sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fanaa

 
"Fanaa" (2006) é um típico filme indiano cheio de reviravoltas e surpresas, a mistura de gêneros faz com que as longas horas de duração não se tornem cansativas, além dos belíssimos números musicais que retratam a cultura.
Na trama, a linda Zooni Ali Beg (Kajol) é uma jovem cega e ingênua, que se apaixona pelo guia turístico Rehan Qadri (Aamir Khan), um homem infiel que esconde um segredo destruidor. Apesar de ser um conquistador de mulheres, assim que encontra Zooni, Rehan se sente atraído por ela de maneira especial. Ela é advertida por suas amigas, mas mesmo assim se apaixona por ele. Depois de muitas situações decidem ficar juntos. Rehan leva Zooni a uma clínica de olhos e vendo que há possibilidade dela voltar a enxergar, enfrenta uma cirurgia. Enquanto ela está no hospital ele vai à estação buscar os pais dela, que chegam à Delhi para conhecê-lo. No caminho da estação, ele supostamente morre numa explosão perpetrada por um grupo de separatistas Kashmiris, membros da Frente de Independência Kashmiris, IKF, que demandam a independência do Estado, longe das influências indianas e paquistanesas.
Aí vem a segunda parte do longa, onde Zooni recupera a visão e vê os pais dela pela primeira vez, mas fica devastada ao saber da morte de seu amor. A família volta para casa e meses depois ela descobre estar grávida. Os anos passam, Rehan Jr. é uma criança de 7 anos. Numa noite de tempestade de neve, um oficial do exército indiano, Capitão Ranjeev, bate à porta da família Beg e pede ajuda. O pai de Zooni o recebe com toda a hospitalidade, e Rehan Jr. o trata como pai. Zooni o acolhe da melhor forma possível, mas aos poucos descobre semelhanças entre o Capitão e o seu falecido amor, e as lembranças despertas a conduzem a uma revelação ainda mais amarga. A escolha não é entre o bem e o mal. Isso é fácil. As verdadeiras escolhas da vida estão em escolher entre o menor dos dois males ou o maior dos dois bens.
A palavra Fanaa é usada quando o amor é causador de alguma desgraça. Em dado momento a ação repentina é colocada no lugar do romance açucarado, e apesar de no início isso soar estranho, de repente nos pegamos envolvidos e enfeitiçados pela história novamente. Em meio a isso tudo não pense que o filme deixe pontas soltas, todas as tramas são amarradas e culminam num final perfeito.
"Fanaa" é uma epopeia romântica. É um filme delicioso em que muitas coisas se misturam, assim como a cultura dos indianos, repleta de cores, sabores, aromas e nuances. É mágico e deveras característico. Que Shiva continue dando muitas inspirações a esse povo e que novas obras desse porte cheguem até nós. O cinema é uma maneira de conhecermos o mundo e suas culturas, portanto, deixe-se levar e saboreie o diferente.

A sinopse do filme poderia ser um spoiler gigantesco, mas as reviravoltas são tantas que não prejudica em nada, aliás é até melhor saber sobre para nos situarmos na história.
O cinema indiano é lindo, existem produções maravilhosas e que merecem ser conhecidas, por exemplo, "Taare Zameen Par" (2007), "Lagaan: Once Upon a Time in India" (2001), "Rang De Basanti" (2006), "Ghajini" (2008), "Rann" (2010), "Nishabd" (2007), "Guzaarish" (2010), entre tantas outras.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Séraphine

Séraphine Louis, conhecida como Séraphine de Senlis foi uma pintora francesa que viveu entre 1864-1942. Trabalhava como empregada doméstica, em Senlis. O colecionador de arte alemão, Wilhelm Uhde, primeiro comprador de Picasso e de Douanier Rousseau, descobriu os seus quadros em 1912, tendo a encorajado a dedicar-se só à pintura. Antes de se transformar em uma pintora Naif e submergir na loucura viveu contra todas as expectativas tristes de sua vida e ascendeu por meio da originalidade e beleza de sua arte.
Dedicada a fazer faxinas, ela não parecia capaz de grandes proezas. Tirando o esforço que mostrava para fazer as limpezas, ela levava a vida com certa calma, andava pelo campo, apreciava as plantas, subia nas árvores e observava as flores, contemplava a natureza que a acolhia quando se sentia triste.
Séraphine, que já tinha 50 anos quando Uhde a encontrou, era mulher selvagem com feição inocente, de modos peculiares e profundamente devota. A interpretação de Yolande Moreau é completamente segura e crível, se entregou com perfeita beleza a sua personagem.
O grande crítico de arte Wilhelm Uhde, ao passar um tempo na cidade de Senlis encontrou por acaso um pequeno quadro largado no chão e se apaixonou pela beleza da pintura. Ficou surpreso ao descobrir que a mulher que limpava seu quarto era a responsável pela pintura. Decidido, ele resolve transformá-la numa grande pintora, mas a primeira guerra mundial explode, e Uhde se vê obrigado a abandonar a França, por ser alemão e temer represálias. Ele perde sua preciosa coleção e o contato com Séraphine. Acabada a guerra, ele volta para a mesma cidade, Senlis, e dá como certa a morte da pintora, mas acaba por descobri-la em uma exposição local. Não mais pequenos quadros, mas grandes e mais belos do que ele podia imaginar. Chegou a hora de ela abandonar a vida de faxineira de vez e abraçar a vida artística.
Vemos a vida simples de Séraphine, apaixonada pela natureza, solitária, prestativa nos serviços, com hábitos estranhos, como pegar sangue de fígado de porco, recolher ervas nos riachos, roubar cera das velas da igreja, uma mulher rústica que em si habitava um dom que foi crescendo a ponto de não caber dentro de si mesma, antes pintava em pequenos quadros, pedaços de madeira, conforme o tempo passava eles aumentavam de forma que ficavam monumentais, deslumbrantes e ganhavam vida diante aos olhos.

Geralmente as histórias de gênios da arte nunca terminam bem, nunca ficam ricos usufruindo de seus bens, mas sempre enlouquecem, acabam internados em sanatórios e asilos. Chegou um dado momento que ela não parava mais de pintar a fim de que Wilhelm fizesse uma exposição, ela dizia que estava pronta, atordoada com a demora da promessa feita, cada vez mais se entregava à loucura, sempre cantando enquanto pintava seus enormes quadros de flores, frutas e árvores. Infelizmente quando suas obras foram exibidas ela estava internada, mas Wilhelm a colocou em um aposento em que ela pudesse ver e tocar a natureza. A cena final fecha de maneira belíssima o filme. Uma verdadeira obra de arte.
A natureza é muito presente no longa, dando o ar de simplicidade e de rara beleza, os momentos em que Séraphine deita na grama, sobe ou abraça uma árvore, é onde ela encontrava a paz. Somos levados a questionar a tão falada relação entre loucura e arte. 

A francesa sofria de problemas psicológicos que foram se agravando ao longo dos anos. Segundo contou a própria artista, o interesse pela pintura nasceu depois que o anjo da guarda lhe fez o pedido para pintar. Verdade ou não, a empregada que passou vinte anos num convento, acabou por ser internada num manicômio (onde morreria, em 1942), enquanto a sua obra corria a Europa. Wilhelm Uhde nunca deixou de ajudá-la. Suas pinturas estão espalhadas em diversos museus, dos mais importantes da Europa. Talvez todo grande artista acabe absorvido por sua inspiração e pela sua própria arte.
Séraphine era incrivelmente livre em sua natureza simples. Esta é uma história maravilhosa sobre arte em que mostra a força do talento, o quanto ele cresce dentro de um ser humano a ponto de deixá-lo à beira da loucura. No período retratado no longa, Séraphine estava à margem da sociedade se comparada com as pessoas da localidade. Wilhelm Uhde, o homem que descobriu o talento de Rousseau prestou atenção em uma mulher que era praticamente invisível. O dom pode vir para qualquer um, independente de classe social, credo ou raça. Séraphine encontrou o canal de sua inspiração e o devotava com todas as suas forças. Um filme deveras sublime!

*A arte Naif é conhecida também como arte primitiva moderna, em termos gerais, a arte que é produzida por artistas sem preparação acadêmica na arte que executam. Caracteriza-se pela simplicidade. Os quadros de Séraphine são representações de grandiosos arranjos florais, muito fantasiados, que por vezes parecem ganhar vida.

Obras de Séraphine de Senlis

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A Professora de Piano (La Pianiste)

"A Professora de Piano" (2001) é um filme sobre sexo, perversão, violência física e psíquica. Uma mulher repleta de contrastes que na sua vida cotidiana mostra ser de temperamento reto, rígido e que quando o seu mais profundo íntimo é provocado, ela se revela uma pessoa doentia. É um eterno estudo para os psicólogos e psicanalistas.
Erika (Isabelle Huppert) é uma professora de piano de um prestigioso conservatório, arrogante e boçal, trata os alunos com duras e insensíveis críticas, sua vida pessoal não destoa da profissional. Solteira, ela mora com a mãe que a trata como uma adolescente. Seu desequilíbrio deságua no sexo e é canalizado para as perversões. Nas horas vagas assiste filmes pornôs em cabines, cheira os lenços onde homens momentos antes se limparam, corta sua genitália com lâminas para sentir dor, caminha pelos estacionamentos a fim de ver se encontra algum casal transando somente para observá-los. Quando conhece Walter (Benoît Magimel) o novo aluno de piano, um talentoso rapaz que chama a sua atenção, ela nos mostra sua personalidade um tanto quanto estranha. Walter passa a nutrir por Erika sentimentos carnais e românticos. Ela o deixa completamente fora de si, pois alterna seu estado de dominadora e passiva em minutos, não sabe dizer exatamente o que quer, mas o deseja de forma voraz.
A cena da qual ele lê a carta que ela lhe escreveu citando como quer ser tratada na cama, o deixa perturbado, e de início causa repulsa, mas ao longo do tempo, ele se vê envolvido na loucura dessa mulher. O filme se concentra também no relacionamento entre Erika e sua mãe, que vivem em pé de guerra por causa das atitudes uma da outra. Os diálogos entre elas e a maneira que convivem é de fato muito estranho, Erika com seus 40 anos ainda dá satisfações, e não sabemos se ela sofre por isso, ou sente algum tipo de amor por sua mãe. Um dos pensamentos que Erika segue é a de que nenhum aluno jamais ultrapasse sua genialidade de tocar piano, Schubert, principalmente, a sua grande obsessão.
Michael Haneke é especialista nesses temas que perturbam o espectador, é cruel e sempre violento, não conseguimos nutrir simpatia pelos personagens. É uma experiência difícil e não recomendada à qualquer pessoa. A essência humana assusta, o íntimo quando exposto de maneira irracional, as necessidades, os exageros, e o como somos frágeis quando lidamos com os outros e até com nós mesmos. Partindo de um romance de Elfriede Jelinek, Haneke acerta ao escolher um ambiente assim, aparentemente culto e refinado, Erika é a verdadeira falsa moralista, por trás do discurso puritano e culto, há um imaginário composto por sentimentos completamente sórdidos.

O filme é composto por músicas eruditas maravilhosas, e como na música clássica em que as notas oscilam da mais suave à exaltação dos sentimentos, assim também é Erika, uma pessoa aparentemente controlada, mas que carrega em si uma imensidão de sentimentos reprimidos que quando expostos causam dor e sofrimento, por isso a autopunição, a dor física que se assemelha ao prazer. Os dois extremos que se chocam e viram uma coisa só, dor e prazer sendo iguais.
"A Professora de Piano" é desconfortante, pois os valores morais caem e aparece o mais ridículo do ser humano, o quanto somos complicados e difíceis de se satisfazer. E que quando isso acontece não nos importamos com o que causamos para os demais e a si próprios. Como disse no início é um longa do qual deve ser analisado pelo aspecto psicológico, e as pessoas que trabalham nesse ramo deveriam assisti-lo e estudá-lo. Isabelle Huppert faz de sua personagem uma incógnita, totalmente inexpressiva, não sabemos o que sentir por aquela pessoa, talvez pena, repulsa, raiva, ou simplesmente nada. O longa é um mergulho no mais profundo e sombrio da alma humana.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Manderlay

"Manderlay" (2005) é o segundo filme da trilogia inacabada sobre a América de Lars von Trier, e assim como no primeiro filme intitulado "Dogville" (2003), "Manderlay" é o nome de uma cidade fictícia dos Estados Unidos da década de 30, no estado do Alabama. O filme continua exatamente do ponto onde parou, a partir do momento em que a protagonista Grace deixa a cidade de Dogville acompanhado do pai e dos gangsteres. Grace e o pai descobrem uma antiga fazenda ainda sustentada à base do sistema escravista, que na realidade foi abolida nos Estados Unidos 70 anos antes. A história de fato tem início quando Grace, contra a vontade do pai, resolve tomar a fazenda e implantar a democracia, a liberdade e a justiça no local.
O cenário acompanha a forma que foi feito em "Dogville", também não tem muros, é demarcado por desenhos no chão e só apresenta alguns objetos essenciais na composição dos ambientes. Entretanto, não causa tanta estranheza. A narrativa é feita por capítulos, com um narrador onisciente e irônico. Uma novidade é o deslocamento de Dogville até Manderlay, mostrado através de carrinhos andando sobre um mapa dos Estados Unidos. Grace não é mais vivida por Nicole Kidman, mas por Bryce Dallas Howard. A mudança causa um certo desconforto no início, mas Bryce não fica devendo em nada na interpretação. O que mais choca é a mudança brusca da personagem, que se torna benevolente logo após sua vingança ao final de Dogville.
A personalidade de Grace incomoda, sua bondade no fundo é pura vaidade, e que é alimentada quando faz boas ações, isso nos deixa atordoados, sem saber o que ela é realmente, mas Lars von Trier mostra exatamente isso, o ser humano, e como somos instáveis. Diferente de "Dogville" em que se tem diversas interpretações, neste a crítica aos Estados Unidos é mais direta, porém complexa. O tema é o fim da escravidão, a liberdade que é concedida aos escravos sem que possa ser usufruída, pois está desassociada de condições econômicas igualitárias. A liberdade é apenas ilusória, não tem uma política de integração de fato, através de empregos e salários justos. A liberdade era obtida, mas os fazendeiros se encarregavam de aprisionar os negros novamente, através de dívidas. O sistema de escravidão de Manderlay também se baseia numa filosofia interessante, de classificar os escravos por tipos. A ex-senhora da fazenda tinha um livro em que cada escravo era tipificado, seja como orgulhoso, submisso, ou adaptável, para que a forma de explorá-los fosse direcionada e suas reações fossem previstas. Não é preciso dizer que Grace aproveitou essas dicas. A visão do negro como objeto sexual também está presente no filme. A grande polêmica do filme é a de que a escravidão era aceita pelos negros, de que havia uma submissão destes à exploração, pois assim tinham como viver, sabiam exatamente o que fazer, em vários diálogos fica explícito, por exemplo, a pergunta feita pelo personagem de Danny Glover, em que horas jantam as pessoas livres?, e afirmando que os escravos não estavam preparados para serem livres, pois a sociedade não estaria preparada para recebê-los. E não estaria nem daqui a cem anos. Atenua-se as responsabilidades dos opressores na decisão de cada um daqueles escravos, ao serem passivos. Grace prega a liberdade, levando a democracia, mas na verdade é um outro tipo de opressão.

"Manderlay" trata do tema racismo de maneira cínica, em que na "inocência" Grace quer dar "liberdade" aos escravos, mas ela vê que nem tudo é tão simples de mudar e de que não é nenhuma heroína, e ao final percebe que não tem salvação e foge. Ela queria provar que ainda poderia trazer algum benefício através do poder que seu pai a concedeu, e que algo poderia ser mudado. Mas suas "boas intenções" de nada adiantaram, inserir a democracia goela abaixo sem se preocupar com o como estavam vivendo antes, é sandice.
"Manderlay" é ousado, irônico, polêmico, provocativo e uma ótima sequência de "Dogville".

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Dogville

Dogville é uma pequena cidade com alguns poucos moradores, situada em algum lugar entre as montanhas do meio-oeste estadunidense. A história se passa durante a Grande Recessão Americana na década de 1930 e gira em torno de Grace (Nicole Kidman), uma jovem que, fugindo de perigosos gangsteres, acaba encontrando refúgio em Dogville. Encantado com a moça, o introspectivo Tom (Paul Bettany) propõe que a cidade ofereça abrigo a Grace que, em troca, faria pequenos serviços para seus moradores. Aos poucos, porém, os aparentemente amáveis habitantes de Dogville, ao descobrirem que ela está sendo procurada pela polícia, vão exibindo um lado sombrio e passam a explorar a garota, a impedindo de abandonar o lugar.
Lars von Trier criou um espaço cinematográfico simples e despojado incorporando elementos teatrais. Minimalista, o diretor utilizou objetos de cena mas nenhum cenário; apenas linhas pintadas no chão demarcando duas ou três ruas e algumas casas. O cenário invisível (sem paredes, janelas ou portas) permite que o espectador veja os coadjuvantes em seus afazeres longe do foco principal da ação. Várias análises são dadas, uma delas é a sociológica, que seria uma crítica aos EUA, no jeito como praticam a liderança sobre o resto do mundo. O filme é uma parábola moral em que mostra a desumanidade na humanidade, o lado individualista, mesquinho, hipócrita, conservador e vil. A estrutura do filme possui um prólogo que apresenta os personagens e nove capítulos. E um narrador que nos conta a história.
O dogmatismo começa a se acentuar quando a polícia começa a fazer visitas na cidade a procura de Grace. A partir desse momento, os moradores revelam o seu lado cruel. Resolvem duplicar o trabalho e tratar Grace de uma maneira insensível. É repreendida por muitos daqueles que outrora a tratavam bem. Passa a ser alvo da lascívia dos homens da cidade. O intelectual e reflexivo Tom tenta ajudá-la, mas por sua vez, suas iniciativas se mostram ineficazes. Muito discurso para pouca praticidade. Tom se revela frágil e frouxo, ao final Grace perde toda a esperança que depositou naquele que julgava amá-la. E Tom delata ela aos gangsteres. Ao chegar a cidade, o gângster que é pai de Grace a indaga se ela deseja que a cidade seja aniquilada. Eles dialogam sobre a arrogância. Grace quer o perdão para os habitantes de Dogville, como se dissesse "eles não sabem o que fazem". Seu pai que é quase como a figura de Deus a acusa por fazer a concessão de perdoar quem lhe é inferior e lhe impingiu tanto sofrimento. Grace diz que o pai é soberbo devido à sua vontade de vingança e pede poder, que lhe é concedido para salvar Dogville. Entretanto, ao sair do carro e ouvir Tom, que escreveria sobre o que se passou, ela se desilude com a humanidade e pune Dogville com o aniquilamento. A mensagem é clara ao dizer que a humanidade não tem salvação.

Demonstra-se no filme que viver em coletividade e pensar por si só é coisa difícil, e que apesar de aparentar no início uma certa aceitação, na verdade ao longo do tempo a comunidade mostra os seus dentes diante ao desconhecido que vem habitar ali, e que se este não seguir as regras devidas, será punido de alguma forma. A personagem de Nicole Kidman explica em uma cena sobre o estoicismo, que significa aceitar as leis e todo o mal que vem dela, sem questionar ou se indignar. Retrato mais que atual não? Já que vemos as pessoas se preocuparem demais em andar na linha, seguir tal regra, sem ao menos se dar conta de que aquela lei que diz protegê-la, na verdade, a repreende e a açoita. "Dogville" é um estudo muitíssimo amplo da sociedade, indivíduos, sistema, filosofia, teologia e por aí vai, é um mar de pensamentos que invadem o nosso cérebro que nos induz a pensar e refletir.
"Dogville" faz parte de uma trilogia inacabada sobre a América, o segundo filme é "Manderlay", 2005.

Lars von Trier é um dos criadores do "Dogma 95", uma espécie de cartilha em que um conjunto de regras determina como deve ser criado um filme, entre elas: ausência de cenário, utilização de som, iluminação naturais e câmera na mão. Opõe-se a ideia de autor, de cinema individual e efeitos especiais. Ou seja, é o dito cinema arte que foge completamente das ilusões criadas pelo cinema comercial.
O pensamento que surge ao assistir "Dogville" é de que por trás de uma generosidade pode haver, na verdade, arrogância e interesses puramente egoístas. Os seres humanos são multifacetados!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Barato de Grace (Saving Grace)

Grace (Brenda Blethyn) após o suicídio de seu marido, descobre que além das muitas dívidas que ele lhe deixou, poderá também perder a casa que já pertence a sua família a muitas gerações. Suas habilidades são com plantas, é uma excelente jardineira. Desesperada para arranjar alguma alternativa que a livre do sufoco financeiro, decide fazer o que sabe de melhor, mexer com plantas. No caso, a Cannabis Sativa. Seu empregado, Matthew (Craig Ferguson) também tem problemas: mesmo sem emprego ou salário, prometeu se casar com a namorada. Desesperados, os dois se perguntam: por que não usar as famosas habilidades de Grace para ganhar dinheiro? Ele lhe dá a ideia, e um dia pede para que Grace veja o porquê uma de suas plantinhas está doente. Matthew as mantém escondidas no terreno dos fundos da igreja. Mesmo sabendo que se trata de mudas de maconha, ela resolve levar para a estufa em sua casa. No dia seguinte, Matthew fica admirado com a recuperação da planta. E Grace ainda lhe mostra umas flores que estava brotando.
Assim Matthew propõe uma sociedade. Grace sem pestanejar aceita, pois a casa já estava posta à leilão. Entusiasmados, Grace e Matthew transformam a estufa de orquídeas no paraíso dos maconheiros. Mas, os dois percebem que, para ganhar dinheiro, terão que vendê-las, e é aí que encontram a grande dificuldade. Já com posse de uma boa quantidade de erva irão tentar vendê-la em Londres. De um traficante menor, um maior fica interessado, pela erva ser de primeira qualidade. Eles sabem que é crime e estão cientes dos riscos. Com certeza as tentativas de Grace vender a erva é das cenas mais engraçadas, ou não! Ver uma senhora inglesa, que toma seu chá das cinco com a retidão britânica vendendo maconha em Londres pode ser vista de várias maneiras, pode ser engraçado, mas pode ser desesperador também.
Um dos maiores pontos positivos do filme é sem dúvida o lugar, o paraíso na Terra. O clima é ótimo, as interpretações simpaticíssimas e envolventes, o tema é inserido sem soar patético, como na maioria dos filmes em que mostra pessoas bobonas, chapadas, e todo o clichê possível dos filmes americanos. O roteiro, co-escrito pelo ator Craig Ferguson, que interpreta Matthew, o ajudante-sócio de Grace, em momento algum faz apologia à maconha, ele acerta em cheio no tom. Uma curiosidade do filme é que ele foi o primeiro a receber uma autorização do governo britânico para utilizar plantas reais de maconha, a gravação foi vigiada para que não fossem consumidas pelo elenco, e ao todo foram utilizadas 150 plantas. 

Uma mulher inteligente, mas que dependia totalmente de seu marido, de repente buscou uma alternativa, digamos assim, politicamente incorreta. A curiosidade de Grace ao querer saber o efeito que causa ao fumar maconha acontece, e parece que naquele momento ela se liberta da tristeza/raiva que o marido causou ao morrer deixando ela submersa em dívidas.
É uma comédia leve, descontraída que leva o tema ainda tão cheio de tabu, de mistérios e preconceitos de forma natural, e além disso tem Brenda Blethyn, uma atriz magnífica. Ela esbanja graciosidade, o nome não poderia ser melhor, Grace!
Os personagens lidam super bem com a plantação e até o policial é camarada e não vê nada demais. E é sempre bom ver os britânicos saírem da linha, ainda mais um bando de velhinhas, como acontece em uma das cenas finais. Vale muito a pena ver "O Barato de Grace" e se deixar levar pelo humor inglês.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sede de Sangue (Bakjwi)

"Sede de Sangue" (2009) dirigido por Chan-Woo Park é um filme diferente relacionado aos mordedores que se tornaram tão populares nos últimos tempos. O renomado diretor sul-coreano é mestre e sempre entrega trabalhos incríveis ao público.
A história segue o padre Sang-Hyeon interpretado pelo sensacional Song Kang-Ho, que se torna voluntário em um instituto que busca a cura para o mortífero VE - Vírus Emmanuel. Sang-Hyeon se submete a um experimento perigoso e acaba desenvolvendo a doença. Mas depois de ser declarado morto, ele ressuscita e passa a ser considerado santo. Sentindo-se diferente, ele percebe com o tempo que desenvolveu um apreço especial por sangue humano.
Descontente com as mortes no hospital em que dá assistência Sang-Hyeon quer fazer algo mais concreto pelas pessoas e assim decide se tornar cobaia em um experimento na África, depois de vários testes com vacinas ele morre, mas graças a uma transfusão de sangue o padre ressuscita e é aí que as coisas mudam de figura. Aos poucos suas percepções vão mudando e seu corpo precisa de sangue para conseguir se manter saudável. A religiosidade o impede de matar as pessoas para se nutrir, então ele pega bolsas de sangue do hospital ou toma pelo canudo em que o sangue passa até chegar à pessoa. O seu vampirismo também está diretamente ligado a sua obsessão por sexo, que finalmente é liberada, incluindo o amor pela esposa de um amigo de infância, o que resulta em sequências de cenas de sexo que tomam grande parte do filme, especialmente quando a mulher descobre o seu segredo e se fascina com a sua condição, pedindo para ele exibir seus poderes como vampiro, que o possibilita, por exemplo, a dobrar uma moeda ao meio e pular de um prédio para o outro.
Tae-ju (Kim Ok-bin) é uma garota órfã, que acabou sendo criada pela senhora Ra e se casou com seu filho, o infame sempre doente Kang-Woo (Shin Ha-Kyun). Esse encontro acaba despertando no padre, pouco a pouco, estranhas sensações. Tae-ju é totalmente o oposto do padre, ela fica deslumbrada com a liberdade que pode ter se for transformada. E ao ser, não tem escrúpulos, parece querer descontar o sofrimento que passou em qualquer um, sugando o sangue só pelo prazer de matar e não apenas o de suprir sua necessidade, ao contrário de Sang-Hyeon que é cauteloso quando busca seu alimento. Há momentos de muita confusão e caos, tudo desmorona, vidas comuns transformadas em um verdadeiro terror. O vampirismo no longa é tratado como doença e isso é um dos fatores que o faz tão diferente, além do humor nada convencional que várias cenas trazem. O roteiro é envolvente e passeia muito bem pelo Thriller psicológico e pelo romance/drama em que os personagens se encontram.

O diretor Chan-Woo Park acerta já de primeira ao colocar um homem dito santo (padre) numa condição extremamente oposta. Violência, sexo e sangue é o que não falta, aliás nem era para faltar já que se trata de uma história que envolve vampiros. A criatividade e como o filme se desenrola, a maneira da filmagem e o desfecho que vai da comédia ao terror faz de "Sede de Sangue" uma obra completamente distinta. É única e audaciosa. Um filme para poucos, para quem já conhece o ritmo do cinema asiático, e principalmente de Chan-Wook Park irá gostar de cara. E para quem curte vampiros é um ótimo respiro em meio a tantos filmes certinhos e sem graça.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi (Life of Pi)

"As Aventuras de Pi" (2012) é um filme que enche os olhos pelo visual magnífico, mas também nos emociona pela história, que passa uma mensagem lindíssima. Sendo assim se faz um filme completo. E com o diretor Ang Lee não poderia ser diferente, e ainda bem que assim foi, já que vários diretores estiveram envolvidos e não deu muito certo, entre eles: M. Night Shyamalan, Alfonso Cuarón, Jean Pierre Jeunet, mas só mesmo Ang Lee para fazer de "As Aventuras de Pi" uma fábula filosófica. Baseado no livro de Yann Martel, publicado em 2001. Livro que gerou uma polêmica envolvendo o escritor brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011), Yann foi acusado de plágio por ter roubado as ideias do livro "Max e o Jaguar" de Scliar. Isso aconteceu depois que o livro venceu em 2002 o Booker Prize, o prêmio mais importante da língua inglesa. Em entrevista Yann Martel declarou ter se inspirado na ideia do livro de Scliar, porém só o leu depois da repercussão e disse que havia similaridades na premissa, mas o restante era diferente. Moacyr Scliar então disse não haver plágio e assim ficou. Ideias são ideias, o desenvolvimento delas é que fazem a diferença. E na telona, o garoto Pi nos inebria com poesia em forma de imagens, não há dúvidas de que seja um dos melhores filmes do ano.
Pi é um garoto indiano que vive com sua família em um zoológico. Como os negócios não vão bem, seu pai resolve embarcar com a família e seus animais para iniciar vida nova no Canadá. Para isso terão que enfrentar uma viagem de navio que não acaba nada bem. Único sobrevivente do desastre, Pi terá que dividir o espaço no bote com uma hiena, uma zebra ferida, um orangotango e um tigre de bengala chamado Richard Parker. As escolhas que terá que fazer e as atitudes que terá que tomar para sobreviver podem transformar Pi e tudo em que ele acredita.
O jovem Suraj Sharma surpreende na atuação, em sua aventura de superação e solidão tem no tigre Richard Parker seu incentivo à sobrevivência. O filme é uma experiência espiritual tanto para o garoto, quanto para nós. A questão das religiões é exposta e nos faz refletir em que acreditamos realmente. A imensidão do mar representa o quão infinito são as perguntas das quais sempre nos acerca. Deus. Natureza. Sobrevivência. instinto. Para os olhares mais atentos as simbologias aparecem e o filme se torna profundo e muito reflexivo. As cenas em que o céu se funde com o mar são espetaculares, o grau de realismo do tigre beira a perfeição. E é nele que está contido as maiores mensagens do longa. Pi acredita que pode se relacionar de igual para igual com ele, mas quando pequeno seu pai o ensinou que isso não existia. O que ele via nos olhos do tigre era apenas o reflexo de seus olhos. Não havia amor de animal selvagem para um humano. E quando se viu no barco com o tigre, percebeu o que o domina é apenas o instinto, mas em sua condição ele também se torna de algum modo animal. A sede, a fome, a solidão. Tudo isso o torna forte ao invés de deixá-lo fraco, ele tenta dominar Richard Parker, mas o máximo que irá conseguir fazer é delimitar espaço.

Pi sempre teve desde pequeno uma ânsia de conhecer Deus em toda sua magnitude e entender todos os porquês de nossa existência, e é por isso que se enveredou por três religiões. Essa fé aparece na forma invisível como algo que pode-se sentir, o acreditar numa força maior é o que faz Pi continuar lutando, e Richard Parker é a sua única companhia, desistir do tigre é o mesmo que desistir de si mesmo, pois a solidão é o pior que pode acontecer. A cena do tigre quando chega à praia e encontra a floresta sem nem olhar para trás, e Pi se desfazendo em lágrimas é a das mais emocionantes. O final do longa fica em aberto para que possamos tomar nossas próprias conclusões, em questão do que acreditar. Ele conta duas histórias e cabe a cada um em qual acreditar, assim também é com Deus, cada um escolhe a sua forma de crer nele.
"Em algum lugar dois olhos estavam felizes por eu estar lá. Eu tinha certeza que Richard Parker olharia pra mim, que de alguma forma sinalizaria o fim do nosso relacionamento. Mas ele não o fez. Ele desapareceu para sempre da minha vida. Eu chorei como uma criança, não por estar aliviado por ter sobrevivido, embora estivesse. Eu chorei porque Richard Parker me deixou sem nenhuma cerimônia. Partiu meu coração. Todos estavam certos, Richard Parker nunca me viu como amigo. Depois de tudo que passamos juntos ele nem olhou pra trás, mas eu acredito que havia mais nos olhos dele do que apenas o meu reflexo me olhando de volta. Eu sei disso, eu senti, mesmo que não possa provar. "

Toda a história é narrada pelo Pi já adulto. E cabe a cada um interpretá-la. Há muitas maneiras de observar a vida e Pi nos ensina isso. E também há muitas maneiras de sobreviver e a imaginação é uma boa aliada nessas horas. O que pode ser desesperador agora ao fim se revela transformador.
"As Aventuras de Pi" é a perfeita junção das imagens com a emoção. Impossível ficar imune ao deslumbre visual e ao teor da história. São lágrimas e sorrisos que acompanham um bem-estar único. Isso é o que o cinema deve proporcionar, fazer com que o espectador se inebrie e viaje por mundos inimagináveis provocando sensações inesquecíveis.

"-A verdadeira história cabe você escolher em quê acreditar... 
-Em qual você acredita?"

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) é uma garotinha de seis anos órfã de mãe, ela mora com seu pai Wink (Dwight Henry), num lugar conhecido como "banheira", próximo da foz de um rio no sul da Louisiana, a comunidade em que vive nos aparenta logo à primeira vista uma África fabulosa colocada no meio dos Estados Unidos. Os dois moram numa espécie de trailer abandonado e vivem na completa miséria. Os habitantes da "banheira" se preparam para uma iminente catástrofe natural que os deixarão vivendo sob a água. Na "banheira" não existem médicos, as escolas são improvisadas e a locomoção por aéreas alagadas é difícil. Mesmo assim, eles são livres, sendo a altura da água a grande preocupação de suas vidas.
A relação entre pai e filha é diferente, por vezes bruta. por vezes amorosa, mas tudo é mostrado de acordo como vivem, em uma cena Hushpuppy fica sozinha em casa, sem alimentos ela esquenta a comida de gato com um super maçarico do qual é até preciso um capacete, caso seu pai não voltasse ela teria que comer os animais de seu quintal. Quando ele volta, aparentemente fugindo de algum hospital começa a se preparar para a tempestade que está por vir. Após essa tempestade tudo fica alagado, eles improvisam barcos e saem em buscas das pessoas do vilarejo, Wink tem a ideia de implodir parte da barragem de água para que o alagamento cesse, porém chega ajuda e levam todos os moradores da "banheira" a centros comunitários, e é nesse momento que Hushpuppy descobre a doença misteriosa de seu pai. Todas as pessoas da comunidade negam a ajuda, eles apenas querem voltar a suas casas, ou o que restaram delas.
A mente da pequena personagem principal com botas brancas sujas de lama é criativa, mesmo que a sua vida seja de luta. Sua imaginação é uma válvula de escape para a realidade difícil, e é devido a essa imaginação fértil que torna o filme fantasioso, como os gigantes javalis que confrontam a nossa jovem heroína no final, ou os diálogos imaginários com a mãe, sempre em situações de extremo desconforto. O filme tem a possibilidade de várias leituras, uma delas é de um futuro próximo, ou dos dias dos quais já vivemos, em que a força da natureza impera diante à indiferença humana.
A "banheira" fica ao sul das cidades, longe do limite de segurança estipulado, do lado de fora dos grandes muros de contenção. Para a sociedade remanescente, estas pessoas são inferiores, problemáticas e passíveis de caridade. O contrário do que pensam, estas pessoas se sentem livres e felizes com o que tem, diferente dos da cidade que se preocupam apenas com seus umbigos e presos pelo concreto que os cercam. A esperança neste longa é palpável, a vemos nos olhos da garotinha, na força das pessoas, e principalmente, no final em que elas fogem do centro comunitário. Eles não querem ser o excremento da sociedade, esta que se gaba quando ajuda uma dezena de pobres, eles querem ser livres para poderem reerguer suas formas de vida. E isso ninguém pode tirar, está na alma de cada um daqueles habitantes, está na imaginação de Hushpuppy, está no lugar devastado. Essa é a vida deles.

A separação de castas é talvez o grande ponto a ser analisado, para a sociedade, estes indivíduos estão errados, pois eles correm o risco de perder a vida a qualquer momento. Já para eles, esta é a única opção digna de existência, pois ter um teto sobre a cabeça é algo importante. Fora dali eles viverão e se sentirão à margem de tudo, totalmente esquecidos.
A sociedade em geral precisa parar de querer saber o que é melhor para todos, pois o que eles apresentam como realidade a uma comunidade carente é algo superficial, o certo é deixar que eles escolham a forma de viverem, afinal há formas de vida das quais cada um sabe viver, como os habitantes da "banheira", que se preocupam com o básico, o teto, a comida e o nível da água. Cada um sabe o que precisa para ser feliz.
O que fazer quando se nasce sem alternativas? Sonhar, cultivar a esperança e ter instinto de sobrevivência, isso nossa pequena heroína nos mostrou muito bem em suas narrativas de reflexão.

Quvenzhané Wallis fez um trabalho digno de aplausos, a câmera sempre muito perto do rosto dos personagens nos dá a impressão de estar ali juntos, vivendo e torcendo, principalmente, por Hushpuppy com sua força, imaginação e esperança.
O ritmo é lento, é um filme contemplativo que serve para gerar discussões e não para dizer o que está certo ou errado. É uma obra singular, da qual se tem várias leituras e se faz indispensável para quem ama cinema.

"Vejo que sou uma pequena peça de um grande universo. Então sinto que assim deve ser. Quando eu morrer, os cientistas do futuro vão encontrar tudo isto. Vão saber que existiu uma Hushpuppy que viveu com seu pai na banheira."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bel Ami: O Sedutor (Bel Ami)

"Bel Ami" (2012) é um filme mediano e que traz Robert Pattinson no elenco, assim como em "Cosmopolis" do renomado Cronenberg, Pattinson está diferente, mas não o suficiente. Por enquanto ele é apenas um chamariz para as produções. Porém, não é de todo mal, ele está fadado a aguentar críticas violentas a sua expressão facial e seus trejeitos que volta e meia aparece, mas há esperança de que ele desencadeie uma carreira boa paralela ao estrondoso sucesso da saga Crepúsculo, isso se algum diretor acreditar de verdade e fazer com que tire do âmago seu talento.
"Bel Ami" é uma adaptação do clássico romance de Guy de Maupassant, escrito em 1885, ele fala de uma época onde a arte de seduzir, de intrigar e de manipular dados é a maneira mais eficaz para conseguir a ascensão social.
Georges Duroy (Robert Pattinson), é filho de um camponês e ex-soldado que passa por dificuldades na cidade de Paris em 1890. Ele não tem dinheiro, instrução ou classe, apenas guarda ressentimento de todos aqueles que possuem mais do que ele. Uma noite reencontra um velho amigo do tempo do exército, Forestier (Philip Glenister), que convenientemente é editor de um jornal sobre política na cidade. Condoído ao ver seu colega em tão deplorável estado, o editor lhe dá dinheiro para comprar vestes novas e o convida para jantar em sua casa, na esperança de oferecer-lhe um emprego melhor do que ele tem agora. E assim, Georges vai e conhece as mulheres mais influentes de Paris, Madeleine (Uma Thurman), Clotilde (Christina Ricci) e Virginie (Kristin Scott Thomas). Georges vê nelas seu passaporte para a felicidade e seduz todas, uma de cada vez, e as usa conforme lhe é conveniente. Por exemplo, ele consegue um excelente emprego no jornal, graças aos artigos que Madeleine escreve e nos quais ele apenas assina. A frase: "As pessoas mais importantes de Paris não são os homens poderosos, mas sim, suas esposas". Certamente é o grande ponto do filme.
O livro é muito mais denso e foca nas tramoias políticas da época, imprensa sensacionalista, a sede pelo poder através de modos mais cômodos, esses temas rodeiam o filme o tempo todo, mas de modo superficial, nos deixando sem saber por completo o que está acontecendo, o roteiro preza mais nas conquistas do rapaz, pulando de mulher em mulher, ao que lhe convém, usa de sua jovialidade, sua beleza e dá o bote em mulheres aparentemente insatisfeitas ou predispostas a serem amantes.

"Bel Ami" não ajudou muito Robert Pattinson a se livrar do esteriótipo de galã de adolescentes, o subtítulo empregado também não ajuda muito na seriedade do longa. Bel Ami em francês significa, o bom amigo, assim como o definem as mulheres das quais ele busca ascensão. É um longa correto, elegante, até pomposo, mas raso, não dando a profundidade da qual o livro tem. A história envolve o espectador, mas de modo corrido, tudo acontece sem mais nem menos, e do nada o filme acaba. Vale ver as excelentes atuações de Uma Thurman que faz uma mulher sensual e inteligente. Kristin Scott Thomas esbanjando charme pelo olhar, é uma senhora distinta que perde a compostura diante ao rapaz sedutor. Christina Ricci é uma mulher sensata, compreensiva e que ama Georges de verdade. As três são perfeitas em cena, colocando em evidência sensualidade e sutileza.
Georges usa as mulheres para alcançar o poder, mas a história fica somente na parte prática, onde ele as leva para a cama, o jogo político envolvendo o jornal fica de lado e por isso mostra-se uma obra não inteligente. É um filme acessível, tem seus pontos fortes, mas ao todo não convence.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cosmópolis

Robert Pattinson talvez se livre do carma de ser ídolo teen daqui a algum tempo, isso se ele escolher bem os filmes que irá atuar, falo isso porque simpatizo com sua figura excêntrica e vejo que ele ao contrário de Kristen Stewart se esforça para se diferenciar de algo tão marcante como foi a tal saga vampiresca.
"Cosmopolis" é o retorno de Cronenberg as suas origens e aos seus filmes mais experimentais. É um longa difícil, confuso e de imediato a única sensação que gera é a de cansaço psicológico para tentar entender a história.
É um dia decisivo na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), o menino de ouro das especulações monetárias que fez fortuna analisando projeções do mercado financeiro e administrando-as com especial aptidão. Agora, aos 28 anos, Packer esbanja uma estabilidade desconcertante numa Nova Iorque assolada pelo caos e mastigada pelo capitalismo. O jovem empresário decide cortar o cabelo. Apesar de poder resolver a questão sem precisar de nada mais do que um telefonema, decide atravessar os dez quarteirões que separam seu apartamento da barbearia, em Manhattan, a bordo de sua luxuosa limusine, acompanhado do chefe de sua segurança, Torval (Kevin Durand), e do seu motorista, Imbrahim (Abdul Ayoola).
Essa escolha terá implicações das mais sérias na vida de Packer. Devido a uma visita do presidente dos EUA e da morte de um famoso rapper, o trânsito da cidade está caótico. Não bastasse, ainda por conta da visita do presidente, um grupo de anarquistas toma as ruas em protestos agressivos. Por tudo isso, o protagonista gasta um dia inteiro para fazer o percurso pretendido. A limusine é o cenário principal, o filme é marcado por longos diálogos filosóficos que às vezes nem tem a ver com os personagens. Nesse ambiente, por causa de uma manobra mal projetada, vemos ruir o império do jovem bilionário. Ele fez uma aposta contra o yuan, tudo lhe diz que a moeda chinesa não deve ultrapassar um dado patamar. Ele apostou tudo o que tinha e o que não tinha, e parece indiferente ao risco. Afinal, o que significa o dinheiro para quem já o tem? Poder, e quando se tem o poder a única coisa que resta é conseguir mais e mais poder. Packer não sente, não compreende o significado das coisas, ele é capaz de tudo, pois nada tem importância. A última sequência do filme é o melhor momento, um embate entre Packer e Benno Levi (Paul Giamatti), um antigo funcionário de Eric que por não conseguir acompanhar os avanços que o jovem incorporou ao mercado financeiro, foi relegado à mais profunda miséria, fazendo do desejo de matar o ex-patrão o mote de sua desnecessária vida.

O longa não anda agradando muito o público e tem criado opiniões diversas entre os críticos, de fato é inclassificável e perturbador. Esse é o tipo de filme que daqui algum tempo será adorado e intitulado como cult.
As cenas do filme por vezes são sem sentido, impossível querer entendê-lo sem dar um nó na cabeça e queimar uns neurônios. "Cosmopolis" é uma adaptação feita por Cronenberg do romance do dramaturgo norte-americano Don DeLillo. O capitalismo, o excesso e a acumulação de riquezas são tratados de maneira filosófica pelos personagens, o que torna um pouco enfadonho para quem o assiste, mas não se pode negar a originalidade da obra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark)

Selma (Björk) é uma jovem imigrante da Checoslováquia que se mudou para os EUA com o propósito de criar seu filho Gene (Vladica Kostic). Vivendo uma vida de pobreza, Selma trabalha em uma fábrica junto de sua melhor amiga Kathy (Catherine Deneuve) e vive em uma pequena casa alugada no quintal do policial Bill Houston (David Morse) e de sua esposa Linda (Cara Seymour). Desde pequena, Selma tem uma fascinação por musicais americanos, sendo que diversas vezes enquanto trabalha ela imagina fazer parte de um. No momento, ela se prepara para representar Maria em uma montagem de "A Noviça Rebelde". Infelizmente para Selma, se torna cada vez mais difícil operar as máquinas da fábrica e ensaiar seus passos de dança, pois ela possui uma doença degenerativa hereditária que a torna gradualmente cega. Sua amiga Kathy é a única que sabe deste fato, e faz o possível para ajudá-la. Em um momento de fraqueza, seu vizinho Bill lhe confidencia que está falido e que não tem coragem de contar à esposa. Selma então revela que tem economizado dinheiro durante anos para uma cirurgia que seu filho deve fazer para que não fique cego como ela.
Selma é bem-humorada, inocente e pura, vai até os EUA atrás de possibilidades, corajosa e forte ela guarda todo o dinheiro do seu suado trabalho para poder pagar a operação de seu filho, para que ele não sofra como ela. Ela se culpa por ter tido o garoto sabendo que herdaria sua doença. Mas ela esconde isso das pessoas, porém em um momento de confidências revela para seu vizinho, e este por sua vez, na ânsia de dinheiro e enganar sua mulher de que estava tudo bem, rouba todas as economias de Selma. Daí por diante a vida dela muda, já cega, perde o emprego, e quando descobre o roubo vai até a casa de Bill recuperar o dinheiro, mas o que acontece lá é um espetáculo horroroso do quão vil e nojento pode ser o ser humano. Desesperada ela age instintivamente e o mata. Por esta razão, Selma é julgada e condenada à morte. Enquanto está presa a espera de sua execução, apresenta-se um novo dilema: o dinheiro que seria empregado para pagar a cirurgia de seu filho pode ser utilizado para pagar um advogado que garante conseguir que ela não seja executada. Selma opta por aceitar a execução, assim permitindo que seu filho possa ver durante toda sua vida.
Os musicais, a grande paixão de Selma, é também seu refúgio. Ela sonha, se diverte, e por várias vezes a sua imaginação é exposta a nós. Os números de canto e dança repentinos são inseridos no longa justamente quando menos deveriam. Eles parecem surgir como uma explosão. Selma sentia-se bem sonhando estar em um desses musicais, no silêncio da prisão se deparou com o vazio e a escuridão da qual não queria enfrentar. Temos diversos sentimentos ao ver as reações da personagem, como no julgamento em que ela não revela a verdade, sentimos raiva, depois compaixão, pena, tristeza, e por fim, Selma nos surpreende.

Os musicais conforme o desenrolar do filme se tornam apoteóticos. A personagem não tem fôlego e não tem um final feliz como na maioria dos filmes hollywoodianos, a crítica aos EUA e ao sonho de ter uma vida melhor lá é totalmente nítido.
Björk recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes (2000), mesmo sendo sua estreia no cinema, mas declarou que devido aos seus desentendimentos com Lars von Trier e o cansaço gerado pela produção, jurou nunca mais aparecer em outro filme. Björk também escreveu as canções do filme.
"Dançando no Escuro" é pesado e arrebatador, é daqueles filmes que nos deixam em silêncio por alguns minutos após seu término.

"Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção, se deixarmos que seja."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fausto (Faust)

"Fausto" (2011), obra-prima do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1808, é um dos livros mais difíceis de ser digeridos. O diretor russo Aleksandr Sokurov tentou captar o ambiente de decadência moral e financeira que permeou a Europa no século 18, onde é ambientado o livro, para criar sua versão cinematográfica. O longa é o quarto segmento de uma tetralogia formada por "Moloch" (1999), sobre Adolf Hitler, "Taurus" (2001) sobre Lenin, e "Sol" (2005), sobre o imperador japonês Hiroito. Assim como o livro, o filme não é fácil, as dificuldades para assistir ao longa começam pelo incomum formato da tela que é quadrada com as bordas arredondadas. Além disso, as lentes utilizadas distorcem a imagem (ou como o diretor queria interpretar a realidade), deixando-a desfocada nas bordas. A diferente fotografia é mérito de Bruno Delbonnel.
O filme narra a história de Fausto, ávido pelos saberes do mundo, porém desiludido com a limitação dos conhecimentos de seu tempo. Fausto vai em busca de um agiota após ter seu pedido de ajuda financeira recusado pelo pai. O agiota vai se envolvendo maliciosamente com ele e, aos poucos, se revela Mefistófeles, o demônio. No decorrer da amizade que começa a surgir entre os dois, Fausto se apaixona por uma jovem, que acaba servindo como moeda de troca nas mãos do amigo satânico. Com a promessa de ganhar dinheiro, sabedoria e a mulher que ama, Fausto vende sua alma para Mefistófeles. Mas o demônio não é retratado como um ser chifrudo e assustador. Ele se assemelha muito a um humano, mas é deformado fisicamente, assexuado e com uma proeminente corcunda. Em uma das cenas mais fortes do filme, podemos vê-lo nu rodeado de mulheres, mas nenhuma delas, no entanto, parece se incomodar com o jeito repulsivo de Mefistófeles.
É um filme de linguagem poética e apesar de ser livremente inspirado na poderosa obra de Goethe, "Fausto" se torna um pouco mais palatável a pessoas não acostumadas ao cinema arte. Sokurov coloca seu foco menos nas consequências do pacto com o diabo e mais no processo de sedução. Margarida é o fruto do desejo de Fausto e ela se parece com a Vênus de Botticelli, tudo tem uma atmosfera etérea, como se no fundo os acontecimentos não passassem de sonho ou delírio do protagonista. A interpretação se assimila muito a do teatro, principalmente as cenas com o caricato Mefistófeles. Fausto é um homem com excesso de informação que busca por um sentido. Os diálogos são longos e carregados de referências filosóficas e indagações existenciais e ao final, Fausto não encontra qualquer resposta.

A cena inicial já é impactante tanto visualmente como psicologicamente, Fausto retira os órgãos de um defunto, na esperança de encontrar a alma humana. O interessante é o clima criado, a do fedor das ruas, das pessoas famintas, sempre sujas, a sensação de nojo consegue chegar até nós. "Fausto" tem uma premissa simples, mas o filme evoca o simbolismo do livro com algumas passagens intrigantes, como o espelho pendurado no céu, uma mulher que dá à luz um ovo e em seguida o come, e uma senhora que não tem outra função no filme que não a de seguir o diabo. Para prestarmos atenção a tudo que o longa quer nos dizer é preciso apreciá-lo de maneira minuciosa.
Para além da fotografia estonteante, incluem figurino e cenografia perfeitos em sua composição. O final gravado em meio a gêiseres vulcânicos da Islândia, é o ponto deste espetáculo lúgubre feito para inebriar. "Fausto" é um filme impressionista em sua execução. Sukorov já havia confessado em entrevista ter sido influenciado pelo pintor inglês William Turner (1775 - 1851), um dos precursores do impressionismo. Uma obra impecável que para os adoradores do cinema arte é indispensável!

"Temos necessidade justamente daquilo que não sabemos e sabemos aquilo que não sabemos utilizar."

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Deserto Interior (Desierto Adentro)

"Deserto Interior" (2008) de Rodrigo Plá, narra o caminho de expiação de Elias, um viúvo com vários filhos pequenos, que se isola da civilização e vai viver no deserto, dedicando-se à construção de uma capela a fim de obter o perdão de Deus. O filme transmite a experiência religiosa de um homem atormentado em suas crenças com uma profundidade incrível, uma beleza visual e uma narrativa interior poucas vezes vista no cinema mexicano.
Uma história cheia de metáforas e símbolos sobre a culpa, o fanatismo, a religião, a solidão e a loucura. Através de quadros pintados de forma rústica, Aureliano conta a história de sua família, predestinada a morrer por um pecado que seu pai cometeu. Com a guerra civil mexicana como pano de fundo, mostra toda a transformação de um homem cuja obsessão é obter o perdão de Deus, mesmo que para isso condene seus próprios filhos ao mais profundo confinamento. Elias cometeu um enorme pecado e crê que a fúria de Deus cairá sobre seus oito filhos, fazendo com que morram precocemente. Para se redimir, ele se isola da civilização e dedica a vida à construção de uma igreja. Aureliano (nome recebido em homenagem ao seu irmão assassinado) é vulnerável, ele retrata a saga familiar em pinturas religiosas, Elias acredita que seu filho mais novo será o primeiro a morrer. Mas Aureliano e seus irmãos percebem que o pai culpa a Deus por não conseguir perdoar a si mesmo e aos outros. No entanto, são os erros de Elias e não a vingança divina que muda o curso dos eventos. Pelo menos é o que alguns de seus filhos acham, pois ele culpa Deus pela sua incapacidade de perdoar os outros, e, acima de tudo, a si mesmo.
O diretor foi instigado a fazer o filme depois de descobrir os diários do filósofo Soren Kierkegaard, que descreve o seu medo de ser condenado pelo seu pai a uma morte prematura. Eventos ocorridos durante o século 20 ajudaram o cineasta a transferir a história de um protestante para a cultura católica mexicana e, num contexto histórico, fazer um registro audiovisual de um tipo de insanidade religiosa.
O deserto simboliza uma espécie de busca interior ou exterior, simultaneamente um local de tentação e um meio ideal para a obtenção da salvação divina da alma. Uma das simbologias do deserto na cultura cristã, das mais frequentes que se podem encontrar na Bíblia, é a de um lugar afastado de Deus e propício à tentação pelo demônio, Cristo foi tentado no deserto, Santo Antão também nele foi assediado pelos demônios e nele o povo de Israel foi castigado. Mas o deserto é o local escolhido pelos eremitas para se encontrarem com a sua própria natureza e com o divino. São João Batista também escolheu o deserto para pregar a para anunciar a vinda do Messias e aqui o local demonstra ser propício a profecias divinas. No Apocalipse, o povo de Deus refugia-se no deserto onde Deus lhe assegura proteção e alimento. A diferença essencial parece estar na presença e na ausência de Deus, já que o deserto com Deus é positivo e sem Deus é negativo ou estéril. Sendo assim, não há dúvidas do poder simbólico desta obra de Rodrigo Plá, consequentemente levando-nos à reflexão.

No meio do deserto, Elias e as crianças tentam ganhar o perdão de Deus construindo um templo. Aureliano tinha sido criado com a ideia de que ele estava doente, então ele não podia sair do quarto e sua única forma de sair era entrando em um velho baú. Elias é o símbolo de culpa, o criador e receptor de uma maldição, onde carrega o peso da morte sobre seus ombros sem poder se livrar dela. Sua vida tinha sido condenada ao horror de ver os seus filhos morrerem antes dele. Desde então, o homem totalmente miserável e cheio de culpa ficou fechado a qualquer possibilidade de ser perdoado por Deus, apesar de tentar provar sua fé. A culpa envenenou a cabeça da família. A maldição que ele criou. Elias realmente matou seus filhos, mas não a um suposto pecado que cometeu, mas porque ele próprio se condenou. O longa é dividido em quatro partes: a culpa, a penitência, o sinal, e o perdão... que nunca chega. Conhecemos a miséria desses personagens. Elias em sua convicção e fanatismo criou a sua própria destruição e a de sua família.

A obsessão de Elias contaminou e destruiu seus filhos, a maldição estava apenas em sua cabeça. A espera pelo sinal divino que não vinha, e por causa de sua cegueira religiosa não percebia que quem não perdoava era ele próprio e não Deus. Ele estava imerso em seu deserto interior, onde só existia dor, culpa, e por fim, a loucura.
O filme termina com uma poderosa frase de Nietzsche: "O deserto cresce, aí daquele que dentro de si, cobiça desertos."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori)

"Floresta dos Lamentos" (2007) dirigido pela excelente Naomi Kawase, que sempre retrata temas altamente pessoais com uma intensidade particular, em seus filmes observamos ciclos da existência, as recorrências da velhice e juventude, e sobretudo, a morte. Com longos planos e grandiosas panorâmicas em impressionantes locações reais e naturais.
Esse belíssimo filme reflete a dor da perda e, de algum modo, como absorvê-la. Em japonês "mogari" designa tanto "um período de luto" como "o lugar do luto". Rico em significados, impossível ficar indiferente a esta obra.
A experiência é representada na figura de Shigeki, um idoso um pouco senil, que vive numa casa de repouso em região rural, e Machiko, uma jovem que trabalha na instituição. Entre os dois, paira o fantasma de Mako, mulher de Shigeki morta há 33 anos. A precisão do número se justifica por um diálogo que nos revela que, ao se completarem 33 anos da morte, a pessoa torna-se buda e deixa de perambular pelo reino dos vivos. A princípio, Machiko (Machiko Ono) não sabe chorar a sua dor. Depois de perder um filho, ela vai trabalhar em um asilo de idosos no meio do campo. Lá passa a cuidar de Shigeki (Shigeki Uda), que precisa de cuidados como uma criança. É por instinto, mais do que necessidade, portanto, que a enfermeira e o velho se aproximam. No dia do aniversário de Shigeki, Machiko o leva para passear de carro. No caminho o carro quebra e enquanto Machiko corre atrás de ajuda, o Sr. Shigeki vai até a floresta. Machiko ao voltar vai procurá-lo desesperada e ao encontrá-lo os dois se perdem no interior da floresta.
O filme nos permite adentrar juntamente com os personagens, a água, a lama, as flores, as árvores e a música. Trata-se de um instante sublime, em que nos libertamos do realismo para embarcarmos num ritual pagão, no qual Kawase celebra a eternidade. O perambular pela floresta retrata um processo de elaboração do luto, de catarse, travessia de um terreno cheio de obstáculos, solidão, confronto de medos externos e internos.
É uma narrativa simples carregada de força. Dentro da floresta os personagens perdem suas identidades e mergulham numa espécie de experiência quase tátil. Lá os dois se protegem e cuidam um do outro. As cenas são dotadas de beleza poética e densidade emocional, o silêncio é o caminho para o fim do luto. A natureza é a personagem de maior força, ela exerce o poder de redenção e o alívio da dor.

É um filme transcendental, com um sentido quase místico em que a natureza produz poderosa ação sobre o homem, e a cena final diz muito sobre isso, ao filmar as copas das gigantescas árvores da floresta. Daí cabe a cada um sentir sua própria emoção e tirar dela uma percepção. É de uma grandeza sutil e muito simbólica. O resultado talvez, não seja momentâneo, mas aos poucos e com o passar do tempo fará algum sentido. Poucos filmes conseguem atingir este patamar, que costumo classificar como espiritual.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker)

"O Milagre de Anne Sullivan" (1962) é um filme esquecido no tempo, mas de grande relevância em seu conteúdo. Uma lição para toda a vida. Grandioso e de uma carga emocional raramente vista no cinema. E isso se deve as atrizes Anne Bancroft e Patty Duke completamente devotadas a suas personagens.
Baseado no livro autobiográfico "The Story of my Life" de Helen Keller, "O Milagre de Anne Sullivan" é um grande clássico do cinema americano. Realizado pelo cineasta Arthur Penn, o filme é comovente e retrata a luta pela vida, nesse caso, contra a adversidade. Em 1887, no Alabama, a jovem Helen Keller, cega, surda e muda desde a infância, devido a uma congestão cerebral, está a ponto de ser enviada para uma instituição especializada em doentes mentais. Sua falta de habilidade para se comunicar a deixou frustrada e violenta. Desesperados, seus pais procuram ajuda junto ao Perkins Institute, de Boston, que lhes encaminha a jovem Anne Sullivan para ser tutora de sua filha. Anne acabara de concluir seu curso, de modo que Helen será sua primeira aluna. Em sua incansável tarefa para tentar fazer com que Helen se adapte e entenda, pelo menos em parte, o mundo que a cerca, Anne não se mostra condescendente nem a trata como uma pessoa deficiente. Com essa atitude e determinação, entra muitas vezes em confronto com os pais de Helen, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram. Por várias vezes, o pai a ameaça de mandá-la embora. A situação chega a tal ponto que Anne diz que, para seu trabalho apresentar bons resultados é preciso que ela e a menina passem a morar sozinhas numa outra casa da família.
Os pais de Helen não a ensinaram a se comportar, nem nada, era realmente um bichinho selvagem, Anne tem toda a paciência, mesmo sendo ríspida e não demonstrando amor, inclusive várias cenas é como se estivesse domesticando um animal, com lutas corporais de cansar o espectador. Anne precisava ensinar Helen comer do próprio prato, com talheres e dobrar seu guardanapo, a maneira grossa de ensiná-la fez a menina pegar ódio de Anne, e a reaproximação levou um certo tempo. Helen não sabia absolutamente nada, não tinha ideia de mundo, quando ensinado a linguagem de surdos e mudos, Helen tocava as mãos de Anne e imitava-os, mas ela não tinha noção do que aquelas palavras significavam. A cegueira mental de Helen era o seu maior problema.

É evidente que conquistar a confiança de um aluno pela afetividade é mil vezes melhor do que pela rigidez, mas no caso de Helen, que era muito mimada pelos pais, tratada com piedade, não era exatamente por esse caminho que ela iria aprender algo.
Anne teve um caminho difícil até ali, órfã foi mandada para uma casa de deficientes quando criança, onde morou por muitos anos. Essa experiência foi extremamente marcante em sua vida. Anne Sullivan conseguiu estudar, formar-se e tornou-se uma referência no ensino de pessoas com deficiência, ela nunca se deparou com um laço afetivo, e isso foi crucial no método que adotou. A disciplina era ponto fundamental, porém ela sabia que a obediência não era suficiente. Era preciso muito mais. A ideia de estar no mundo. De saber estar presente nele. A gratidão ao final exposta pela garota por Anne ter tirado a venda dos seus olhos e ter descoberto as belezas da vida é muito bonito. Quando ela conseguiu associar palavras a seus significados, foi o milagre. Ela tocando a água desesperadamente entendendo que aquilo era água, a terra era terra, a árvore era árvore. É extremamente emocionante, de uma beleza sensorial magnânima.

Quando crianças começamos a descobrir as palavras, associando-as vem o deslumbramento diante o mundo, perdemos isso com o tempo, pela falta de interesse por ele, sem ao menos nos darmos conta que este mundo nos chama para que o conheçamos mais e mais. O impactar-se, emocionar-se com nossas experiências, sentir a essência da vida. Por isso, esse filme é tão especial, não só didaticamente, mas filosoficamente, por falar da vida e de seus esplendores. É triste saber que um filme desse está esquecido no tempo, assim como nossos deslumbramentos perante a vida.
"O Milagre de Anne Sullivan" tem um enorme valor social. Helen Keller é muito mais que uma história de superação, ela demonstra esperança e humanidade, saída da escuridão total para se tornar uma pessoa exemplar. Helen se tornou escritora, com um diploma de bacharel em artes, lutou pelo voto feminino e pelos trabalhadores e deficientes. Ela morreu em 1968.
É muito importante que trabalhemos a nossa linguagem e a comunicação, pois só assim nos conheceremos plenamente gerando liberdade e amplitude. Há tanto para se aprender, para se resgatar e sentir. Pena que a maioria dos seres humanos pareçam apenas animais domesticados sem entender direito o que representa para si e para o mundo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop)

A história é sobre três irmãs que habitam uma casa de campo no século XIX. Agnes (Harriet Andersson), Karin (Ingrid Thulin) e Maria (Liv Ullmann), elas são o retrato do desamparo e do desencanto, traduzido em olhares perdidos, choros incontidos e gestos extremos. A primeira está muito doente e carece de cuidados especiais, ainda que, no atual estágio de sua enfermidade, eles sejam apenas paliativos. As outras duas são confrontadas com a dor da existência em um alto grau ao lidar com essa situação difícil. Ao se deparar com a agonia dos últimos dias de Agnes, Karin e Maria também refletem sobre suas próprias vidas, seus matrimônios, suas inseguranças e infelicidades. E a morte de Agnes acaba aproximando as vidas separadas de suas irmãs.
Ingmar Bergman, diretor de "Gritos e Sussurros" é conhecedor da alma humana e imprime de maneira desconcertante isso em seus filmes, ele é adorado e respeitado pelo público e ícone do cinema arte. Nesse o clima é tenso e desconfortante, as mulheres revelam desesperos contidos, amarguras, tristezas, e isso tudo é exprimido pelos rostos em close, marca de Bergman. A cena em que Maria tem seu rosto analisado diante do espelho (identificado à câmera, para a qual ela olha) por seu amante (o médico interpretado por Erland Josephson) é de uma agressividade e um sadismo incríveis: ele associa cada vinco e cada ruga de Maria ou a um defeito dela ou a um percalço vivido. Tudo em sua mise en scène é questão de coreografia, decoro, posicionamento e movimentação de corpos em um espaço minuciosamente arquitetado. A cor vermelha sempre presente é a dor que permeia o espaço, e aquelas mulheres. Também a cor do sangue, da paixão e o da própria alma. As mulheres enigmáticas e fantasmagóricas vagueiam em vestidos e camisolas de um branco atordoante. A relação entre Agnes e Anna, a empregada que perdeu sua filha recentemente é carinhosa e muito maternal. Muitas vezes ela a pega como se fosse um bebê, a sua dedicação é incansável.
Há sequências de sonhos e flashbacks que estabelecem como o passado e o presente se sobrepõem, ao mesmo tempo que oferecem uma explicação para a evidente paralisia emocional. Bergman, porém, raramente contemplou um mundo sem esperança e o filme termina com um doce sorriso. "Fomos até dar uma pequena caminhada. Foi um acontecimento e tanto (...). Toda a minha dor foi embora. As pessoas de quem eu mais gosto estão comigo (...). Pensei: Isto é realmente a felicidade."
O ser humano guarda muitos segredos consigo mesmo, e como a alma é complexa, somos capazes de ser cruéis conosco, nos mutilamos interiormente, cultivamos ódio, uma espécie de amargura que só tende a crescer, e eis o vazio existencial. Velamos ele no dia a dia, damos nossos sorrisos forçados, olhamos de forma cínica quase sempre ironizando a vida. É incrível, pois a alegria está na nossa frente e quase nunca a enxergamos, está em pequenos momentos que deveriam ser a alavanca que nos impulsiona e que nos faz respirar a vida novamente. 

"Gritos e Sussurros" é uma experiência sensorial, ele se desenvolve nas entrelinhas, e cada um interpreta à sua maneira, mas é inevitável não nos colocar por vezes na situação dessas personagens, que entre gritos e sussurros apresentam seus fantasmas interiores.
Acima de tudo propõe que pensemos ao menos um pouco, que viver vale a pena, mesmo que seja em um breve momento de alegria e paz, pois a morte é como um jogo de xadrez, cuja única opção que temos é adiar a derrota.
O filme se traduz em emoção, em cada olhar, expressão, maneira de andar, são os detalhes que nos faz compreender aquelas mulheres. O longa deve ser admirado da mesma forma que se aprecia um quadro, com precisão e profundidade. São sentimentos traduzidos em imagens, que por vezes gritam e que por vezes são silenciosas.
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