quinta-feira, 25 de maio de 2017

Svenskjävel + Yarden (Filmes Suecos)

No post anterior indiquei dois filmes suecos que tratam da hipocrisia, do machismo e da influência e interferência que o meio em que se vive tem sobre as pessoas, neste post são mais dois filmes suecos, eles retratam um outro lado da Suécia, um país considerado perfeito, nestas histórias podemos observar o outro lado da moeda, que nem os países de primeiro mundo estão isentos de crises e jogos de poder entre ricos e pobres. 

"Svenskjävel" (2014) - seria algo como Suecos Bastardos, o título em inglês é "Underdog" - dirigido por Ronnie Sandahl é um drama sóbrio que retrata uma jovem sem perspectivas que sai da Suécia em busca de melhores condições na Noruega. Lá encontra apenas subempregos e discriminação. A sua classe social incomoda, a sua origem incomoda, as oportunidades são escassas e os outros se acham no direito de usá-la como querem. O filme não faz questão de explicar seu passado ou o porquê está nesta situação, há algumas pistas de vício em álcool, família disfuncional, então querendo fugir disso tudo migra para a Noruega com esperanças.
Como muitos jovens suecos, Dino (Bianka Kronlof) fugiu do desemprego em massa do seu país para tentar uma vida nova em Oslo, na Noruega. No entanto, logo ela se depara com uma espiral destrutiva, sobrevivendo com quase nenhum dinheiro, um trabalho irregular e noitadas. Dino é demitida após quebrar o braço e passa a trabalhar como empregada de uma casa de classe média, uma realidade muito distante dela. Durante algumas semanas do abafado verão, a garota se vê no centro de um estranho triângulo amoroso, em uma luta imprevisível de afeto e domínio.
Dino mora em uma espécie de república com inúmeros outros jovens que também se submetem a empregos que pagam pouco, vemos uma moça reclamando do como a chefe a explora e a humilha fazendo-a se sentir inútil no final do dia, Dino é quieta, solitária e gosta da noite, por causa de uma bebedeira e quebrar o braço perde seu emprego de garçonete e logo começa a trabalhar de babá na casa de Steffen (Henrik Rafaelsen), dono de um restaurante que vive um casamento conturbado, a esposa viaja a trabalho, faz grandes projetos e isso o faz se aproximar mais de Dino, que de repente se vê envolvida em uma relação amorosa e numa outra forma de vida. Ela é uma estranha ali, assim como a filha mais velha de Steffen, que aos poucos e silenciosamente cria um belo vínculo de amizade e admiração. Com o passar dos dias Dino sente-se à vontade na casa de Steffen e pela primeira vez experimenta o que é a liberdade, só que mais tarde isso se revelará num odioso jogo de poder. A discriminação é bastante evidenciada, a sua origem e a sua classe social em determinado momento são usadas de maneira jocosa pelos amigos de Steffen. Dentre todas essas questões de desigualdade e preconceito a história mesmo que sóbria e fria permite um olhar esperançoso, de que é possível encontrar seu lugar e dar vazão ao que se tem de melhor, Dino teve sua experiência e aprendeu, e isso é o que importa afinal.

"Yarden" (2016) dirigido por Måns Månsson retrata o fracasso e a dificuldade para sobreviver, a desumanização para garantir um pouco de dinheiro, a crise de desemprego é agravante e o personagem depois de sofrer por não conseguir sucesso e dinheiro com seu livro de poesias, decide abandonar essa carreira e se submeter a um emprego estafante em que pessoas são convertidas a números.
O sueco veterano do teatro Anders Mossling é identificado no filme como 11811, ele irradia melancolia e estoicismo, como o anti-herói sem nome, um pai solteiro de meia-idade, cujo trabalho como um poeta menor só o levou a pobreza e obscuridade. Após imprudentemente sabotar o que resta da carreira literária destruindo publicamente o seu próprio livro mais recente, ele é forçado a procurar emprego no The Yard (Yarden), um vasto armazém de alta tecnologia nas docas Malmö, onde 500.000 carros são enviados anualmente. Nesta visão duramente futurista do local de trabalho pós-industrial, os empregados são tratados como drones intercambiáveis com números em vez de nomes. O desvio menor do protocolo pode levar à demissão imediata por patrões sem rosto.
O personagem exibe uma faceta de cansaço e desesperança, a única coisa que deseja é poder sustentar seu filho adolescente, na fábrica em que a maior parte de trabalhadores são imigrantes existe uma lei da selva, há um bônus para dedurar colegas que roubam airbags e punições a qualquer deslize, cortes salariais por atrasos, sendo que o atraso provém da fila na entrada. A opressão patronal é exposta cruelmente retratando o tratamento insalubre que esses trabalhadores se submetem por não terem outras opções. 
É um filme seco e que carrega uma aura pesada e triste, Anders Mossling é o retrato de uma imensidão de pessoas que perdem a dignidade e que tem como única esperança um emprego degradante, pois é só isso que resta. O mais forte que abusa do mais fraco, o jogo de poder utilizado pelos mais ricos para continuarem mais ricos, isso existe em todo o mundo, até nos modelos mais perfeitos de sociedade, como a Suécia. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Flocken + Efterskalv (Filmes Suecos)

"Flocken" e "Efterskalv" são dois filmes suecos densos que dizem muito sobre a hipocrisia que reina no meio em que se vive, o primeiro retrata o machismo, o abuso à mulher e o segundo a reinserção de um adolescente acusado de um crime na comunidade onde mora, são duas histórias pesadas tratadas com seriedade e que nos mostra valores invertidos, influências, manipulação, julgamentos e o poder de interferência da população na vida de outros habitantes.
Assisti alguns filmes suecos atuais recentemente e percebi que há semelhanças entre os temas tratados, nestes dois a reação dos moradores em relação a assuntos como estupro em "Flocken" e crime e perdão em "Efterskalv". É o meio que se põe no direito de julgar, aliás, tanto um como o outro lembram "A Caça" (2012).
Coloca em questão o quão misógina a sociedade sueca é e também fechada para determinados assuntos, o que não deixa de ser uma desconstrução de um país considerado perfeito. Em outra postagem indicarei ainda mais dois filmes suecos que tratam de desemprego e imigração.

"Flocken" (2015) - na tradução literal rebanho - dirigido por Beata Gårdeler nos faz engolir a seco ao ver tanto machismo entranhado, inclusive nas mulheres, a insanidade e a hipocrisia coletiva dá enjoo.
A história baseada em fatos reais nos leva a uma pequena comunidade sueca que parece idílica, porém apenas na superfície. Quando Jennifer (Fatime Azemi), de 14 anos, afirma ter sido estuprada pelo colega de classe Alexander (John Risto), tudo muda. O rumor se espalha rapidamente e cada vez mais gente acredita que Jennifer está mentindo. É o início de um caso de perseguição de uma comunidade contra uma garota e sua família. Provas ou decisões da Justiça não significam nada em um lugar onde as pessoas estabelecem as próprias leis e regras. O mais importante é permanecer com o grupo. A população não acredita e se junta em favor de Alexander, ela sofre com comentários e é excluída do meio, na escola até suas melhores amigas se afastaram, uma delas até diz: você não está com cara de quem foi estuprada! E questionamentos do tipo aparecem: se foi estuprada por que demorou a dizer? 
Interessante observar que Jennifer é de uma família mais pobre e a mãe uma figura destoante daquele universo hipócrita, os moradores atacam e dizem que ela não presta por influência da mãe e essa espiral de ódio só cresce, o namorado da mãe de Jennifer que parecia ser o único a enfrentar quando se viu excluído abandonou-as. Alexander por ser de uma família mais rica e influente recebe o apoio e Jennifer fica encurralada, e o mais tenebroso é que mesmo a lei estando do lado da menina e condenando Alexander, o que importa ao final é o que pensa essa comunidade. O tom pessimista do final denuncia que situações como esta vêm acontecendo sem que nada se faça, pois se o agressor é amparado pela sociedade, a mulher se retraí e tudo continua na mesma, a consciência coletiva têm se modificado, o primeiro passo está sendo dado, mas o machismo entranhado é perigoso e é por isso que filmes como este são essenciais para a discussão e reflexão.

"Efterskalv" (2015) - na tradução literal depois do choque - dirigido por Magnus von Horn é um filme muito cru ao evidenciar a violência sofrida por John (Ulrik Munther) pela comunidade, o diretor faz questão de deixar a dúvida se ele de fato cometeu o crime, se é um ser humano sem empatia ou se num acesso de raiva fez tal besteira, isso nos coloca numa situação difícil, julgando suas atitudes a cada instante para tentar decifrar este enigma, a população desde o minuto que ele volta depois de passar alguns anos num reformatório o rejeita, o exclui de forma impiedosa, não dando a chance dele poder refazer sua vida. John sempre calado começa a frequentar sua antiga escola e não reage as investidas dos colegas, todos o olham com desprezo, na verdade a maioria tem medo e nem a diretora da escola o incentiva, mas ele segue sem se importar e conhece Malin (Loa Ek), uma garota que se destoa dos demais e se aproxima dele, aos poucos os dois criam uma conexão. A rejeição é tanta que isso acaba influindo no como o pai de John lida com a situação, realmente é difícil encarar o contexto do crime que descobrimos no decorrer, mas o filme coloca John em uma posição tão sufocante que fica impossível não refletir sobre o porquê de se apontar o dedo e dizer que tal pessoa não serve para viver dentro do mesmo ambiente, a violência que o menino passa é tão cruel quanto o ato que cometeu. 
É um filme seco, silencioso e que nos coloca na posição de observadores, a atuação de Ulrik Munther - astro pop da Suécia - é excepcional e transmite toda a repressão e também a ambiguidade do personagem, o crime não é a grande questão, mas a reintegração e o como o todo reage a isso, no caso de John a pequena comunidade o rejeitou e até chegou ao ponto de linchamento, o que cai por terra várias regras morais que esta pequena sociedade apontava, principalmente, quando na reunião de escola o pai do menino que bateu em John apoia a violência do próprio filho. É um exercício de reflexão contundente!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Indicações Musicais

Só para quem gosta de se aventurar em sonoridades diversas.

12- Rival Sons (EUA)
Formada na Califórnia em 2009, a banda de aura setentista com influências de Blues Rock tem cinco álbuns de estúdio e fez parte de algumas turnês junto de várias lendas do rock, como AC/DC, Alice Cooper e Judas Priest. Com riffs pesados e vocal intenso, a banda é apontada como uma das mais interessantes do gênero atualmente e ainda elogiada por grandes nomes do rock. Ouça.

11- M. Ross Perkins (EUA)
M. Ross Perkins, compositor, cantor e multi-instrumentista americano lançou em 2016 seu primeiro disco homônimo, o estilo psicodélico nos leva direto aos anos sessenta, a sensação de nostalgia é intensa e super agradável, muitas das canções remetem aos Beatles. Ouça.

10- Tei Shi (Argentina)
Valerie Teicher é Tei Shi, uma cantora e compositora pop argentina que atualmente mora em NY, mas já morou em Bogotá, Montreal, entre outros lugares, ela vem se destacando na cena pop alternativa e depois de dois Eps, "Saudade" (2013) e "Verde" (2015), faz seu début com o álbum "Crawl Space" (2017). Seu estilo incorpora gêneros como soul, R&B, indie pop, eletrônica, uma combinação deliciosa que junto de sua voz frágil e sensual, que remete muito ao Prince, a diferencia dentro do cenário pop repleto de divas umas iguais as outras. Ouça.

09- Koop (Suécia)
Koop é um duo sueco jazzístico de música eletrônica com uma pegada orquestral, boa parte dos instrumentos são produzidos com samples, o resultado desse trabalho é um som delicioso, o clássico e o moderno unidos em grande harmonia. O terceiro álbum, o último lançado até agora, "Koop Islands", de 2006 é fabuloso e traz participações maravilhosas, entre elas: Yukimi Nagano, Ane Brun, Rob Gallagher e Mikael Sundin. Ouça.

08- Angel Olsen (EUA)
Angel Osen, compositora e cantora americana tem três discos lançados, sendo o último "My Woman" (2016) o mais poderoso e apaixonante, cheio de melancolia e feminilidade é daqueles álbuns versáteis que abrangem melodias diversas, desde letras que nos fazem chorar à baladas enérgicas, algumas músicas lembram Lana Del Rey, mas outras carregam a aura do folk rock e remetem a Vashti Bunyan. Ouça.

07- Sofi Tukker (Alemanha/EUA)
Sofi Tukker é um duo de música eletrônica formado pela alemã Sophie Hawley-Weld e o ex-jogador de basquete americano Tucker Halpern, o interessante é que o primeiro trabalho deles, o EP chamado "Soft Animals" contêm músicas com letras em português, Sophie é apaixonada pelo Brasil, morou no Rio de Janeiro e acabou conhecendo o poeta Chacal, inspirada pela poesia transformou o poema "Drinkee" em música, o ar tropical impera junto a um grudento solo de guitarra, a voz sensual e macia de Sofi se mescla aos beats eletrônicos e hipnotiza, outros hits em português são "Matadora" e "Johny", o novo single lançado recentemente, um poema de Paulo Leminski. Ouça.

06- Die Antwoord (África do Sul)
Die Antwoord é uma banda sul-africana de rap/rave formada por Ninja e Yo-Landi Vi$$er. Ficaram muito mais conhecidos depois de participarem do filme "Chappie" (2015). O som é uma mistura de ritmos de várias culturas, hip hop, punk e eletrônico, eles carregam um visual excêntrico que lembram personagens de história em quadrinhos, além da atitude agressiva e irônica, letras pesadas que representam o gueto, a cultura Zef, uma das grandes marcas da banda é a voz de Yo-Landi, que passeia entre o sensual e o infantil. Ouça.

05- Sevdaliza (Irã/Holanda)
Nascida no Irã, mas criada na Holanda, Sevdaliza ex-jogadora de basquete vem se destacando no cenário pop com músicas que combinam uma porção de gêneros e sonoridades, trap, eletrônico, R&B e pop com uma aura minimalista, hipnótica e sensual. As letras de suas canções são críticas e pontuais, a surrealidade e o mistério fazem parte do universo de Sevdaliza. Tem dois Eps lançados, "The Suspended Kid" e "Children of Silk", e fez seu début esse ano com o álbum "Ison". Ouça.

04- Chinawoman (Canadá)
Chinawoman, pseudônimo da canadense de origem russa Michelle Gurevich, nos transporta para um mundo decadente, sensual, profundo e sombrio em suas canções, as baladas melancólicas exercem grande fascínio e sua voz grossa e melodiosa carrega poesia e solidão, seu som passeia por gêneros como slowcore, rock e lo-fi. Tem quatro álbuns lançados: "Party Girl" (2007), "Show Me the Face" (2010), "Let's Part in Style" (2014) e "New Decadence" (2016) Ouça.

03- Rosario Smowing (Argentina)
Rosario Smowing é uma "rockbigband" da cidade de Rosario, Argentina. Combinam elementos de ska, jazz, mambo, rockabilly, dixie, tango e bolero recriando a aura dançante dos anos 40, 50 e 60 com arranjos originais e muito swing argentino, os músicos são talentosíssimos e garantem um grande show, este eu tive a oportunidade de ver ao vivo e indico com imensa alegria. Foi um dia inesquecível! O álbum "No te Prometo Nada" (2015) é um dos melhores da discografia. Ouça.

02- DakhaBrakha (Ucrânia)


DakhaBrakha que significa dar e receber é um quarteto formado em Kiev, o grupo mescla em suas músicas sons ancestrais da Ucrânia junto a outros ritmos culturais, como o africano, o latino, o australiano, o árabe, e por isso são denominados como "caos étnico", também incorporam elementos modernos, como o hip hop e o rock. Há estranhamento e encantamento ao ouvir os cantos polifônicos, as vozes femininas tem timbres lindos e impressionantes, emociona e hipnotiza, é uma experiência escutá-los, uma viagem, um deslumbramento; a sinceridade, a naturalidade e a entrega dos músicos são surpreendentes. Ouça.

01- Postmodern Jukebox (EUA)

Criado pelo compositor, pianista e produtor Scott Bradlee, Postmodern Jukebox é um coletivo de músicos que fazem adaptações de músicas pop com um estilo vintage. O jazz, o swing, o ragtime dão um charme a essas canções tão conhecidas e nos fazem viajar pelos anos 20, 30, 40 e 50 facilmente. São inúmeras participações e artistas de imenso talento, dentre eles destaco a bela voz de Haley Reinhart, o interessante Puddles Pity Party e Sara Niemietz, mas todos sem exceção são excelentes, e graças ao Youtube os vídeos super bem produzidos têm se tornado virais e alavancado esse maravilhoso trabalho. Ouça.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Sereia (Rusalka)

"Sereia" (2007) dirigido pela russa Anna Melikyan (Star - 2014) mescla fantasia à dura realidade vivida pela protagonista com sensibilidade, ternura e naturalidade.
Era uma vez, uma garota chamada Alisa (Mariya Shalayeva), que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre.
Acompanhamos a vida desta menina desde sua concepção, vinda de uma família disfuncional, Alisa quando criança sonhava em ser bailarina e estava sempre à espera do pai, a ausência da figura paterna e mais a sua solidão nesta cidadezinha litorânea a tornou em uma garota sonhadora e que acreditava possuir poderes. Dada as circunstâncias em sua casa Alisa decide parar de falar e acreditava-se que isso tinha a ver com um eclipse, mas é óbvio que essa decisão foi porquê ela percebeu que sua mãe se irritava quando falava, principalmente sobre o retorno de seu pai, todas essas peculiaridades acabaram dificultando a sua vida e a mãe a colocou numa escola especial, onde passou toda a adolescência. Aos 18 anos Alisa parte para Moscou, tenta a faculdade, mas é incrível como atraí as coisas para ela e sempre de formas estranhas, seguindo em frente começa a trabalhar andando pelas ruas fantasiada de celular gigante e logo depois como faxineira na casa de um rico empresário que vende terrenos na lua, engraçado como nada parece absurdo para ela e segue sorrindo apesar de que não haja indícios de melhoras. Falta malícia, Alisa é de outro universo, tanto que sua aparência denota isso, aliás, ela sente-se ainda mais confortável consigo mesma quando pinta seus cabelos de verde inspirada pelo visual de Milla Jovovich no filme "O Quinto Elemento". 
Alisa segue sonhando em se tornar bailarina e acredita que seu grande amor é Sacha (Yevgeni Tsyganov), o cara que tem uma vida luxuosa vendendo terrenos na lua e que sente um vazio gigantesco dentro de si, Alisa o protege, lhe dá afeto, se doa, mas em nenhum momento é retribuída. O amor platônico é alimentado pelo sentimento de tristeza que acomete Sacha, ele convive com ela, desabafa e também é salvo diversas vezes por Alisa, mas ele não se interessa e nem sabe de onde e como ela apareceu em sua casa, são momentos curiosos que demonstram mais a frente que quase nunca a nossa doação é garantia da realização de nossos desejos.

É uma linda fábula moderna que retrata a sociedade russa contemporânea que como qualquer outra metrópole carrega uma forte carga de solidão e caos, pessoas tentando sobreviver e também serem enxergadas, tem um momento muito delicado em que ela fala para Sacha que não é ninguém, mas em nenhum instante perde o lado pueril de sua personalidade, Alisa vai adentrando na vida de alguns personagens e sem eles perceberem são tocados, outro exemplo de troca é a amizade que faz com uma moça que não tem as pernas, são belas passagens que mostram o modo como cada um lida com sua solidão. O mundo está repleto de Alisas, pessoas que não se encaixam e veem tudo de forma diferente. 

"Sereia" é um filme de camadas, existem vários assuntos abordados, fascina por seu visual excêntrico todo colorido e também pela analogia feita de maneira super livre do conto "A Pequena Sereia", a ligação com o mar, a forma que essa imagem de sereia é construída em torno dela é muito interessante, desde a sua concepção dentro do mar à conexão com ele na infância e o forte poder de atração que acredita possuir. A realidade e a fantasia se entrelaçam lindamente, é um conto de uma menina comum e deslocada que criou um mundo a partir de sua pureza e solidão. Mergulhamos fundo na vida de Alisa e depois dessa experiência emergimos sentindo e refletindo um bocado de coisas diferentes.

sábado, 13 de maio de 2017

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

"Eu, Daniel Blake" (2016) dirigido por Ken Loach (A Parte dos Anjos - 2012) é um filme extremamente realista e dolorido, estamos na pele de Daniel, sabemos perfeitamente o quão tortuosa é esta jornada que enfrenta perante o Estado para obter sua dignidade, esta trama retrata com perfeição os males que esse sistema causa, ao invés de ajudar só acentua as dificuldades com toda a burocracia e desrespeito, certamente deixando quem necessita ainda mais doente e com sentimentos de incapacidade e inutilidade. Ken Loach é um diretor que prima por temas sociais e estilo naturalista ao mostrar pessoas comuns lidando com uma realidade cruel, neste o viés político é forte e tem como grande função o protesto.
Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la.
Daniel é carpinteiro e de repente se vê impossibilitado de trabalhar devido a sua saúde fragilizada, ele é viúvo, um homem sozinho que não tem muitas relações, agora ele depende do auxílio financeiro do Estado, porém a burocracia que se instala para obter esse direito é infindável e desoladora, além de que tudo deve ser feito via Internet, o que só agrava a situação, pois ele não entende nada e ninguém o auxilia, mas ainda confiante e com muito esforço vai numa lan house e preenche os formulários que ao final sempre dão algum erro, é apenas com a ajuda de seu vizinho, um imigrante que ganha uma mixaria em trabalhos pesados, que enfim dá um jeito, mas são requisições que precisam ser avaliadas e por aí vai, enquanto isso Daniel precisa de dinheiro para se manter, já que não tem nenhuma renda. Nada dá certo e ele é colocado num programa em que é compelido a procurar empregos que se encaixem na sua atual situação mesmo tendo a avaliação médica dizendo que não pode trabalhar.  

No meio deste processo todo Daniel defende Katie, que é barrada ao chegar alguns minutos atrasada e perder a vez, ela passa por uma situação ainda mais complicada, tendo que se virar para criar dois filhos e morando numa pequena casa caindo aos pedaços, e o pior, passando fome. Daniel e Katie desenvolvem uma relação de amizade e solidariedade, por muitas vezes o vemos ajudá-la a consertar a casa e cuidando de seus filhos enquanto arranja emprego, numa das cenas mais chocantes Katie vai a um banco de alimentos e desesperada e ao ponto de desmaiar abre um enlatado lá mesmo, quando toma consciência fica envergonhada e chora, um momento do filme dilacerante, são inúmeras cenas desconfortáveis e que deixam nosso coração pesado, mas em nenhum momento apela para o melodrama e isso se deve aos cortes precisos e sensatos.
O famoso comediante stand-up Dave Johns compõe um personagem próximo de nós, adentramos em sua intimidade, sofremos com as injustiças e estamos juntos dele quando decide agir e protestar. Uma atuação linda e emocionante! E o que dizer de Hayley Squires na pele de Katie, angustiante ver toda a sua situação, ao que tem que se submeter para sobreviver, a insignificância que ela sente é palpável.

"Eu, Daniel Blake" é um filme com um tema pertinente e que faz parte da realidade da grande maioria da população, a história se passa na Inglaterra, mas o problema é universal, o Estado burocratiza e culpabiliza as pessoas pobres, é insensível a suas necessidades, não existe respeito, bom senso, empatia e humanidade, seres humanos são convertidos em números, apenas registros em computadores, como Daniel diz: "Esta é uma grande farsa não é? Você senta aí com esse nome amigável no peito, e do outro lado, um homem doente, procurando por empregos que não existem, que nem daria para trabalhar, de qualquer forma. Perdendo o meu tempo, o tempo do empregador, o seu tempo... Só para me humilhar, fazer implorar. Ou será que o objetivo é tirar meu nome desses computadores? Não vou mais fazer isso. Para mim chega."
Simples, direto, cru, eficaz, contestador, todos somos Daniel Blake vivendo as injustiças que tiram nossa dignidade, valor e direitos. Um filme essencial!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A Incrível Jornada de Jacqueline (La Vache)

"A Incrível Jornada de Jacqueline" (2016) dirigido por Mohamed Hamidi (De Qualquer Lugar - 2013) é um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.
Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
De natureza simples e pura Fatah é um homem casado, pai de duas meninas, mas que tem esse sonho e com a sua persistência consegue enfim ser atendido pela organização da feira, mas sem a verba para viajar até lá precisa se virar e para isso os moradores da aldeia dão um jeito, Fatah faz a travessia de balsa e de lá o jeito é pegar a estrada, no cansativo trajeto se depara com pessoas que se encantam por sua simpatia e seu jeito desastrado, como a senhora que lhe dá abrigo e comida e cujo nome é o mesmo de sua vaca e Philippe (Lambert Wilson), um rico em decadência que apenas carrega o título de conde, ele se afeiçoa a Fatah e no decorrer o salva de inúmeros obstáculos, também tem a figura de seu cunhado, que saiu da Argélia há tempos e formou uma família, da qual esconde por receio, no início bate a porta na cara de Fatah, depois se mostra interesseiro, mas ao final se rende. É assim, Fatah modifica as pessoas. Certamente o diretor Mohamed Hamidi se inspirou no filme "A Vaca e o Prisioneiro" (1959), que inclusive Philippe mostra para Fatah, que inevitavelmente se emociona muito.
Tem uma cena muito boa em que o cunhado fala com o rico decadente e lhe pergunta por que ajuda tanto Fatah, o questiona se é gay, ele fica confuso e não passa pela sua cabeça que seja algo de coração, sem interesse, apenas pelo fato de querer o bem do outro. Esse tipo de mensagem acompanha todo o filme, são óbvias, claro, mas parecem pertencer a um universo distante, existente apenas nas fábulas, na vida real não há essa energia, tudo está às voltas de interesses pessoais, preconceitos e sentimentos mesquinhos.

O filme trata de assuntos importantes e atuais com bom humor e um olhar positivo, a imigração, o choque cultural e a quebra de estereótipos em relação ao povo muçulmano. A ingenuidade do protagonista causa empatia, seu deslumbramento diante da cidade, pelas ruas movimentadas, por onde passa causa furor e logo é comentado tanto pelas redes sociais quanto pela TV, mas ele nem tem ideia disso e continua sua saga até a feira com sua dócil Jacqueline passando até por manifestações políticas. As pessoas o seguem no facebook, criam uma movimentação em torno, mas ele segue seu caminho sempre sorrindo e contando suas histórias, a cena em que ele se embriaga com licor de pera numa festa, beija a ajudante do mágico e acaba no palco cantando a versão francesa de "I Will Survive" é das mais engraçadas, tudo isso é filmado e vai parar lá na aldeia de Fatah, onde todos veem com espanto por um velho computador comunitário. Desesperado, pois ele é um homem correto que preza pelos valores dá uma desculpa ainda mais hilária: foi tudo culpa da pera! 

"A Incrível Jornada de Jacqueline" é simples e traz elementos óbvios, mas isso não o diminui, ao contrário, engrandece por retratar a busca pelo sonho independente de qual for, a luta, a superação, as amizades improváveis, a troca de afetos e de cultura. 
Fatsah Bouyahmed, que tem participação no roteiro compõe um personagem adorável que com certeza adoraríamos encontrar por aí com a sua estimada vaca Jacqueline. Um filme singelo que faz bem para o coração e nos faz resgatar sentimentos puros.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I Don't Feel at Home in This World Anymore)

"Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo" (2017), estreia na direção de Macon Blair mistura drama, comédia, crime e suspense para contar a história de duas pessoas desajustadas que se unem e decidem fazer justiça com as próprias mãos. É um filme inteligente e com umas sacadas pertinentes sobre a vida e o como a vivemos, o ótimo título já diz a que veio.
Quando uma mulher deprimida é roubada, ela passa a viver com o propósito de rastrear os ladrões, ao lado de seu vizinho detestável. Porém, eles logo entendem que estão se envolvendo com um grupo perigoso de criminosos degenerados.
Ruth Kimke (Melanie Lynskey) é uma jovem auxiliar de enfermagem que se vê cada vez mais insatisfeita com as pessoas e com o modo como tudo funciona, as hipocrisias, o desrespeito e a falta de educação e gentilezas a fazem detestar essa realidade. Sua vida é pacata, solitária e está afundada em frustrações. Ruth presencia o cretinismo diário das pessoas, como furar fila, derrubar coisas no supermercado e não pegar, não dar preferência ao pedestre, coisas que acontecem todos os dias e que certamente o espectador se identificará e pensará no como tem agido. Ela expele suas indignações em muitos diálogos e apesar de ser engraçado reflete perfeitamente o funcionamento do cotidiano. 
Quando Ruth tem sua casa invadida e alguns pertences roubados sua postura muda, principalmente ao ver o descaso das autoridades, que pouco se dá o trabalho de procurar pistas para encontrar os bandidos. É aí que entra em cena seu excêntrico vizinho Tony (Elijah Wood) que compra a briga de Ruth e a ajudará a fazer justiça. É com bom humor e exageros que a busca pelos pertences e aos ladrões se desenrola, mas sem nunca perder o teor crítico, Ruth e Tony não medem consequências e a aventura ganha outros tons quando descobrem a identidade do ladrão e envolvem a família deste no meio. Elijah Wood como Tony em nenhum momento questiona Ruth, cai de imediato em seu plano e se apaixona, ele surpreende por sua desenvoltura com objetos de artes marciais e é dono das cenas mais engraçadas. Melanie Lynskey como a desajustada Ruth causa empatia logo de prima ao questionar o meio e o quão egoístas as pessoas são.

Sarcástico, reflexivo e violento, a trama faz questão de explorar o lado nonsense, a ebulição, a vingança desenfreada de dois seres deslocados e desiludidos com as pessoas. Já que a lei não funciona quando se precisa dela não importa mais nada, atos e consequências, a revolta atinge seu ápice.
A junção de drama existencial, humor negro, perseguição e um clímax violento surpreende e justamente por essa ousadia em não poupar estranhezas somos compelidos a pensar qual papel exercemos. Somos os cretinos ou os desajustados? E quem nunca pensou em fazer justiça com as próprias mãos? E sobre o exagero ou surrealidade do filme, a realidade não se difere muito, sendo exagerada e sem sentido na maior parte do tempo.
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