quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Outro Lado da Esperança (Toivon Tuolla Puolen)

"O Outro Lado da Esperança" (2017) dirigido por Aki Kaurismäki (O Porto - 2011) tem estilo único e é rico em elementos, a mescla de drama, comédia e música dá muito certo e marca pela sinceridade e sensibilidade, sempre com temas atuais e frágeis da sociedade, a maneira que seu roteiro se desenrola, as situações e as reações das pessoas, tudo com um toque de humor irônico e muita música, e que bom gosto musical tem esse diretor! O filme não foge do peso do tema, refugiados que pedem asilo na Europa, e demonstra apuro e inteligência mostrando os lados, estereótipos e identidade. É simples, despojado e transfere uma sensação de melancolia e acolhimento.
Khaled (Sherwan Haji) fugiu da guerra na Síria e foi buscar asilo na Europa. Depois de percorrer vários países, solicita a permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã desaparecida, e consegue a ajuda de um pequeno comerciante, Wisktröm (Sakari Kuosmanen), que aceita empregá-lo em seu pequeno restaurante.
Khaled fugiu do caos que assola seu país, a Síria, após muito percorrer pelos mais diversos países acaba desembarcando sem querer na Finlândia, o humor é um grande aliado do roteiro e os personagens tem tons caricatos e frios, mas isso é mais que positivo, encaixa-se perfeitamente, só que o clima melancólico permeia também a narrativa, o personagem perdeu toda a sua família e procura pela única irmã, determinado Khaled busca ajuda e asilo ao país, cujo tem fama de ser igualitário. As cenas de entrevista são ótimas e demonstram perfeitamente a situação calamitosa dos refugiados, enquanto o outro lado escuta e anota friamente sem estabelecer qualquer vínculo. Khaled não conhece outro sentimento a não ser dor e tristeza, vive de forma apática e quando o colega do abrigo lhe diz que precisa ser mais simpático não entende o que ele quer dizer, ou quando diz não entender piadas, os intervalos musicais refletem a solidão de Khaled e do outro lado, apesar de distantes compartilhando do mesmo sentimento está o carrancudo Wisktröm, que no decorrer demonstra afeição e humanidade. Wisktröm sem uma palavra arruma suas coisas e larga sua esposa bêbada, em um jogo de poker ganha uma boa quantia e compra um restaurante, uma nova vida está a caminho, mas não é fácil manter os clientes, para isso recebe a ajuda de seus três funcionários, as mudanças constantes de fachadas e identidade culinária são extremamente irônicas e marcam a confusão e o problema de adequação. Depois de delinear esses dois personagens tão diferentes, mas próximos em seus sentimentos o encontro se dá de forma até bruta, porém Wisktröm se rende e cria empatia por Khaled. Wisktröm escolhe se isolar dos demais, já Khaled é refém do isolamento, a situação parece improvável e até forçada, só que a mistura dos elementos e a forma que os personagens reagem e conduzem as situações transforma o filme em algo especial, há candura em meio a tanta dor e solidão. 

Somente um diretor como Kaurismäki consegue equilibrar comédia e drama com fineza, um tema tão pesado narrado com tanta despretensiosidade e carinho. É agridoce, denso, irônico, crítico e esteticamente peculiar, sem deixar de mencionar a trilha sonora diegética que cria e insere emoção, os diálogos pontiagudos que refletem a atualidade, a questão de se sentir refém das escolhas dos outros, de não pertencer a nenhum lugar, de não darem o devido valor a sua história, de ser apenas mais um, tudo contribuindo para a desistência e a nulidade. O olhar de Khaled invade nosso ser, por detrás de toda a sua languidez existe um oceano de tristeza, mas também de gentileza e amor. 

"O Outro Lado da Esperança" é direto em sua abordagem e retrata os absurdos dos mecanismos da sociedade, Khaled é impassível ao fazer o relato de sua situação, ele conta os detalhes das atrocidades e da confusão de não saber quem ataca quem e porquê, a sua peregrinação, a violência de todos os lados, grupos anti-imigração, neonazistas e etc, a busca pela irmã e enquanto isso espera miseravelmente a possível aprovação de estadia, e entre muitos percalços conhece Wisktröm, que lhe fornece abrigo, trabalho e como não há outra forma, a ilegalidade. Pode parecer ingênuo acreditar que no meio de tanta violência, barreiras e rótulos haja um pouco de compaixão, acolhimento e dignidade, mas sabe-se que em algum lugar reside a esperança, senão do que vale estar vivo e persistir com tanta coragem como Khaled? 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer)

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) dirigido por Yorgos Lanthimos (Alpes - 2011, The Lobster - 2015) tem um roteiro inusitado, que também tem a mente criativa de Efthymis Filippou, constante parceiro de Lanthimos, o universo criado retrata os extremos dos conflitos das relações, as complexidades do ser humano, o tom cômico e trágico causa desconforto e constrangimento, o fato é que o filme provoca e causa incômodo, traz situações absurdas, personagens desprovidos de emoções e quando existe algum indício carecem de significação, são atos mecânicos e diálogos crus e diretos, os símbolos e referências estão por toda a parte e é preciso estar atento a cada detalhe, conversa e ação. Criativo, irônico e desconcertante, intriga tanto em sua estética fria e robotizada, quanto em seu roteiro com desenrolar lento e repleto de pontas, é uma experiência única assistir os filmes de Lanthimos, que mesmo produzindo fora de seu país continua com suas estranhas características, quanto mais se pensa no filme mais coisas surgem e mais interessante fica. 
Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado que é casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Já há algum tempo ele mantém contato frequente com Martin (Barry Keoghan), um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando era operado por Steven. Ele gosta bastante do garoto, tanto que lhe dá presentes e decide apresentá-lo à família. Entretanto, quando o jovem não recebe mais a atenção de antigamente, decide elaborar um plano de vingança.
A vida aparentemente perfeita da família de Steven começa a ruir quando o jovem perturbado Martin - incrivelmente e extraordinariamente bem interpretado por Keoghan, não sente que está sendo uma prioridade mais na vida do médico, ele tem ressentimento e raiva por causa da morte do pai nas mãos de Steven, a relação é um jogo de troca, Steven nunca declara sua culpa, a disfarça em forma de pena pela falta de afeto que Martin sente e que mais tarde é transformada em obsessão e raiva, Steven em determinado momento se cansa de Martin, e este não tolera ser colocado de lado, ele se aproxima da família, cativa Kim e Bob e lança uma praga em cima da família do médico. Bob, o filho mais novo destoa do aspecto frio e reto da família, tem as próprias vontades, uma demonstração é não cortar o cabelo, ele representa a inocência, a gentileza nesse meio, ou seja, o Cervo, que possui essas características na simbologia, além de se sacrificar por um bem maior. Bob é o primeiro a sentir os sintomas da "maldição" de Martin, logo é Kim que sente suas pernas paralisarem, a influência de Martin sobre ela é imensa, pois em uma cena no hospital ela se levanta para olhar pela janela a pedido dele ao telefone, segundo Martin todos na família irão sofrer as consequências, só basta a Steven escolher um deles, é uma questão de equilíbrio, ao eliminar alguém da vida de Martin, alguém da vida de Steven também tem que ser. 

"Um: paralisia dos membros. Dois: recusa a comer ao ponto de morrer de fome. Três: sangramento dos olhos. Quatro: morte. Um, dois, três, quatro."

Martin vai soltando verdades no decorrer e tudo de maneira calma, mas também inquietante, ele é uma espécie de profeta. Steven é um homem extremamente egoísta, fraco e hipócrita, esconde sua culpa e finge asseio, em nenhum momento admite seus erros ou revela suas imperfeições. Ele é vazio. Anna com o desenrolar parece acordar e perceber um pouco as coisas, como quando na cozinha ao se defrontar com ele, que ao invés de estar preocupado com o filho pede para que ela faça um purê. "Você tem belas mãos. Nunca havia percebido. Mas todos têm me dito isso nos últimos dias, que belas mãos você tem, e agora vejo com os meus olhos. Macias e limpas. Mas quem liga se elas são lindas? Elas não têm vida". Só que ela não titubeia ao fato de fazer de tudo para não ser a escolhida para o sacrifício, como ao dizer que ainda podem ter mais filhos, aliás esta parte é carregada de humor negro e impacta com as atitudes de cada um ao querer se livrar do inevitável.

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" faz referência ao mito grego "Ifigênia", que escolhida ser sacrificada pelo próprio pai, foi por obra dos deuses, substituída por um animal no derradeiro momento, a tragédia é colocada nos moldes atuais e daí surge variadas camadas e cada espectador absorve e interpreta de uma maneira, mas o incômodo é certeiro e intenso ao evidenciar o lado podre do ser humano e os absurdos dos seus comportamentos enquanto disfarçam e fingem virtudes. Uma obra particular e imensamente desconcertante.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Thelma

"Thelma" (2017) dirigido por Joachim Trier (Oslo, 31 de Agosto - 2011, Mais Forte que Bombas - 2015) e roteirizado pelo excelente Eskil Vogt (Cegos - 2014) é um filme intimista e enigmático que traz a descoberta sexual da personagem através do sobrenatural, em tom frio seguimos os passos de Thelma (Eili Harboe) e o seu despertar sexual aliado a um dom poderoso, sua educação foi atrelada à religião e por conta disso é reprimida, a figura do pai exerce bastante influência em sua vida, ao mesmo tempo em que Thelma descobre coisas sobre si a partir da relação com Anja (Kaya Wilkins), sofre de alguns ataques epilépticos.
Thelma é uma jovem tímida que acaba de deixar a casa dos pais para estudar em Oslo, onde vive seu primeiro amor. Seu relacionamento é logo afetado pela intromissão opressiva de sua família, que com suas crenças religiosas fundamentalistas conseguem afetar a vida da jovem. Quando Thelma fica chateada, coisas estranhas começam a acontecer e esses fenômenos sobrenaturais só aumentam. Enquanto busca respostas sobre esses poderes que ela não controla, seus pais severos e religiosos se preparam para o pior.
O prólogo nos fisga por ser belíssimo e ao mesmo tempo curioso, uma força inexplicável que move a arma que o pai aponta para um animal para a própria cabeça da filha, logo depois Thelma está se estabelecendo sozinha, indo à faculdade e timidamente se aproximando de Anja, algo acontece dentro dela e num dia dentro da biblioteca pássaros começam a bater nas janelas e Thelma sofre um ataque epiléptico, não é difícil deduzir que essa cena representa a opressão, o atrito entre seus desejos e suas crenças, ela foi doutrinada pelo pai e ele até então a controlava, mas depois desse episódio as suas vontades vão se libertando e causando literalmente o caos.
"Thelma" faz referência ao filme "Carrie - a Estranha", de 1976, mas a composição de sua personagem é particular e extremamente misteriosa, pois seus poderes tem amplos extremos, como quando criança acaba cometendo um ato que rompeu de certa forma o laço afetivo entre ela e a mãe, um trauma pesado e uma constatação de que Thelma possuía uma habilidade perigosa e que para dominá-la recorreram a rigidez da crença cristã, mas quando ela vai morar só em Oslo aos poucos os seus desejos emergem e esses poderes retornam com imensa potência. Bambeando entre o drama e a fantasia somos absorvidos por uma trama intrigante que faz uma analogia perturbadora do desabrochamento para a vida, são momentos impactantes e sensoriais, muitas metáforas incluídas e o pecado sempre está simbolicamente perto de Thelma.

A narrativa segue lenta, contida, porém muito atraente e quando retrata os momentos do passado se torna ainda mais interessante, o mistério vai se desvendando e Thelma aos poucos vai crescendo e se libertando de tudo que a oprimia, o fantástico e o real se unem de maneira extraordinária, e faz o principal, que é refletir sobre o como é difícil crescer, se desvincular de crenças e pensamentos opressores que os pais acabam semeando, e enfim aceitar-se como realmente é, libertar-se da figura esmagadora do pai, dos preconceitos e dar asas aos desejos.

"Thelma" é um filme diferenciado por conta da abordagem e de interagir com o sobrenatural, mas é sutil, bonito e, claro, também perturba, pois lança questões a serem sempre repensadas, a opressão religiosa sobre a figura feminina, a repressão de seus desejos, a castração das vontades próprias por conta da moral, a desvinculação do seio familiar, e então ir desafiar todas as amarras e tabus sociais. Joachim Trier e Eskil Vogt são excelentes juntos, não há dúvidas do cuidado com todos os aspectos do longa, somos envolvidos em uma aura misteriosa e fria, mas sensível e significativa.
O despertar da adolescência/juventude feminina mesclado à fantasia/terror também pode ser visto em "The Fits" - 2015 e "Raw" - 2016, ambas obras fortes e pertinentes assim como "Thelma".

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Melhores Álbuns 2017

Segue a lista dos melhores álbuns do ano, um resumo do resumo de tudo o que escutei. Os melhores citados são essencialmente de gosto pessoal!

13- Lyves - Like Water (Pop/Eletrônico/Indie/Alt-Soul)
Quem está por trás de Lyves é a italiana Francesca Bergami, sua voz profundamente emocional juntamente com a guitarra, batidas e sintetizadores evoca diversas sensações, "Like Water" é seu EP de estreia e traz quatro canções envoltas numa atmosfera ao mesmo tempo calma e sedutora, escura e pungente. A música "Darkest Hour", sem dúvidas, é a mais envolvente. Vale conferir!

12- Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex (Slowcore/Dreampop/Pop-Noir)
Encabeçada pelo vocalista Greg Gonzales, a banda alcançou o sucesso de fato em 2015 após o aumento de visualizações no Youtube com a hipnotizante canção "Nothing’s Gonna Hurt You Baby", após vários singles lançados eis que surge o álbum, a marca registrada da banda com certeza é a voz frágil e melancólica de Greg, e claro, seu estilo minimalista, romântico, nostálgico e aconchegante. Diante a tanto desamor e caos Cigarettes After Sex nos proporciona momentos de profundidade e repouso. Confira

11- Sevdaliza - Ison (Trip Hop/Art Pop/Experimental Pop)
Álbum de estreia da iraniana Sevdaliza, Ison é um álbum que carrega um poder feminino exuberante, uma aura obscura, sensual e misteriosa, uma sonoridade sensorial com distorções experimentais envolventes, uma atmosfera íntima e dominadora. É para se deleitar a cada música com suas combinações de gêneros e letras poéticas que hipnotizam. Confira

10- Y'akoto - Mermaid Blues (Pop/R&B)
Mermaid Blues é o terceiro disco da cantora e compositora ganesa/alemã Y'akoto, que com sua voz áspera nos captura com baladas melancólicas e letras emocionais, mesclando o pop e o neo soul de maneira harmoniosa e extremamente agradável. A canção "Fool me Once" e "Love me Harder" são os destaques deste álbum.

09- Ron Gallo - Heavy Meta (Rock/Indie)
Álbum de estreia do americano Ron Gallo, Heavy Meta traz o rock garage, a psicodelia, o glam, o punk de forma eletrizante e divertida, um álbum que nos remete a outras bandas, como Rolling Stones, Jack White e até Beatles, mas o vocalista cheio de personalidade une suas características próprias e nos presenteia com esse delicioso registro que resgata o rock da melhor maneira possível. Confira.

08- Black Joe Lewis and the Honeybears - Backlash (Rock/Blues)
O som de Black Joe Lewis é enérgico, ardente e selvagem, nesse seu novo álbum não é diferente, sonzeira total, uma mistura de funk, soul, garage rock junto a seu vocal nervoso e intenso. Um disco quente, dançante e também profundo em suas letras. Destaque para a música "Sexual Tension" e "PTP". 

07- Alt-J - Relaxer (Art Pop/Indie/Eletrônica)
Terceiro trabalho da banda Alt-J, "Relaxer" mantém as características únicas e intrigantes, assim como os outros contém referências, simbolismos e brinca com sonoridades diversas, realmente uma viagem, destaque para as canções "Deadcrush" e "In Cold Blood". 

06- Prophets of Rage - Prophets of Rage (Rock/Rap)
Prophets of Rage surgiu em 2016 da união de três integrantes do Rage Against the Machine e Audioslave, o guitarrista Tom Morello, o baixista Tim Commerford e o baterista Brad Wilk, dois membros do Public Enemy, o rapper Chuck D e o DJ Lord, e ainda o rapper, B-Real, do Cypress Hill. O álbum homônimo é mais que necessário, uma denúncia a tudo que está acontecendo de errado no mundo, coloca o dedo na ferida e aponta diretamente em Donald Trump, mas também diz sobre extremismos, racismo e pobreza. Um projeto cujo intuito é o protesto e a mensagem de união entre os povos. Confira.

05- Princess Nokia - 1992 (Hip Hop/Rap)
A americana Destiny Nicole Frasqueri, "Princess Nokia", lançou seu álbum de estreia, 1992, que traz canções com letras repletas de empoderamento feminino, desconstrução de gênero e mescla alguns gêneros como música eletrônica e rap trap juntamente ao rap oldschool, Princess Nokia retrata uma geração que não se cala e não abaixa mais a cabeça para o preconceito. Destaque para a canção "Brujas" que enaltece suas raízes e "Tomboy", que diz sobre gênero e estereótipos.

04- Fever Ray - Plunge (Trip-Hop/Synthpop/Experimental)
Após 8 anos de recesso Karin Dreijer Andersson voltou e surpreendeu os fãs com o álbum Plunge, que mesmo não estando no patamar do anterior, com toda a obscuridade, esse vem com uma aura futurista e fetichista, continuando com letras criativas e sonoridade experimental que mexe muito com nossas sensações. Plunge está inserido num universo mais aberto, menos misterioso. O caos está presente, assim como o bizarro, mas a intensidade conversa com outros elementos, é mais expressivo e tem uma abordagem libertadora, dizendo sobre amor, sociedade e sexualidade. Confira

03- Tulipa Ruiz - Tu (MPB/Pop Alternativo)
Tu, quarto disco da cantora Tulipa Ruiz, traz gravações inéditas e repagina algumas canções, como "Pedrinho" e "Desinibida", ainda traz a participação do ator franco-mexicano Adan Jodorowsky na música "Terrorista del Amor". É um álbum que nos faz sorrir e que propõe o desnudar-se, é livre, espontâneo, suave e simples.  Confira

02- Simone Mazzer & Cotonete - Simone Mazzer & Cotonete (MPB/Jazz-Funk)
Simone Mazzer tem um vocal poderoso, uma intérprete sem restrições, vai desde Tim Maia a Björk, o seu disco de estreia, Férias em Videotape, revelou toda essa potência. Simone representa o que é ser uma artista de verdade, talentosa ao extremo, uma diva essencialmente. Seu segundo álbum em parceria com o grupo francês Cotonete, que são mestres nas sonoridades do funk dos anos 70, ou seja, uma parceria vibrante, cheia de suingue e com um toque vintage. Confira

01- As Bahias e a Cozinha Mineira - Bixa (MPB/Rock)
Segundo álbum de Raquel Virgínia e Assucena Assucena, Bixa, uma referência ao álbum Bicho, do cantor baiano Caetano Veloso, traz além do MPB, batidas eletrônicas, reggae, bolero e até o tecnobrega, um disco dançante que passeia por letras irônicas e histórias de amor e violência. As Bahias e a Cozinha Mineira vão mais além do termo lacrar e se configuram como uma das mais relevantes artistas do cenário musical brasileiro. Letristas de primeira e qualidade musical impecável. Confira.

domingo, 31 de dezembro de 2017

10 Melhores Filmes de 2017

As listas dos melhores do ano estão pipocando por aí e muitos filmes são unanimidades entre elas, mas sempre um ou outro fica de fora, a quantidade de longas com qualidade lançados esse ano foi grande e infelizmente não dá para assistir todos, então garimpando os filmes que vi desse ano selecionei 10 que merecem o posto na lista, são obras primorosas e que garantem satisfação ao espectador. A lista foi concebida por puro gosto e experiência pessoal e está em forma de Ranking.

10- "Em Ritmo de Fuga" (Baby Driver, de Edgar Wright) EUA
O jovem Baby (Ansel Elgort) tem uma mania curiosa: ele precisa ouvir músicas o tempo todo para silenciar o zumbido que perturba seus ouvidos desde um acidente na infância. Mesmo assim, o rapaz revela-se um motorista excelente, e começa a trabalhar para uma gangue de criminosos. Quando um assalto a banco não sai como planejado, ele cai na estrada em fuga. 
"Baby Driver" já nasceu cult, um filme estiloso cheio de referências e que passeia entre a ação, romance e muita música, tecnicamente impecável e atores inspirados, super empolgante!

09- Mãe! (Mother!, de Darren Aronofsky) EUA
 Um casal vive recolhido no meio de um campo em um imenso casarão de estilo vitoriano. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções.
"Mother!" não é um simples suspense ou terror psicológico, é um filme complexo de muitas camadas que passeia por diversas metáforas e alegorias. Um obra grandiosa que disserta sobre religião, culto aos ídolos, moralismo, narcisismo, natureza, feminilidade e tantos outros temas que se desnovelam ao decorrer e que cada espectador sentirá, absorverá e interpretará de uma forma, as questões são amplas e isso é algo maravilhoso, o poder de reflexão é imenso. 

08- "Peles" (Pieles, de Eduardo Casanova) Espanha
Em uma sociedade extremamente tomada pela cultura do visual, pessoas com diferenças físicas curiosas são forçados a se esconder, se tornando reclusas entre elas. Dentre elas estão Samantha, uma mulher com o sistema digestivo de cabeça para baixo, Laura, uma menina sem olhos e Ana, que possui o rosto deformado. Juntas, esforçam-se para se encontrar em uma sociedade que só entende uma forma física e maltrata o diferente.
"Pieles" é original, desconcertante, poético, interessantíssimo e provoca o espectador o tempo inteiro ao colocar protagonistas com deficiências físicas e emocionais. É um drama social sombrio com pessoas deformadas e desfiguradas que precisam encontrar maneiras de esconder suas diferenças e lidar com o resto da sociedade. Uma obra sincera que desconstrói e atinge pelo bizarro, nada mais que um espelho da realidade. 

07- "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos) EUA/UK
Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado que é casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Já há algum tempo ele mantém contato frequente com Martin (Barry Keoghan), um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando era operado por Steven. Ele gosta bastante do garoto, tanto que lhe dá presentes e decide apresentá-lo à família. Entretanto, quando o jovem não recebe mais a atenção de antigamente, decide elaborar um plano de vingança.
"The Killing of a Sacred Deer" desconcerta e intriga tanto em sua estética fria e robotizada, quanto em seu roteiro com desenrolar lento e repleto de pontas, é uma experiência única assistir os filmes de Lanthimos, que mesmo produzindo fora de seu país continua com suas estranhas características, quanto mais se pensa no filme mais coisas surgem e mais interessante fica. E que interpretação de Barry Keoghan!! Desconcertante!

06- "Bom Comportamento" (Good time, de Ben e Josh Safdie) EUA
Após um malsucedido assalto a banco, Constantine Nikas (Robert Pattinson) vê seu irmão mais novo (Bennie Safdie) sendo preso e embarca em uma odisseia no submundo da cidade em que vive, numa tentativa cada vez mais desesperada e perigosa para tirar seu irmão da prisão. Ao longo de uma noite repleta de adrenalina, Constantine encontra-se em uma onda de violência e caos enquanto ele corre contra o relógio para salvar seu irmão e ele mesmo, sabendo que suas vidas estão por um fio.
"Good Time" é um filme que consegue transmitir toda a ansiedade e loucura para o espectador, o protagonista interpretado maravilhosamente por Robert Pattinson nos instiga a percorrer junto dele por uma alucinante noite e sentir todas as vibrações que advém de uma série de situações-limite. Grande surpresa!

05- "A Ghost Story", de David Lowery - EUA
Um rapaz C (Casey Affleck) recentemente morto retorna para o seu lar em forma de um fantasma de pano branco para tentar se reconectar com sua esposa M (Rooney Mara) ainda viva. 
"A Ghost Story" é uma obra indie de baixo orçamento (cerca de 100 mil dólares) melancólica, intimista, complexa e extremamente bela. Seu formato com enquadramento 4:3 e bordas arredondadas compõe as sutilezas desta história que disserta sobre o tempo. O ritmo pausado com planos fixos e longos, os movimentos delicados da câmera, o clima imersivo, tudo soa profundo e reflexivo. Contemplativo, sensorial e hipnotizante, disserta sobre nossa permanência no tempo com muita melancolia.

04- "The Square", de Ruben Östlund - Suécia
Um gerente de museu está usando de todas as armas possíveis para promover o sucesso de uma nova instalação. Entre as tentativas para isso, ele decide contratar uma empresa de relações públicas para fazer barulho em torno do assunto na mídia em geral. Mas, inesperadamente, isso acaba gerando diversas consequências infelizes e um grande embaraço.
"The Square" expõe uma perspectiva crítica à elite cultural europeia, em especial, a sueca, e disserta o como a arte vem sido repelida ao invés de provocar curiosidade, questões como os limites e o vazio das obras, há uma crise dentro desse universo e mesmo que a história gire em torno da sociedade europeia, percebemos que o sentido da arte contemporânea anda sendo questionado no mundo todo, além disso coloca em ênfase a contradição, enquanto uma obra em exposição sugere solidariedade, colaboração e empatia, os atos são completamente opostos, onde retrata uma população solitária, vazia e sem qualquer traço de cuidado com o outro. 

03- "O Outro Lado da Esperança" (The Other Side of Hope, de Aki Kaurismäki) Finlândia
Khaled (Sherwan Haji) fugiu da guerra na Síria e foi buscar asilo na Europa. Depois de percorrer vários países, solicita a permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã, desaparecida, e consegue a ajuda de um pequeno comerciante, Wisktröm (Sakari Kuosmanen), que aceita empregá-lo em seu pequeno restaurante.
"The Other Side of Hope" é um filme simples, despojado e que transfere uma sensação de melancolia e acolhimento, o estilo de Kaurismäki é único, sempre com temas atuais e frágeis da sociedade, a maneira que seu roteiro se desenrola, as situações e as reações das pessoas, tudo com um toque de humor irônico e muita música, e que bom gosto musical tem esse diretor! 

02- "O Fantasma da Sicília" (Sicilian Ghost Story, de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia) Itália
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo.
"Sicilian Ghost Story" é um filme belíssimo em que imagens traduzem sentimentos, extremamente poético se desenrola de forma sutil, porém avassaladora, trata com cuidado um tema tão pesado e nos leva para uma atmosfera tensa e imaginativa, sua aura de sonho contamina e impregna na pele, totalmente imersivo! 

01- "Loveless" (Nelyubov, de Andrei Zvyagintsev) Rússia
Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente.
"Loveless" é um filme sombrio que retrata as consequências de se viver em desamor, essa ausência de afeto está tanto dentro do seio familiar, como na sociedade que apequena o ser humano tornando-o preocupado e obcecado com regras e dinheiro. Zvyagintsev filma o desencanto que envolve a sociedade russa, o ambiente é um grande personagem também, o frio congelante que devasta os bosques é o reflexo da languidez e indiferença humana, o apuro da câmera ao atravessar esses lugares destruídos logo no início é um prenúncio de que algo muito ruim irá acontecer, e assim se dá e o vácuo que se instaura machuca o espectador. Filmaço!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma Grande Aventura (Watership Down) Filme/Livro

"Watership Down" (1978) traduzido no Brasil como "Uma Grande Aventura" ou "A Longa Jornada" é uma animação baseada no romance homônimo de 1972 de Richard Adams e dirigida por Martin Rosen (The Plague Dogs - 1982, também baseado na obra homônima de Richard Adams), conhecida como uma das mais perturbadoras e sanguinolentas animações, sem dúvidas, uma obra-prima atemporal que conversa tanto com o universo infantil como o adulto, há um exagero em sua fama de violência, mas o seu conteúdo é sim bastante obscuro, pois trata-se de sobrevivência. Richard Adams começou toda essa história por causa de suas filhas em uma viagem de carro pela Inglaterra, motivado ele pesquisou sobre a vida dos coelhos, o habitat, os seus modos e construiu algo grandioso, pode-se encarar "Watership Down" como uma aventura hipnotizante ou como uma metáfora para o comportamento humano, a religião, a sociedade e sua escala de poder, e tantos outros simbolismos que vão aparecendo no decorrer. 
Com sua toca ameaçada de destruição, um grupo de coelhos é obrigado a abandonar o lugar onde vivem e partir em uma grande aventura. Eles não estão prontos para essa viagem, cheia de perigos e surpresas, mas precisam encontrar uma nova casa o mais rápido possível. Os valentes coelhos são perseguidos por animais domésticos, conseguem fugir dos humanos e até encontram um coelho malvado que não quer saber de ajudá-los e sim atrapalhar o caminho. Mas juntos, eles enfrentam cada desafio e problema, com a força da amizade.
A sinopse pode enganar por seu tom fabuloso em que coelhos buscam um lugar seguro e por conta da união conseguem sobreviver, porém ao entrar em contato com o livro/filme e observar a maneira que esses coelhos são retratados, como os traços naturais do desenho no filme, desmistifica o estereótipo de candura que supostamente possuem, a história é permeada de situações ruins em que o medo é o grande protagonista, eles são movidos por esse medo e usam de suas características, como agilidade, audição privilegiada e a sagacidade para elaborar truques e ir adiante sem se deixarem abater, além de fugirem de inimigos de outras espécies também precisam lidar com as armadilhas de outros coelhos. Tudo começa quando Cinco-Folhas (Richard Briers), um coelho franzino pressente algo ruim vindo em direção à coelheira, ele visualiza uma bituca de cigarro que sinaliza a presença de homens e um pedaço de madeira fincado na terra, uma placa, e logo tem a visão do campo todo ensanguentado, junto com seu irmão Aveleira (John Hurt) vão até o chefe do Owsla - os coelhos mais fortes e superiores da coelheira - e avisam sobre a tragédia que está por vir, mas o grande coelho menospreza a recomendação de irem embora. Após isso Cinco-Folhas e Aveleira formam um grupo e partem em busca de um bom lugar para viver, nesta jornada passam por muitos perigos, encontram raposas, gatos, cachorros, pássaros, homens com espingardas e coelhos estranhos e tantas outras adversidades, precisam conquistar território, construir as próprias tocas, conseguir um local para comerem e acima de tudo permanecerem unidos são e salvos. Durante essa extenuante caminhada alguns morrem e se machucam, conhecem modos de vida diferentes e percebem que precisam de muita coragem para seguirem, principalmente, quando vão atrás de fêmeas na temida Efrafa.

Uma das coisas que mais chama a atenção na animação é a sua estética, os coelhos não são retratados como seres bonitinhos e a natureza deles é exposta de maneira real, os hábitos e a luta pela sobrevivência, e claro, aí entra a violência, arranhões e mordidas que arrancam pedaços, além de imprevistos, mas nada é gratuito, quando percebem que só lutando poderão escapar se tornam impetuosos e selvagens, as cenas sangrentas são poucas na verdade, o conteúdo foi baseado realmente na vida dos coelhos, a fonte de inspiração do autor foi o livro de Ronald Lockley, "A Vida Privada dos Coelhos", portanto, a agressividade faz parte, mas nada tão estarrecedor, existe um exagero em torno.
O filme é um clássico e merece toda a atenção, só que funciona isoladamente do livro, a reprodução não é fiel e os acontecimentos não estão na ordem, alguns personagens não são focados e demora-se a distingui-los, porém visualizar o cenário e todo o percurso alimenta ainda mais a nossa imaginação, é uma experiência que nutre. Condensar um livro de centenas de páginas cheio de detalhes é complicado e a imersão acaba não funcionando por ter uma abordagem rápida, a ação é quem manda, chama-se isso de plot-driven, onde o personagem está à mercê dos acontecimentos e por conta do tempo seu perfil não é explorado por completo. O que é uma pena, pois cada coelho exibe uma característica única, Cinco-Folhas é intuitivo, Aveleira é confiável, Manda-Chuva é forte e corajoso, Dente-de-Leão é um exímio contador de histórias, Amora-Preta é astuto, estes são os principais, mas quando abre espaço para algum coelho em cena percebe-se algo que se sobressai em cada.

Em dado momento da jornada eles encontram uma coelheira com hábitos diferentes dos demais coelhos, são bem recebidos pelo grande e melancólico Prímula, mas algo parece estranho em seus hábitos polidos e desinteressados, por exemplo, quando por agradecimento pela acolhida querem contar uma história sobre a mitologia deles, que envolve El-ahrairah - uma espécie de Deus, eles rejeitam veementemente, no decorrer perceberam que dia após dia um coelho desaparecia, e então descobriram que os homens não eram generosos em tratá-los, mas ali era um viveiro e todos os coelhos tinham consciência disso. A mitologia mencionada a cada nova empreitada inspira os coelhos a não desistir, já que El-ahrairah, o herói deles venceu utilizando inúmeras artimanhas, o mito no livro é muito mais desenvolvido e não tem como não relacioná-lo com a religião, é dito que o mundo foi criado por Frith, representado pelo sol, e que nesse mundo habitava muitos animais e todos viviam em paz, até que os coelhos liderados por El-ahrairah se proliferaram demasiadamente e acabaram com a comida dos outros animais, estes imploraram a Frith para que pedisse ao coelho controlar seu povo, mas foi ignorado e Frith decidiu dar aos outros animais garras e presas para caçar os coelhos, e assim foram sendo mortos, até que restou somente El-ahrairah, que acabou ganhando também várias características, como a aguçada percepção para poder sobreviver com tantos inimigos a sua volta.

A história toca em temas muito pertinentes, como confiança, companheirismo, hierarquia social, religião, sacrifício, e demonstra a amizade improvável entre os coelhos e a gaivota, Kehaar, uma personagem maravilhosamente bem adaptada para o filme, na voz de Zero Mostel, sem dúvidas, as cenas que participa são as melhores, a ave tem um misto de simpatia e impaciência com os coelhos, eles a ajudaram a se recuperar depois de um ataque de um gato e o pássaro grato os ajuda a encontrar Efrafa e libertar as fêmeas de lá, essa coelheira tem um sistema ditatorial, horários determinados para comer e há patrulhas por todos os cantos, são coelhos que não temem a luta e são muito leais. As fêmeas estão bastante insatisfeitas e estressadas e quando Manda-Chuva (Michael Graham Cox) entra lá com o pretexto de se juntar e se tornar um deles, observa tudo ao redor e as convence a fugir direto para a liberdade. Claro que esta fuga não é fácil e dependem muito da engenhosidade e da sorte, e os efrafianos não se dão por vencidos. 
A sobrevivência requer sacrifício e isso os coelhos não temem, outro ponto interessante é a conversa que Aveleira vai tentar com o general Vulnerária (Harry Andrews), onde ele diz que é estupidez guerrear entre a mesma espécie enquanto poderiam ampliar o território e usufruir juntos dos recursos naturais, as alegorias estão por toda a parte, basta se atentar a narrativa que tudo tem um paralelo com a nossa sociedade e o comportamento humano, mas se quiser ter uma interpretação literal, onde a fantasia e a aventura predomina também pode, inclusive essa é a grandeza da obra, fazer com que cada leitor/espectador tenha sua própria perspectiva da história. A aura melancólica é penetrante mesmo com toda a ação, uma parte que evidencia muito esse sentimento é quando Cinco-Folhas pressente algo em relação a seu irmão e a canção "Bright Eyes" de Art Garfunkel, que acompanha a cena torna ainda mais forte essa melancolia.
♪ Há uma névoa ao longo do horizonte,
um estranho brilho no céu
e ninguém parece saber para onde você vai
E o que isto quer dizer,
  oh, é um sonho? ♪

"Coelhos (diz o Sr. Lockley) são, em muitos aspectos, parecidos com seres humanos. Um desses é, sem dúvida, sua grande habilidade em superar desastres e deixar que o fluxo da vida os transporte além dos limites do terror e do dano. Têm uma certa qualidade, que não seria justo descrever apenas como resistência ou indiferença. Trata-se, melhor dizendo, de uma imaginação abençoadamente restrita e o sentimento intuitivo de que Vida é Presente."  

Colocando o livro e o filme lado a lado, o livro certamente sai em disparada com sua profundidade e imersão, mas não diminui o valor da adaptação, que mesmo não satisfazendo o leitor ainda consegue emocionar e incutir o interesse, a quem se deparou inicialmente com o filme e ficou sabendo do livro depois com certeza terá vontade de se enveredar pelas páginas de "Watership Down". As descrições, os cenários, os hábitos, os diálogos, o vocabulário criado pelo autor, simplesmente mágico apesar de carregar um tom sombrio, o fato de se basear na vida natural dos coelhos é o diferencial do livro, que em nenhum momento esconde ou floreia as atitudes difíceis e selvagens para a sobrevivência. Outra questão que permeia a história é a destruição da natureza causada pelas mãos do homem, o quão distantes e separados da natureza estão e todo o desequilíbrio que isso tudo causa no ambiente devido a ambição desmedida e egoísmo. Crítica ambiental, social, política e religiosa, por mais que o autor negue que fez qualquer alegoria ou metáfora, elas estão presentes e saltam aos nossos olhos. "Watership Down" é um livro original, cru, melancólico, fascinante e memorável; o filme também impressiona pela representação dos coelhos e ao dar ênfase nas decisões que precisam tomar diante do caos. A obra cinematográfica é notável, mas a leitura é imprescindível.


"Para os coelhos, tudo que é desconhecido é perigoso. A primeira reação é se assustar, a segunda é correr. Várias e várias vezes eles se assustaram, até chegar ao ponto da exaustão. Mas o que eram esses sons e para onde, nesse ambiente selvagem, eles poderiam correr?". 

"Chegar ao fim de um período de ansiedade e temor! Sentir a nuvem que pende sobre nós, leve e dispersa - a nuvem que reanima o coração e faz com que a felicidade não fique apenas na lembrança! Isto, pelo menos, é uma alegria que deve ser conhecida por quase toda criatura vivente."

"Muitos seres humanos dizem apreciar o inverno, mas do que realmente gostam é de se sentir protegidos. Não enfrentam problemas de alimentação. Têm lareiras e roupas quentes. O inverno não os fere fundo e, portanto, aumenta seu sentimento de habilidade e segurança. Para pássaros e animais, e para pessoas sem recursos, o inverno é cruel."

*A Netflix e a BBC One anunciaram a produção de uma minissérie animada de 'Watership Down" em quatro episódios. Estamos no aguardo!  

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Coro (Chorus)

"Coro" (2015) dirigido por François Delisle (Le Météore - 2013) é um filme pesado, difícil de assistir, retrata uma dor profunda, o luto pela perda de um filho, o tempo que não sana as feridas, os sentimentos confusos, culpa e saudade que se misturam, o trauma e as  lembranças que inevitavelmente surgem e o quão penoso é seguir adiante. Aborda de maneira intimista, simples e direta o sofrimento e o quanto solitário é passar por ele.
Um casal separado reúne-se novamente depois de 10 anos quando encontram o corpo do filho desaparecido. Ambos lidam com a morte do filho a sua própria maneira. Em meio a culpa de perder um ente querido, eles tentam aceitar a morte e até mesmo a possibilidade de reconciliação. 
A angústia transpassa a tela, a fotografia em preto e branco já anuncia o peso, a história abre com um homem fazendo uma confissão, o como conheceu um garoto de 8 anos num parque, é claro desde o início, não há espaço para nenhum suspense, de cara sabemos o que aconteceu, o menino despareceu há 10 anos, os pais se separaram tamanha a dor de conviverem juntos, Christophe (Sébastien Ricard) encontrou refúgio no México, o mar e o sol acalmando o redemoinho em seu coração, Irene (Fanny Mallette) canta em um coral, mas isso não a alivia, entra em pânico toda vez que encontra crianças ou pessoas conhecidas, a reação delas varia entre tentar consolar, o que é impossível, pois a dor é um sentimento solitário, ou ignorar o acontecido e conversar sobre outras coisas, isso acaba a destruindo ainda mais, são tantos pensamentos que lhe atormentam, "se eu fosse buscá-lo aquele dia na escola", esse "se" a consome, mas tudo vem à tona de fato quando o corpo é encontrado depois de 10 anos, o casal se reencontra e precisa lidar com o funeral, a confissão do assassino, uma das cenas mais cortantes, e novamente com o adeus ao filho. A convivência entre eles é estranha, pouco dialogam, mas respeitam a dor que cada um sente, não há como reverter e nem seguirem juntos, eles trocam olhares e se abraçam e até revivem o amor, mas não há um caminho juntos, o sofrimento é maior, a culpa é bem evidente nos dois, a sensação de não ter sido bons pais e também é intenso quando pensam o que poderiam ter vivido com o filho, ele teria 18 anos e uma das cenas mais representativas é quando surge um amigo da infância dele e os pais esboçam pela primeira vez um reconforto e uma tranquilidade, principalmente ao lerem uma carta que o filho deles destinou ao amigo. 

A história não exibe adornos e a direção mantém uma certa distância, o que possibilita observar os pontos de vista de cada personagem e não o tornar melodramático apesar de toda a dramaticidade, explora brilhantemente as nuances do emocional, os conflitos internos, as necessidades e carências quando se está em luto e revela a realidade, o embaçamento do cotidiano, a inércia causada pela perda. A mãe de Irene tenta ajudar quando ela tem seus rompantes, o pai de Irene se suicidou não fazia muito tempo e esse luto ainda estava presente, Irene até questiona o porquê da mãe não chorar e ela responde que era para protegê-la, nesta parte expõe a revolta, a raiva da perda, um certo egoísmo também, a negação em ser ajudada pela mãe, que diz estar fazendo o melhor. Do outro lado Christophe volta a rever o pai depois de 10 anos, um reencontro silencioso e cuidadoso, ambos perguntam se têm raiva um do outro, o silêncio é a melhor opção, pois palavras e ações nada valem quando se está dilacerado.

"Coro" traz uma história cruel com muita sensibilidade e introspecção, este tema costuma ser rejeitado pelo público, é complicado refletir sobre a perda, luto, a dor incomensurável, mas depois do término somos surpreendidos por uma obra com argumento preciso, real e imensamente poderoso. A trilha também é impecável, tanto com as músicas cantadas pelo coro, quanto as que tocam em seu final, a banda canadense Suuns foi uma descoberta maravilhosa.
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