quinta-feira, 27 de junho de 2013

Expedição Kon Tiki (Kon Tiki)

"Kon Tiki" (2012) retrata a história real do antropólogo norueguês Thor, cuja cultura polinésia pré-colombiana foi seu foco de estudo por 10 anos. Ele viveu ao lado do povo indígena acompanhado de sua esposa que por pouco não perdeu a perna nesta empreitada. Por meio de pesquisa e vivência com o povo local chegou a conclusão da teoria que a possibilidade da migração dos Kon Tiki àquele lugar era verdadeira, desafiando toda a história de que os asiáticos tinham chegado primeiro. Tiki era o nome do povo milenar que habitava a polinésia. Thor vai em busca de seus sonhos, que é provar sua teoria que sabia estar certa, mesmo que ninguém o apoiasse nesta expedição com recursos ou confiança, ele e mais cinco homens dão início à aventura, pouco experientes no ramo de navegação, e ainda por cima Thor nem sabia nadar. Para navegar construíram uma jangada exatamente como se fazia a 1500 anos atrás, mas levaram um rádio, afinal Thor queria se comunicar e ser reconhecido pela mídia. Ele queria provar que era possível fazer a travessia com este tipo de embarcação entre os dois continentes (oito mil quilômetros), que sairia do Peru, atravessando o Oceano Pacífico, encontrando seu porto final na Polinésia. Isso tudo é baseado num documentário verdadeiro de 1947 que chegou a ganhar um Oscar na época.
Nessa aventura épica acompanhamos dramas pessoais, como o relacionamento de Thor com sua esposa, que depois de ter os filhos deixou de lado as viagens e teve que fazer sua escolha. A rivalidade entre os cinco homens não demora a acontecer, mas rapidamente some em vista de algo maior, a união é feita sob a sombra do medo e da esperança. "Kon Tiki" tem a natureza como personagem, é admirável a bravura desses homens perante a natureza, que apesar de exuberante, é também perigosa. Eles estão à deriva, pois a embarcação construída a partir de métodos passados não é tão confiável, eles tem fé na expedição, mas a tensão está a todo momento em seus rostos e em suas mãos trêmulas.
A parte técnica do filme é impecável e em nenhum momento duvidamos do que vemos. O mar é mostrado em diferentes formas, tranquilo com sua brisa a acariciar a pele e a sensação de serem únicos no mundo, ou revolto parecendo estar incomodado com aqueles homens, as ondas agressivas os tornam pequenos naquela imensidão de água, também há as ameaças de tubarões e baleias, que apesar destas serem inofensivas, se incomodadas o estrago pode acontecer em segundos. Além do mar, a visão do céu é de grande beleza, a noite estrelado e ao dia se fundindo com o mar.

O filme tem cenas memoráveis e abrangentes, uma delas é quando os homens estão deitados juntos contemplando o céu, e neste momento sentem que fazem parte da natureza, é como se ela os tivesse aceitado finalmente. Assim como o tubarão que nada nas águas e os pássaros que voam no céu, eles tinham conquistado o espaço deles e não se sentiam mais intrusos. É uma linda cena cheia de significados.
Admirável quando o homem decide se aventurar na natureza, que ao mesmo tempo pode ser estonteante, mas também destruidora. "Kon Tiki" inclusive é didático e nos mostra detalhes históricos importantes e interessantes.
É sobre conquista e força de vontade em se tornar alguém neste mundo e não apenas mais um entre tantos. Thor persistiu em sua teoria e navegou em seus sonhos, no fim, claro, ele só poderia encontrar reconhecimento e felicidade.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Depois de Lúcia (Después de Lucía)

"Depois de Lúcia" (2012) dirigido por Michel Franco gira em torno da personagem Alejandra, uma menina que sofre bullying, mas o filme é bem mais do que esse tema já tão gasto. Ele é pura angústia. Quando a esposa de Roberto (Gonzalo Vega Jr.) morre, a relação dele com sua filha Alejandra (Tessa Ia), de 15 anos, fica abalada. Para escapar da tristeza que toma conta da rotina dos dois, pai e filha deixam a cidade de Vallarda e rumam para a Cidade do México em busca de uma vida nova. Alejandra ingressa em um novo colégio, e sentirá toda a dificuldade de começar novamente quando passa a sofrer abusos físicos e emocionais. Envergonhada, a menina não conta nada para o pai, e à medida que a violência toma conta da vida dos dois, eles se afastam cada vez mais.
O início segue lento e o passado de pai e filha não é tão explorado, mas ao sabermos da perda da mãe de Alejandra tudo vai se encaixando, tanto o pai como a filha não demonstram dor, ele a reprime, e ela a disfarça. Alejandra vai se soltando conforme vai se relacionando com os colegas da escola, até que um dia em uma festa regada a álcool, bêbada transa com um dos amigos, e este filma tudo. O vídeo vai parar na internet e então ela começa a sofrer com as chacotas dos amigos, envergonhada segue sem contar nada ao pai e aguenta firme a violência diária.
Não podemos julgar Alejandra por não reagir, ela está em fase de luto e carrega uma dor imensurável que é só dela. Sua dor se junta com outras dores e diversos sentimentos, como culpa e vergonha, e sua submissão perante aqueles jovens mimados é totalmente compreensível. Alejandra é torturada pelos amigos, são cenas que revoltam, que nos fazem pensar que tipo de educação esses jovens estão tendo. É pura maldade em humilhar o outro, e as "brincadeiras" se tornam cada vez mais violentas e abusivas.
A viagem da escola é o ponto crucial do filme, os garotos abusam dela, mijam em sua cara, a prendem no banheiro enquanto se divertem, e ainda as meninas cortam o cabelo dela. Em dado momento ela vai para o mar e desparece, os jovens ficam lá chamando-a, mas ninguém diz nada aos professores, esperam amanhecer para sentirem a falta dela. Na verdade, ela aparece quando todos saem da praia e foge para sua cidade natal sem avisar ninguém, nem ao pai, que acaba descobrindo sobre o vídeo e o bullying que ela estava sofrendo.

O bullying é mais corriqueiro do que imaginamos e essa violência é vista como uma brincadeira, mas é fato que afeta demasiadamente quem é o alvo; os jovens agem sempre em grupos e escolhem a quem querem humilhar, seja o mais quieto, o diferente, o que não se enturma, é um bando de adolescentes agindo de forma irracional.
"Depois de Lúcia" é um filme doloroso, pesado e que culmina num fim surpreendente. A ausência de trilha sonora só faz aumentar a angústia, inclusive a impactante última cena, que termina apenas com o som do motor do barco em que o pai de Alejandra dirige.
É uma obra necessária que retrata as crueldades do bullying e as maneiras que cada um lida com o luto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Quatro Voltas (Le Quattro Volte)

"As Quatro Voltas" (2010) dirigido por Michelangelo Frammartino é um filme sem diálogos, há apenas ruídos e murmúrios, o que importa é a força da imagem. Assim como o título sugere é um filme que evidencia os ciclos.
Um velho pastor vive seus últimos dias em uma quieta vila medieval no meio das montanhas da Calábria, no sul da Itália. Ele pastoreia suas cabras sob um céu que a maioria dos moradores abandonaram há muito tempo. Está doente e acredita que o melhor remédio para seu problema está na poeira que se acumula no chão da igreja, que ele coleta, mistura à sua água e bebe todos os dias. Um novo cabrito nasce. Ele tenta dar seus primeiros passos e lentamente se fortalece até poder acompanhar o rebanho. Ali perto, uma árvore magnífica chacoalha com a brisa da montanha e muda vagarosamente com as estações. O natural e o aparentemente banal é filmado e é incrível como insignificâncias ganham magnitude, são tomadas longas em que a câmera observa o ritmo tedioso daquela vila. O homem que pastoreia suas cabras e que a cada dia definha mais e mais tem fé que a poeira da igreja de algum modo irá salvá-lo, pobre mortal, ninguém pode ir contra a natureza, eis o ciclo da vida.
A procissão que perambula nas ruas é vista de longe, a câmera prima por outros ângulos, como o cão que os atrapalha, o personagem mais importante é o animal que anuncia que seu dono morreu. Esse instante do filme retrata de maneira natural o quanto somos irrelevantes, atribuímos valores em certas coisas da vida e esquecemos da efemeridade de nossa existência. Nos iludimos em pensar no depois da morte, mas a questão é que a vida não para porque morremos, ela segue com seu ciclo, e no filme ela continua com o nascimento de um cabritinho, vemos ele nascer, dar seus primeiros passos, até que pode se juntar aos outros animais para o pastoreio, mas um dia ele acaba se perdendo dos outros e desesperado se junta a uma imensa árvore, a próxima protagonista do filme.
A suntuosa árvore é filmada em todo seu esplendor, são ângulos impecáveis, desde seu tronco a seus galhos chacoalhando ao vento, é realmente lindo. E quando acontece sua derrubada ficamos atônitos, simplesmente a cortam, a escalpelam para ter um divertimento instantâneo absurdo. A comunidade se junta para ver quem é capaz de subir até o alto e depois disso é cortada em pedaços para virar carvão. É bonito como o diretor conseguiu transpor o simples, que, na verdade, são detalhes riquíssimos, e mostrar a transformação que ocorre com todos os seres vivos.

"As Quatro Voltas" é um respiro profundo, é cinema contemplativo, mas não chato, é inteligente, mas não presunçoso, sua simplicidade está além de qualquer rótulo, é delicado e exuberante ao mesmo tempo, também original e fascinante. 
Não é necessário ter crenças, aliás visões religiosas reduzem a percepção do viver e morrer, a grandeza reside na natureza, ela dita as regras das quais não podemos controlar, e a vida continua, tudo continua... Toda essa amplitude encanta e assusta.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Therese D (Thérèse Desqueyroux)

"Thérèse Desqueyroux" (2012) foi o último filme de Claude Miller (Feliz que Minha Mãe Esteja Morta - 2009) que faleceu após esta produção em 2012. Baseado na obra homônima de François Mauriac, ganhador do prêmio Nobel em 1952, reconhecido por penetrar nos dramas humanos de forma tão intensa e verdadeira. A história é sobre uma mulher à frente de seu tempo, que não entendia sua essência por viver presa a convenções sociais. Thérèse Desqueyroux já teve uma versão feita em 1962, dirigida por Georges Franju e protagonizada por Emmanuelle Riva.
Nesta versão Thérèse é vivida por Audrey Tautou, uma mulher cheia de ideias, mas que leva uma vida enfadonha. A trama se passa em 1926, Thérèse é filha de um rico proprietário de terras, que se casa com o igualmente rico Bernard, irmão de sua melhor amiga Anne. Por convenções sociais une-se a ele para aumentar as riquezas e como ela mesma diz, para se alienar dos pensamentos que a persegue. Mas a vida é regida por uma rotina, onde o que predomina são as aparências, Thérèse se vê presa e cada vez com mais e mais pensamentos. Já sua amiga Anne e agora cunhada vive uma paixão ardente e passageira, e ela sente inveja por isso.
Como era esperado Thérèse engravida, mas o que era para ser alegria e motivação, se parece mais com um fardo. Sua individualidade é perdida, seu marido se preocupa com ela só por conta do bebê que está carregando, em dado momento ele diz: "Caminhe faz bem para o bebê", e Thérèse responde: "Quem caminha sou eu, não o bebê". São nesses momentos que percebemos o que reside nesta mulher, algo muito além daquela vida de marido e mulher, terras, pinheiros e aparências.
Thérèse é apática, carrega uma expressão sempre fechada, lábios semicerrados e demonstra muito amargor. É exatamente isso o que o filme passa, amargura, o tom é seco e nada emocional, a narrativa que se arrasta tediosamente exemplifica o drama interno da personagem.
Não vemos Thérèse demonstrar amor, o mais próximo disso é a relação que tem com Anne, da qual conhece desde pequena. O restante é puro aprisionamento de uma pessoa que não foi feita para aquele tipo de vida. De certo modo, Thérèse é orgulhosa e soberba, ela não titubeou em nenhum momento quando foi proposto o casamento para aumentar as riquezas.

Cansada da rotina que executa automaticamente, decide conseguir sua liberdade com um ato impensado. Seu marido a irrita em detalhes e repetições, principalmente com o seu método de contar as gotas de seu remédio, e é assim que Thérèse tenta se livrar da vida que a rodeia, colocando gotas a mais do remédio no copo com água de seu marido, mas não dá certo, no que desencadeia uma situação onde a hipocrisia reina. 
A degradação da personagem é incrível, enclausurada em um quarto por causa do que fez, ela segue seus dias fumando desesperadamente e emagrecendo rapidamente. Até que mais uma vez as convenções sociais são necessárias e ela se vê obrigada a aparecer com o marido para receber o noivo de Anne. Inconformado com a situação de Thérèse, Bernard começa a compreender talvez, que ela não é uma mulher comum.

"Thérèse Desqueyroux" tende a passar despercebido justamente por conta da sua falta de simpatia, mas é válido em mostrar que um ser pensante precisa ser livre e até solitário.
O filme é trabalhado nos diálogos e nos pensamentos dessa mulher que se sentia alheia a tudo. Nem ela mesma sabia o que acontecia dentro de si, porque o meio em que vivia era tão pequeno que não dava asas para suas ideias. "Thérèse Desqueyroux" é seco, introspectivo, e realça muito a vontade de ler o livro de Mauriac.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O Último Elvis (El Último Elvis)

"O Último Elvis" (2012) dirigido por Armando Bo, cineasta estreante, nos traz uma história muito apaixonante, isso porque o personagem não é um simples fã e cover de Elvis, ele acredita que de alguma maneira tem um pouco do rei do rock em si. Os covers que mais vemos sem dúvida são do Elvis e muitos deles são incríveis, mas não da forma que Carlos faz, aliás ele detesta ser chamado de Carlos. Ele vive de acordo como foi a vida de Elvis, inclusive deu nome a sua filha de Lisa Marie e engordou com o passar dos anos, tudo para acompanhar a trajetória do seu ídolo.
O cantor Carlos Gutiérrez (John Mcinerny) é cover de Elvis e sempre viveu a vida do grande astro do rock como se fosse ele próprio reencarnado, negando a si mesmo. Só que ele se aproxima da idade que Elvis tinha ao morrer e seu futuro se mostra vazio. Uma situação inesperada acaba por obrigá-lo a cuidar de sua filha Lisa Marie (Margarita Lopez), uma menina pequena que ele quase não vê. Nos dias em que fica com ela, Carlos experimenta ser realmente um pai e Lisa aprende a aceitá-lo como tal. Mas o destino lhe apresenta uma difícil decisão: em uma viagem de loucura e música, Carlos deverá escolher entre seu sonho de ser Elvis e sua família.
O filme tem uma visão muito interessante sobre o comum, sobre pessoas reais, que trabalham em um emprego chato, mas nutrem o sonho de ser algo mais, como Carlos que por causa de sua bela voz faz shows em festas de aniversários e casamentos como cover de Elvis. Ele se sente pleno, mesmo que essas festas sejam melancólicas é o único instante em que se sente realizado. Ele nega a sua vida até que um acidente acontece com sua ex-mulher e sua filha e se vê obrigado a cuidar da menina, ele cai na realidade de uma vida cheia de responsabilidades, não dá para ganhar a vida com os míseros shows que faz.
Carlos cria um laço forte com sua filha, entre canções e lanchinhos de banana os dois se aproximam, mas há algo mais forte que move o protagonista, depois que sua ex-mulher sai do hospital e volta a cuidar da menina, segue com seu plano, ele faz a tal turnê da qual falara o filme todo. A sequência final é melancólica, assim como as músicas escolhidas, é uma sensação estranha, pois Carlos não dava indícios de ser um fã louco, era sempre contido porque acreditava ter em si o espírito de Elvis. Um diálogo bacana que acontece no início do filme mostra o quanto levava a sério a ideia, o cover do Steven Tyler diz: "sorte sua Elvis não ter saído de moda, pois os shows estão bem escassos", e então Carlos responde: "eu inventei o rock, e isso nunca sairá de moda". Ele fala de maneira tão grave que nos surpreende.

As músicas chegam a arrepiar, inclusive é o próprio ator que solta a voz. A cena mais linda é a que ele canta "Unchained Melody" ao piano, é como se fosse um rito de passagem. Como sempre as tramas que envolvem o cotidiano real, a vida normal e sem graça, é algo interessante de se ver no cinema, "O Último Elvis" trata de um sujeito comum que desejava e conseguiu realizar a sua meta, por isso ele é o último, pois não há quem se proponha a tal ato.
O filme é um drama existencial, a fantasia está apenas na cabeça de Carlos que via no seu talento algo maior do que sua própria vida. Os sonhos é o que move os seres humanos, e cada um sabe até onde ir para realizá-los.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Hahaha

"Hahaha" (2010) é um título curioso e que chama bastante atenção, mas a risada mesmo só aparace no final do filme. É interessante e bem particular, principalmente em termos de humor, não o considere como uma comédia igual a tantas outras, aquelas das quais estamos acostumados, há sutileza e pende também pelo lado da cultura do país. Na verdade, o longa é um drama, mas toda a narrativa é jogada para o lado positivo, mesmo que aconteça coisas ruins e inesperadas na vida, o foco está sempre para o lado bom, assim os personagens se tornam quase infantis, numa medida gostosa e leve. O uso de cenas comuns, do dia a dia estão muito presentes, como o ato de comer e beber.
O diretor de cinema Jo Munkyung planeja deixar Seul para morar no Canadá. Alguns dias antes de sua partida, Jo encontra seu grande amigo Bang Jungshik, que trabalha como crítico de cinema. Conversa vai, conversa vem, os dois descobrem que, por coincidência, estiveram ambos recentemente no pequeno balneário de Tong-yung. Decidem então contar um para o outro sobre suas respectivas viagens enquanto comem e bebem, sob a condição de só relembrarem os eventos agradáveis. Sem perceberem que estiveram no mesmo lugar, ao mesmo tempo, com as mesmas pessoas, os dois homens desfiam suas reminiscências de um verão quente compondo um verdadeiro catálogo de lembranças. Em suas conversas, Jo conta que foi apaixonado por uma guia turística (Moon So-ri). Durante uma temporada na praia, ele a conheceu e invadiu secretamente a sua casa, para descobrir detalhes sobre a garota, que tentou usar em proveito próprio. Já Bang, apesar de casado, mantém um relacionamento com outra mulher. As tramas narradas por cada um se entrecruzam e se distanciam.
Dirigido pelo sul-coreano Hong Sang-soo, o longa nos apresenta personagens que estão em crise, que de alguma maneira não querem responsabilidades, é aquela hora da difícil decisão de se tornar adulto para sempre e esquecer o último resquício de ser jovem, de fazer escolhas, decisões estabilizadoras e ter um amor. Toda a história se desenvolve por flashback, o início se dá entre os dois amigos conversando e bebendo, isso vai e volta o filme todo entre a história de um e de outro, que por pura coincidência se cruzam sem eles saberem. Os dois amigos enquanto narram suas partes da história são vistos apenas em fotos em preto e branco sempre brindando.
Interessante que nenhum personagem tem sucesso na vida, todos estão perdidos, o cineasta sem filme, o poeta imaturo que não consegue escrever, todos se sentem inadequados e perdedores, porém a visão que o filme nos dá, apesar de ser um drama, é de leveza e humor, o mesmo humor de quando rimos de algo idiota que fizemos, ou quando nos arrependemos de algo que não ousamos fazer. É um riso contido, interno.

A história é regada a saquê e não é à toa já que eles precisam alterar seus humores diante as consequências da vida e do tempo que não espera. Mas o tom de que ainda dá para mudar algo, de uma certa esperança, vem com o "saúde" toda vez que terminam de contar a parte da história de cada um. É um filme que evoca a sensação de nostalgia pela forma que é narrado. Algumas cenas não tem lógica ou nem precisam ter mesmo, pois na vida comum ocorrem coisas que não carecem de significados, improvisos acontecem. Completamente despretensioso, vale muito a pena assisti-lo, tem momentos reflexivos, é leve e interessante por suas coincidências e acasos.
"Hahaha" é a risada que damos quando contamos a um amigo algo tragicômico, um evento aparentemente ruim, mas sob um olhar mais ameno, aquele que ri de si mesmo e de seus arrependimentos. É uma comédia particular, repleta de diálogos e de encontros e desencontros.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Amante da Rainha (En Kongelig Affære)

"O Amante da Rainha" (2012) dirigido por Nikolaj Arcel, adaptado do livro de Bodil Steensen-Leth e baseado em fatos históricos da Dinamarca, tem um roteiro refinado e caminha lentamente para o desenvolvimento de seus personagens. É um filme completo e caprichado.
A história reconstitui o casamento de Caroline Mathilde com Christian VII, rei da Dinamarca, em 1766, em meio a deterioração dos regimes absolutistas na Europa. A intriga palaciana mistura o conservadorismo da época e o desejo de liberdade de uma jovem refém das convenções. Em meados do século XVIII, quando o Iluminismo estava em ascensão por toda a Europa, o jovem rei da Dinamarca, Christian VII (Mikkel Boe Folsgaard) casa-se com sua prima Caroline Mathilde (Alicia Vikander). Ele tem tendências esquizofrênicas, sérias dificuldades de socializar-se e, acaba contratando o médico alemão Johann Struensee (Mads Mikkelsen), para que cuide dele. Johann torna-se uma espécie de conselheiro de Sua Majestade. O médico do rei é simpatizante do Iluminismo, assim como Caroline, e não demora para que ambos se apaixonem e utilizem da confiança do rei, para manipulá-lo e trazerem as ideias iluministas para a Dinamarca. A paixão que acontece entre Caroline e Struensee é bem delineada e acontece aos poucos, por afinidades intelectuais.
O início do longa começa com Caroline escrevendo uma carta aos seus dois filhos, dos quais foram afastados dela, e a partir daí somos conduzidos à história. Caroline é enviada a Dinamarca para se casar com o rei, que cuja excentricidade é confundida com a loucura. O ator Mikkel Boe Folsgaard que faz o rei doidinho rouba a cena, ele é formidável. Mads Mikkelsen também está sublime, como amante, amigo do rei e com seus ideais iluministas. Alicia Vikander está esplêndida e com certeza uma atriz completa, que tive o prazer de conhecer num filme sueco chamado "Pura" (2009).
As ideias iluministas estão bem presentes contrastando com a fé cega da religião e a imposição da nobreza perante os camponeses. Com a influência de Struensee, o rei traz o Iluminismo à Dinamarca, várias leis começam a ser sancionadas, tais como a proibição de tortura, diminuição de horas de trabalho dos camponeses e abolição da censura, porém em pouco tempo o Conselho que perdeu seu poder, se volta contra o rei e utiliza-se da imprensa livre para manipular a população e derrubar o médico de seu cargo, criando um escândalo sobre o romance da rainha com Struensee.

Apesar do foco do filme estar no romance, o aspecto político é bem forte e denota a corrupção da corte e a luta pela liberdade. O rei se parece muito com uma criança mimada, que atende só quando alguém grita consigo, o conselho se aproveita disso, com o médico já é diferente, pois ele apela pelo que Christian mais gosta: atuar. Ele encara tudo como uma peça de teatro, e dessa forma vai mudando as coisas e se humanizando aos poucos, engraçado como nosso sentimento muda para com ele no decorrer. O filme vai crescendo, evoluindo até chegar a seu ápice, que é a tragédia. E então a carta de Caroline sendo entregue a seus filhos e um novo tempo começa a surgir.
É um filme minucioso e longo, foi feito para ser degustado, absorvendo cada acontecimento. Ele se assemelha com a narrativa de um livro.

"O Amante da Rainha" é perfeito em todos os sentidos, enche os olhos pela beleza estética e nos fascina pela sua história. É detalhista em todo o seu desenvolvimento. Vale ressaltar a cena em que Caroline e Struensee se apaixonam, realmente arrebatadora. Acho tocante quando focam neste momento, cuja sensação única se faz cheia de significados. É um filme para se apreciar!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Maníaco (Maniac)

"Maníaco" (2012) é remake de um clássico slasher (sub-gênero do terror) dos anos 80. Ambos retratam de maneira crua a perturbação na mente de um psicopata, mas há muito mais elementos positivos no remake, como a ambientação, a trilha sonora e a câmera em primeira pessoa, onde vemos os acontecimentos sob o olhar do maníaco, tudo isso contribui para um clima sufocante e doentio. Frank Zito possui uma loja de manequins femininos, da qual restaura antigos modelos, ele é um verdadeiro psicopata que ataca em uma pequena cidade norte-americana. O principal foco deste assassino frio são as garotas, as quais são encontradas pela internet e posteriormente brutalmente assassinadas. Após acabar com suas vítimas o serial killer ainda retira seus escalpos para que adornem seus inúmeros manequins.
Elijah Wood faz de seu maníaco memorável, uma atuação incrível da qual mostra uma perturbação latente, o vemos sofrer de dores de cabeça insuportáveis, falando e alucinando com sua mãe, principal motivo por ele distorcer a imagem das mulheres. Sem dúvida ele coloca seu psicopata ao lado dos melhores do cinema. O personagem fisicamente aparece pouco por conta do estilo de filmagem, mas é possível ver seu rosto nos espelhos ou quando interage com alguém.
Quando conhece Anna, uma fotógrafa que pede emprestado alguns de seus manequins para uma exposição, sua perturbação aumenta, pois de início a enxergava de um modo puro, seus impulsos estavam controlados, mas conforme a história avança as coisas se complicam e ele não consegue segurar seus instintos.
É uma bela homenagem ao Maníaco original, que nos faz lembrar destes clássicos cults dos anos 80. O remake nos presenteia com cenas assustadoras, especialmente a dos escalpelamentos, há a frieza de um psicopata, sangue, violência e a atmosfera sombria, podemos sentir de perto a respiração ofegante de Frank enquanto ele pega suas vítimas, somos conduzidos pela história sob seu olhar e percebemos como a sua mente é frágil e inconstante. Interessante como ele é inserido na sociedade com sua solidão e insanidade, sua busca por mocinhas bonitas, seu trabalho na loja de manequins e suas mãos sempre tão machucadas. Anna aparece como um respiro para Frank, mas o que inicialmente parecia beneficiá-lo a se manter são, se revela muito mais perturbador e opressivo.

Dirigido por Franck Khalfoun (P2- Sem Saída - 2007), o filme respeita o original, mas sobretudo, homenageia, é válido para quem curte o estilo denominado gore. Tudo no longa foi bem acertado e caprichado, enfim, é um ótimo remake.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Datilógrafa (Populaire)

"A Datilógrafa" (2012) é um filme francês que esbanja graciosidade. O charme todo é por conta do ritmo e jeito de filme dos anos 50/60, inclusive a atriz Déborah François, que interpreta Rose, por muitas vezes lembra Audrey Hepburn. Ser secretária no final dos anos 50 era super popular e representava modernidade. Dessa forma, Rose Pamphyle resolve sair de sua cidade, enfrenta seu pai, recusa-se a casar com seu pretendente local e se apresenta a uma entrevista para o cargo de secretária em uma empresa de seguros. O chefe é Louis Echard, jovem solteiro de 36 anos, um ex-atleta de coração endurecido. Mesmo que suas habilidades como secretária não sejam lá aquelas coisas, o homem fica impressionado com a velocidade com a qual Rose consegue digitar. Logo o espírito competidor de Louis desperta: ele decide aceitar Rose como sua secretária, contanto que ela treine para participar da competição de datilógrafa mais rápida do país.
Apesar de Rose ser rápida, não é o suficiente, especialmente porque não usa todos os dedos, então Louis começa a treiná-la para que use todos. Ele presenteia ela com uma máquina que contém teclas coloridas, e para memorizar melhor Rose pinta as unhas de acordo com as teclas. No início, o relacionamento entre os dois não é muito agradável, Rose é dona de uma personalidade singular, ao mesmo tempo que é doce também é decidida e impetuosa. Já Louis é egoísta, só pensa em ganhar a competição e para isso faz com que Rose execute uma tour de force. Louis também pede a melhor amiga que lhe dê aulas de piano para ajudar na flexibilidade das mãos. E tudo isso dá muito certo, Rose começa a ganhar os concursos, o que faz com que se aproximem cada vez mais, apesar de Louis não admitir sua paixão.
Dirigido por Régis Roinsard que também assina o roteiro, "A Datilógrafa" é um filme leve, engraçado e muito charmoso. Nos faz voltar no tempo, e isso se deve a fotografia maravilhosa, os figurinos e a trilha sonora. O ritmo é ágil, portanto, não se torna cansativo, é daqueles filmes que nos deixa felizes quando termina. É uma ótima opção para aqueles que assim como eu não suporta comédias românticas bobas que utilizam sempre os mesmos elementos e enredo. E para quem quer curtir um filme francês também é super válido.
A máquina de escrever é a personagem principal, sendo apresentada em closes e ângulos diversos. A cena em que Rose bate nas teclas duras da máquina sem parar apenas com os dois dedos, e Louis nervoso entra na sala e diz: "A máquina foi feita para mulheres e não para elefantes", é uma das tantas cenas que enfeitam a trama.

"A Datilógrafa" é visualmente muito bonito e é interessante também notar a maneira que lidam com a sensualidade mesclando com a inocência, e esse jeito é muito eficaz, já que a paixão dos dois se desenvolve aos poucos. Rose fica muito popular ao ganhar os concursos e logo vira garota propaganda de uma empresa de máquinas de escrever, que aproveita seu nome e lança uma máquina rosa, que é desejada por todos. Há uma crítica muito sutil ao mercado e a guerra cultural entre França e EUA.
É um filme encantador e recomendável, é simples, leve e muito delicioso. Uma curiosidade é que Déborah François não utilizou dublê em nenhuma cena, são sempre as suas mãos que aparecem, e para isso ela teve três meses de treino. Incrível!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Estranhos Normais (Happy Family)

"Estranhos Normais" (2010) dirigido por Gabriele Salvatores é uma adaptação da peça teatral que o diretor produziu com o dramaturgo e ator Alessandro Genovesi. Ezio (Fabio De Luigi) é um escritor que está a escrever o roteiro de um filme. Desta forma cria uma história onde duas famílias se aproximam, após dois jovens de 15 anos resolverem se casar. Diante desta situação, Ezio cria personagens em que as mães são neuróticas, os pais mais loucos que seus filhos, e os cachorros se apaixonam. Os pais de Filippo, Vincenzo (Fabrizio Bientivoglio) e Anna (Margherita Buy) precisarão conviver com os de Marta, interpretados por Diego Abatantuono e Carla Signoris. As enormes diferenças sociais e culturais entre as desordenadas famílias propiciam alguns dos bons momentos da trama. O filme é daqueles em que você não sente o tempo passar, é delicioso. Sua narrativa é apaixonante e todos os personagens têm a sua hora, são muito bem desenvolvidos. Eles revelam o quão difícil é se relacionar, as complicações que há com as diferenças sociais e com os costumes pessoais de cada um, mas mesmo assim o inesperado pode acontecer, afinal todos desejam o mesmo: Serem amados!
"Estranhos Normais" é uma bela e típica comédia italiana que garante boas risadas e nos permite devanear sobre alguns aspectos da vida. O grande motivo do filme ser realmente gostoso é a sua narrativa, onde tanto o escritor, como os personagens conversam conosco. Muito bacana as cenas em que eles reclamam de seus desfechos a Ezio, que no início gostaria de deixar um final aberto, porém os personagens começam a atormentá-lo para que ele fizesse um final digno para cada um deles, aí Ezio começa novamente a escrever e nós consequentemente mergulhamos na história.
O título original "Happy Family" é irônico, pois os relacionamentos contemporâneos cada vez mais estão individualistas e egoístas, o ato tão italiano que é o padrão de muitas famílias brasileiras também, que é o de sentar-se à mesa todos juntos para comer, é algo raro hoje em dia. No filme quando as duas famílias se juntam por conta da decisão do casamento repentino dos dois adolescentes, vemos as diferenças, a família de Marta é mais pobre, já a do menino ostenta um padrão de vida mais confortável. Essa cena é uma representação da nossa sociedade.
Sem mais nem menos, Marta decide não se casar mais com Filippo, que na verdade nem sabe o que quer, ele apenas pensa (não sente) gostar da menina. Todos os personagens são interessantes, incluindo o pai de Marta, que é aquele que vive de maneira simples, sem preocupações, pois sabe que não vai levar nada quando morrer, é uma pessoa leve e bem divertida. A avó de Filippo também garante boas risadas, com mal de Alzheimer ela repete o primeiro prato umas cinco vezes durante o jantar. O pai de Filippo está doente e a qualquer momento pode morrer, por isso se distanciou de sua esposa, que se sente muito infeliz, a vida de Vincenzo muda quando decide ir viajar para o Panamá com o pai de Marta. A meia irmã de Filippo, Caterina (Valeria Bilello) é complexada por ser ruiva, ela pensa que fede, seu personagem deseja se apaixonar, e então Ezio de escritor torna-se protagonista de sua própria história.

"Estranhos Normais" é uma comédia criativa e sem exageros, trata da solidão e dos medos que nos rodeiam o tempo todo, o medo da mudança, de se envolver, de viver livre e de morrer. É também uma produção para os apaixonados por cinema, cheio de referências a filmes clássicos, por exemplo: "Desconstruindo Harry" (1997, de Woody Allen), "Os Excêntricos Tenenbaums" (2001, de Wes Anderson), "Os Suspeitos" (1995, de Bryan Singer), e "A Primeira Mulher de um Homem" (1967, de Mike Nichols).
O filme é simples e trata de algo que todos nós temos: Medo. Só que de maneira descontraída mostra que o mesmo medo que nos paralisa é o mesmo que nos move.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Reality - A Grande Ilusão (Reality)

"Reality" dirigido por Mateo Garrone discute um tema extremamente atual, que é o desejo que muitas pessoas possuem de serem famosas. Não é de se admirar que quando se inicia um reality show, especialmente o Big Brother, pessoas se inscrevam, enviem vídeos contando suas vidas, tudo para tentar uma vaga dentro da casa, pois a ideia que esses tipos de programas passam é de glamour, riqueza e visibilidade. A pessoa que vive de maneira simples, sem questionar o meio compra esse pensamento, que na verdade é uma grande ilusão.
Na trama, Luciano (Aniello Arena) é o dono de uma peixaria e complementa o seu modesto salário com pequenos golpes que efetua ao lado de sua esposa. Um dia, ele é convencido pela sua família a concorrer o Big Brother, no entanto, a perseguição do seu sonho acaba por mudar para sempre a sua realidade. Luciano é um cara simpático e muito querido por todos, e depois que faz o teste para entrar no programa fica extremamente obcecado pela ideia de se tornar famoso e ganhar dinheiro, seus amigos e familiares dão força a ele, fazendo-o acreditar que entraria.
"Reality" possui um tom fabulesco, principalmente pelo seu início com a longa cena que uma carruagem passeia por Nápoles levando os noivos a uma mansão onde irão se casar. Essa cena mostra o quanto somos levados por aparências, dando maior virtude àqueles que estão mais bem vestidos. Nesse casamento está toda a família de Luciano, que se desconstrói logo após a festa, onde as roupas chiques são retiradas, a maquiagem e penteados são desfeitos. É como se retirassem a máscara que colocaram ao sair de casa. Outra figura interessante é Enzo, um ex-participante do Big Brother, ele inclusive faz uma aparição nesse casamento, como se fosse um alguém importante, as pessoas lhe dão valor só porque apareceu na TV. Ele fala com o público, diz sempre as mesmas palavras: Nunca desista! Os quinze minutos de fama são estendidos fazendo essas presenças em festas.
"Reality" pode ser considerado um filme surreal para alguns, mas ele tem uma forte mensagem em seu desenrolar, Luciano chega ao ridículo da situação, pensa estar sendo espionado por agentes do programa, vende sua peixaria, pois acha que ganhará dinheiro, e mesmo quando o reality começa, pensa ser o fator surpresa, aquele que entrará dias depois. Ele passa o tempo todo na frente da televisão, ri com os participantes, e enfim, enlouquece. Sua mulher acaba por deixá-lo mesmo o amando, é insuportável ficar ao seu lado, ela tenta de tudo e sua última alternativa é fazer com que ele se apegue a Deus, mas mesmo assim Luciano dá um jeito e faz o que ninguém poderia imaginar. Os minutos finais do filme é extremamente incômodo.

Em uma das brigas de Luciano e sua mulher, ela tenta abrir seus olhos e fazer com que ele pare com a obsessão, ela lhe diz: "Porque chamariam um idiota feito você?". O fato é que esses programas fazem lavagem cerebral em uma grande parte das pessoas que acreditam na magia televisiva, observe que o perfil das pessoas que entram são sempre os mesmos, e então onde Luciano se encaixaria?
Mesmo sendo um filme de comédia não consegui encontrar motivos para rir, quando dava vontade, depois de alguns segundos já notava que a cena não foi feita para isso, e sim para pensar no quanto as pessoas são manipuladas e estão sendo ridículas ao se submeterem a qualquer coisa para se tornarem famosas, ou somente para terem a comodidade de fazer a tal presença Vip, onde um bando de sem noção vangloria pessoas mais idiotas ainda.

É interessante notar que Luciano mesmo não estando na "casa" age como se estivesse. A câmera ajuda nesse ponto, os ângulos usados são os mesmos dos reality shows. Não é um filme que agrada a todos, tem um ritmo diferenciado, porém a sua proposta é fantástica e muito atual. O Big Brother reflete o pior, expõe a mesmice e aliena a população que já não pensa muito, onde seu único alívio depois de chegar de um dia de trabalho é sentar-se na frente da TV para assistir imbecilidades. É um filme que vale muito a pena para refletir, ou lembrar do quanto esses e outros tipos de programas são uma ilusão.

*Aniello Arena que interpretou Luciano está preso a mais de 18 anos por assassinato. Ele é um ex-matador da máfia e por isso cumpre prisão perpétua, Aniello começou sua carreira como ator em 2001, na prisão de Volterra, na província de Pisa.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Capitão Abu Raed (Captain Abu Raed)

 
Abu Raed é um solitário porteiro do aeroporto de Amã. Nunca conseguiu realizar seu sonho de conhecer o mundo. Seu conhecimento se dá de forma indireta, por meio de livros e breves encontros com viajantes. Um dia, em seu trabalho, ele encontra um quepe de capitão jogado no lixo, chegando em seu vilarejo um garoto pensa que Abu é um grande piloto e começa a fazer diversas perguntas. Na manhã seguinte, ele acorda com um grupo de crianças em sua porta, acreditando que ele é piloto de uma companhia aérea. E a partir daí eles iniciam uma amizade muito bonita, feliz por ter companhia e atenção, ele leva as crianças para lugares coloridos do mundo por meio de suas histórias fictícias, inspirando-os a acreditar em seus próprios desejos. Enquanto isso, a amizade de Abu Raed com Nour, uma piloto de verdade, faz com que ele cresça como pessoa e ela divida com ele seu ajuste às pressões da vida moderna em Amã.
Uma história de pessoas que cruzam os limites sociais e de sonhos, amizade, perdão e sacrifício. "Capitão Abu Raed" (2008) é um filme jordano muito belo que contém uma mensagem significativa seja em qualquer parte do mundo. Cultivar sonhos dentro de si e repassá-los.
A história é simples, mas carregada de sentimentos, principalmente a felicidade dos meninos em sonhar com que o homem conta a eles, porém um garoto um pouco mais "esperto" ou mais calejado em aspectos da vida, acaba por denunciar Abu a seus amigos, dizendo que ele está mentindo, pois como poderia um velho nascido naquele lugar ser piloto. O fato é que mais tarde a verdade aparece, mas Abu não fica bravo ou mesmo humilhado ao ser descoberto limpando o chão do aeroporto. Abu tenta fazer com que aquelas crianças tenham um futuro, só que ele não tem como ajudá-las, ele não tem nada a oferecer, faz o que pode, como comprar biscoitos de um menino para que ele possa ir à escola.
Murad, o garoto que denunciou Abu aos outros, foi ajudado pelo velho carinhoso e Nour, uma mulher independente em um país que ainda oscila entre deveres e direitos. É um filme terno que envolve amizade, sonhos, dignidade e sacrifício. Há dramas sociais, como maus-tratos, abuso, desprezo pela educação, casamentos arranjados e pobreza. Abu dá a Murad a capacidade de sonhar novamente, a possibilidade de um futuro, lhe mostrando que há novos horizontes e que há pessoas capazes de amar, diferentemente como era na sua casa. A naturalidade é o que mais cativa, seja nos personagens dotados de olhares singelos, ou na fotografia que passeia no bairro pobre e poeirento de Abu, cujo terraço de sua casa é possível contemplar Amã.

É um filme precioso que revela amizades improváveis aparentemente, mas que são semelhantes em seus conflitos internos, mesmo que esses não sejam iguais. Nada apelativo, nem melodramático, ele se sustenta em uma história simples, repleta de limitações, mas que é capaz de renovar sonhos adormecidos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Poesia (Shi)

"Poesia" (2010) dirigido por Lee Chang-Dong conta a história de Mija, uma senhora de 65 anos que mergulha no mundo da poesia em meio a situações tristes que lhe ocorrem. Mija cuida de seu neto adolescente, um garoto alheio a tudo, não sabemos sobre o passado e o porquê desta condição, de repente, ela recebe a notícia de que seu neto participou de um estupro coletivo, cuja garota teria, por esta razão, cometido suicídio. Para piorar, Mija descobre estar sofrendo de Alzheimer. Em meio a essas circunstâncias Mija se depara com um cartaz que diz ensinar poesia, encantada decide entrar e tentar escrever pelo menos um poema. Para ganhar dinheiro ela cuida de um velho que aparentemente sofreu derrame, ela lhe dá banho, o troca, um trabalho duro para uma senhora, mesmo que esteja sempre sorrindo e de bem com a vida.
A trama se desenrola num condomínio de bairro popular, num apartamento bem pequeno, a relação de avó e neto é distante, o típico adolescente que não conversa, sempre mal-humorado, na frente da TV, no computador ou dormindo. Ela tenta a aproximação cuidando e cozinhando para ele. De início ela parece ignorar ou não querer acreditar que o garoto pudesse agir daquela maneira tão desumana. Mija sempre bem arrumada, elegante, uma figura por si só poética, há algo nela que é diferente e ela mesma diz: "gosto de flores e sempre digo coisas estranhas", mas ao entrar nas aulas de poesia percebe que para escrever é necessário muito mais do que vislumbrar os pequenos detalhes da vida, enxergar os pormenores das situações, é preciso sentir a poesia pulsar dentro de si, deixar que ela transpasse todo o corpo, deixando vibrar seus sentimentos. Para entender a poesia é necessário se abster do pensamento que ela é colorida, recheada de paisagens sublimes e paraísos secretos.
O filme tem vários olhares, a trama gira em torno desse crime cometido pelos seis alunos da escola, os pais tentam acobertar juntamente com a polícia, o jornal e até o colégio, formulando uma quantia de indenização para que a mãe se calasse e não prejudicasse o futuro dos meninos.

Enquanto isso, Mija passeia pela cidade, fazendo todo o trajeto da garota que sofreu o abuso. A quantia estipulada pelos pais é de três milhões, e as cenas que mostram o descaso desses adultos em relação ao sofrimento da mãe, apenas focando no dinheiro para garantir o silêncio de uma pessoa simples é repugnante, reflete o quanto as pessoas são movidas a egoísmo e prepotência somente por terem dinheiro. A mãe da menina é pobre, trabalha na zona rural e usam disso descaradamente a favor deles. Quando Mija se depara com essa mulher algo nela é despertado, e nós somos contemplados por pequenas poesias que vêm dos olhares, das palavras e dos gestos que essa senhora faz a partir desse momento. É uma lição de ética, de coragem e de honra.
A poesia está em qualquer lugar, e que lugar melhor senão o cotidiano para extraí-las? Os momentos mais árduos são os mais engrandecedores.

É um filme muito simples, mas com poder de nos mudar, os dramas cotidianos ampliados nos permite chegar perto da personagem, Mija é uma senhora muito cativante, sua brandura e ingenuidade de querer ver os detalhes nos fascina, há momentos que parece estar alheia as situações, mas a verdade é que ela sente de maneira diferente, interiormente intensa. Em seu caderninho, faz anotações e coloca suas observações, no final do longa quando finalmente consegue compor seu poema "A Canção de Agnes", é o momento em que mostra o real poder das palavras e o quanto elas podem significar e permitir a renovação.
É um filme grandioso em toda sua simplicidade, muito bonito em toda sua composição, é preciso que obras assim sejam mais vistas e admiradas.
Lee Chang-Dong diretor e roteirista foi Ministro da Cultura de seu país, a Coréia do Sul. Em 2010 recebeu o prêmio de melhor roteiro do Festival de Cannes por esse filme.
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