quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vovó Está Dançando na Mesa (Granny's Dancing on the Table)

"Vovó Está Dançando na Mesa" (2015) dirigido pela sueca Hanna Sköld (Velhos Asquerosos- 2009, primeiro filme livre, produzido sob a licença Creative Commons, sua estreia ocorreu no The Pirate Bay) é um filme que mescla live-action e o stop-motion, uma junção bastante interessante e ousada dentro do contexto pesado e doloroso do longa, que foi produzido por uma campanha no Kickstarter. O stop-motion é utilizado para contar o passado, ele é todo narrado pela protagonista que não articula nenhuma palavra em seu cotidiano, nem um mínimo som, apavorante acompanhar seu monótono dia a dia. Eini (Blanka Engström) é uma jovem garota de 13 anos que vive nas profundezas das florestas suecas com seu pai (Lennart Jähkel). Porém, a morada na natureza não é um refúgio, mas sim um pesadelo, já que o pai de Eini é um feroz maníaco controlador e um fanático religioso que regularmente conta os poucos bens da casa para descobrir as infrações de Eini. Em meio a esse caos, a garota encontra na remota figura da avó, além de sua própria imaginação uma importância quase mítica, tanto como símbolo de liberdade, quanto razão para o seu atual sofrimento e que permitem que ela crie um mundo interior e encontre força para sobreviver.
Eini segue uma série de regras rígidas, o pai é violento e o menor deslize seja ele de qualquer natureza gera punição à menina, são cenas tensas, por exemplo, na contagem dos utensílios da cozinha, onde o silêncio sufoca e deixa-nos esperando pelo pior. O clima de opressão pesa, só quando o pai sai para buscar alimentos, Eini tem lampejos de vida, ao encontrar um rádio, ao passear pela floresta, vestir outras roupas e ao recorrer a sua imaginação para relembrar a sua infância ao lado da avó. A história de sua avó e de sua mãe é contada por Eini, os únicos momentos em que escutamos sua voz, a técnica do stop-motion nos conduz para uma fábula rude e perturbadora, que retrata um histórico de violência e submissão. São retratados duas figuras femininas opostas, a avó de Eini junto à irmã que precisa se mudar para a casa de um homem rico, este que se mostra abusivo e opressor, a avó de Eini vai embora depois de dar à luz e segue sua vida na cidade grande. O pai de Eini então é criado por esse homem violento, o menino presencia agressões e acredita que não há outro modo de vida, ele perpetua esse gesto na criação de sua filha, a afastando do mundo civilizado e sob muita opressão e abuso. 

O desconforto na interação entre pai e filha é extremo, é triste toda a situação, a menina não tem vida nos olhos, nos perguntamos porquê não foge, mas com o desenrolar percebemos que aquela é a única vida que conhece até então, e sim, ela quer sair desse ambiente claustrofóbico, mas, infelizmente, não sabe como, em outros momentos adentramos em seus desejos profundos, onde ela sonha em arrancar a própria mão, um sinal de que ela quer uma mudança. Isso tudo acontece aliado a sua transição, o despertar sexual, o que lhe dá mais impulso para deixar e acabar com essa vida.
O filme vai alternando entre o cotidiano de Eini com as passagens em stop-motion retratando a história da avó e de sua mãe e, que inclusive, são muito perturbadoras, desde o estilo dos bonecos à carga da história, de toda a violência e visão estreita que o jovem presenciou e então reproduz mais tarde com Eini. Há algumas cenas contrastantes com o ritmo do filme, o que causa agonia e revolta, a violência e o silêncio incomoda e esperamos demais que esse ciclo se rompa.

Triste e incômodo, mas extremamente necessário, "Vovó Está Dançando na Mesa" toca num assunto importante, o abuso e violência passada de geração em geração. A perspectiva dura do filme serve para provocar, pois só com elucidação, conhecimento que esse tipo de mentalidade pode ser rompida e eliminada da sociedade.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ao Cair da Noite (It Comes at Night)

"Ao Cair da Noite" (2017) dirigido por Trey Edward Shults (Krisha - 2015) é um filme que explora de maneira eficaz a desconfiança, o medo, a paranoia; um exemplar que usa de poucos artifícios para gerar desconforto e muita tensão. Paul (Joel Edgerton) mora com sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kelvin Harrison Jr.) numa casa solitária e misteriosa, mas segura, até que chega uma família desesperada procurando refúgio. Aos poucos a paranoia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos.
Adentramos em um mundo pós-apocalíptico supostamente destruído por um vírus, uma família tenta sobreviver em uma casa isolada na floresta, o medo de contágio é grande e qualquer ameaça é aniquilada, como a presença do sogro de Paul, que está muito enfermo. Não há informações sobre o que teria acontecido ao mundo, tudo é sugerido sutilmente e o interessante é justamente isso, não sabemos de nada, provavelmente porque até os personagens não saibam. A rotina monótona dessa família muda quando um estranho (Christopher Abbott) surge tentando entrar na casa, Paul o amarra e tenta tirar o máximo de informações do sujeito, que diz se chamar Will e estar procurando água para sua família, a dúvida em acreditar ou não nas palavras desse desconhecido atormenta por dias Paul e sua esposa, enquanto isso vemos Travis com uma expressão de estar sufocando naquele ambiente contaminado pela paranoia e desconfiança, ele sofre de pesadelos e alucinações, nestes episódios a tela reduz, comprime dando sensação de asfixiamento. Após pensarem muito se deveriam acreditar em Will, decidem receber ele e sua família na própria casa, então vão buscar a esposa e o filho de Will, mas no meio do caminho encontram outras pessoas, o que faz Paul duvidar de Will, que disse não ter encontrado ninguém, esse clima de desconfiança é amplamente explorado na história, tudo é motivo e o medo em nenhum momento desaparece. O comportamento humano diante ao desespero pela sobrevivência é assustador e o filme acerta na atmosfera criada. O horror está dentro da cabeça de cada um e as atitudes que se desencadeiam são terríveis. Há um quadro que é demoradamente filmado no início na casa de Paul, se trata de "O Triunfo da Morte", de Pieter Bruegel, este é um símbolo importante e que traduz muito da trama. O caos, o desespero, a morte.
Dentro da casa as duas famílias precisam conviver, Paul e sua mulher tem características insanas e Will vai levando por não ter outras possibilidades, mas não demora para aparecer ainda mais situações-limite, não se sabe o que está havendo, é uma doença contagiosa de que eles têm medo? O que há na floresta que ao cair da noite é proibido sair? Esse aprisionamento vai gerando entre eles hostilidade e entre uma conversa ou outra o medo do que um possa fazer com o outro vai aumentando.

Travis é introspectivo, observador e parece adoecer com a loucura dos pais, suas alucinações são um ponto de luz para o espectador, ele vai sofrendo traumas durante a história, no início precisa se livrar do avô, depois do seu querido cão, além do estranho desabrochar de seu lado sexual com a presença da esposa de Will e o culminar da tragédia final. Nunca fica claro como a doença é transmitida, se é pelo ar ou água, o que importa na trama é do que o ser humano é capaz para se proteger diante de algo desconhecido e amedrontador, é um filme que trabalha muito com a nossa imaginação e nos inquieta pela reflexão, de que independente do fator externo, o perigo está dentro da mente do ser humano, que consome-se ao lidar com a desconfiança, desespero e medo. A paranoia é crescente, são planos belíssimos juntamente a uma trilha sonora pontual que ao desenrolar vai produzindo cada vez mais desconforto.

"Ao Cair da Noite" é um thriller psicológico atmosférico impecável, não dá nada mastigado, respostas pouco importam, o pós-apocalíptico do filme é explorado de uma maneira real, em que as pessoas tentando sobreviver eliminam qualquer traço de moralidade, onde as ameaças acabam vindo de si próprios perante o medo do desconhecido. É melancólico e sutil, mas não nos poupa de momentos graves e tristes. O final é uma cacetada que fica doendo por muito tempo. 

Trey Edward Shults é um grande talento, em "Krisha", seu impressionante primeiro trabalho, um filme totalmente independente - disponível na Netflix - explora também a paranoia, porém em outro contexto. Sua destreza técnica é admirável!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Harmonium (Fuchi ni Tatsu)

"Harmonium" (2016) dirigido por Kôji Fukada (Adeus Verão - 2013) é um filme enigmático e que perturba, até pode ser encaixado no gênero horror devido o desencadeamento das relações e suas coincidências, de ritmo lento dando ênfase nos olhares e pequenos movimentos, observamos o ruir de uma família japonesa chegando ao ápice com a tragédia.
Toshio (Kanji Furutachi) está empenhado em trabalhar na sua pequena oficina metalúrgica na aldeia em que mora. Este trabalho que mistura sabedoria e dedicação está ameaçado com a chegada de Yasaka (Tadanobu Asano), velho amigo de Toshio, um ex-membro Yakuza recém-saído da prisão, que começa a se misturar à vida familiar de Toshio.
É um filme estimulante apesar de sua cadência vagarosa, nos faz pensar no que escondem esses personagens, o silêncio que emana também provoca e interrogações surgem a cada cena. O início nos é apresentado Hotaru (Momone Shinokawa), a filha do casal Toshio e Akié (Mariko Tsutsui), treinando harmônio, pois logo irá se apresentar na escola, o pai é totalmente taciturno e desfaz da esposa e filha, há um diálogo muito interessante entre mãe e filha nesse começo sobre uma espécie de aranha, que se sacrifica e vira alimento para sua própria ninhada. A rotina apática dessa família muda quando um amigo de Toshio chega e lhe pede emprego e moradia, um favor como ele próprio diz, Toshio não titubeia e o emprega, a oficina fica na garagem da casa e o acomoda sem nem dar explicações à esposa, Yasaka saiu recentemente da prisão e é repleto de modos que incomodam a dona da casa, ela é reticente de princípio, mas aos poucos e, principalmente, ao ensinar Hotaru a tocar harmônio muda sua visão sobre, criam um vínculo de amizade e Yasaka acaba confessando sobre seu passado, neste momento Akié já está encantada por ele e também por causa de sua religião, o protestantismo, acredita que essas pessoas possam ter uma segunda chance, e Yasaka ganha ainda mais a atenção dela. Assim como ela somos absorvidos por sua personalidade, ora duvidamos, ora pensamos ser ele alguém arrependido, e esse clima perdura até de fato ocorrer uma das primeiras tragédias do filme.
As mudanças que esse estranho promove no seio familiar são silenciosas, ele chega como um fantasma para cobrar algo do passado, Toshio esconde um segredo e Yasaka se aproveita disso para se aproximar de Akié e Hotaru. A rotina fria e distante da família é totalmente reformulada, o clima aparentemente ameno do início é abalado, sentimentos adormecidos e desejos são aflorados, Yasaka causa bastante impacto, a harmonia é quebrada.

O diretor Fukada conduziu com maestria e ao final a sensação de angústia é o que resta. Mariko Tsutsui como Akié é vulnerável e demonstra muita complexidade com o decorrer, suas aflições e suas reações diante ao caos, a mudança que ocorre em seu semblante na segunda parte do filme impressiona. O esplêndido Tadanobu Asano - eterno Kakihara de "Ichi The Killer" - faz aqui um homem com uma postura impassível e estranhamente sedutora, Yasaka chega de mansinho, infiltra-se e sutilmente vai intoxicando o tradicional ambiente familiar. Kanji Furutachi como o pacato Toshio por honra se submete, está sendo cobrado pelo silêncio do amigo no passado, e assim os segredos vão emergindo e abrindo feridas.

A cadência do filme contrasta com seus acontecimentos, esse desarranjo causa mal-estar, as viradas da vida deste casal, as consequências, as coincidências inquieta-nos. 
"Harmonium" é intrigante, devastador, um thriller meticuloso que trabalha a tensão de forma única, que dá a conta-gotas as informações e amargamente se desenvolve revelando as fissuras. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Perdidos em Paris (Paris Pieds Nus)

"Perdidos em Paris" (2016) dirigido pelo casal Dominique Abel e Fiona Gordon (La Fée - 2011) é um filme que se inspira nos filmes mudos para compor um humor puro e suave que nos deixa embriagados de felicidade, impossível não se encantar com a delicadeza das cenas, personagens e situações surreais, acredito que este tipo de cinema seja essencial para que possamos dar asas à nossa imaginação que com o dia a dia acaba sendo eliminada. 
Fiona (Fiona Gordon) é uma bibliotecária de uma pequena cidade canadense estranhamente sedutora, e Dom (Dominique Abel) um vagabundo estranhamente egoísta. Quaando a vida certinha da bibliotecária é interrompida por uma carta de socorro, vinda de Paris de sua tia de 93 anos (Emmanuelle Riva) - ela pega o primeiro avião para Paris e descobre que a tia desapareceu. Ela encontra um vagabundo afável, mas chato, que não vai mais deixá-la sozinha.
O filme é dirigido, roteirizado e protagonizado pelo talentoso casal de clowns Fiona e Dominique, que tem como característica resgatar um tipo de humor que já não é mais usado, que é basicamente físico e evoca os mestres Jacques Tati, Buster Keaton, Harold Lloyd e Charles Chaplin, são cenas hilárias em que expressões exageradas substituem diálogos promovendo assim momentos sinceros de muito humor, de uma aparente bobagem surge uma cena memorável. "Perdidos em Paris" marca também por ter a última aparição de Emmanuelle Rivas, que imprimiu sua personalidade à personagem, sem dúvidas, uma despedida mágica.
As cores são extremamente vivas e vibrantes, caminhamos pelos famosos pontos de Paris, mas esses lugares são mostrados sob peculiares perspectivas, por exemplo, focando na Estátua da Liberdade que fica numa ilhota no Sena. Enquanto Fiona tenta encontrar sua querida tia Martha, Dom, o mendigo, a segue e a guia pelas ruas, inclusive, o encontro deles é incrível, Fiona acaba perdendo sua mala ao cair no Rio Senna tentando tirar uma foto, Dom a encontra, pega as suas roupas, as veste e resolve gastar o dinheiro com um bom jantar, lá a convida para dançar e pronto, se apaixona, e então decide devolver as coisas para ela, o mais engraçado são os espaços entre esses acontecimentos, o desenvolvimento dos personagens com suas singularidades e situações surreais que os rodeiam. A cena de Dom tentando comer numa mesinha no canto do restaurante, ele convidando as mulheres do local para dançar, e tudo isso vai se entrelaçando com a fuga da tia Martha. 

Fiona acostumada a sua pacata e gelada cidade do Canadá chega na cidade luz cheia de expectativas, mas logo se vê nos mais diversos e bizarros obstáculos, o primeiro é que não sabe falar muito bem francês e estando perdida sem absolutamente nada e não sabendo aonde sua tia foi parar, vai vagando pela cidade junto ao mendigo Dom se metendo nas mais descabidas peripécias, enquanto isso tia Martha também anda pela cidade, pois não admite ir para uma casa de repouso, não aceita que sua vida seja descartada assim.
A narrativa mostra Fiona, Dom, Martha e depois une-os, tudo ritmicamente perfeito, e por vezes dando ar de improviso, o que faz a diferença e não faz dos clichês tão clichês. Difícil escolher uma cena especial, são muitas que de maneira simples encantam, elas vêm sem esperarmos com elementos sutis e nos arrancam sorrisos, como é o caso da dancinha com os pés de Martha e Norman (Pierre Richard), um antigo amigo dela. Esbanja delicadeza!

Emmanuelle Rivas se despede desse mundo com magia e nos deixa como lembrança uma última e vigorosa atuação, que é ela mesma, e esse elo entre si mesma e a personagem é algo poético, transcendental.
Resgatando o humor gestual, essa comédia francesa merece todos os elogios, os parceiros Fiona e Dominique tanto na vida profissional como na amorosa nos presenteia com gags divertidíssimas, Dominique Abel consegue nos fazer rir só de olhar para ele, seus olhos, forma de se mexer, e apesar de ser exagerado não soa forçado, é um humor sincero feito com carinho. 

"Perdidos em Paris" nos captura pela beleza do simples, da ingenuidade e proporciona emoções deliciosas, lembramos do como é bom rir de algo espontâneo e toda a sensibilidade exposta faz com que nossa imaginação seja liberta. É daqueles filmes que aquecem nosso coração, que nos preenchem no final da sessão, assisti-lo é um chamego que fazemos a nós mesmos. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Mestre dos Gênios (Genius)

"O Mestre dos Gênios" (2016) dirigido por Michael Grandage é um filme interessante que retrata com maestria o amor à literatura, disseca a relação escritor/editor e o quão precioso e estafante era lidar tanto com o trabalho de edição, como os vínculos de amizade que se formavam entre eles, porém, impecáveis obras surgiram dessa época de ouro em que Max Perkins, um dos editores literários mais famosos do mundo apostando em jovens talentos, descobriu nomes fundamentais da literatura, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe. O filme acompanha a vida pessoal de Perkins e sua relação complicada com os escritores, cujas obras foram fortemente influenciadas pelo trabalho do editor.
A editora Charles Scribner’s Sons era uma empresa muito interessada em publicar novos talentos, Max (Colin Firth) muito reconhecido por suas primorosas edições e sucessos, como Fitzgerald, dá vida aos escritos de Thomas Wolfe (Jude Law), um jovem de personalidade irriquieta, cheia de ideias e que escrevia sem cessar, eram páginas e mais páginas que pacientemente Max lia e relia, e claro, deslumbrado por sua escrita impactante que misturava prosa poética com a autobiografia, assim decidiu publicá-lo, daí inicia-se uma amizade bastante intensa, mas que com o que passar dos anos sofre algumas rupturas, devido ao jeito impaciente de Wolfe e pelo receio de Max em sempre se culpar pelos cortes feitos nas obras. Essa relação é exposta em detalhes, a gratidão de Wolfe, a admiração de Max, tudo regado a muitas conversas produtivas, elucubrações e citações, Wolfe era analítico e não parava nunca de escrever, sempre acrescentava páginas e mais páginas, quando chega com o seu "Of Time and the River" com mais de cinco mil páginas, Max tem o monumental trabalho de retirar 60 mil palavras de sua obra, a redução levou anos e foi um trabalho extenuante tanto para Max quanto para Wolfe, a sensibilidade de ambas as partes são delineadas minuciosamente, cada um com seu jeito dotados de uma genialidade ímpar. 
Colin Firth dá vida a um homem contido e muito centrado que dedica o seu tempo a ler, a mergulhar nas histórias de escritores imensamente talentosos e emergir tendo que lapidar tais obras, um trabalho prazeroso ao mesmo tempo que cruel, já que ele teme por ser reconhecido como o homem por trás dos cortes destes livros tão aclamados, a importância de seu trabalho se mistura com a culpa. Jude Law esplendoroso como Wolfe, ansioso e perdido, transforma a suas dores em grandiosos livros, literalmente. É muito curioso observar a amizade entre ele e Perkins, totalmente distintos, mas que se nutriam de palavras, completamente absortos pela magia e sensações.

O filme centra-se nestes dois personagens, na relação profissional, de amizade e o como Wolfe adentra na vida de Perkins, frequentando a casa da família, o que causa ciúme na namorada controladora Aline (Nicole Kidman), um caso bem conturbado entre duas pessoas problemáticas, ele um tanto egoísta, que mantém as pessoas enquanto precisa e depois as deixa de lado sem mais nem menos, essa concepção de Aline não está errada, mas ela também não deixa por menos, sendo excessivamente dramática, pois ela abandonou marido e filhos para morar com Thomas, inclusive o ajudando financeiramente em seu início de carreira. Há uma cena que Aline despeja verdades e diz que Thomas precisa pensar e ficar sozinho para entender a sua vida, ele brinca com as pessoas como se fossem personagens de seus livros e isso ela não poderia mais suportar. "Seres humanos não são ficção". Nicole ganha a cena nesse momento.
Outros que tem pequenas aparições são Fitzgerald (Guy Pearce), que mesmo com todo o sucesso de suas obras estava em decadência tendo que escrever roteiros para Hollywood, além de que era alcoólatra e lidava com a loucura de sua mulher Zelda, e Hemingway (Dominic West), pescando, claro, alertando Perkins sobre a instabilidade de Wolfe. 

"Não somos os personagens que queremos ser. Somos os personagens que somos."

"O Mestre dos Gênios" tem uma ambientação detalhista, desde trajes, objetos e locais, uma volta ao início do século XX em tom melancólico, e é eficaz em demonstrar as emoções de seus personagens, a humanidade por trás dessas mentes brilhantes, os defeitos, as turbulências emocionais, todo o processo antes da publicação, a difícil decisão dos cortes, Perkins sabia identificar a qualidade em novos escritores e tinha experiência e sensibilidade para cortar o demasiado, como na cena em que ele sintetiza o momento do despertar de uma paixão, o simples, o poético; o essencial. Essa sua habilidade lhe rendeu ótima reputação e consagrou escritores que permanecem até hoje imprescindíveis.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Taboo (Série)

"Taboo" (2017) série da BBC criada por Tom Hardy junto a seu pai Chips Hardy com apoio de Steven Knight e produzida por Ridley Scott centra-se no ano de 1813, o aventureiro James Keziah Delaney (Tom Hardy) retorna da África trazendo ilegalmente quatorze diamantes. Recusando-se a vender a empresa da família para a East India Company, ele a transforma em um império de comércio e transporte, com o objetivo de vingar a morte do pai. Com isso, Delaney se envolve na guerra que está sendo travada entre o Reino Unido e os EUA.
A história se inicia com James retornando a Londres depois de uma década, o que causa espanto a todos que pensavam que estava morto, quando volta ele se depara com a seguinte situação: o pai está morto, possivelmente envenenado, e tendo que lidar com os poderosos da East India Company que querem obter Nootka Sound, a terra que James herdou do pai e cuja está sendo disputada na guerra entre Reino Unido e Estados Unidos. A narrativa intriga por seus diversos segredos, não há pressa, tudo é nublado e aos poucos as coisas vão sendo reveladas.
Tom Hardy é o CARA, ele sabe de tudo o que se passa, quando a notícia chega a ele já existe um plano em sua mente para tal, a explicação seria que há algo místico em si, tanto em seus genes pela parte da mãe que fazia parte de uma tribo indígena, quanto pelo fato de ter ficado muitos anos em uma aldeia africana aprendendo magias e cometendo atrocidades e perdendo assim, totalmente seus sentimentos.
A série tem uma ambientação grandiosa, nota-se as minúcias de se retratar a sujeira, a lama misturada com fezes dos cavalos, as doenças, como a varíola. Tudo isso contribui para o aspecto misterioso e sombrio, a opulência e a miséria se concentra no mesmo lugar, percebe-se isso ao retratar tanto as pessoas do reino, como o Príncipe Regente com sua figura pitoresca e, de fato, nojenta, como as pessoas comuns, as crianças extremamente encardidas, a falta de asseio das prostitutas, esse é um ponto valioso da série que prende-nos numa atmosfera pesada que mistura intrigas políticas ao misticismo. A estética, sem dúvidas, é um dos fatores primordiais para sua originalidade, assim como seu roteiro redondo, coeso. 

Tom Hardy mexe com nosso psicológico, sua personalidade bruta e analítica ora nos faz adorá-lo, ora odiá-lo, não existe limites para James Delaney, sua astúcia é tão grande quanto sua crueldade, sua fama entre os habitantes é de um sujeito que come as vísceras de quem mata, a aura sobrenatural fascina, mesmo que seja pouco explorada é o que responde a questão dele ser assim tão forte e sempre estar a frente de todos, pois com sua estadia na África aprendeu magias que, como vemos em alguns episódios, através de um pó amarelo, ele tem acesso ao que quer. Delaney demonstra ter cometido atrocidades, além de que roubou os diamantes que trouxe consigo, outra coisa bastante perturbadora é a paixão avassaladora que tem por sua irmã Zilpha (Oona Chaplin).

Alguns personagens mesmo não tendo grande destaque na trama conquistam, como é o caso de Thorne Geary interpretado por Jefferson Hall, o Torstein, de "Vikings", ele no decorrer fica bastante atormentado, principalmente, por sua adorada Zilpha ter um caso com o próprio irmão, suas atitudes são impensadas e sua vulnerabilidade dá chance para os outros o traírem. A cena do duelo com Delaney é o ápice, e daí vem sua derrocada psicológica. O que não acontece com a personagem Zilpha, interpretada por Oona Chaplin - neta de Charles Chaplin, infelizmente, inútil na trama, passa a maioria do tempo com uma expressão de susto e não dá ênfase nenhuma em suas emoções. Outros personagens que ganham nossa atenção é o mordomo Brace (David Hayman), que teme por Delaney ter o mesmo fim do pai, do qual Brace era muito próximo, a prostituta Helga (Franka Potente - Corra Lola, Corra) que tem um bordel num espaço pertencente a Delaney e que com o seu retorno faz pequenos negócios com ele para mantê-lo, Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce - Alto Pardal em GOT) é líder da Companhia das Índias e um grande rival de Delaney, ele é extremamente articulador e nocivo, quando aparece ganha a tela e todos os outros acabam ficando menores perto de si, como é o caso de Wilton (Leo Bill). Vale acrescentar ainda Edward Hogg, um escrivão que nas horas vagas se traveste de mulher, Jason Watkins como Soloman Coop, o exímio articulador do Príncipe Regente, Jessie Buckley como a carismática Lorna Bow, Stephen Graham e seu Atticus, e claro, o magistral Tom Hollander e seu químico Cholmondeley, que rouba completamente a cena com seus projetos e seu bom humor.

"Taboo" é uma superprodução de apenas 8 episódios recheada de conflitos e bastante interessante por abordar um lado histórico, no caso, a Companhia das Índias Orientais, a sua importância e também demonstrando seus negócios escusos. A utilização de um protagonista de poucas palavras com ideias avançadas para a época e o grupo que ele junta, pessoas marginalizadas daquela sociedade, é uma sacada bem inteligente. O uso do mistério e da lentidão criando assim uma atmosfera lúgubre junto a aura de feitiçaria também acaba envolvendo. Com a confirmação de uma segunda temporada há esperanças que se desenvolva em muitos aspectos, mas o charme da série é justamente o ar enigmático. Para quem ama séries com ambientações primorosas, temáticas que envolvem jogo de poder, clima sombrio e quer se desviar das tão aclamadas é uma ótima opção!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Flesh and Bone (Série)

"Flesh and Bone" (2015) do canal Starz, criada por Moira Walley-Beckett, roteirista de primeira, alguns de seus trabalhos inclui "Breaking Bad" e "Anne with an E". Esta série sombria retrata as entranhas do mundo do balé e prometia ser uma inovação, mas, infelizmente, não vingou e se tornou uma minissérie de apenas 8 episódios. É uma história intrigante e perturbadora que trabalha em cima das obsessões.
A personagem central, Claire Robbins (Sarah Hay) busca se tornar uma bailarina de sucesso, para isso foge de Pittsburgh para NY e logo na primeira audição adentra na prestigiada academia de Ballet de NY, mas a rapidez com que tudo acontece, sua ascensão dentro do corpo de balé junto a problemas pessoais e emocionais torna tudo muito inquietante.
Claire tem feição assustada, mas por outro lado é determinada, exibe seu talento e encanta logo de primeira o rígido e arrogante Paul (Ben Daniels), isso provoca a ira das outras meninas, pois ela se destaca e é convocada para ser a primeira bailarina de um espetáculo que está sendo montado, aliás tudo muda e monta-se um espetáculo novo devido a sua entrada. A pressão e a inveja dentro do ambiente é tóxico e é preciso muito autocontrole, além de que o trabalho é maçante para buscar a perfeição, não há espaço para erros, ali estão os melhores dos melhores. Claire acaba dividindo um apartamento com Mia (Emily Tyra), uma garota com problemas alimentares, a relação é distante e a competição não só entre elas, mas com todos é obsessiva, algo muito, mas muito bem retratado na série, a obsessão está em todos os setores, seja na dança, ou na vida pessoal, Claire tem uma relação tensa com seu irmão, ele a ama e ela também, mas esse sentimento conforme vemos é sufocante tamanha a sua complexidade, é um baita estudo psicológico. Há outros personagens intrigantes na história, como Romeo (Damon Herriman), um mendigo que vive em cima do prédio em que Claire e Mia moram, ele é uma incógnita, parece ser amigável, porém sua mente viaja e as coisas envolvendo Claire o afetam de maneira obsessiva também.
Logo de início percebemos que não será nada fácil para Claire se adaptar, o mundo que está se abrindo é traiçoeiro, é preciso se submeter a alternativas sórdidas, Claire não se encaixa, mas ao mesmo tempo flerta com essas possibilidades, ela não é tão meiga quanto aparenta, característica que irrita os outros alunos e que lhe rende vários apelidos. A pessoa que a "ajuda" de certa forma a adentrar neste mundo que se abre é Daphne (Raychel Diane Weiner), que nas horas vagas dança num clube de strip-tease, cujo dono, um russo, é apaixonado por balé. 

A série é apaixonante por vários fatores, começando pelo tema, o balé, que nos presenteia com movimentos belíssimos, coreografias elegantes e vivazes, e o mais interessante, nos permite observar os bastidores, a concepção de um espetáculo, desde os pequenos detalhes ao grand finale, mas até chegar aí muitos sentimentos e obstáculos surgem, o principal deles, a competição, os olhares de inveja e ciúmes chegam a cortar a pele, tanto quanto os machucados de verdade que os bailarinos vão adquirindo com os exaustivos ensaios, é desde perder unhas a problemas de articulações. É uma exímia tour de force. A rigidez ou a própria falta de educação de Paul com todos ali é bastante evidenciada e para quem já passeou por este universo sabe que não é muito diferente disso que está sendo retratado, realmente aguentar a pressão psicológica é mais difícil do que suportar o estresse e dores físicas. Outra questão pertinente que a série aborda são os problemas particulares de Claire que envolvem o irmão, a necessidade um do outro, pelo fato da carência que têm dos pais, sempre foram eles dois e nisto gerou uma relação bastante perturbadora e que moldou a personalidade ambígua de Claire, realmente percebe-se facetas diversas durante a história. 
As interpretações são ótimas, Sarah como Claire irrita por muitas vezes com sua feição, olhos sempre arregalados, em contrapartida, há firmeza e profissionalismo em suas atitudes, principalmente por ter confiança em seu talento, mas quem ganha a tela é Ben Daniels como Paul, um ser humano egoísta, invejoso, falso, solitário e que destila suas angústias sem o menor discernimento, mas que incrivelmente chama nossa atenção, seu olhar penetrante, sua postura e voz cativa.

 
"Flesh and Bone" foi concebida por pessoas que entendem do assunto, e os atores, todos que estão no corpo de balé são de fato bailarinos, a protagonista Sarah Hay, atualmente é solista do Ballet Semperoper em Dresden, na Alemanha - sua primeira atuação foi no filme "Cisne Negro" em 2010. A ex-bailarina Irina Dvorovenko (American Ballet Theatre) que interpreta Kiira, a mais velha, que já está numa fase complicada, porém a mais profissional e a única que Paul respeita, ela tem prestígio, mas devido a lesões e o uso de drogas para amortecer a dor sofre pressão para parar e enfim pensar na vida particular, a chegada de Claire é um baita agravante nisto tudo. Outro excepcional bailarino é Sascha Radetsky (American Ballet Theatre) que dá vida a Ross, ele é a perfeição, seus movimentos hipnotizam.

Com um vasto número de personagens interessantes a série acaba não dando chance para o desenvolvimento deles, alguns são deixados de lado e outros tem desfechos desinteressantes dentro de todo o contexto em que foram envolvidos, como Romeo e Mia, o que demonstra o quanto a série tinha potencial, mas não deixa de ser impecável quanto ao tema principal, o balé e seus meandros, a obscuridade por trás de algo tão belo, os movimentos; o corpo. 
Não posso terminar e não dizer sobre a abertura, assombrosamente linda com a canção "Obsession" de Karen O, juntamente à coreografia de Ethan Stiefel. Uma série apaixonante e perturbadora, traça perfis complexos e que sugere muitas discussões, variadas visões e aprendizados. 
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