terça-feira, 28 de março de 2017

Us (Vi)

"Us" (2013) é um drama sueco dirigido por Mani Maserrat Agah que retrata com maestria um claro exemplo de relacionamento abusivo, a anulação da mulher diante de um homem passivo-agressivo; expõe o como é tênue a linha que separa o amor da possessividade e todo o estrago psicológico que esse tipo de relação causa.  
Ida (Anna Astrom) é a nova professora da escola onde Krister (Gustaf Skarsgård) trabalha, logo que entra na sala de professores ela chama sua atenção, quando Ida tem dificuldade em controlar seus alunos adolescentes Krister entra em cena e coloca ordem, é o início de um tórrido romance.  Os dois embriagados de paixão decidem morar juntos mesmo sem se conhecerem muito bem, mas Krister dá segurança e amor para Ida, que aparentemente é mais frágil e insegura. Algumas situações embaraçosas começam a aparecer e depois que Ida sai com Linda (Rebecca Ferguson) e passa a noite bebendo, as coisas começam a desmoronar, porém Krister exibe uma faceta preocupada e diz que Linda não é o tipo de amizade certa para Ida, daí pra frente tudo piora e vira um inferno, ao mesmo tempo que são loucos de amor se sufocam nesta luta de poder um sobre o outro.
Krister é sério e mantém uma postura de protetor, Ida é linda, jovem e repleta de oportunidades, mas a sua insegurança acaba deixando que a pressão psicológica que ele faz a domine, a moça se torna completamente infantilizada, se torna confusa não sabendo seu lugar na relação. É o tempo todo Krister tendo ataques de ciúmes, dizendo que isso ou aquilo não serve para ela e Ida se deixando consumir pelo fato de amá-lo. É impressionante o tanto que se pede perdão entre eles. Angustiante observar a construção de um relacionamento abusivo, o elogio camuflado, as atitudes "amáveis" que acabam direcionando o outro a fazer escolhas conforme o desejo do parceiro, tudo em "prol" da relação, deixar de ver amigos porque não prestam, e daí para a anulação é apenas um passo. Ida se transforma conforme a manipulação psicológica aumenta, ela se anula e entra num processo de caos interno.
O roteiro é incrível e nos faz mergulhar nesta intensa relação, há cenas visualmente muito bonitas, as de sexo no início do longa, por exemplo. Os atores se entregam e passam toda a verossimilhança necessária, Gustaf Skarsgård (o Flóki, de Vikings), incorpora exatamente a personalidade de um passivo-agressivo, suas reações, olhares, comportamento e diálogos exprimem com perfeição. 

Anna Astrom dá vida a uma moça doce que tem tudo para ter um futuro promissor, machuca ver ela se encolhendo diante a tanto sofrimento impingido, ela vai aceitando tudo por causa do amor, mas chega um momento que não aguenta mais, não tem como suportar e então uma atitude precisa ser tomada.
"Us" é um longa que incomoda e traz um tema pertinente que demonstra com toda a eficácia o que é um relacionamento abusivo. A pessoa que está vivenciando esse tipo de relacionamento quase nunca percebe que está dentro de um, pois crê que está retribuindo amor cedendo as vontades do parceiro. Cria-se uma dependência extrema, por isso é tão difícil identificar e tão mais complicado sair. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Virgem Juramentada (Vergine Giurata)

"Virgem Juramentada" (2015) dirigido pela estreante Laura Bispuri traz à tona um tema interessante e curioso, estrelado magistralmente pela italiana Alba Rohrwacher (Corações Famintos - 2014), acompanhamos uma história calcada numa tradição albanesa que de acordo com as regras do Kanun - um código de conduta que foi passado verbalmente entre os clãs do norte da Albânia durante mais de cinco séculos - a personagem promete a virgindade eterna e se transforma num homem para garantir mais direitos e mais liberdade em sua aldeia. Só que anos mais tarde confusa com a sua sexualidade decide partir para Milão e se lançar às redescobertas de si mesma.
Hana é uma órfã que foi encontrada e adotada por uma família nas montanhas albanesas, ao crescer ela sente a rigidez desses códigos patriarcais, não se encaixa no contexto e deseja ter mais liberdade, então para poder caçar, beber, fumar, conversar em público, coisas consideradas masculinas toma a decisão de se tornar uma burnesha, diante de alguns homens mais velhos acontece o ritual, Hana corta seus cabelos, coloca suas vestes masculinas, recebe seu rifle e se batiza de Mark. Ela vive mais de 10 anos em plena solidão nas montanhas, rejeitando toda forma de amor. Mas algo ainda irá despertar sua vontade de mudar de vida.
Pode parecer absurdo, mas foi uma necessidade social, a localidade foi assolada pela guerra e muitas mulheres tiveram que tomar a frente para sobreviver e como elas não tinham direito algum recorriam ao Kanun, em outros casos para não serem obrigadas a se casarem escolhiam essa alternativa, que se trata de um conjunto de códigos determinados e que nada tem a ver com religião.  
A trama começa de fato quando Hana vai embora e se encontra com Lila (Flonja Kodheli), sua irmã, que fugiu para se casar com o homem que amava, o encontro se dá de maneira silenciosa e a protagonista vai ganhando profundidade à medida que a descobrimos, o desenvolvimento do filme ajuda neste ponto, pois se alterna entre presente e passado vagarosamente, colocando em evidência os contrastes entre o mundo moderno e o arcaico. A interpretação de Alba é melancólica e silenciosa, sua postura corporal arqueada traduz seu deslocamento, está magnífica em cena e tem o poder de nos fazer imergir em seu drama.

A chegada de Hana/Mark à casa da irmã não é bem vista por Jonida (Emily Ferratello), a filha adolescente, que é totalmente solta em dizer o que pensa e confrontar os pais, eles dizem que Mark é um primo distante, mas a garota começa a questionar e é ela que a ajuda nesta jornada de descobertas sexuais, diariamente Hana acompanha Jonida aos treinos de nado sincronizado, o que a possibilita observar as variedades de corpos e se permitir a se olhar e a desejar. São momentos importantes para a desconstrução da personagem, a menina dá acesso para que Hana se abra para si e para o mundo.

"- Uma vez me disseram que somos mais livres do que pensamos.
- Livres de quê?
- Livres de sermos forçadas a fazer algo."

O filme é contemplativo, rico em detalhes e é neles que contém as maiores belezas, a redescoberta da protagonista é lenta e com a alternância de passado e presente compreendemos totalmente essa confusão vivida por Hana.
"Virgem Juramentada" é um filme interessante que traz questionamentos sobre gêneros, desconstrução e construção de identidade e evidencia uma tradição que está morrendo, hoje em dia existem cerca de 40 burneshas na Albânia.

terça-feira, 21 de março de 2017

O Apartamento (Forushande)

"O Apartamento" (2016) dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (A Separação - 2011, O Passado - 2013) é um filme que aborda com sensibilidade e também firmeza aspectos culturais e sociais do Irã, mas sem deixar de imprimir um olhar universal. 
Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam para um novo apartamento no centro de Teerã, devido a trabalhos perigosos em um prédio vizinho. Mas, um incidente ligado ao anterior inquilino vai mudar drasticamente a vida do jovem casal.
Emad é professor de literatura e também ator de teatro, atualmente ensaia junto de sua esposa, Rana, a peça "A Morte do Caixeiro Viajante", de Arthur Miller. As cenas do filme se mesclam com as do teatro no desenrolar e forma uma interessante intertextualidade, o fato é que Rana e Emad precisam se mudar, pois o prédio em que moram está prestes a desabar - uma metáfora para o que está por vir - com ajuda de um amigo encontram um apartamento, mas a antiga moradora deixou todas as suas coisas lá e muitas perguntas, o casal arruma o local e se estabelece até que um dia Rana deixa a porta aberta e é atacada por um estranho enquanto tomava banho, os vizinhos a socorrem e daí para frente dilemas morais entram em pauta, Emad se preocupa em saber quem é que cometeu o crime e o filme ganha contornos de suspense e uma grande tensão se instaura. Rana está completamente traumatizada e não consegue falar sobre o ocorrido, perceba que em nenhum momento a palavra estupro é mencionada, além de que Emad decide fazer justiça à sua honra, ou seja, a mulher em pedaços e que sofre em silêncio e é o marido, que sem nem sequer saber da amplitude do ato criminoso cometido contra ela e que fortalece a decisão de não dar queixa, se impõe e quer vingança. Uma ação egoísta e insensível, uma complexidade de sentimentos invade a tela e são os olhares que dizem a maior parte das coisas. 
Taraneh e Shahab interpretam de maneira naturalista e fazem com que penetremos na história, sentimos a dor de Rana e ao longo dos acontecimentos um grande mal-estar toma conta. Apesar de colocar em evidência aspectos culturais e sociais fortes do Irã, principalmente, no que concerne à religião, é absolutamente universal, pois muitas mulheres sentem medo, vergonha e até culpa em denunciar, o machismo está entranhado em todas as culturas, e em países como o Irã é ainda pior e devastador, por isso obras como esta são essenciais para refletir e quebrar paradigmas antigos.

As reações de Emad diante ao acontecido muda o como Rana o enxergava, de repente, ela não encontra mais seu marido amoroso, mas um homem perdido, sem saber como agir com ela e apenas preocupado com o julgamento das pessoas. Por conta da cultura, por exemplo, denunciar à polícia seria uma vergonha, agora enfrentar e expor o agressor diante a sua família seria um ato honroso, mas dá-se um emaranhado de situações que geram decisões espinhosas e tensas. 
Asghar Farhadi é mestre em elaborar histórias de conflitos de relação, ele tem um olhar apurado e promove reflexões contundentes de modo sutil, é realista e por isso impressiona.

O filme é fluído e muito desconcertante, especialmente em seu arco final, os olhares e mais ainda o silêncio fazem parte desta instigante história.
"O Apartamento" é uma obra que evidencia o ruir de um relacionamento, sentimentos confusos, decisões e suas consequências; o machismo, a insensibilidade e as hipocrisias. Não é fácil ser mulher no Irã, ou em qualquer outro ponto do mundo, como exposto no filme a mulher que sofre a violência sempre fica em segundo plano e praticamente encurralada.

sábado, 18 de março de 2017

Tokyo Fiancée

"Tudo que a gente ama vira ficção."

"Tokyo Fiancée" (2014) dirigido por Stefan Liberski é uma adaptação do romance "Ni d'Ève ni d'Adam" de Amélie Nothomb, acompanhamos a trajetória de uma personagem encantada pelo Japão, cheia de expectativas ela ruma para o país e está decidida a se tornar parte de lá, tudo é muito mágico, mas conforme vive o seu dia a dia e por conta de aspectos culturais a realidade vem à tona, a viagem a torna mais madura e percebe que nem tudo é como criou em sua mente.
Amélie (Pauline Etienne) nasceu no Japão e aos cinco anos mudou-se para a Bélgica, suas lembranças são recheadas de fantasia e acredita que seu lugar é lá, sonhadora e apaixonada retorna à Tóquio a fim de se tornar uma verdadeira japonesa. Decide dar aulas de francês para ganhar algum dinheiro e consegue somente um aluno, Rinri (Taichi Inoue), com quem inicia um romance. Um conto encantador sobre amor, ternura e descobertas culturais.
Rinri é apaixonado pela França e até tem um grupo de meninos dedicados ao estudo da língua e cultura, Amélie descobre isso muito tempo depois, engraçado ela imaginar que Rinri faz parte da Yakuza, o choque cultural é bem grande, mas os jovens se apaixonam e levam a relação com muita naturalidade e espontaneidade, são momentos delicados e doces, Rinri apresenta alguns traços da cultura tanto tradicional, quanto moderna e até bizarras do Japão, aliás, é de encher os olhos todos os lugares por quais passam. Após a relação ganhar contornos de namoro tudo começa a se transformar na mente de Amélie, enquanto Rinri a apresenta para sua família, lhe presenteia com joias e a pede em casamento, ela apenas quer viver sem amarras e então cai a ficha de que nunca será de fato uma japonesa.
Os dois se apaixonam, são encantados um pela cultura do outro, portanto, usam isso para entender melhor a diversidade cultural, no caso de Rinri nem tanto, até porque ela é belga e não francesa, há uma estranha e engraçada situação em que Rinri prepara um jantar em que estão todos os seus amigos da sociedade secreta francófona e Amélie entende que está assumindo o papel de gueixa ali, onde precisa entreter enquanto todos comem, então, ela disserta sobre os tipos de cervejas belgas que existem.

Destaque para as cenas em que Rinri aprende francês com Amélie e sua obsessão em pedir desculpas a cada erro, realmente à medida que se tornam mais íntimos fica evidente a distância que há entre os mundos de cada um, interessantíssimo observar e poder viajar nesta questão, a ideia que ela tinha sobre o Japão e toda a magia acaba se desfazendo quando sozinha percorre um caminho tortuoso para subir ao Monte Fuji. Logo depois o Japão é assolado pelo terremoto que atingiu terrivelmente Fukushima, Rinri pede que ela vá embora, em um dos diálogos alguém diz que somente os japoneses têm que lidar com tal situação, é uma coisa entre eles, e assim sem ferir sentimentos Amélie parte. 

"Aprendi que eu precisava me tornar todas as pessoas que eu era e todas que ainda não havia encontrado. Aprendi que eu era tão grande quanto a vida."

"Tokyo Fiancée" é um filme agridoce que passeia por vários gêneros e ganha pela naturalidade com que o romance é desenvolvido, mostra as expectativas fantasiosas quebradas quando de fato se vive no país e a beleza da diversidade cultural, que é singelamente exposta.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Depois da Tempestade (Umi Yori Mo Mada Fukaku)

"Depois da Tempestade" (2016) dirigido pelo mestre Hirokazu Koreeda (Nossa Irmã Mais Nova - 2015) é mais uma amostra da simplicidade, delicadeza e realismo do cineasta em colocar ênfase no cotidiano dos conflitos familiares. A história gira em torno das dificuldades de uma família que enfrenta morte, separação, vício, problemas financeiros, mas sem nunca perderem o bom humor e a esperança de reconciliação.
Ryota (Hiroshi Abe), no passado um autor premiado, desperdiça o dinheiro que faz como detetive particular em jogos de apostas e mal consegue pagar a pensão alimentícia ao filho. Após a morte de seu pai, vê sua mãe idosa (Kirin Kiki) e sua bela ex-mulher (Yoko Maki) seguindo em frente com suas vidas. Tentando se reconectar com a família, Ryota luta para retomar o controle de sua existência e para encontrar um lugar duradouro na vida do filho - até que uma noite de verão tempestuoso lhes oferece a oportunidade de realmente conectarem-se novamente.
A trama se passa em alguns poucos dias que precedem a chegada de um tufão à costa japonesa, Ryota aparece para visitar a mãe e tentar reconquistar a sua família, ele é um homem inteligente, mas, que aparentemente, herdado de seu pai o vício em jogos, o deixou afundado em dívidas, o pouco que ganha como detetive particular não garante nem a pensão do pequeno filho, o que o faz vê-lo pouco. Acompanhamos o dia a dia de mãe e filho e as várias tentativas de reconciliação com a rígida ex-mulher. Yoshiko encara a morte do marido com bom humor e abraça a última fase de sua vida, com o retorno do filho, ela consequentemente se lembra de seu marido que não era muito confiável. Ela é dona das cenas mais lindas e dos diálogos mais primorosos do longa, tem um sentido de praticidade e carrega uma desesperança bem-humorada. Atuação magistral de Kirin Kiki.
O desenvolvimento do filme é suave, não há melodramas apesar da tristeza, é a vida real retratada, com as suas dificuldades em lidar com o outro, nos obstáculos financeiros, no desenvolvimento como ser humano. Tudo é mostrado com total naturalidade, os diálogos passeiam por sutilezas, os gestos são contidos, mas os olhares são carregados de emoção. Yoshiko sente descontentamento pelas irresponsabilidades do filho, mas nunca deixa isso afetar o seu amor e a vontade de reconectar a família. Os valores importantes que Yoshiko preza fazem parte da tradição japonesa, mas que estão rompidos pela contemporaneidade e toda a influência que a globalização exerce sobre a identidade dos mais jovens. Yoshiko tem o hábito de observar a vida e diz muitas frases poéticas que na visão do filho são efeitos da velhice, então percebe-se o porquê não escreveu mais nada, Ryota não consegue mais prestar atenção nos detalhes, está tomado pelo desespero, pelo vício em jogos e por se aproximar de seu filho e reconquistar a sua ex-mulher.

A simplicidade de "Depois da Tempestade" é encantadora e causa um misto de melancolia e otimismo, isso é porque justamente retrata a vida, seus personagens são passíveis de erros, Ryota causa empatia por estar numa situação que qualquer um pode passar, seus sonhos estão quebrados, há um caos em seu interior, mas como o próprio título salienta, depois de uma tormenta sempre vem a calmaria para poder repensar e seguir em frente. 
A profundidade do filme está nas pequenas ações, em olhares e diálogos aqui ou acolá, Yoshiko é dona dos melhores, em uma das conversas que tem com o filho pergunta de que maneira prefere que ela morra, ou quando em frases soltas diz para ele enquanto mexe nas cinzas do incenso que precisa lidar com as pessoas enquanto vivas, são momentos cheios de significados e de uma intimidade delicada.

"Eu me pergunto porque os homens não conseguem amar o presente. Ou eles continuam perseguindo o que já perderam, ou continuam sonhando além do seu alcance."

"Depois da Tempestade" reflete o cotidiano das relações familiares com um humor sutil, tem uma trilha sonora interessante que dá um tom divertido, e brilhantes e sensíveis interpretações em que se destaca, especialmente, Kirin Kiki (Sabor da Vida - 2016).
Hirokazu Koreeda com simplicidade consegue incutir em seus filmes reflexões profundas acerca da vida, são obras realistas que expõem dramas cotidianos com melancolia e grande beleza, capazes de proporcionar ao espectador emoções e pensamentos engrandecedores.

terça-feira, 14 de março de 2017

Cegos (Blind)

"Cegos" (2007) dirigido pela holandesa Tamar van den Dop (Supernova - 2014) é um filme belíssimo que disserta sobre um puro e intenso amor. Será mesmo que o amor verdadeiro é cego?
Em uma mansão, Ruben (Joren Seldeslachts), um jovem cego e arisco, vive com sua mãe (Katelijne Verbeke). Esperando ajudar o filho, ela contrata Marie (Halina Reijn), uma jovem albina, como leitora. Com paciência, a garota consegue acalmar Ruben, sem imaginar o que virá.
Ambientada no final do século XIX, o que predomina nesta obra é a atmosfera gélida e melancólica, se assemelha a uma narrativa literária e fascina exatamente por conter esses elementos poéticos. Aliás, os livros são uma constante na trama, já que Marie lê para Ruben, inicialmente vemos um garoto agressivo, fechado em seu quarto inferniza a vida de sua mãe, que sem alternativas encontra o anúncio de Marie. Ela chega na casa, uma mulher albina, reprimida e enigmática, sua feição é estranha e a sua pele repleta de cicatrizes devido um acidente na infância, acompanhamos partes de quando era criança em flashbacks, instantes dolorosos que fazem com que compreendamos o porquê de algumas de suas atitudes. O fato é que Marie consegue acalmar com sua bela voz Ruben, e inebriado de paixão quer tocá-la, mas como um animal arisco ela foge. Com o passar dos dias a convivência se estreita e ambos apaixonados vivem momentos únicos. Complexada, Marie evidentemente mente sobre sua imagem para o garoto, ele a imagina diferente e quando toca em suas mãos diz que há flores congeladas nelas, o despertar sexual acontece e a mãe inconsolada com a relação pede ajuda ao médico da família, que diz que com os avanços da medicina é possível que Ruben volte a enxergar, o que deixa Marie triste e a faz fugir. A alegria de poder ver as cores do mundo contrasta com a tristeza de ter perdido seu amor, daí uma gama de reflexões surgem sobre o significado do amor em sua essência. 

"Ele sentou-se duro e frio no salão vazio e gelado. Ela o reconheceu logo de cara e se jogou em seus braços. Lágrimas escorriam por seu rosto vermelho e atingiam seu peito. Seu coração de gelo derretido. Ela beijou seus olhos, ele chorou. Ela beijou suas mãos, suas bochechas, e ele chorou de novo. Lágrimas lavaram a lasca de seu olho. Ele a reconheceu." 

Ruben se apaixonou por Marie, foi a sua voz, seu cheiro (algo muito evidenciado), esses detalhes únicos que imprimem personalidade, interessante quando volta a enxergar e a encontra e a reconhece justamente pelo cheiro, novamente entre os livros, numa cena lindíssima pede para que ela volte para ele, mas Marie resiste e não crê que com a sua aparência o amor continuará sendo tão intenso e puro. A carta que ela lhe escreve diz sobre isso e o desfecho não poderia ser mais clássico, porém com vários elementos peculiares que dão um tom especial. 

O filme é permeado por cenas estonteantes e interpretações de tirar o fôlego, os diálogos são escassos, mas bem pontuados, a atmosfera de sentimentos dominam a tela, e a trilha sonora erudita compõe perfeitamente o cenário.
"Cegos" é sensorial, poético, melancólico, trágico e expõe que o amor pode ser contaminado pelo que se vê, mas esse sentimento arrebatador sempre será indecifrável, nunca saberemos o porquê amamos e o que de fato é o amor.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Baba Joon

"Baba Joon" (2015) dirigido por Yuval Delshad traz como tema o conflito de gerações, a carga de preencher a lacuna geracional. Em um ambiente patriarcal onde não há espaço para anseios próprios o pequeno Moti luta para ter a sua individualidade e a sua independência. "Baba Joon" é um termo de carinho, uma maneira de expressar respeito ao pai e um apelido aceitável entre todos os homens de uma família tradicional iraniana.
Yitzhak (Navid Negahban) se orgulha em manter a fazenda de perus que seu pai construiu quando a família se mudou do Irã para Israel. Com seu filho, Moti (Asher Avrahami), prestes a fazer treze anos, Yitzhak espera que o menino aprenda o ofício e, no fim, assuma o negócio. Porém, o verdadeiro interesse e habilidade de Moti é a mecânica, reconstruindo carros antigos e caminhões. O filho não esconde seus desejos para o pai, o que gera um crescente conflito, pois Yitzhak vê a rejeição como um insulto a todos os valores que ele preza.
É natural que o pai se preocupe com o futuro do filho em qualquer parte do mundo, mas quando a figura paterna é demasiadamente forte dentro do ambiente familiar e o desejo da profissão de ser passada adiante predomina, acaba se tornando um grande obstáculo para a independência e o conhecimento de si mesmo. No filme esse dilema é ampliado, pois a família é de imigrantes e trata-se de honrar as tradições persas, de se firmar perante a sua comunidade. Yitzhak teme seu pai, o homem que construiu a fazenda de perus com as próprias mãos, um trabalho que será passado adiante para Moti, que não disfarça o seu repúdio para tal, o seu negócio é a mecânica, ele tem um talento nato para consertar e construir - a cena inicial exemplifica - o que não é apreciado pelo pai.
Quando a família se mudou do Irã para Israel, Yitzhak foi forçado a continuar o trabalho de seu pai, um homem que tem como base de vida as leis de sua religião, como agente catalisador surge Darius (David Diaan), o irmão de Yitzhak, que diante do contexto da época preferiu fugir para os EUA, claramente vemos Yitzhak se sacrificar em prol da família, mas isso não lhe dá o direito de privar seu filho da escolha, como seu irmão diz, o mundo mudou. 

Não é fácil para Yitzhak, porém ele precisa enxergar que o caminho do filho somente ele pode traçar, nesse ambiente dominado pelas figuras masculinas, Sarah (Viss Elliot Safavide), a mãe de Moti, surge de vez em quando e diz para o marido não ser tão rude, compreender o filho e para lembrar que também teve essa idade e não forçá-lo ao trabalho na fazenda.
As cenas em que aparecem os perus impressionam, principalmente quando os personagens adentram o celeiro e todas as aves levantam a cabeça juntas, e também quando Yitzhak tenta ensinar Moti a cortar o bico, angustiante tanto por parecer judiar do animal, quanto pelo sofrimento do menino.

Outro ponto surpreendente é o local de filmagem, nos arredores do deserto de Negev, fascinante o estilo naturalista, o que ajuda a dar um tom sóbrio à história mesmo tendo uma forte carga dramática.
"Baba Joon" é um belo e emocionante filme que levanta questões importantes sobre o conflito de gerações, e mais que isso traz um olhar de esperança, de mudança e amor.
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