós esperamos que tudo exploda a qualquer momento, pois ele está desesperado com a situação. Ele tenta entrar em Israel e a cena em que ele desiste de entrar num ônibus por visualizar crianças e pessoas inocentes é impressionante.

Os terroristas fazem uma interpretação muito fria do Alcorão, eles costumam citar trechos aos seus seguidores e os fazem recitá-los antes da ação, é como se fosse uma música que os acalmassem e acreditassem de fato no que estão fazendo. O Alcorão não pode ser resumido em trechos, ele é complexo e contraditório e muitos acreditam que Alá quer que eles combatam o inimigo sob a forma de violência. Além da religião, há o aspecto político também, e a Palestina sofre demais com a economia, o estado permanente de guerra na região desde a criação do Estado de Israel em 1948, a destruição gerada pelos conflitos inviabiliza o crescimento econômico do país e o comércio é prejudicado pelo controle de Israel sobre as fronteiras palestinas.
Interessante que Khaled é o mais convicto em executar a missão, até faz discurso para a mídia, mas conforme o desenrolar muda de ideia, principalmente pela conversa que tem com Suha, mulher da qual se interessou, ela apresenta uma outra visão: Será que esses atos de fato mudarão alguma coisa?

É um filme humano que mostra que os homens-bomba não são monstros, eles têm medo, muitas vezes são pessoas manipuladas que veem neste ato algo maior, alguns acreditam até em anjos os levando para o paraíso se realizarem a tal missão.
Há discursos que nos fazem compreender pelos menos um pouco a situação desse povo, elucida sobre o aspecto de ideais e da necessidade de se fazer algo para mudar a atual conjuntura, mesmo que seja sacrificando a si mesmo. "Paradise Now" é válido por mostrar homens-bomba sob a perspectiva deles próprios.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Minha Irmã (L'enfant d'en Haut)

"Minha Irmã" (2012) dirigido por Ursula Meier (Home -2008) conta a história de Simon (Kacey Mottet Klein), um garoto de 12 anos que aproveita a alta temporada de esqui nos alpes suíços para furtar equipamentos e revendê-los. A única renda em sua casa é essa, já que sua irmã Louise (Léa Seydoux) vive de maneira irresponsável, pulando de emprego em emprego e preocupada apenas em sair com homens e beber. A situação em que vive é cômoda, pois ela não vive o dia a dia com Simon, só vê o dinheiro entrando, e então acaba dependendo cada vez mais do irmão. Louise é uma pessoa perdida que não enxerga alternativas para sua vida, e conforme o filme desenrola segredos do passado são revelados.
O ambiente frio só intensifica o clima pesado em que vive Simon e Louise, aparentemente os dois vivem uma relação saudável, mas percebe-se que Simon é quem cuida de tudo, desde a comida que entra na casa, a roupa a ser lavada e o dinheiro que a irmã gasta. Ele é um garoto esperto, pega o teleférico todos os dias para roubar esquis, luvas, óculos e até comida. Um dia, ele é pego por Mike (Martin Compston), um funcionário do restaurante, mas este ao invés de expulsá-lo, fica comovido com a situação do garoto e acaba ajudando-o com os roubos de esqui. Isso dura algum tempo, até ser pego por outro homem e ser definitivamente proibido de entrar lá. A partir daí fica difícil para Simon vender os objetos e o dinheiro consequentemente logo vai acabando.
O segredo que se revela tornam as coisas mais melancólicas ainda. Louise rejeita ao máximo Simon, ela não sente vontade de ter responsabilidades, ele é um fardo na vida dela. Interessante que não o julgamos em nenhum momento, ele rouba para comprar comida, coisas para casa, e lá em cima todos têm muito dinheiro e esbanjam, se ele rouba um esqui, a pessoa pode comprar outro, não que seja certo, mas sua atitude é compreensível.
Simon busca um lugar para si, ele mente para cada pessoa que encontra, diz que seus pais moram longe, que morreram em um acidente, ou que são ocupados demais com os negócios, a mentira é uma forma dele se integrar e as pessoas olharem para ele.

Simon é apenas um menino carente que necessita de cuidados, a cena final demonstra bem isso, é de uma força extrema e que resume todo o drama, sozinho ele sobe nos Alpes depois da temporada e chora desenfreadamente.
As interpretações são perfeitas, o ar cansado de Léa Seydoux e sua expressão de indiferença só realça os pontos fortes do filme, assim como o menino que interpreta Simon, Kacey Mottet Klein é apaixonante, seu único objetivo é ser amado.
Ainda há a participação de Gillian Anderson que simboliza a figura da mãe que Simon imagina ter. Muitas cenas comovem, mas não de maneira manipuladora, especialmente a que Simon oferece dinheiro a irmã para poder dormir ao seu lado e ser abraçado.
"Minha Irmã" retrata a relação de dependência que um tem para com o outro, mesmo com as estruturas abaladas Simon tem apenas Louise e vice-versa, além disso foca na diferença social que existe em país de primeiro mundo como a Suíça.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Augustine

"Augustine" é um filme que aborda os estudos feitos pelo Dr. Jean-Martin Charcot em 1885 acerca da histeria. Assunto que mais tarde também seria estudado por Freud através da psicanálise. Augustine (Soko) é uma jovem de 19 anos que sofre de convulsões que lhe acontecem sem mais nem menos e que paralisa partes de seu corpo. Depois de um ataque enquanto trabalhava em uma casa burguesa servindo a refeição, é levada a um hospital onde se internava especialmente mulheres diagnosticadas com histeria. Dr. Charcot (Vincent Lindon) vê em Augustine um objeto de estudo muito interessante e faz dela uma espécie de cobaia, e com o tempo também objeto de desejo. Acreditava-se que a histeria acometia apenas as mulheres, uma doença misteriosa que provinha por perturbações físicas, advindas do útero. Mas graças as pesquisas feitas provou-se que era uma neurose por instabilidade emocional, traumas vividos e reprimidos que ocasionava então o descontrole e manifestava-se fisicamente. A hipnose foi uma grande aliada para o estudo.
Na idade média a histeria foi confundida com possessão demoníaca e isso levou muitas mulheres à fogueira devido o desconhecimento das ciências. Já no século XIX acreditava-se que era uma lesão orgânica ou puro fingimento. E é aí que Charcot entra para um grande avanço sobre a doença. Ele descobriu que ela tinha uma origem psíquica e que sempre tinha a ver com repressão ou trauma sexual. Outros filmes já trataram deste tema tão interessante, vide "Um Método Perigoso" (2011) e "Hysteria" (2011).
No filme  Dr. Charcot vê em Augustine um objeto de estudo fantástico já que ela é propensa à hipnose, é exibida em aulas e assim o médico vai ganhando prestígio. Mas aos poucos ele se envolve com a menina que apesar de ser ainda pura, o deseja de forma intensa. Ela está desabrochando e suas convulsões vêm exatamente disto já que não entende o que lhe acontece e no meio não se permite que a mulher sinta desejos.

O filme é sóbrio, não é nada emocional, Augustine tem em si ambiguidades, ora ela é uma menina que não sabe nem o que é menstruação, ora ela exprime no olhar um desejo avassalador. Por isso o fingimento era tão vinculado à doença. Sentindo-se próxima do médico, única pessoa a lhe tratar de perto, mesmo que com seriedade, Augustine se liberta. A cena final demonstra isso, com o desejo carnal consumado, ela se sente de certa forma livre e curada.

É filme para se observar, tanto os diálogos como os silêncios são importantes. O tom de obscuridade é perfeito já que a histeria era rodeada de mistérios. A relação médico/paciente nestes casos eram comuns, pois a paciente se sentia despida de pudores e o médico entorpecido por essa liberdade se atraía também.
Mesmo que tenha uma narrativa impessoal e distante, é válido por mostrar o sofrimento que as mulheres passaram com tanta repressão sexual, e que infelizmente, ecoa até os dias de hoje. Claro, nem tudo que é retratado pode ser atribuído a fatos reais, mas é um recorte sobre as descobertas acerca da histeria e a importância que Charcot teve no ramo da neurologia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Biblioteca Pascal (Bibliothèque Pascal)

"Biblioteca Pascal" (2010) é um filme feito para quem ainda tem o poder de se encantar com histórias mágicas. A produção húngara/romena é um drama, mas por vezes tem pitadas de um peculiar bom humor. Várias críticas o classificaram como surreal e poético, concordo em partes, o lado poético com certeza, mas o surreal não, o estilo do filme faz com que dê essa característica, mas o teor da história faz todo o sentido. É aquilo: você prefere acreditar em uma história cru, sem floreios, ou numa completamente mágica em que coisas impossíveis acontecem?
Mona Paparu é húngara e mora na Romênia. Ela deixa a filha pequena com um parente distante para poder acompanhar o pai numa viagem a Alemanha. Ela não o via há anos e ele diz estar muito doente. Mas chegando lá, Mona descobre que o pai está endividado com traficantes. Ele a entrega aos cuidados de dois traficantes de escravas, que a levam para a Inglaterra. Mona termina num elegante e estranho bordel, o Bibliothèque Pascal, onde as prostitutas são forçadas a agir como personagens de histórias literárias.
O início do filme não denuncia o que está por vir, simplesmente Mona conversa com o assistente social para conseguir a guarda da filha, e então a história de fato começa, ela conta como conheceu o pai de sua filha, como a criou até o momento, e o porquê a abandonou aos cuidados da tia cartomante, a partir daí as cenas são um tanto bizarras, um emaranhado de fantasia e realidade, difícil de se acostumar, mas a medida que o filme avança acaba se tornando compreensível aos olhos e ao coração.

Tudo no filme é bonito, desde a fotografia cheia de cores remetendo a origem cigana da protagonista, e a trilha sonora competente que preenche a aura fantasiosa. "Biblioteca Pascal" nada mais é que uma fábula moderna de uma mulher que busca um lugar no mundo, e que perdida junta suas únicas alternativas para aguentar a realidade.
Quando chegamos no ambiente exótico chamado Bibliothèque Pascal, visualizamos extravagâncias sexuais, mulheres trancadas em quartos decorados e fantasiadas como personagens de livros, a câmera atravessa as paredes e revela Desdêmona, Lolita e Joana d'Arc, da qual Mona se veste, ela decora o trecho do dia do julgamento da heroína francesa para interpretar quando o cliente chegar. É um mergulho no estranho e por vezes no absurdo, o lugar é sombrio e cheio de pessoas esquisitas. O momento mais surreal, porém dotado de poesia e porque não inocência, é quando ela é liberta, mas o filme logo revela a realidade e surpreende com um roteiro envolvente e triste.

Um filme feito para corações sonhadores e para quem entende que a saída mais segura de uma realidade insuportável é mergulhar em seus próprios sonhos.
O desfecho é incrível e mostra Mona e sua filha juntas novamente, e como todo conto de fadas deve terminar, o "felizes para sempre" aparece, mas visto sob uma ótica diferente, nestes instantes finais a câmera se desloca pelo espaço em que elas se encontram e nos dá um banho de realidade. A sensação é a mesma quando se acorda de um sonho e nos damos conta que preferíamos continuar dormindo.
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