sexta-feira, 26 de abril de 2013

Colegas

"Colegas" (2012) de Marcelo Galvão é um filme nacional gracioso que foge de esteriótipos e que encanta por sua simplicidade e ideia. Premiado no festival de Gramado como melhor filme do ano de 2012, tem sido alvo de críticas que aponta defeitos e equívocos, mas a verdade é que quem o assiste se emociona e se diverte.
"Colegas" é um road movie que acompanha três jovens com Síndrome de Down, que escapam da instituição que vivem desde pequenos. Stallone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pokk) e Márcio (Breno Viola), fascinados pelo cinema encaram a vida como uma grande experiência e desta forma saem em busca de seus sonhos. Stallone quer ver o mar, Aninha quer se casar com um cantor e Márcio deseja voar. Stallone inspirado pela liberdade que o seu filme predileto "Thelma e Louise" esbanja, decide pôr o pé na estrada e viver uma aventura junto de seus colegas, eles roubam o carro do jardineiro e partem rumo a seus sonhos. Com pitadas de ação e muito bom humor cometem assaltos, mas logo a polícia toma conhecimento dos fatos e do sumiço dos três jovens da instituição. Com direito a cartaz de procurados e nomeados como a gangue da Síndrome de Down, o filme deixa de lado a apelação ou qualquer drama que na maioria das vezes fazem com as pessoas "deficientes". O filme até brinca com o fato, no decorrer são chamados de mongoloides e retardados, mas tudo na medida exata.
A narração de Lima Duarte é serena, doce e dá um tom de fábula ao filme, que ao meu ver foi de grande valia. Para os cinéfilos as citações recorrentes a grandes filmes é um barato, poder identificá-los é uma alegria a mais, há referências de Pulp Fiction, Taxi Driver, Blade Runner, Cães de Aluguel, Cidade de Deus, Psicose, Tropa de Elite, Thelma e Louise, entre outros. A paixão pelo cinema é por conta da videoteca da instituição, da qual Stallone adorava. Não poderia deixar de falar da ótima trilha sonora, o ídolo do trio é Raul Seixas, sendo assim, várias músicas do Raulzito acompanham a viagem maluca.
"Colegas" é uma trama fantasiosa, mas que foca num fator humano, há muitos clichês, porém o diferencial dos jovens com Síndrome de Down traz uma abordagem criativa ao filme.

O fato é que sonhar nunca sai de moda, sonhos recheados de fantasias, situações inacessíveis, talvez seja impossível para algumas pessoas, mas tudo que se queira fazer é possível com um pouco mais de ousadia. A sensação de liberdade que o filme passa e a mensagem bem sutil de que qualquer pessoa, seja as dificuldades que forem, são capazes de viver da forma que bem entendem e realizar seus sonhos.
A Síndrome de Down é considerada um traço da personalidade, uma característica particular, graças as informações as pessoas têm deixado de rotulá-las e excluí-las da sociedade. "Colegas" é um filme que apesar de conter elementos já tão batidos consegue criar em cima do tema de forma singela, seu clima de alegria contagia quem o assiste.
O longa não faz nenhum tipo de conscientização, ele insere o Down no contexto de forma natural, aliás o filme é uma homenagem de Marcelo Galvão ao seu tio, que é portador da Síndrome de Down.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Arca Russa (Russkiy Kovcheg)

"Arca Russa" (2002) é um filme magnífico, de uma beleza inqualificável, mas para entendê-lo é necessário saber um pouco da história da Rússia, ou pelo menos conhecer alguns personagens históricos, pois o filme no seu desenrolar passeia entre eles. Sem dúvidas "Arca Russa" é um marco do cinema, filmado em um único plano-sequência, sem cortes, que dura 97 minutos e atravessa 35 salas do museu, transformando a tela do cinema em um quadro vivo por onde desfilam personagens importantes da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II; Nicolau e Alexandra. O museu é como um ser vivo, uma entidade que respira e tem personalidade própria. Sokurov empresta alma ao colossal palacete do Hermitage, em São Petersburgo, um dos maiores museus do mundo. Simbiose perfeita de cinema, História e artes plásticas, "Arca Russa" é uma experiência visual única e inesquecível.
O cineasta Aleksandr Sokurov (Moloch - 1999, Taurus - 2001 e Solntse - 2005) é um dos diretores mais cultuados e sua "Arca Russa" é um filme erudito, para os mais desentendidos passará batido e até sem sentido, é uma viagem esplendorosa na história da Rússia dentro de um magnânimo museu. O Hermitage é o ex-palácio dos czares, onde os quadros e três décadas da história da Rússia convivem em melancólica harmonia. O todo é envolvido pela questão sobre a identidade russa. Seria um país oriental, eslavo, ou um país europeu?
Perfeccionista, o diretor exigiu que nenhum ruído fosse feito durante a gravação. Marcou as posições dos atores com o rigor de um coreógrafo de balé. Distorções sonorafs e visuais foram corrigidas por computador depois da filmagem e o material captado em vídeo foi transposto para película. A opção de um filme sem cortes é para manter um fluxo contínuo que permite a interação entre tempos distintos. São mais de 300 anos de Rússia sintetizados no Hermitage.

Há dois narradores, um é invisível e russo. O outro visível é europeu. Ambos andam diante dos quadros como se fossem fantasmas. O primeiro narrador, cuja única referência é a sua voz, parece defender a originalidade dos feitos russos, sempre contestando as afirmações do segundo narrador, este que tenta encontrar respostas sobre a sua própria história e o motivo para estarem no museu. Como não sou expert sobre a Rússia fiquei cansada em algumas partes, mas o filme é bem movimentado por personagens, então a monotonia é quebrada logo. Glorificar o filme apenas pelo fator plano-sequência e seu apuro técnico é errado, claro que é uma ousadia imensa e um trabalho otimamente executado, porém há diversas coisas que podem ser visualizadas além disso. Sokurov faz de sua "Arca Russa" um clássico que será lembrado eternamente.

Uma das cenas mais expressivas é a do baile, a nostalgia realmente acontece e a insegurança do futuro são reproduzidas. A identidade daquele país é repleto de dúvidas e ao final do longa vemos o horizonte sombrio, onde o filme volta para um futuro sem grandes expectativas, os fantasmas do palácio desaparecem e tudo silencia-se.
É um filme intelectual, com todos os aspectos políticos da Rússia. Impecável, pomposo e elegante. Para alguns soa pretensioso e soberbo, já para outros um deleite visual e uma obra única e refinada. "Arca Russa" é um filme audacioso e que só poderia ter saído da mente de Sokurov.

sábado, 20 de abril de 2013

No (2012)

Depois de 15 anos no poder, desde o golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende em 11 de setembro de 1973, o general Pinochet convocou em 1988 um plebiscito para obter, via dispositivo democrático, mais oito anos no posto de chefe de Estado. O "sim" e o "não" disputaram espaço na TV, confrontando duas opções políticas. Mais importante, a campanha pelo "não" pôde aproveitar, pela primeira vez, as brechas da censura para expôr a face negativa da ditadura, o avesso do progresso econômico percebido como vantajoso pelos partidários de Pinochet, a fatia da sociedade beneficiada pelo regime.
Baseado na peça do escritor chileno Antonio Skármeta, "El Plebiscito", a história nos conta sobre René Saavedra (Gael Garcia Bernal), um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Augusto Pinochet no poder, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo. O publicitário Saavedra aborda o "Não" como um produto, organiza a campanha seguindo as fórmulas de persuasão da propaganda e, para horror dos puristas, demonstra como, desde sempre, a democracia funciona com base em discursos que tornam legítimos seus processos.
O filme começa e termina com esta frase: "Este comercial está inserido em um contexto social. Hoje o Chile é um país que pensa no futuro". As campanhas de Saavedra tem o objetivo de mostrar a alegria do povo chileno, o passado de torturas e perdas não pode ser esquecido, mas o contexto de uma campanha mais colorida e cheia de vida dá o sentido de esperança, exatamente o que o povo precisa.

O diretor Pablo Larrain (Tony Manero - 2008, Post Mortem - 2010) mescla imagens reais da época a seu filme, a fotografia é retrô e realmente parece que estamos assistindo um filme dos anos 80. Ele expõe um fato importante da história do Chile de maneira sublime, mostra as artimanhas de publicidade em uma campanha política, a censura, e tudo o que envolve esse meio. Gael Garcia Bernal contribui muito para que o filme se torne rico, seu personagem não é feliz, sua mulher é rebelde e luta contra a ditadura, e constantemente é presa por isso. Os dois não estão mais juntos, mas percebe-se que há algo que não está bem definido dentro de René, este que apesar de ter sido exilado, volta ao seu país para trabalhar nesse período no referendo, ele é um publicitário respeitado, inteligente, que vê além e não aprova a ditadura, mas há um certo distanciamento entre ele e a realidade daquele país. O final retrata bem a ambiguidade do personagem, que durante a vitória não sabe como reagir em meio as pessoas que gritam e festejam.

Muitos dos esquerdistas da campanha "Não" nem mesmo acreditavam que ganhariam, mas de alguma forma era uma oportunidade para demonstrar o desgosto para com a ditadura e tentar tirar a venda dos olhos das pessoas diante ao sistema ilusório de Pinochet.
É interessante que o filme nos causa um sentimento de melancolia, os closes, a trilha sonora, tudo contribui para isso. É um filme inteligente que aborda um retrato político com uma fluidez impressionante.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Atrás da Porta (The Door)

Dirigido pelo húngaro Istvan Szabó, cultuado por alguns de seus filmes, como "Mephisto" (1981), "Coronel Redl" (1985) e "Adorável Júlia" (2004), nos apresenta "Atrás da Porta" (2012), um drama adaptado do livro homônimo de Magda Szabó.
A personagem Emerenc vivida por Helen Mirren é de uma personalidade notável, aparentemente durona, porém dotada de um coração enorme. O filme dá um mergulho profundo nessa mulher e nós consequentemente aplaudimos de pé mais uma belíssima atuação de Helen Mirren. Às vezes os personagens se sobressaem mais que as histórias em si, e este é um exemplo. O filme ficou devendo na composição e no desenvolvimento, mas com uma grande interpretação, Helen Mirren conseguiu segurar todo o filme. Na trama, Magda (Martina Gedeck) é uma escritora que está envolvida em seu novo livro e precisa de uma doméstica para desempenhar as funções básicas de sua casa, onde mora com o marido Tibor (Károly Eperjes). Magda conhece a vizinha Emerenc, uma mulher solitária e rabugenta que se dispõe a prestar seus serviços. A partir daí, surge uma amizade controversa. Enquanto Magda tenta lidar com o temperamento de Emerenc, esta guarda segredos em sua residência, local completamente proibido de ser frequentado.
Emerenc é uma mulher misteriosa, fechada, sisuda, mas mesmo assim todos da vizinhança a respeita e a ama. Ela é contratada para arrumar a casa de Magda, mas é Emerenc que dita as regras, que decide o que fazer, quando ir, como organizar e inclusive acrescenta seus próprios objetos na casa, considerados Kitsch. Magda de início fica assustada com o comportamento da empregada, mas com o tempo ela desenvolve uma certa simpatia pela mulher e vice-versa. Emerenc acaba se tornando objeto de observação para Magda. O roteiro não desenvolve de maneira clara e confunde um pouco ou nos afasta bastante da história, mas em certo momento descobrimos o porquê de Emerenc ser daquele jeito, cheia de manias e tão durona.

Através de flashbacks contados pela própria personagem vemos que, em diversos momentos de sua vida, tudo que ela amava com muita intensidade lhe era tirado, ela tinha medo de amar novamente, confiar, mas pode-se notar que mesmo transparecendo ser carrancuda, esta mulher tem afeto por Magda, seu marido e o cachorro Viola (nome do qual Emerenc escolheu por um motivo do seu passado). Na verdade pouco nos interessamos pelo que existe atrás da porta da casa de Emerenc, esse mistério acaba se desfazendo diante a uma personagem grandiosa, e não é à toa que o final soa arrastado, já que ela não está tão presente nas cenas. Magda e Emerenc são duas mulheres vulneráveis que se apegam, porém a maneira como a história se desenvolve acaba não dando a profundidade exata para esta relação. São duas pessoas que se destoam, mas que o destino tratou de juntá-las. Relações humanas, este filme trata disso, esqueça o Thriller psicológico que a premissa aparenta ter. É um drama de fortes perdas e do encontro entre duas pessoas diferentes que percebem serem capazes de amar uma à outra.

O filme passeia por diálogos interessantes em que Emerenc diz sobre o que acha da morte ou religião. "O máximo que se pode fazer por alguém é evitar que sofra", em dado momento ela diz essa frase porque sua vizinha e amiga se suicida por não suportar mais o fardo que é viver. Emerenc sabia que ela cometeria o suicídio e não a convenceu em nenhum instante do contrário, pois sabia de sua dor, e a morte era um alívio para sua alma. Todas as palavras que essa mulher fala nos fascina, mas é uma pena que o filme não dê ênfase a essas passagens. O ritmo é uma coisa que incomoda, mas mesmo assim vale muito a pena ver Helen Mirren mais uma vez arrasando com uma personagem dotada de uma personalidade encantadora e única. O filme deveria se chamar Emerenc.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cirque du Soleil: Outros Mundos

O Cirque du Soleil é o maior circo acrobático do mundo, conhecido pelos seus espetáculos visualmente incríveis e artistas impecáveis, quem já teve a chance de vê-lo ao vivo sabe a magia que causa. É um circo que inovou em suas artes, há enredo, cenário, vestuário, caracterização e música. Toda essa maravilha pode ser vista em forma de filme em "Cirque du Soleil - Outros Mundos", com direção do cineasta Andrew Adamson e produção executiva de James Cameron. O filme acompanha a trajetória da jovem Mia (Erica Kathleen Linz) à procura do trapezista (Igor Zaripov), por quem ela se apaixona. Em sua busca, Mia mergulha em um mundo paralelo com tendas habitadas por seres incomuns. Através da tecnologia 3D, a imersão nos cenários por onde a protagonista passa nos causa sensação de deslumbramento diante as imagens.
Há cenas em câmera lenta, onde aparecem todos os movimentos que os trapezistas fazem no ar, ou ainda, os efeitos causados pelas águas onde os acrobatas mergulham. É tudo muito fascinante, é de encher os olhos, os movimentos dos corpos chegam a hipnotizar de tão perfeitos. Para quem curte o universo circense é um deleite, apesar de faltar algumas figuras essenciais de um circo.
As apresentações são sofisticadas, no início é apresentada uma historinha, onde uma moça entra em um pequeno circo, e de repente se apaixona pelo trapezista, se encanta pelos movimentos do rapaz, mas quando ele olha para ela lá de cima perde o controle de seu corpo e acaba sofrendo uma queda, ela vai ao encontro dele e os dois mergulham no fascinante universo do Cirque du Soleil. Chegando lá eles não estão mais juntos, dessa maneira ela começa a mostrar um panfleto onde há uma foto do seu amado estampada, com a esperança de saber se alguém o viu e onde se encontra. A procura de Mia acontece em meio a contorcionistas, malabaristas e acrobatas, em grandiosos cenários juntamente com uma bela trilha sonora, regada a Beatles e Elvis Presley. Só que essa historinha não é tão importante, o primordial é mostrar o fantástico, a magia que esse circo carrega. Essa é a função deste filme.

A jornada da garota em busca do trapezista em certo momento cansa o espectador, assim como algumas apresentações, talvez a magia acabe se perdendo um pouco e as ilusões se desfazendo, mas sempre vem algo pela frente que nos acorda de novo para o mundo excêntrico que nos está sendo apresentado. Os números são elegantes, limpos, perfeitos, parece que tudo é feito com facilidade, as mulheres se contorcendo, os acrobatas se jogando pra lá e pra cá, não existe aquele medo que o espectador de circo sente ao ver um espetáculo comum, ao se perguntar se o artista será capaz de fazer tal coisa. Tudo parece irreal, ilusório, pois não aparenta esforço físico, dá impressão de efeito especial, é sobre-humano. Sabemos que os artistas do Cirque du Soleil são os melhores, reconhecidos e admirados, mas o filme infelizmente passa essa impressão.

O filme serve para nos deslumbrar com imagens e também para admirar o trabalho desses artistas. Vale conferir o espetáculo que mais uma vez repito, que de tão perfeito parece irreal. Não achei tão mágico, e em certas partes até enjoou, gosto de números de contorcionismos, acrobacias, porém o efeito de encantamento se quebra em algum momento. Mesmo assim é uma dica interessante!

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dentro da Casa (Dans la Maison)

Um rapaz de 16 anos consegue entrar na casa de um colega da sua sala de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Animado com o dom natural do aluno e o progresso do seu trabalho, o professor volta a apreciar a função de educador dos jovens. Entretanto, a invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis.
"Dentro da Casa" (2012) é um suspense dramático baseado em uma peça de teatro de Juan Mayorga e adaptado para o cinema pelo diretor francês François Ozon. O professor Germain (Fabrice Luchini) enfadado em dar aulas para jovens que não querem nada com nada, que não sabem escrever e não têm um pingo de imaginação, fica motivado ao ler uma redação de Claude Garcia (Ernst Umhauer). O professor, um escritor frustrado, fascinado pela mente do rapaz, inevitavelmente se vê nele. O estudante escreve a partir dos fatos vivenciados dentro da casa de seu amigo Rapha (Bastien Ughetto), este foi escolhido por ter uma vida aparentemente feliz, pais amorosos, um lar, o oposto da vida de Claude. Ao longo do filme vemos o potencial do garoto em escrever e criar situações, o professor dá asas para a imaginação dele, e para ajudá-lo começa a dar aulas extras o ensinando literatura e suas linguagens, e cada vez mais envolvido acaba enfrentando momentos constrangedores. A história de Claude atrai também Jeanne (Kristin Scott Thomas), esposa de Germain, a quem ele compartilha todos os acontecimentos, interessada nos próximos capítulos incentiva-o a ajudar Claude a continuar escrevendo.
A narrativa se assemelha muito com a de um livro e é extremamente sedutora, envolve e surpreende em seu desfecho. Os personagens também são cativantes, especialmente Claude, que carrega um ar misterioso ao mesmo tempo que é carente, ele nos encanta por sua ousadia ao descrever os episódios da família de Rapha.

A história de Claude nos maravilha ao relatar o dia a dia na casa de seu colega, será que ele deseja aquela família para si, ou é apenas um meio para criar? De algum modo ele se infiltra e consegue a confiança da mãe e do pai de Rapha, pois Claude o ajuda com a matemática e o garoto fica feliz por ter um amigo tão prestativo. Ele observa as relações entre pai e filho, a rotina da casa, a mãe absorta em pensamentos, em desejos não realizados, mas todos fingem estarem bem, só que no decorrer isto tudo cai por terra e os problemas domésticos vêm à tona. O pai com o trabalho e a mãe insatisfeita e infeliz. Claude tem uma certa adoração por esta mulher e acaba dando ênfase na relação que se cria entre eles. Germain dá dicas de escrita e do que o leitor desejaria ler, então ele começa a elaborar coisas incômodas com os personagens, o que faz com que o professor não saiba se tudo aquilo é vivenciado de fato pelo rapaz, ou é produto de sua fértil imaginação.

Claude cria poesia com o banal, com a vida comum e sem graça, ele tenta visualizar algo que possa ser extraído do cotidiano. Ele gosta de espiar, saber o que as pessoas fazem no "conforto" de seus lares. E essa visão de Claude atrai demais o professor Germain.
"Dentro da Casa" é um filme metalinguístico que demonstra o processo criativo da escrita. Ele se assemelha muito com a sensação de quando se lê um livro, nos instiga e seduz, além do mais é original, elegante e sinestésico. É cinema e literatura se entrelaçando!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Distante (Uzak)

O fotógrafo Mahmut (Muzaffer Ozdemir) recebe em sua casa o primo Yusuf (Mehmet Emin Toprak), que vai tentar uma oportunidade de emprego na capital Istambul, pois a fábrica onde trabalhava em sua cidade natal acabou fechando. Seu sonho é tornar-se marinheiro e conhecer o mundo inteiro, mas ele vai se deparando com barreiras cada vez maiores, e o sonho interiorano vai ficando pra trás e sua presença torna-se um fardo para o primo, que é uma pessoa que se habituou a solidão e as suas manias.
Nuri Bilge Ceylan (Sono de Inverno - 2014) é um diretor fantástico, ele coloca o silêncio, a fotografia melancólica e pesada para evidenciar os sentimentos dos personagens. Dois homens vivendo num apartamento, se estranhando, um querendo sua vida novamente para voltar a monotonia da solidão e o outro se sentindo um estorvo, mas sem poder fazer algo para mudar isso. Os sonhos quebrados de Yusuf incomodam Mahmut numa camada mais profunda. Despertam nele a memória de projetos há muito abandonados. Anos atrás, o fotógrafo sonhava em fazer filmes como o russo Andrei Tarkovsky. Numa noite, Mahmut coloca no vídeo justamente uma obra do mestre russo, "Stalker", cujo ritmo lento tem o poder de afugentar rapidamente da sala o primo camponês. Na sequência, o dono da casa o substitui por uma fita erótica. Mahmut já não se sintoniza mais com a sua antiga sensibilidade e sente fundo a perda desses sonhos, e também da mulher (Zuhal Gencer erkaya) que o trocou por outro, depois de um divórcio complicado por um aborto no meio do caminho. São motivos demais para arrependimentos e amarguras que o filme desenrola de maneira sutil.
O inverno de Istambul parece dificultar mais ainda a aproximação com as pessoas. A neve cobre as árvores, os edifícios, os carros, os bancos da praça. A escolha em ambientar o filme nessa estação do ano não é aleatória. O clima gelado funciona como correlativo dos estados da alma dos protagonistas. Mesmo ao demonstrar simpatia e boa vontade, Yusuf esbarra na intolerância e introspecção de Mahmut. Ele passa os dias meditativo, ou sentado sozinho num café. Em casa implica com os pequenos desleixos do primo provinciano. Irrita-se com o cheiro de seus sapatos, de seu cigarro e até com suas demonstrações de afeto, e Yusuf continua sua empreitada em busca de trabalho para socorrer a família que passa por dificuldades financeiras.

Mahmut não tem nenhum resquício de sentimento, sua mãe está doente e ele a acompanha no hospital apenas por obrigação, sua ex-mulher, talvez o único elo afetivo, vai embora de Istambul, ou seja, esse homem é completamente vazio e amargurado, não há nada dentro de si que possa compartilhar com outros, portanto, é compreensível o tratamento que dá a seu primo, a única coisa que ele pode compartilhar é o vazio. Yusuf aos poucos perde sua esperança, em vários momentos o observamos pensativo, contemplando o horizonte gelado. Ele percebe que ali não há nada para ele. E o que sobra a Mahmut é a solidão que lhe é conveniente e o silêncio, este que faz do cinema de Ceylan algo grandioso, que fala mais do que qualquer diálogo, e a fotografia trabalha com esse silêncio, ela reflete sentimentos introspectivos, dando a entender o que o personagem sente.
Quando viver e se relacionar com os outros se torna pesado e a solidão é a única companhia que lhe faz bem, sentimentos que dilaceram por dentro, incomodar-se com o sonho do outro, não querer nada além do nada que tem. O filme traz essas questões e inevitavelmente nos leva a reflexão. O cinema turco sempre traz experiências e sensações significativas, é um grande deleite aos cinéfilos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Tempero da Vida (Politiki Kouzina)

Fanis Iakovidis é um conhecido professor de astrofísica na Grécia. Com quarenta anos ele chegou a um momento decisivo de sua vida, uma encruzilhada existencial que a ciência não pode auxiliá-lo a compreender. Vassilis, seu avô e mentor, vive em Istambul e desenvolveu sua própria filosofia culinária, reverenciada e aplicada tanto por gregos quanto por turcos. Fanis não vê o avô desde que tinha sete anos de idade, e assim, quando o velho homem decide ir à Grécia depois de tantos anos, sua visita iminente acende a vida de Fanis como um acontecimento histórico. Um filme que retrata a magia da imaginação infantil transformada ao longo da vida por acontecimentos familiares e sociais.
Essa produção grega é dotada de muita sensibilidade e requinte ao contar uma história repleta de sabores e aromas. O clima do filme traz os ensinamentos do avô ao neto e que se misturam com o aspecto político. Fanis sempre escutou o avô, o filósofo Vassilis, que cuidava de uma loja de temperos e lhe ensinou de maneira ingênua que o termo astronomia tem origem na palavra gastronomia, também explicou sobre especiarias, temperos e como estes se relacionam com as pessoas e a vida. Ensinamentos preciosos que ficariam guardados para sempre com Fanis, mas assim como a comida, as vezes erra-se e a vida fica amarga demais, depois que a guerra chegou e os gregos tiveram que sair de Constantinopla (Istambul), Fanis e seus pais se mudaram para a Grécia. O tempo passou e Fanis se tornou um grande astrônomo e um excelente mestre da cozinha, e seu avô nunca apareceu, suas promessas de visitá-lo nunca se concretizaram.
Somos conduzidos por flashbacks incríveis, onde amor e a arte de cozinhar se misturam, vemos a relação de Fanis e Saime, sua paixão de infância, depois sua juventude, onde ele usou os ensinamentos do velho Vassilis na prática, preparando banquetes durante as reuniões de família. Tempos depois já um homem maduro acaba voltando para o lugar onde nasceu devido a morte de seu avô, que nunca arredou os pés de sua pátria. Lá reencontra Saime, seu amor de infância, mas por conta do tempo as coisas não são tão fáceis, tem um gosto adocicado, mas ao mesmo tempo amargo.

A narrativa acompanha as fases de vida do protagonista: aperitivo, primeiro e segundo prato e sobremesa, há também os traços culturais que permeiam todo o filme, como a mulher que deve saber cozinhar perfeitamente antes do casório, utilizando temperos que possa fazer de sua culinária única, um exemplo é a canela nos bolinhos de carne. É realmente um filme maravilhoso, sutil ao abranger um tema histórico político e mesclar dramas pessoais, como promessas não cumpridas e amores.
É evidente que a vida precisa de temperos mais exóticos de vez em quando, tanto para nos surpreender, como para nos aquietar. É preciso saber qual utilizar conforme a situação.
Um dos melhores momentos do filme é quando o avô descreve os temperos e as sensações que eles causam nas pessoas, como a canela que as tornam mais amáveis, ou o cominho que as fazem ficar irritadas, é uma das muitas cenas que fazem deste filme inesquecível. Os sabores podem ser combinados, apesar de diferentes, assim como os povos e as culturas.

É um longa apaixonante e que dá água na boca. Ele mostra o quanto a vida passa rápido e que não podemos deixar de vivê-la por conta de empecilhos do passado, acomodar-se diante dela, pois a hora que se vê já foi e o que sobra são apenas resquícios de lembranças e promessas não cumpridas. "O Tempero da Vida" é baseado nas lembranças do diretor Tassos Boulmetis.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

La Guerre des Boutons + La Nouvelle Guerre des Boutons

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O livro "A Guerra dos Botões" foi escrito pelo francês Louis Pergaud em 1912, e teve várias adaptações para o cinema. Em todas, a base da história é a mesma: dois grupos de crianças arrancam botões dos meninos rivais para marcar vitórias em suas batalhas. Para os perdedores, resta a vergonha de voltar para casa com as calças caídas e as camisas abertas, enquanto os vencedores colecionam os pequenos troféus. Os dois filmes lançados no mesmo ano é por conta do aniversário desta obra clássica francesa tão adorada, e por ter entrado em domínio público. Existem outras versões, "A Guerra dos Botões", de 1936 por Jacques Daroy, de 1962 por Yves Robert, de 1994 por John Roberts, e essas duas versões de 2011, além de séries e afins, mas a essência é sempre a mesma.
A versão do diretor Yann Samuell se passa na década de 1960, quando os franceses lutavam na Argélia, tempo de lutas por liberdade de gênero e de classe, ambas inseridas com lirismo na história. Sua ambientação tem um certo simbolismo sobre o papel do indivíduo na cadeia social e sobre como esse mesmo indivíduo pode colocar tudo a perder com confrontos tolos. Mas no jeito meio conto de fadas que Samuell parece buscar, essa discussão é inserida sem exageros, com uma clara preocupação em ser compreendida pelo público infanto-juvenil. Nesta versão o aspecto político é deixado mais de lado, o foco está nas aventuras, na inocência daquelas crianças. O roteiro leva-nos a tomar partido dos aldeões de Longeverne, onde o líder Lebrac mora com duas irmãzinhas e a mãe viúva. Trabalhando na fazenda para sustentar a família, o jovem Lebrac desperta a admiração e lealdade de todos os meninos da vila. Embora não queiram a participação de garotas, elas estão de olho em tudo o que acontece, principalmente a personagem Lanterne, que ajuda os meninos em suas batalhas.

A crítica à guerra neste é posta de lado, a visão inocente das crianças é encantadora, dotada de delicadeza. Os personagens são maravilhosos, todos com suas características e é bem interessante notar as diferenças entre as versões, sobretudo, o personagem Lebrac, neste apesar de mais infantilizado tem mais responsabilidades e o contraste de não saber se é criança ou adulto. Ele precisa ser o "homem da casa", já que nesta versão ele não tem pai, tem duas irmãzinhas e uma mãe muito rígida. Não tem tempo para estudar mesmo tendo desejo, ainda por cima é o líder do grupo da sua aldeia, e há também a decisão de aceitar uma menina dentro da guerra que estão travando. O único adulto a ser mostrado é o professor, que por vezes parece ser mais infantil que as crianças, ao brigar com o pai de um aluno. A inocência em meio ao caos, as aventuras e as descobertas, isso é o que molda esta versão de "A Guerra dos Botões".

A versão de Christofhe Barratier é romanceada e remete mais a guerra e suas consequências, além de abordar as aventuras dos Longeverne e Velrans. Esse filme é a prova de que uma ideia pode ser repetida inúmeras vezes sem cair na mesmice.
É simples, a guerra acontece porque conceitos se destoam uns dos outros, os grupos dos meninos são diferentes, educação, formação, etc. Os personagens são todos característicos, o Lebrac deste é maior, mas tem um pai do qual sempre enfrenta e apanha, está na fase das escolhas, da transição, é aí que entra Violette, que esconde sua identidade verdadeira por ser judia. O filme gira em torno desta relação de amizade e amor que cresce entre eles e as aventuras das crianças que articulam uma guerra com a aldeia vizinha.
Este tem um teor mais adulto, a personagem Violette aproxima-nos do quão cruel era aquele período, passando-se por sobrinha de uma dona de loja da qual na verdade era apenas uma amida da mãe da menina, ela acaba indo estudar no mesmo colégio de Lebrac. Muitos conflitos se dão depois que ela conta que é judia a Lebrac. Há também a ponta de um romance entre o professor e a mulher que protege Violette. Tem cenas engraçadíssimas que envolve o pequeno Gibus, principalmente logo no início quando se esconde na casa de um rival e acaba saindo de lá bêbado.
Tirar os botões dos inimigos significava que quando chegassem em casa apanhariam dos pais, além de passar vergonha de ter que ir andando até em casa com as calças caindo. Outra cena muito bonita é quando o pequeno Gibus lê a carta de seu pai que está na guerra. É a inocência de uma criança tendo que lidar com a monstruosidade de uma guerra, que a todo momento tirava a vida de pais de família.

A repetição não é inútil, cada uma tem as suas qualidades, mesmo que a primeira seja mais fiel ao espírito do livro, a segunda versão por ser em grande parte mais adulta acaba envolvendo o espectador. É difícil decidir quais dos Lebrac é o melhor, os dois tem a pureza da infância contrastando com as responsabilidades cada vez mais crescentes.
"A Guerra dos Botões" é um clássico francês muito amado e que merece ser lido por todas as crianças, assim como os filmes em que todas as versões são ótimas e ficam marcadas na nossa memória.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Vikings

"Vikings" é um seriado produzido pela History Channel, o tema já faz por merecer muitos créditos, e a abordagem dele no primeiro episódio apesar de rasa, sem muitas apresentações e dúvidas sobre as interpretações, já foi o suficiente para querer acompanhá-la. A série é desenvolvida por Michael First (The Tudors) e a ideia central é apresentar através de personagens fictícios o estilo de vida dos Vikings, suas conquistas, costumes, hábitos e misticismos.
Os Vikings eram bravos navegadores e guerreiros, hábeis artesãos e ousados comerciantes. Dedicavam-se à caça, ao comércio de peles, e sobretudo, à pirataria. Eram os melhores construtores de embarcações de toda a Europa da época. Seus navios, os drakkars, eram de madeira, com escudos pendurados nas armaduras e ornados na proa com carrancas de dragões ou serpentes, eram leves, velozes e fáceis de manobrar, sendo utilizados para o transporte, para o comércio e para a guerra. A causa principal das invasões era a escassez de alimentos, que forçava a busca de mais terras e novas fontes de renda, além disso, vários delitos eram punidos com o exílio. Os Vikings eram politeístas, sendo seus deuses ligados a natureza e relacionados a guerra, a agricultura e a fertilidade. Nas crenças Vikings não existiam dogmas, os ritos eram praticados na natureza, geralmente nos equinócios e solstícios, sem a necessidade de erigir templos. Destaca-se ao culto aos ancestrais e a magia. Sabendo de tudo isso é esperado que a série seja fiel a violência, a brutalidade e o espírito guerreiro desse povo. Podemos observar algumas cenas logo no início, mas sem muito impacto. É certo que é uma série interessante e com certeza prenderá a atenção de quem tem interesse pelo tema.

O personagem principal Ragnar (Travis Fimmel), um jovem que se considera descendente de Odin. Ele é um guerreiro e fazendeiro casado com Lagertha (Katheryn Winnick), uma mulher que fabrica escudos, com quem tem dois filhos pequenos. Visionário, ele sonha viver diversas aventuras e acredita que as riquezas estão além do mar Báltico (oeste).
O primeiro episódio "Ritual de Passagem" foca em Bjorn, filho de Ragnar, que está com idade suficiente para participar dos ritos. Bjorn deixa de ser um garoto para se tornar um homem e guerreiro. Para isso, ele deve passar um dia vivenciando acontecimentos importantes da região, como um julgamento que termina com uma decapitação. Ragnar tem o desejo de explorar o oeste contrariando as leis que sempre o mandam para o leste. Earl Haraldson (Gabriel Byrne), o cara que faz as leis do local não permite que Ragnar exponha suas ideias, mas ele e seu invejoso irmão Rollo (Clive Standen), decidem prosseguir com o plano e financiam a própria expedição, mas para isso precisam da ajuda de Floki, um excelente construtor de barcos.

Um dos pontos negativos é não ter usado o dialeto Viking, o início começa com um diálogo da língua local, mas logo é substituído pelo inglês com um sotaque forçado.
Os Vikings contribuíram muito para a inovação tecnológica, já no primeiro episódio é mostrado um instrumento que auxilia as viagens marítimas, uma espécie de relógio solar, esse instrumento funciona apenas quando o sol brilha no céu, mas quando ele não aparece a pedra do sol é utilizada, pois é capaz de detectar a luz, e assim continuar a navegar sem perder a direção. É por essas e outras tantas curiosidades que a série promete.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Doll Face + Solipsist, de Andrew Huang

O curta "Doll Face" de Andrew Huang se tornou um viral no Youtube em 2007. O curta sombrio de ficção científica sobre robôs andrógenos que acabam fascinados por um rosto na TV ganhou atenção de alguns nomes, como o produtor e diretor J.J. Abrams, logo Huang estava sendo chamado para dirigir clipes de bandas como Ra Ra Riot, Avi Buffalo e Björk. Andrew Huang é fanático por arte e viciado em efeitos especiais desde garoto. Na história um robô sai de uma caixa e começa a olhar uma televisão. Um rosto feminino aparece e logo esta máquina busca copiar os traços para parecer com a mulher da TV. Porém, cada vez que a imagem fica mais maquiada, a televisão se distancia, mas o robô não quer desistir e usa de seus tentáculos para poder chegar mais perto. Conseguirá ele chegar nesta imagem?
O curta é uma crítica à ditadura da beleza imposta pela mídia e as pessoas que sem um pingo de senso extrapolam para ficar parecidas com as mulheres de plástico da TV. As mulheres na grande maioria são as atingidas por essa busca insaciável pela beleza ideal. O curta apenas de 4 minutos gera boas discussões sobre o assunto. Assista e não se arrependerá!



"Solipsist" é um curta experimental sobre a maneira como as coisas vivas se conectam, as fronteiras entre elas e o que acontece quando essas fronteiras entram em colapso. O curta propõe uma viagem lúdica e hipnótica. O vídeo mostra interações entre indivíduos que juntos formam estruturas cada vez mais complexas de vida.
*Solipsismo é a concepção filosófica de que, além de nós, só existem as nossas experiências. É a consequência extrema de acreditar que o conhecimento deve estar fundado em estados de experiência interiores e pessoais, não se conseguindo estabelecer uma relação direta entre esses estados e o conhecimento objetivo de algo para além deles. O solipsismo é basicamente a ideia de que o Ser controla o mundo. É uma crença filosófica que além de nós e nossas experiências, nada existe. É a ideia de que a única realidade cognoscível é o Eu.
Indico para aqueles que curtem se deixar levar por algo intraduzível, etéreo e visualmente hipnótico. É um curta premiado e muito fascinante. 
Devido ao grande sucesso do curta, Andrew Huang acabou caindo no gosto da islandesa Björk. Veja a semelhança do clipe da música "Mutual Core" com o curta "Solipsist". É incrível, pois o universo dos dois se complementam.


Obs: Há disponível o Making of do curta, para quem gosta de ver a parte técnica de como Huang criou aqueles efeitos fenomenais é só dar uma pesquisada no Youtube.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Marina - Carlos Ruiz Zafón

"O tempo faz com o corpo o que a estupidez faz com a alma: Apodrece."

Na Barcelona dos 80, o menino Oscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 40. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Óscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças - a macabra aventura que marcou sua juventude e também o terror e a loucura que cercaram a sua história de amor.
A literatura de Zafón é repleta de mistérios e obscuridades, "Marina" tem uma aura gótica, podemos passear pelas ruas da Barcelona antiga em meio à chuva e vislumbrar arquiteturas antiquadas, e é num velho casarão que Óscar decide se aventurar, impressionado por uma bela voz vinda de um gramofone entra na casa e se depara com vários objetos, e um deles é um relógio de bolso quebrado, de repente aparece alguém, se assusta e sai correndo. Ao chegar ao internato percebe que está com o relógio no bolso, e então resolve devolvê-lo no dia seguinte. No caminho conhece Marina, filha de Germán a quem pertence o relógio quebrado, daí por diante uma bela amizade acontece. Num outro dia Marina leva Óscar a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre a mesma data, a mesma hora. Curiosos passam a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra marionetes vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona.
A história é sob a ótica de Óscar, um menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade no casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. Em "Marina", o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo a cada capítulo novas pistas e personagens de uma intricada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Óscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é a mulher que vai ao encontro deles. Essa estranha faz com que desenterrem o curioso caso do cientista Mijail Kolvenik.

Óscar é um personagem cativante, quem leu "A Sombra do Vento" com certeza o assimilará a Daniel Sempere, mas para deixar claro "Marina" veio antes, é o quarto livro de Zafón, porém chegou depois devido ao grande sucesso de "A Sombra do Vento". E segundo o próprio autor "Marina" é uma leitura que agrada tanto aos mais novos, como também os adultos. Com 189 páginas é de fácil absorção e muito intrigante, já que seus mistérios se misturam a personagens interessantes e sombrios. Óscar e Marina tentam decifrar o mistério da mulher de negro, e por conta disso se aventuram em situações surreais.
O universo de Zafón é bem particular e muito encantador, abrange a fantasia, o romance, o suspense, ele perpassa por vários gêneros e mesmo assim nenhum o define. Sua escrita é linda, nos deixa apreensivos, aterrorizados e deslumbrados. Esse é o tipo de literatura atual que vale a pena, entretém, mas sempre ficará em um lugar especial de nossa memória.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Hitchcock

Hitchcock, o mestre do suspense é um dos maiores expoentes do cinema, todo cinéfilo que se preze necessita assistir pelo menos alguns de seus filmes. "Psicose" (1960) é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos, e a cena do cinema mais lembrada é a do chuveiro com Janet Leigh sendo esfaqueada ao som de Bernard Hermann. Alfred Hitchcock tinha 60 anos quando teve a ideia de fazer este filme. Ele ganhou reconhecimento num programa de TV, onde aparecia introduzindo suas histórias de suspense. Sua produção como diretor em Hollywood já era extensa e bem-sucedida. Filmes como "Rebecca, a Mulher Inesquecível" (1940), "Festim Diabólico" (1948), "O Homem que Sabia Demais" (1956), "Um Corpo que Cai" (1958), "Intriga Internacional" (1959), colocaram ele entre os diretores mais bem pagos daquela época.
Em "Hitchcock" (2012), filme dirigido por Sacha Gervasie e roteirizado por John J. McLaughlin, acompanha de maneira ficcional os bastidores de sua obra, também as angústias e obsessões do diretor naquele conturbado período de sua carreira, e o relacionamento dele com a esposa Alma Reville, que foi uma peça fundamental para o êxito profissional de seu marido. A história do assassino que colecionava crânios e os usava como tigelas de sopa e mantinha o corpo da mãe morta e outras coisas arrepiantes revelaram-se apetitosas para o intelecto do lendário cineasta, que viu no livro "Psicose" de Robert Block o resumo perfeito de sua ópera assustadora.
O filme é baseado no livro "Alfred Hitchcock and the Making of Psycho", de Stephen Rabello, e revela como, mesmo no auge de sua carreira, Hitchcock não conseguiu apoio para a realização da obra, porque os estúdios não queriam investir em um pequeno filme de terror. O resultado foi uma produção independente, de baixo orçamento, que encontrou grandes dificuldades para enfrentar a censura. Além disso, obstáculos surgiram durante as filmagens, como as constantes brigas entre Mr. Alfred e sua esposa Alma.
O filme todo é certinho, não há exageros e nem soa grandioso, mas vale muito a pena, é uma boa homenagem a Hitchcock, que nunca chegou a ganhar um Oscar, mas deixou seu nome registrado na cinematografia mundial.
O longa retrata a persona de Hitchcock, mas sem se aprofundar, sua maneira difícil de trabalhar, a obsessão pelas atrizes, em especial as loiras, seu humor típico, o hábito de falar com a câmera. Há também a subtrama envolvendo a suposta paixão da esposa com um tal escritor que desejava ter seu livro adaptado por Hitchcock, e encontrou na mulher dele um meio de chegar a isso. O interessante mesmo é os problemas que envolveram a produção de Psicose, que após pronta teve até um manual de instruções para os cinemas.

Para quem já conhece o universo do mestre do suspense não há muita novidade, mas se faz um belo atrativo para quem deseja assistir seus filmes. Um aspecto muito bom é ter uma noção de como se fazia filmes naquela época, como eram os estúdios ou como funcionava a censura, e também as cenas em que ele próprio conversa com os personagens de suas histórias e com o espectador.
O longa dá uma prévia desse diretor fenomenal, sua paixão em criar e se entregar à sua arte. E claro, tudo com a ajuda de sua talentosa mulher, que sem ela, talvez ele nem conseguisse.
O filme é didático e uma homenagem contida, não abrange a mente de Hitchcock, o roteiro carece de densidade nesse quesito, mas mesmo assim é válido.
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