sexta-feira, 28 de setembro de 2012

360

Fernando Meirelles pode ser considerado o diretor brasileiro mais aclamado no exterior, devido sua personalidade eclética e suas experiências, que inclusive são ótimas. Lá fora fez o "Jardineiro Fiel", "O Ensaio Sobre a Cegueira", e agora "360", um filme sem fronteiras que abrange pessoas diferentes, com problemas comuns e que por vezes se encontram e unem seus caminhos. Especialmente ele mostra que nem todos precisam necessariamente falar o mesmo "inglês". Sem dúvida essa é a linguagem de um novo cinema, que pode ser mal compreendida, mas que é de uma expansividade única. Inovar é difícil, é necessário coragem e criatividade, e isso Meirelles e sua equipe tem de sobra.
O filme roda por diversos países, portanto, falado em inúmeros idiomas, os personagens são apresentados de forma cíclica de maneira muito delicada. O elenco é sublime, Anthony Hopkins, Jude Law, Rachel Weiz, e os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré. A trama não é perfeita, há algumas coisas que ficam no ar e não se encaixam, mas quem disse que tudo na vida tem encaixe?
Blanka, uma prostituta de luxo é rejeitada por Michael, sem querer, acaba por desencadear uma série de acontecimentos que afetarão a vida de pessoas que nem sequer conhece. Jude Law e Rachel Weiz fazem o típico casal que vive de aparências, pode acontecer qualquer coisa, os dois continuarão juntos, para não manchar suas reputações. Sua mulher tem um caso com o personagem de Cazarré, que é namorado de Laura (Maria Flor), ela descobre a traição e decide ir embora pro Brasil. No avião conhece o velho que Anthony Hopkins interpreta, ele sofre pelo desaparecimento da filha, e entre ressentimentos e amarguras os dois se tornam amigos. Aí por conta do tempo o voo atrasa no aeroporto que faz escala para seus destinos, Laura por acaso dá de cara com Tyler (Ben Foster), um agressor sexual recém-saído da cadeia, e flerta com ele sem saber da situação. Já ele faz de tudo para não voar no pescoço de Laura, mas surpreendentemente acaba se controlando. Há outros personagens, na França um casal que não consegue mais se entender, a mulher está apaixonada pelo seu patrão, esse também apaixonado por ela, mas nenhum dos dois sabem, o marido, um russo que trabalha para um homem de má índole é de repente o foco, pintado como um homem ruim, a história agora é vista sob seu olhar, ele dirige rumo a seu patrão, que tem um encontro com Blanka, a prostituta, e o que vemos é o contrário do que sua mulher disse, Sergei é um homem bom, que só precisava de um incentivo a mais para sair daquela vida, e o incentivo veio da irmã de Blanka, que estava sentada em um banco esperando a irmã terminar o programa. Nisso se dá algumas situações e decisões. E tudo termina aonde tudo começou...

As histórias são intensas e envolventes, mas muita coisa poderia ter sido bem mais explorada, alguns personagens se tornaram efêmeros na trama, mas isso não diminui a obra no geral. Interessante observar que o roteiro preza para que não haja julgamentos, são pessoas normais tentando acertar, e que inevitavelmente erram em alguns momentos de suas vidas, são olhares diversos em ótimas sequências que nos conduzem por histórias comuns, e que às vezes não são o que parecem ser.
"360" é um filme sobre escolhas e o que elas podem desencadear, e que mesmo que não saibamos elas podem afetar outras vidas. São ciclos que se abrem e se fecham.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Fahrenheit 451

François Truffaut é um diretor venerado e reconhecido como um dos maiores gênios, transgressor, poético e que sempre destaca as ânsias humanas. Baseado no aclamado livro homônimo de Ray Bradbury, a atmosfera pessimista da obra nos remete a um futuro distópico, onde bombeiros não mais apagam incêndios, e sim, ateiam fogo naqueles que são considerados os principais causadores da infelicidade humana: os livros, independente de sua natureza, tanto romances e biografias, quanto obras filosóficas ou sociológicas serão devidamente queimadas, num ardor de 451º na escala fahrenheit. 
Montag (Oskar Werner), o nosso protagonista em meio a tudo isso, começa a se questionar se os livros são realmente os precursores da alienação e a infelicidade das pessoas quando conhece Clarisse (Julie Christie), uma professora de primário, que faz perguntas sobre sua profissão e o faz refletir sobre ela, apresentando-lhe também a possibilidade de ler escondido os livros com os quais entra em contato através do seu serviço. A partir disso, Montag fica curioso para saber o conteúdo dos livros e passa a roubá-los das casas em que vai apreendê-los.
"Fahrenheit 451" é uma crítica contundente sobre o totalitarismo, a ausência do prazer, e alienação social, que é representada pela TV, que suga as pessoas deixando-as sem vontade de questionar ou obter conhecimento. O filme é futurista, portanto, os objetos na casa de Montag é muito interessante de observar, como a TV, igual a que temos hoje, super fina grudada na parede, mas há também outras coisas como o telefone, enfim, vale a pena se atentar a estes detalhes. Outro aspecto bem definido é o humor que o filme traz, como quando Montag diz que o cheiro de querosene que emana de seu corpo é como um perfume, ou quando ele relata um método especial na queima dos livros: segunda é dia de queimar Miller, terça Tolstói, sexta Faulkner, e assim por diante. Graças a curiosidade Montag teve a oportunidade de conhecer o que existia nos livros, e foi em David Copperfield, de Dickens que seu destino muda de maneira irreversível.
Veja só como as coisas não mudam, o filme é de 1966, e ainda lidamos com a alienação que a mídia produz sobre as pessoas, há muitos jovens lendo, mas a maioria dos livros lidos são uma espécie de ilusão, fantasia, histórias sem conteúdo que não faz pensar. Aí fica a pergunta: Que herança literária os jovens do futuro terão? No filme fica claro que os livros são proibidos porque eles de certa forma abrem nossa mente, produzem a vontade de querer o conhecimento.

O final é maravilhoso, é mostrado que podem roubar tudo de nós, menos o conhecimento que adquirimos, cada um dos personagens tinha um livro em sua cabeça decorado a fim de passar adiante, então eles liam rapidamente, decoravam, e quando os bombeiros achavam os livros e os queimavam, tinham tudo em suas cabeças, parágrafos por parágrafos, ninguém poderia queimar ideias e pensamentos. A ânsia do saber, seja ela qual for não pode morrer, ainda mais nessa sociedade atual da qual fazemos parte. Ver este filme faz pensar na democracia que vivemos e em como ela é velada. Sem dúvida, "Fahrenheit 451" é um filme atemporal, e por isso imprescindível!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor (C.R.A.Z.Y.)

Zachary (Marc-André Gondrin) é um garoto como todos os outros. Nasceu no dia 25 de dezembro, em pleno natal, por esse motivo, sua mãe acha que ele pode ser especial, ter um dom, uma habilidade que o faça diferente. Ele cresce e as dúvidas vêm junto com a idade. Zac é mais sensível, adora rock rebelde da época e sente-se um pouco diferente, não pelo dom que possa ter, mas pelo que sente. Ele é gay e aos poucos irá perceber isso. Tem quatro irmãos, Christian (Maxime Tremblay) é o mais velho e intelectual da família, Raymond (Pierre-Luc Brillant) é o rebelde, adora comprar brigas com todos, em especial com Zac. Antoine (Alex Gravel) é o esportista, pegador, e por fim Yvan (Félix-Antoine), um gordinho comilão. Apesar do filme ter como título C.R.A.Z.Y, fazendo referência aos cinco filhos, a história se concentrará apenas em Zac e a difícil compreensão dos seus desejos. Zac e Raymond sempre se rivalizaram e estes dois causarão grandes dores de cabeça a Gervais (Michel Côté), o chefe da família, um homem extremamente machista. Zac pela sua sexualidade e Ray pelas drogas o deixam maluco.
Desde criança, o personagem apresenta traços homossexuais, para o descontentamento de seu conservador pai, que o chamava de "borboleta", mas se incomodava ao ouvir alguém chamando seu filho de "maricas". Zac cresce cheio de problemas psicológicos devido a repressão. Ele ama o pai, mas não é aceito. Zac tenta ser "normal", mas não dá. Ele tenta se arranjar com uma garota, mas o jovem lava o carro do pai com patins ouvindo disco music olhando para garotos. Com maquiagem no rosto ele é pego pela vizinhança dublando uma música, e é só com um baseado e a lamúria de "White Rabbit", de Jefferson Airplaine, que ele enfrenta as crises de culpa. Sentindo sua homossexualidade latente, Zac luta contra o desejo pelo namorado da prima. Ele chega aos anos 80 sendo cada vez mais o diferente, só mudando as referências. Sai David Bowie e entra Sex Pistols no poster do quarto. Sai calça de camurça e entra lápis no olho e jaqueta de couro. Zac chega aos 20 anos como DJ num clube, e no melhor estilo Sid Vicious ele joga vinho na cara do irmão que o chama de viado em pleno natal.
A linha do tempo de Zac é tão natural quanto a evolução da trilha. Quando a crise chega ao limite ele viaja para Jerusalém (lugar que sua mãe ama) e se joga numa boate gay. O filme mostra como a música e a cultura pop não só acompanham, mas ajudam a pautar e refletem a evolução da sociedade. A melhor designação para "C.R.A.Z.Y" é cool, ele ganha muito em tratar a homossexualidade de um jeito muito natural e leve, o timing que define as passagens do tempo são ótimas.

O roteiro mescla humor, intensidade e leveza, uma mistura envolvente. Citando alguns dos temas abordados: catolicismo, homossexualidade, perda, amor, drogas, e as relações familiares que sempre dão ótimas histórias.
Compreender os desejos é o primeiro passo, não se pode querer que os outros te aceitem se ainda nem você mesmo se aceitou. Zac lutou contra o que sentia por medo do pai, por medo da vida, dos outros, e de si mesmo. O final do longa mostra a libertação, um novo começo. O pai não o aceitava, mas isso não quer dizer que não o amava, e é justamente o amor que transforma e renova tudo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gabbeh

"Gabbeh" (1996) é um longa repleto de poesia, tradição e misticismo. Gabbeh é o nome de um tapete persa, colorido e decorado com motivos que transmitem a história familiar de quem o tece. Gabbeh é também o nome da personagem central feminina, integrante do povo Ghashghai, uma tribo nômade que cria ovelhas e usa a lã tingida para tecer os seus tapetes. Dentro desta perspectiva, Mohsen Makhmalbaf, diretor iraniano profundamente e ativamente envolvido em questões políticas e sociais, amante e defensor da arte e da literatura, não segue uma única tendência cinematográfica, mas experimenta vários estilos a serviço de uma linguagem poética que, segundo ele, é essencial quando se quer tocar e cultivar os melhores sentimentos nas pessoas.
Os filmes ocidentais são totalmente diferentes dos orientais, enquanto no ocidente as histórias são complexas e os personagens simples, no oriente a história é simples e os personagens complexos, os orientais se apegam a uma filosofia de vida, um certo misticismo que torna tudo muito mágico e misterioso. O que faz com que, quem não esteja acostumado, ache-o tedioso e lento. "Gabbeh" é um tipo de realismo fantástico, um conto de fadas étnico. A jovem Gabbeh surge de um tapete para um casal de idosos, sugerindo ser ela mesma a mulher em idade avançada, e conta sua história como quem a assiste. Além disso, tal como nos fios do tapete, as ações das personagens se entrelaçam e afetam vidas mutuamente. Se, quando tecidos, alguns fios ficam soltos para serem aproveitados na trama, mais adiante, algumas cenas do filme, parecem carecer de continuidade, complementa-se ou são repetidas mais tarde, reforçando as metáforas não explícitas, tais como num poema. A fotografia natural e simplista é o mais arrebatador, a natureza se entrelaça aos personagens, em dado momento é dito: "A vida é cor!" As cores representam os estágios da vida de Gabbeh. O apelo visual é complementado ao som da natureza, como o riacho, as ovelhas e o uivo do amado de Gabbeh.
A mulher carrega na tradição a incumbência de tecer, mas não tem a liberdade de falar, elas buscam assim uma outra maneira de expressar-se. O diretor mostrou em "Gabbeh" a mulher como alguém que ama participar da narrativa e encontra no tecer uma forma de contar sua história do seu ponto de vista, através de seus olhos. Por isso que cada tapete é único, não existem dois tapetes iguais, cada um é uma reflexão única da tecelã, sobre sua vida.

A velha lavando seu Gabbeh a beira do riacho com seu velho ao lado veem sua história quase que cantada, é puro lirismo. Participamos da história deles e temos imensa alegria de conhecer o que aquele tapete tecido há tanto tempo atrás tem para dizer. Um aspecto interessante é que o ato de contar histórias é uma tradição iraniana, e Mohsen Makhmalbaf fundiu isso em seu filme, ele também subverte a tradição quando coloca as mulheres como sujeito da narrativa. 
"Gabbeh" é poético e recheado de simbolismos, uma joia rara a ser descoberta e apreciada com carinho!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Baseado no livro de Marçal Aquino, o filme acompanha a chegada do fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) a uma pequena comunidade amazônica e o seu romance/obsessão por Lavínia (Camila Pitanga), esposa do pastor Ernani (ZéCarlos Machado). O drama se dá na região amazônica, mas nenhum dos três a ela pertence. Vieram de outra parte do país, o sudeste. Cauby, por motivos misteriosos, mas pode-se supor que seja aventureiro da alma, um ser errante, desses que desejam ver coisas novas, pessoas diferentes, imergir numa cultura alheia. Também de outra parte, e de outras circunstâncias vêm Lavínia e Ernani, essas serão em partes esclarecidas ao espectador em flashbacks que surgem na metade do filme com cortes secos e súbitos, que a princípio desconcerta.
Lavínia é uma mulher de nuances, multifacetada, de um passado misterioso, ela se transforma em várias ao longo do filme. Lavínia é posse de Cauby, faz dela objeto, como vemos no início sendo fotografada por ele, Ernani tem em Lavínia uma musa, uma mulher que mudou por causa de seu dom, o de poder transformar alguém pela palavra. Há muitas cenas de sexo, das quais fazem todo o sentido, são naturais, sempre se dando depois de uma certa apreciação do corpo. No caso de Cauby depois de fotografá-la ou com Ernani depois de orar por ela. Mas há certos momentos que o filme parece perder um pouco a poesia que o título anuncia e fica tudo muito distante, aleatório. É perdido a essência.
Camila Pitanga está exuberante e ao mesmo tempo de uma delicadeza que realmente impressiona, ela de fato se entregou e imagino o quanto essa personagem deve ter sugado de si. As cenas finais mostram muito o seu potencial. Não tiro méritos do filme, ele é interessante, uma história contada de maneira diferente, mas não reflete totalmente a essência do livro.
A fotografia se destaca, além das interpretações, porém a história fica no ar e às vezes destoa do contexto. Todo o misticismo em relação a comunidade e o assunto sobre o desmatamento surge de maneira desconexa na trama, mas o maior problema é o clima de tensão que é quebrado diversas vezes, cenas que perdem a força e que deveriam ser visualmente mais elaboradas, como o momento que Ernani morre e Cauby vai preso, e ao sair leva uma pedrada sendo acusado pela comunidade. Isso tudo não chega a prejudicar, mas não nos aproxima e não nos encanta completamente.

Sucesso de crítica, mas não do grande público, é preciso dosar, ver os pontos positivos e saber lidar com os negativos. Esse filme teria muito mais potencial, os personagens são complexos e isso não foi dado aos nossos olhos, foi mostrado um triângulo amoroso complicado de modo simples. A beleza visual excêntrica acaba por chamar mais a atenção do que a própria trama. A poesia se concentra apenas no título, mas mesmo assim vale pelo seu diferencial.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma Vida Nova em Folha (Yeo-Haeng-Ja)

Dirigido pela sul-coreana Ounie Lecomte e protagonizado pela adorável Sae-Ron Kim, o filme nos traz uma história triste, mas com um final repleto de esperança.
Jin-Hee tem nove anos e é levada pelo pai para um orfanato de freiras católicas em Seul. Ela resiste o quanto pode, sem acreditar que o pai que tanto ama vai abandoná-la. Lá, as crianças esperam pela adoção e pelo começo de uma vida nova. Jin-Hee se adapta aos poucos e faz amizade com Sook-Hee, de 12 anos, com quem aprende diversas brincadeiras. Apegada ao ambiente do orfanato e com esperança de que seu pai volte para pegá-la, a menina faz de tudo para evitar a adoção. E assim não ter que enfrentar outra separação.
O filme é feito de sutilezas, das quais a pequena Jin-Hee expressa muito bem, no início acompanhamos uma garotinha feliz por estar perto do pai, seu sorriso explica o quanto ela o ama, quando juntos andam de bicicleta, compartilham a comida, mas essa alegria logo acabará. Vemos o rosto do pai apenas quando a deixa no orfanato, sem dó ele vai embora deixando a menina juntamente com outras crianças para serem adotadas. Daí o sorriso iluminado desaparece e dá lugar para a tristeza e a esperança de que ele volte algum dia. Demora para que ela entenda que não voltará. Silenciosa na maior parte do tempo, com lapsos de raiva, Jin-Hee percebe que sua vida tomará outros rumos, mas para isso é preciso aceitar as circunstâncias.
A atriz mirim Sae-Ron Kim dá um show de interpretação, sem apelar para melodramas, nos cativa e faz com que torçamos para que ela entenda toda a situação e olhe pra frente. E isso começa a acontecer quando se torna amiga de Sook-Hee, uma garota que deseja muito ser adotada, simpática logo faz com que a pequena Jin-Hee volte a sorrir com suas brincadeiras. Só que esse período dura pouco, pois Sook-Hee é adotada, e assim Jin-Hee volta para seu mundinho pensando apenas no momento em que seu pai irá buscá-la.
Não questionamos a situação, o que importa é o momento, as etapas que a menina passa. Um olhar ingênuo sobre o abandono, a angústia de uma criança que só com o olhar passa a dor de ficar só e o desespero do que virá. A adoção é apenas uma alternativa, no orfanato é bem recebida, não tem maiores problemas, se apega as crianças e a rotina. E ao final parece estar preparada para um novo caminho. O grupo de crianças de "Uma Vida Nova em Folha" é surpreendente, elas dão verossimilhança para a história que está sendo contada, como as meninas maiores com seus dilemas, que quanto mais perto do período em que se tornam mulheres, a adoção se faz mais difícil. 

Jin-Hee na sua inocência acreditava que foi abandonada por causa do alfinete. Certa vez ela espetou a perna do bebê de sua madrasta, mas ela jurou que não foi de propósito, porém acredita que seu pai a condenou por isso. É nestes pequenos diálogos que vemos que ela é apenas uma garotinha que necessita de carinho e cuidados, inocente, mas muito inteligente ela vai compreendendo que a vida pode dar muito mais para si.
É um longa cuja delicadeza predomina, nos toca de maneira sutil e inevitavelmente vai surgindo sentimentos bons enquanto o assistimos. Apesar de triste o final nos conforta. Jin-Hee abre um sorriso igual aquele do início, e é aí que percebemos que está pronta para uma uma nova fase.

Será possível conseguir uma vida nova em folha e realmente apagar todo o passado? Jin-Hee esquecerá o abandono do pai? Não completamente, mas o tempo é a melhor solução, não cura, mas cicatriza, nos possibilita vislumbrar novos horizontes e nos dá a capacidade de aprender. As coisas boas devem prevalecer em cima das ruins, não dá para viver pensando nos traumas, até porque é através deles que acontecem as mudanças.
"Uma Vida Nova em Folha" retrata temas como abandono, solidão e esperança sob o ponto de vista infantil e o como a realidade é encarada pela mesma, e como as pequenas coisas podem ser consideradas motivos desencadeadores de situações ainda mais sérias.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Egípcio, de Mika Waltari

"Falarei agora de Creta e do que vi acolá. Em parte alguma do mundo eu vi algo tão estranho e belo como Creta, por mais verdadeiro que seja haver eu viajado por todas as partes conhecidas. Assim como a espuma cintilante arrebenta na praia, como as bolhas fulguram em todas as cinco cores do arco-íris, como o reverso das conchas fulge expondo a madrepérola, assim Creta se ostentou diante dos meus olhos."

"O Egípcio" é uma excelente obra do escritor finlandês Mika Waltari, o livro nos conta sobre Sinuhe - médico do Faraó e narrador desta história. Abandonado quando criança, foi criado por pais adotivos. Tendo ingressado na corte do Faraó Amenhotep IV (Akhenaton), ele conhece uma mulher bela e ardilosa, por quem se apaixona de tal forma, que perde todos os seus bens e a própria dignidade, fugindo de seu país. Trava amizade com um dos comandantes do Faraó - Horemheb que dirige sua carruagem passando por cima das mulheres, crianças e velhos das terras conquistadas. Sinuhe se torna espião do exército egípcio, viajando então, para as terras da Babilônia, Creta e Síria. Desfilam inúmeros personagens descritos com perfeição, alguns dos quais dificilmente serão esquecidos: Nefer-nefer, com quem as modernas irmãs do pecado jamais poderiam competir, Minea, a virgem votada aos deuses, dançando nua diante dos touros sagrados, a rainha Nefertiti, cuja beleza física era perigosa em demasia por estar combinada com a malícia e a inteligência aguda, o escravo Kaptah Kaketamon, e a bela irmã do Faraó Akhenaton.
Intriga, morte, guerra, paixão, amor e luta religiosa são contados, enquanto Sinuhe vai revelando sua vida, ora radiante, ora desesperançada.
"O Egípcio" está repleto de segredos dos faraós e dos deuses. A política do Egito Antigo é desvendada nas seiscentas páginas desta incrível obra. A revelação da história real confunde-se com o romanesco, o que nos dá motivos de imaginar quase com perfeição como era e como vivia aquela misteriosa sociedade. É um livro completo em que as páginas nos transportam para algo riquíssimo.
Mika Waltari nos deslumbra ao retratar uma época tão distante. Vale a pena conferir seus outros títulos também: "O Etrusco", "O Anjo Negro", "O Aventureiro", "O Segredo do Reino" e "O Romano". Corrupção e valores humanos no Egito Antigo, este livro é uma joia rara!

Mika Waltari nasceu em Helsinki. Por muito tempo foi desconhecido fora da Finlândia, sua pátria, até o lançamento de "O Egípcio". Escreveu uma certa quantidade de peças teatrais, poemas e novelas, fazendo sucesso em seu país. Para fazer este livro ele empreendeu muitas pesquisas e, finalmente depois de 1945 ficou conhecido, sendo o livro traduzido em diversos idiomas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

[...] Ou talvez devesse dizer: o livro me adotaria. Ele se destacava timidamente no canto de uma estante, encadernado numa capa cor de vinho e sussurrando seu título em letras douradas que brilhavam na luz vinda da cúpula no alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com as pontas dos dedos, lendo em silêncio: A Sombra do Vento - Julián Carax.

Daniel Sempere é um menino de 10 anos, que vive na Barcelona de 1945, pós-segunda guerra. Ainda sobre o clima pesado do fim da guerra, é apresentado por seu pai, ao dono de um sebo importante de Barcelona, "O Cemitério dos Livros Esquecidos", lugar meio mágico, onde estão exemplares de livros abandonados. Este lugar tem um ritual: A primeira vez que alguém o visita, escolhe um livro, aquele que preferir, e que o adote, garantindo assim que nunca desapareça, que se mantenha vivo para sempre. Nessa visita, um tanto quanto ritualista e apaixonante para amantes de livros, Daniel se vê escolhido por uma obra em especial, "A Sombra do Vento", de Julián Carax. Este livro amaldiçoado, mudará o rumo de sua vida e o arrastará por um labirinto de mistérios, segredos, personagens enigmáticos e romance. Ao se ver fascinado pelo escritor desconhecido, Daniel começa uma busca inocente por maiores informações sobre o autor. E descobre que este promissor escritor teve uma vida cheia de desgraças, sendo dado como morto em circunstâncias suspeitas.
Com isso se envolve numa trama que tenta encontrar novos exemplares do autor e descobrir sua biografia. Nesse meio tempo conhece Clara, com quem vive seu primeiro romance inocente e pré-adolescente, mas que lhe causa grande decepção. Depois, conhece Fermin a quem tira da sarjeta e que se torna seu grande amigo. Enfrenta a fúria, o sadismo e o medo de Fumero, e por fim se realiza através do amor de Bea. A vida do autor desconhecido e a sua própria parece se entrelaçar de forma mágica e paralela, coincidentemente num ambiente fascinante de Barcelona onde Daniel percorre as praças, cafés do mundo gótico, as Ramblas e o Tibidabo, adentrando nos mistérios e segredos mais obscuros desta cidade.

"Enquanto percorria túneis e túneis de livros na penumbra, não pude evitar que me invadisse uma sensação de tristeza e desânimo. Não podia evitar pensar que se eu, por puro acaso, tinha descoberto todo um universo num só livro desconhecido na infinidade daquela necrópole, dezenas de milhares de outros livros ficariam inexplorados, esquecidos para sempre. Senti-me rodeado por milhares de páginas abandonadas, de universos e almas sem dono, que se fundiam em um oceano de escuridão enquanto o mundo que palpitava do lado de fora daquelas paredes perdia a memória sem perceber, dia após dia, sentindo-se mais sábio quanto mais esquecia."

"A Sombra do Vento" tem uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros, como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.
Um livro sobre paixão, paixão aos livros, e quer romance mais gostoso do que se envolver nas histórias contadas por eles? Em "A Sombra do Vento", Zafón nos envolve nessa paixão, misturando aventura, mistério, romance e literatura, uma declaração de amor aos livros que invadem nossa imaginação, nos trazendo tantos conhecimentos, nos tirando da mesmice de sempre e nos abrindo novos horizontes. A história e os personagens ficam gravados na memória, o autor consegue de forma arrebatadora fazer com que uma sensação agradável apareça toda vez que lembramos desse magnífico livro.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Raiva (La Rabia)

Perturbador, apelativo, pretensioso, incômodo e completamente diferente. "La Rabia" não foi feito para que gostemos dele, adquiri-se um certo asco pelas imagens e atos das pessoas. As cenas são longas e nos causa desconforto. Em meio a tantas coisas exageradas expostas, o que vale mesmo é a história central. Em uma fazenda abandonada pelos donos, moram duas famílias que trabalham ali. Um casal que tem uma filha pequena que é muda, e na outra casa mora um homem que explora seu próprio filho. Logo no início somos avisados que os animais apresentados morreram em seu habitat. Naquele ambiente árido, as pessoas grosseiras e rudes, nos mostram que quanto mais próximos da natureza, mais nossos instintos se comparam com o dos animais, visando apenas sobrevivência. O tempo todo nos deparamos com cenas de sexo intermináveis, animais sendo mortos, como o abate de uma leitoa e todo o seu processo até virar a carne que irão comer, há galinhas sendo mortas pelos cachorros, os cachorros sendo mortos porque matam as ovelhas, e por aí vai.
Poldo, o pai de Nati, a menina muda, percebe que seu vizinho e amante de sua mulher insulta sua filha, ele acaba proibindo que Pichón apareça na sua casa. Nati sabe que sua mãe trai seu pai com Pichón, várias vezes ela os pegou nus na cama, inclusive em uma das últimas cenas, Pichón vê a menina, mas ele tapa os olhos da mãe para que não a veja e continua transando. O filho dele aparece e percebe o absurdo, tapa os olhos da menina e sai. De fato o ar agora começa ser o da tragédia anunciada. Nati desenha figuras feias e diversas vezes o filme insere essas imagens horríveis juntamente com uma trilha sonora que dá efeito de uma raiva contida. O único momento em que sua raiva é colocada pra fora é quando desenha. Poldo vê alguns desses desenhos de Nati e deduz alguma coisa, irritado vai a casa de Pichón e acaba sendo morto. Mas essa tragédia é apenas o início. O final nos dá uma sensação ruim, ficamos paralisados conforme os créditos sobem. O filho de Pichón coloca toda a sua raiva pra fora e o que vemos é aterrador.

Esse longa argentino é criativo, porém muito indigesto. Ele atinge diretamente pontos em que o ser humano geralmente se sente desconfortável. O melhor detalhe a se observar é a expressão dos olhos da garota muda. A raiva de Poldo em ir ao encontro de Pichón e tirar satisfações acarreta o início de uma tragédia. A raiva se alastra facilmente, basta um ato de violência para que tudo desmorone, tudo vem à tona, sentimentos ruins aparecem, desejo de vingança, ressentimento, tudo que se vincula a raiva predomina. O garoto ao final do filme mostra que quando o ser humano está sob o efeito deste sentimento é capaz de qualquer coisa. O instinto animal predomina!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Substituto (Detachment)

"E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo." (Camus)

Henry Barthes é um professor brilhante com um verdadeiro talento para se conectar com os seus alunos. Em outro mundo, ele seria um herói para sua comunidade. Mas assombrado por um passado conturbado, ele escolhe ser professor substituto, nunca na mesma escola por mais que algumas semanas, nunca permanecendo tempo suficiente para formar qualquer relação com os alunos ou colegas. Uma profissão perfeita para alguém que busca se esconder. Quando uma nova missão o coloca numa decadente escola pública, o isolado mundo de Henry é exposto por três mulheres que mudam a sua visão sobre a vida: uma estudante, uma professora e uma adolescente fugitiva. O professor chega a essa escola pública que está um verdadeiro caos, lá ele tenta criar uma conexão com os alunos que estão indiferentes a tudo. Logo vemos o protagonista ajudando uma prostituta, uma garota que está perdida no mundo, vemos o sofrimento de Henry em tentar colocar algo na cabeça daqueles alunos, e o relacionamento dele com a prostituta cresce rapidamente, apresentando uma figura quase paterna. Um ato de proteção. Mas Henry não serve para cuidar de ninguém, ele é solitário, repleto de angústias.
O desinteresse dos alunos é enorme, o sistema educacional é precário e a vontade é completamente nula, quando perguntado o que eles querem da vida, respondem: Nada! Que tipo de pessoas se tornarão se decidirem entrar para a faculdade, que tipo de profissionais serão? Ou se não, o que será desses adolescentes? A indiferença e o desapego das pessoas só cresce, a solidão aumenta e todos escondem suas tristezas causando em si medos e mágoas. No filme fica claro que os problemas são mais dos alunos do que do ensino, mas isso varia muito. Em tempos de bullying, onde qualquer ponto é exposto em forma de sarcasmo, colocando os pontos fracos em evidência, não há um breque, um modo de fazê-los parar, são adolescentes sem propósitos, mimados, revoltados, egoístas e prepotentes. Os professores, por sua vez se tornam indiferentes a tudo isso para poderem suportar esse caos, ou ficam doentes tentando.

"Todos nós temos problemas e os nossos assuntos para cuidar. Alguns dias são melhores que outros, outros já não são tão bons, e tem dias que temos nosso espaço limitado por outras pessoas”.

Adrien Brody está perfeito em seu personagem, seus olhos demonstram melancolia e desapego, mas há um certo ar de súplica, e a ajuda acaba vindo da prostituta que acolhe em sua casa, ajudando-a também se ajuda. Na escola, Henry lida com uma aluna que sofre bullying, ela padece com a indiferença e o desprezo, e termina com um trágico fim, Henry tenta fazer com que ela se sinta melhor, mas não é permitido ter intimidade com alunos, não se pode abraçar e demonstrar carinho.
A conformidade de estar vivendo o caos gera a desesperança e não há nada tão pessimista do que isso, o clima do filme produz um desconforto dentro da gente, é como se apertassem-nos e depois chacoalhassem-nos dizendo: "Esse é o mundo em que você vive". É a realidade cuspindo na nossa cara, assim como a atitude daqueles adolescentes que não respeitam nem a si próprios.

No meio disso tudo há um resquício de humanidade, principalmente em como Henry trata a prostituta, com respeito, cuidado, e piedade. Ali é a ponta que resta de sua esperança, mas sem grandes resultados. Adrien Brody atua de forma comovente, brilhante, é dono de cenas profundas e diálogos marcantes, inclusive um desabafo que faz em sala de aula.
"O Substituto" é um filme triste diante da impossibilidade e da impotência do ser humano em querer fazer algo, é de uma beleza dolorosa. Dói porque é real!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

3 Macacos (Üç Maymun)

Dirigido por Nuri Bilge Ceylan, "3 Macacos" (2008) nos introduz na história de uma família aparentemente comum em Istambul. Eyup (Yavuz Bingol) é motorista do político Servet (Ercan Kesal) que em uma madrugada acaba atropelando um homem após dormir ao volante, desesperado telefona para Eyup a fim deste confessar o crime em seu lugar, pois ele não poderia se envolver em confusões naquele momento em que estava concorrendo as eleições; em troca Servet lhe propõe uma grana preta ao sair da cadeia, que no máximo durará um ano. Eyup aceita e vai no lugar de seu patrão. Sua mulher Hacer (Hatice Aslan) é cozinheira e seu filho Ismail (Ahmet Rifat), um jovem sem rumo vão levando a vida, até que Hacer decide pedir um empréstimo a Servet para comprar um carro para Ismail, que sugere que quando o pai sair da cadeia desconte da bolada que irá ganhar, mesmo que isso pareça errado, é a única coisa que atrai seu filho e ela resolve encontrar Servet e pedir o empréstimo.
A partir daí Hacer começa a ser seduzida pelo patrão de seu marido, ela é uma mulher linda e sentindo-se desejada se deixa levar pela ardente aventura. Ismail desconfia do envolvimento de sua mãe com Servet e ao constatar age de forma violenta, mas esconde o fato de seu pai quando o visita na prisão. O tempo passa e Eyup sai da cadeia e ao chegar em casa percebe a indiferença de sua mulher, vê que algo está errado ali. Aos poucos vai descobrindo o envolvimento e a paixão que sua mulher nutre pelo seu chefe. O desfecho do filme é surpreendente. Ismail acaba por matar Servet, Eyup abalado pensa em sua família e decide encobrir os fatos da mesma forma que seu patrão no início fez, foi até um rapaz que não tinha nada a perder e lhe disse que ao final receberia uma bolada se fosse preso no lugar de seu filho.
"3 Macacos" parte daquela fábula japonesa: Mizaru, o que cobre os olhos, Kikazaru, o que tapa os ouvidos, e Iwazaru, o que tapa a boca. Seus nomes seriam traduzidos por "não veja o mal, não ouça o mal e não fale o mal". Segundo o provérbio, a expressão "Mizaru Kikazaru Iwazaru" é uma forma de lembrar que se os homens não olhassem, não ouvissem e não falassem o mal alheio, viveríamos em paz e em harmonia. É assim que essa família reage, após cometerem atos ditos imorais resolvem esconder seus erros, fingir que nada aconteceu para evitar a verdade e torturarem-se na esperança que tudo desapareça e volte ao normal.

Eyup é um homem que tem olhos cansados, ele aceita ir à prisão porque pensa que fará bem a sua família, pois sabe da necessidade do dinheiro. Hacer descobre que ainda pode ser mulher, de certa forma a prisão de seu marido a liberta, ela passa a enxergar algo que não tinha com Eyup. Ismail sente-se culpado (não há detalhes) pela morte de seu irmão mais jovem, a imagem do garoto aparece várias vezes em seus sonhos, ou nos quadros, talvez um período em que essa família tinha diálogos e era feliz.
Exige-se do espectador entender os fatos e o porquê dos atos de cada um, são longos silêncios, pausas reflexivas que nos fazem perceber o que a falta de comunicação pode acarretar. A fotografia é exuberante, são verdadeiros quadros, o céu sempre carregado, criando um clima de angústia e tristeza, no terraço do apartamento se vislumbra o mar, e ao lado uma linha de trem, uma certa liberdade que não é enxergada pela família.
Muitas pessoas decidem viver fingindo, escondendo o mal que há dentro de sua casa pensando que viverá em paz, mas sabe-se que isso é um erro, viver em uma mentira não é felicidade, isso sim é estar numa prisão. Nos rostos de Eyup, Hacer e Ismail sempre haverá sinais de mágoas e angústias.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tulpan

"Tulpan" (2008) é um longa cazaque simplório, com pessoas puras e lugares inóspitos. A história retrata costumes dos quais não estamos habituados, uma civilização a parte, no deserto do Cazaquistão. Depois de completar serviço militar, Asa volta para sua região e quer ser pastor de ovelhas. Para isso, precisa arranjar uma esposa. Escolhe a bonita Tulpan, que dá título ao filme, mas esta acha o moço feio, por ter orelhas grandes demais, mas Asa tenta conquistá-la de todos os jeitos.
A linguagem e a estética é completamente diferente do convencional, tudo é espontâneo, cenas com crianças e animais chega a irritar, elas gritam e cantam a vontade, mas sem dúvidas isso o torna ainda mais especial. As pessoas são comuns e passam uma emoção real para quem o assiste. É um longa realmente muito bonito.
Tulpan é uma espécie de esperança para Asa, um sonho do qual persiste, a moça não o deseja, mas ele precisa de uma esposa para ter seu rebanho, desapontado tenta de todas as formas convencê-la, mas é tudo em vão. Há um momento em que pensa ir embora, pois acredita que não conseguirá nada ali.
Em uma passagem vemos o parto de uma ovelha, Asa o faz de maneira desastrada, com medo porque muitos filhotinhos morreram após o nascimento por falta de alimentação. Ele consegue fazê-lo com esforço, colocando a própria boca na da ovelhinha a fim de colocar ar em seus pulmões e fazê-la viver. Essa é a cena primordial, em que Asa se liberta e consegue se impor, acreditando que é capaz, ele encontrou sua "Tulipa" no vasto deserto. De forma simbólica o nascimento da ovelhinha faz com que Asa tenha esperança e perceba que ali é o seu lugar.

A beleza do lugar é incrível, habitado por poucas famílias geralmente bem distantes umas das outras, a única companhia constante é o vento. A câmera fitando o horizonte, a relação homem/natureza se torna algo bem poderoso. Tulpan o rejeitou por causa de suas orelhas de abano, mas talvez tenha tido outros motivos, aquele lugar apesar de belo, bucólico e contemplativo não oferece grandes oportunidades. Se vive de acordo com os costumes locais e nada mais.
"Tulpan" é singelo e de uma beleza exótica. O filme foi dirigido pelo documentarista cazaque Sergey Dvortsevoy, e foi vencedor do prêmio "Un Certain Regard" no Festival de Cannes de 2008.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Cavalo de Turin (A Torinói Ló)

Béla Tarr é um cineasta húngaro cultuado por realizar verdadeiras obras-primas. Em "O Cavalo de Turin" não é diferente. Prepare-se, pois o filme é longo e todo em preto e branco, nos dando a sensação de agonia. No início o narrador nos apresenta a seguinte história: Em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Vila Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. "Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cocheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo". Apesar de todos os esforços do cocheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da "multidão" e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: "Mãe, eu sou um idiota". Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada.
A partir daí entra a ficção, vemos uma sequência angustiante do cavalo ultrapassando paredes de vento e ar sujo e seis dias torturantes e escassos da vida de pai e filha num lugar inóspito, onde o vento uiva de forma grosseira, como o prenúncio de algo ruim.
São cenas infindáveis, todas as manhãs a filha se levanta, se veste, vai ao poço buscar água, ajuda seu pai a se vestir, cozinha duas batatas e comem um sentado de frente pro outro. Depois eles alimentam o cavalo, limpam o estábulo e voltam para casa. Isso é repetido durante os dias que se seguem, porém a cada dia a câmera focaliza de maneira diferente, nos mostrando ângulos novos e cada vez mais interessantes. A escassez seja material ou vital como vemos no cavalo durante o filme é uma metáfora do fim da existência, da consciência ou da humanidade. Há um monólogo entre o pai e um homem que vai buscar bebida, ele menciona a condição humana e a destruição a partir do momento em que não se crê em nada. E o pai apenas diz: "Bobagem", a todo o discurso feito pelo homem.
A repetição se faz necessária neste filme para que entendamos o abismo que logo chegará. O fim está próximo, pai e filha tem batatas, água, roupas, mas até quando? O fim é inevitável e a escuridão logo virá.

O silêncio é cada vez mais incômodo, a solidão, o vazio é o que vai predominando. Nietzsche sempre expôs o cru da alma humana, verdades que são incontestáveis, uma de suas revoltas era o ato do humano dominar aquele que julga inferior. Mas ali homem e animal em estados parecidos é algo muito além de palavras. É o silêncio da verdade, do fim. De algo muito maior, por exemplo, a força que a natureza exerce sobre nós, somos seres fracos, medíocres e vivemos de uma maneira errônea, nos julgando superiores e capazes de tudo. Mas quando descobrimos que nada é de verdade, e que a vida não é feita de ilusões que criamos conforme passam os dias, paramos e vislumbramos apenas o abismo fundo e escuro, porém nítido, assim como no episódio em que Nietzsche abraçou o cavalo.
Essa obra de Béla Tarr é uma experiência sensorial enriquecedora, é um exercício de paciência para quem não está acostumado a esse tipo de cinema, mas ao terminá-lo é extremamente recompensador. Este é o mais alto degrau do dito cinema arte. Filme para poucos, para entendedores da essência humana juntamente com o amor à sétima arte.

O fim está lá, dito pelo homem que foi buscar a bebida, o vento incessante, o cavalo que se nega a andar e a comer, a passagem dos ciganos, mas só se dão conta mesmo quando a água falta e já não tem como comer suas batatas, quando resolvem fazer algo é tarde demais, o que resta é apenas o silêncio mortal. São planos impressionantes, os detalhes, as imagens dizem muito, o vento é uma personagem nessa história, tudo muito minucioso e bem feito.
"O Cavalo de Turin" é denso, intenso, emblemático e repleto de analogias, das quais nos fazem pensar tanto que muitas análises fogem da história.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Costa Perdida (Humboldt County)

Muito se discute sobre a legalização da maconha, há muito o que se desmistificar, é um assunto que gera polêmicas e quase sempre nunca se chega a um lugar comum. Não há dúvidas de seu benefício para a saúde, principalmente no tratamento do câncer, e que também a sua proibição só estimula o uso. "Humboldt County" é o nome do filme, mas também dá nome a um lugar que fica no norte da Califórnia, mais conhecido como a "Costa Perdida", e é lá que acontece a história que vai muito além de usar ou não usar a bendita Cannabis.
Peter Hadley (Jeremy Strong), um promissor mas desiludido estudante de medicina desacreditado pelo seu professor e pelo seu pai, acaba certa noite conhecendo uma garota que o faz viajar com ela até o distrito chamado Humboldt County, uma comunidade de fazendeiros plantadores de maconha e uma hospitaleira, porém excêntrica família. Peter é um jovem que foi criado todo certinho por um pai que só pensa em trabalho, dessa maneira apenas seguiu o caminho que seu pai escolheu pra ele, mas algo mudará em sua vida a partir do momento que ele começa a conviver com essa família, e então percebe que lá se sente em casa, estranhamente em casa. Não se engane, não é uma comédia como tantas outras que tratam o assunto sempre de forma escrachada, mas sim traz o tema com seriedade, nos faz refletir sobre escolhas e vontades, e como deixamos as oportunidades verdadeiras passarem na nossa frente sem nem ao menos perceber, mas felizmente, podemos mudar os rumos de nossas vidas.
Max (Chris Messina) é um dos personagens que nos pegam de jeito, seu modo de ver a vida já diz muito, ele planta para poder garantir o sustento de sua filha postiça, uma menina que cria com carinho. A comunidade tem o direito de cultivar, mas se plantar em demasia e a polícia federal descobrir, eles acabam com tudo. Max é um homem bom, ele diz para Peter não levar a vida tão a sério, ele simplesmente mostra que a vida pode ser muito mais do que a enxergamos, e Peter diante daquele lugar majestoso entende que o que tinha antes não era uma vida, era uma rotina mecanizada, e nunca tinha se perguntado o que queria para si realmente. Lá perto da natureza e daquelas pessoas que também tem seus problemas, mas que mesmo assim nutrem carinho uns pelos outros, se importam pelo bem-estar, coisa que ele nunca teve com seu pai, Peter sem querer encontrou-se e conseguiu achar seu lugar.

O filme está muito além do assunto fumar ou não fumar maconha, é mostrado como um hábito e uma cultura definida pelo local, que causa estranheza para as pessoas que veem isso como algo ruim. Por isso, vale ressaltar o pensamento de que o homem não pode proibir o que a natureza fornece.
Mostra-se perspectivas diferentes, nos tiram do mundinho perfeito, regrado e hipócrita, sabe aquele tipo de pessoa que precisamos medir palavras, agir de um modo oposto para ser aceito? Pois é, nesse filme Peter descobre que existe um outro tipo de ser humano, o verdadeiro, que vive de acordo com o que sua mente e espírito pede. Pessoas de essência.
Às vezes os lugares em que menos esperamos é aquele que nos acolhe e nos dá vida novamente.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Revanche

Alex (Johannes Krisch) trabalha para um chefão chamado Konecny (Hanno Pöschl) e mantêm um namoro secreto e proibido com uma de suas prostitutas, Tamara (Irina Potapenko). Ex-presidiário, ele sonha com o roubo de um banco e a consequente fuga dele com Tamara para a Espanha, onde abriria um negócio com um amigo. Sentindo-se cada vez mais pressionada por Konecny para virar uma prostituta de luxo, Tamara decide acompanhar Alex em seu plano de roubo a banco. Quando as coisas saem mal, ele pensa em se vingar do policial Robert (Andreas Lust), mas acaba sendo surpreendido por acontecimentos que ocorrem no local onde passa a viver com o avô (Johannes Thanheiser).
O filme é claramente dividido em dois atos. O primeiro a vida suburbana de Viena, prostituição e criminalidade, um mundo sujo onde não há oportunidades. E é nesse meio que conhecemos nossos personagens, Alex e Tamara, que nutrem o desejo de fugir e recomeçar suas vidas distantes de tudo, mas para isso ele dá sequência a um plano do qual não dará certo. Ele decide roubar um banco, mas ao voltar para o carro se depara com um policial, ao sair desesperado, o tal policial acaba acertando Tamara. E a partir daí vem o segundo ato, onde Alex deseja se vingar. Ao aproximar-se de Robert para saciar seu desejo de vingança, descobre que ele enfrenta problemas com a mulher por não conseguir ter um filho, e o constante fantasma daquele incidente que matou a namorada de Alex permanece latente em sua cabeça não deixando-o em paz.
Nesse meio tempo Alex se envolve com a mulher de Robert e percebe os dramas que todos enfrentam. Em um diálogo com o policial, Alex descobre que ele é o causador, percebe que ele foi o único responsável pelo acontecido. Tamara foi junto ao assalto para simplesmente fazer companhia, não iria ajudá-lo, mas somente quis estar lá. E assim aconteceu a tragédia, foram escolhas erradas. Punir o policial não faria ele se sentir bem, pois se deu conta de sua vida miserável e sem sentido.
Ao ir para a fazenda de seu avô antes tão desprezada, Alex se afunda no trabalho dando tempo para que colocasse as ideias no lugar e percebesse que ali poderia ser um recomeço.

A fotografia é lindíssima, vemos tudo acontecer em meio aos troncos de árvores, desde a chegada de Alex ao lugarejo em que seu avô mora, quando ele resolve se vingar de Robert, e logo após suas descobertas externas e internas. 
O diretor austríaco Götz Spielmann nos mostra que de alguma forma tudo faz sentido na vida, a partir de um erro somos levados a alguns estágios que nos fazem pensar, redimir ou recomeçar. A cena inicial do filme é magnífica, um lago límpido e pacato que subitamente é agitado pelo cair de uma pedra. Assim é a nossa vida, quando fica silenciosa demais pode ter a certeza que algo irá acontecer, basta ter a clareza para enxergar o caminho mais adequado para poder seguir em frente.
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